Estações
3 Demolindo as barreiras
"O sol esquenta, um brilho intenso irradia,
é a luz do verão alumiando caminhos escuros dentro de mim,
E se eu puder te pedir algo bela amazona,
vem com teu amor e aqueças meu coração"
Emma.
Passaram-se dois meses desde a contratação dos novos arquitetos, o projeto estava a todo vapor, os cinco escolhidos eram muito criativos e dinâmicos, em especial Helena, que vinha inundando os pensamentos de Heitor desde então. Dedicaram-se de tal forma ao projeto que muitas vezes ficavam até tarde da noite corrigindo erros e fazendo verificações. Heitor foi se encantando cada dia mais com a mulher com quem trabalhava, muitas vezes perdendo-se em indagações internas... "Como alguém podia ser tudo o que ela era?". Obviamente a beleza dela mexia com ele, estava fazendo um esforço danado para disfarçar sua cara de abobalhado toda vez que estava na presença dela, inventava inúmeras desculpas para passar um tempo conversando com ela, dentro dele queimava um desejo estranho e incontrolável de conhecê-la melhor.
Os pedidos dos clientes com relação a suas casas começariam a ser feitos no próximo mês e o trabalho se intensificaria, parava muito pouco em casa e sempre que podia tentava ficar com o amigo, ainda que Alexandre entendesse, ele próprio se dividia entre preparações para cirurgias complicadas e viagens à trabalho. Por isso naquela tarde encontraram um tempo nas agendas apertadas e estavam almoçando juntos quando o doutor perguntou:
— Ei irmão, vamos naquele Happy Hour que gostamos hoje a noite? Ouvi dizer que vai tocar uma banda boa da Califórnia.
— Alê não sei que horas sairei da construtora hoje, mas se eu chegar e você ainda não estiver dormindo vovô, podemos ir.
Alexandre revirou os olhos sorrindo e respondeu:
— Ok — tomando um gole do copo com água ele continuou — Mas já que tocou no assunto, me conte como tem andado as obras.
— Bom, tudo está progredindo bem, as barreiras iniciais foram vencidas, mês que vem começaremos uma nova fase, exigirá muito da nova equipe de arquitetos, pois os clientes vão começar a fazer os projetos estruturais das casas... Inclusive, você tem direito a escolher o arquiteto que desejar, vou te dar essa regalia por ser meu amigo.
— Do tanto que você fala dessa tal Helena, vou acabar escolhendo-a, assim poderei finalmente conhecê-la, quem sabe até chamá-la para sair... – Alexandre percebeu o desconforto de Heitor com o comentário.
— Vou logo te alertando que ela não é uma mulher fácil amigo – respondeu secamente, adquirindo um expressão mais séria.
— Eu só queria ter certeza – o médico sorriu.
— Certeza de que? – indagou confuso.
— Certeza de que você está caidinho por ela.
— Eu não estou "caidinho" por ninguém! — A resposta foi tão rápida que o amigo apenas confirmara sua constatação — Eu apenas a acho muito interessan... – Alexandre o interrompeu.
— Interessante, divertida, encantadora, atraente, "a mulher mais bonita que eu já vi", inteligente, educada, dedicada, amante de antiguidades... Você não percebe? Desde que conheceu essa mulher, sempre que conversamos, o ouço citar o nome dela pelo menos três vezes.
— Não é bem assim — o loiro começou a se render.
— Ah Heitor, você não me engana, aliás, só existe uma pessoa se enganando aqui. Cara, você gosta dela! Eu não o vejo falar assim tão bem de uma mulher há muito tempo, principalmente sem ter dormido com ela – os dois riram e Heitor concordou com o amigo — Por que não a chama para sair? — desviou os olhos para o garçom e pediu um suco, quando voltou a encarar seu amigo ele esperava uma resposta com as sobrancelhas arqueadas.
— Alexandre com ela é diferente — ele bufou — sei que tenho pensado e falado muito nela, não dá pra negar que ela me provoca mesmo sem querer, Helena tem um sex appeal surpreendente, a desejei desde a primeira vez em que a vi, mas a mulher é muito difícil! Não encontro uma brecha pela qual posso entrar e tomar qualquer tipo de liberdade... O velho Soriano a ensinou bem — ele sorriu lembrando-se de as gentis cortadas — E eu nem ao menos sei se existe algum namorado, ou se o interesse é recíproco...
— Convide-a para sair e tire a dúvida. Duvido que ela não esteja encantada por esse belo par de olhos azuis... Até eu me apaixono quando você faz aquela carinha de cão sem dono – o médico tentou imitar a expressão de Heitor e ambos soltaram uma gargalhada.
— Vou fazer isso.
— Mas primeiro ouça meu conselho... Eu disse isso a você porque percebi que tens sentido algo diferente por essa mulher, talvez possa até se transformar em algo real um dia, por isso o estou incentivando, porém tome cuidado com os sentimentos dela, não a deixe se envolver se não tiveres a intenção de permanecer.
— Positivo capitão! – ele elevou à mão a cabeça fazendo um cumprimento militar — Tem certeza que em outra vida você não era do exército?!
* * *
Inácio tinha vindo ao centro para visitar a filha e almoçar com ela, Helena lhe contou as novidades e o quanto estava empolgada com o início da nova fase do projeto, pois sabia que iria assinar muitas casas, a partir de então começaria a fazer sua carreira. O pai a felicitou e desejou que mais boas novas pudessem acontecer. Todavia, o Sr. Soriano conhecia muito bem sua filha para saber que algo a deixava inquieta, e a amazona era péssima em esconder dele seus sentimentos. Ainda sentados na mesa, ele indagou:
— Bambina, diga ao seu papà o que a incomoda?
— Nada papai, eu estou bem — ela sorriu disfarçando, mas não funcionou.
— Filha – ele estendeu sua mão direita e tomou a dela beijando o dorso – eu a conheço como a ninguém mais, sei quando algo a deixa inquieta. – Helena sorriu desistindo da negativa e se abrindo com ele.
— Não entendo por que não se casou outra vez, ela seria uma mulher de grande sorte — eles seguraram o olhar por alguns segundos, só os dois compreendiam a quantidade de significado por trás daquelas palavras – pois o senhor é especialista em desvendar problemas e aflições femininas — suspirando, prosseguiu – Bom papà, eu não sei direito... É o meu chefe – ele a interrompeu começando a se alterar, culpem o sangue italiano esquentado em suas veias pelo início do que poderia ser um ataque.
— Não me diga que ele está dando uma de esperto com você, se não eu... – Helena notou que Inácio começou a ficar vermelho e aquilo não era bom sinal.
— Calma Sr. Soriano! – ela apertou de leve seu antebraço o tranquilizando – Eu ia dizer justo o contrário, ele me trata muito bem.
— Ah bom! – ele resmungou soltando aliviadamente a respiração que ficou presa.
— Pai eu ia dizer que o acho um homem muito interessante, temos muitas coisas afins, entretanto nunca o deixei tomar liberdade nenhuma, pois sempre ouço as funcionárias dizendo que ele é muito galanteador e que nunca o viram assumir compromisso... Mas a medida que tento tomar distância, algo me atrai na direção dele.
— Helena, você está gostando dele! — Inácio inclinou a cabeça ao constatar e deixou escapar um sorriso com o canto da boca.
— Não pai — ela arregalou os olhos e um vinco se formou no espaço entre suas sobrancelhas — eu não estou!
— Eu não lhe fiz uma pergunta, eu afirmei meu amor – Helena se sentiu tímida e abaixou a cabeça, o que levou Inácio a levantar seu queixo e dizer.
— Meu anjo, não se sinta envergonhada, não a vejo gostar de alguém há tempos, é bom abrir o coração, mas se esse rapaz não perceber a joia rara que você é, ele não a merece. Na verdade acho difícil existir um homem que a mereça minha linda amazona – ele soltou seu queixo e beijou a bochecha – Só me prometa que tomará cuidado com ele, não quero vê-la sofrendo outra vez.
— Não papai, não terei nada com ele. Heitor é meu chefe e não estou a procura de relacionamentos, minha carreira é meu foco agora... Isso é algo que vai passar logo – falou ela mesma tentando acreditar em suas palavras, pois já fazia um tempo que se encantara com belo e vívido par de olhos azuis de seu patrão.
— Helena, não minta para você mesmo. Apenas... Tome cuidado. Não continue se negando de sentir algo por uma pessoa, algum dia você precisará abaixar essas barreiras para outro alguém além de mim entrar – Soriano sorriu e lhe deu uma piscadela – Afinal eu quero ter muitos nipotis.
— Ok papà! Eu também quero ter filhos, só não acho que o Sr. Herrera seja o homem certo para ser o pai deles.
* * *
Heitor voltou a empresa aquela tarde decidido a convidar Helena para sair, não sabia como, mas daria um jeito de convidá-la. As horas foram passando e ele não conseguia tomar uma iniciativa, já tinha ido de uma ponta a outra do corredor da sala dela e vacilado.
"Deus, se Alexandre me visse minha covardia já teria sorrido tanto, por que eu simplesmente não consigo atravessar aquela maldita porta e falar com ela?! Onde se esconde o 'Don Juan' nesses momentos? Nunca tive dificuldades para me aproximar de mulher nenhuma, por que você me intimida assim Helena?".
Quando finalmente conseguiu abrir a porta, ela não estava lá. "Droga! Onde você se meteu?". Olhou ao redor e viu que nenhum dos outros arquitetos estavam em suas salas, foi ai que se lembrou da reunião, olhou no relógio e viu que marcava 16:35h, correu pois estava cinco minutos atrasados. "Shit! talvez quando terminar eu a chame e aproveite para levá-la ao Happy Hour que Alê falou".
A reunião acabou e sua secretária levou inúmeros papéis de licenças que estavam paradas e a prefeitura havia cedido liberação, junto com contratos para que ele assinasse. Sabia que aquilo lhe tomaria muitas horas, pois teria que verificar cada papel, principalmente os que necessitavam de sua assinatura e reenviar alguns ao gabinete do prefeito.
* * *
O relógio apontava alguns minutos após as oito horas da noite quando Alexandre ligou perguntando se Heitor apareceria no show, ele lhe contou que estava enrolado com muitos papéis e pediu que se divertisse em nome dele. Quando foi perguntado sobre Helena, fugiu do assunto e desconversou com a desculpa de que precisava continuar com o que estava fazendo, despedindo-se e desligando em seguida.
Horas passaram e ele nem percebeu, quando finalmente tinha acabado, já eram 23:02h, Heitor se aproximou da grande janela de vidro cuja cortina estava hasteada, olhando para o pátio só notou vigilantes que se locomoviam pelo estacionamento. Entretanto, uma coisa lhe chamou atenção, estaria certo? Era o carro de Helena que permanecia estacionado ali, teria ela tido algum problema e ido de táxi? Ou estava trabalhando até agora?
Heitor pegou o elevador e clicou no andar abaixo do seu, se dirigiu para o corredor que dava para a sala dela e percebeu a luz acesa, deu duas batidas na porta e depois abriu:
— Senhorita Helena, boa noite e desculpe entrar assim, mas o que fazes aqui até essa hora?
* * *
Helena estava bem à vontade, era tarde, ela sabia, mas ignorou o relógio e deixou a mente fluir, tinha feito um rabo de cavalo alto nos cabelos, tirado o blazer, ficando apenas com camiseta de cetim vinho de caimento solto, junto com a calça clara e justa de linho. os saltos foram abandonados há tempos e os óculos descansando em seu rosto lhe davam um ar elegante casando com todo despojamento do resto da composição.
A mente chegava a fervilhar de tantas ideias, tudo se encaixando com uma perfeição que ela não conseguia acreditar. Estava tão concentrada que levou um susto ao se deparar com Heitor ali a observando-a. Culpou o fone de ouvido por não ter prestado atenção nas batidas na porta como também ao que ele falou. Tirando rapidamente um dos lados do fone respondeu:
— Senhor me desculpe, não esperava que ainda estivesse por aqui e me desculpe, mas não consegui ouvi-lo. Poderia repetir?
— Eu que não esperava encontrá-la – ele sorriu e entrou na sala parando em frente a mesa – eu só lhe dei boa noite, por que ainda está aqui até essa hora da noite? Algum problema? – sua expressão logo exibiu um leve temor.
— Não, não – tratou de tranquilizá-lo – eu estava tentando adiantar algumas coisas e inserindo umas ideias que tive ao projeto.
— O Ministério do Trabalho não vai pensar assim, muito pelo contrário, vão jurar que estou explorando você – Helena deu uma risada grande e sonora, os dentes bonitos apareceram e ele se descobriu muito cativo aquele som, um desejo de poder desfrutar constantemente daquele som se apoderou dele. Ele a encarou até que ela sentiu a necessidade de desviar o olhar e iniciar um novo tópico.
— Como soube que eu estava aqui?
— Eu já estava indo para casa e vi mais um carro no estacionamento, imaginei que fosse seu, então vim conferir.
— Hum... – na falta de uma resposta melhor ela murmurou.
— Acho melhor nós irmos senhorita, já está bem tarde, não deveria se exceder tanto. Ainda sim, você me deixou bastante curioso para ver suas novas ideias, eu posso? – Ele se aproximou enquanto ela, com uma Pentel na mão lhe abriu passagem.
Ambos se inclinaram para frente, Helena apontou o que tinha inserido manualmente na planta sobre a mesa. Com Heitor posicionado atrás dela, a amazona se debruçou um pouco mais indicando as alterações. Nos primeiros minutos ele prestou atenção na planta, mas estar tão próximo a ela começou a lhe afetar. Com o nariz quase tocando o pescoço despido, ele pode sentir seu perfume, um aroma único, pelo menos para seu olfato, floral com um toque de rusticidade, característicos dela. Tentou duramente focar sua atenção nas palavras de sua funcionária, mas era impossível, sua mente já se perdia em suposições e expectativas.
"Teu perfume foi a coisa mais inebriante que já senti Helena, Godness... Eu a quero tanto mulher!"
— Então o que achou? – ela virou-se para olhá-lo e com a proximidade seus lábios ficaram a poucos centímetros um do outro.
Mesmo ficando sem jeito por tê-los colocado naquela posição, Helena acabou não resistindo olhar, nem que fosse rapidamente, nos olhos azuis. Foi a primeira vez que sustentou o olhar dele e o desejo que viu ali a surpreendeu, seu estômago fervilhou em antecipação e antes que fizesse uma besteira desviou sua atenção dos olhos, porém acabou fitando seus lábios... "Dio, ele tinha que ser tão bonito assim?!". Engolindo a seco se afastou o máximo que pode e sorriu lhe perguntando o que havia achado das sugestões dela.
Mais perdido que cego em tiroteio, Heitor, que no meio da explanação voltou sua atenção para o quão bonita e atraente era sua funcionária, ficou sem palavras. Por sorte era esperto o suficiente para sair de "saias justas" com facilidade, respondendo:
— Muito bom, amanhã verificamos melhor – concordando, Helena esperou que ele tomasse um distância segura para poder encará-lo outra vez.
— Tudo bem, é melhor irmos mesmo.
Desceram no elevador juntos, se despediram e dirigiram-se para seus carros, que ocupavam vagas próximas uma da outra. Heitor já tinha ligado o motor e se preparava par dar partida quando notou Helena saindo de seu carro. Logo ele abriu a porta, levantando-se e indo até ela.
— Algum problema senhorita?
— O carro não quer ligar – bufou revirando os olhos e estapeando o volante – Porca miseria!
— Desculpe, não entendi o que disse por último.
— Oh, o senhor não vai querer saber – ela riu se acalmando um pouco quando percebeu o que tinha falado na frente do seu chefe – Heitor arqueou uma sobrancelha a desfiando a traduzir – Ok, me desculpe, tenho mania de xingar em italiano as vezes, o que eu acabei de dizer foi um palavrão, mas não um dos pesados sabe...
— Sabia que seu sotaque não era nativo. Quanto ao palavrão, não se preocupe, de vez em quando sou "informal" também, sem contar que estamos praticamente fora do ambiente de trabalho. Agora – ele se dirigiu no rumo da porta aberta – posso verificar seu carro? – entrando no veículo tentou liga-lo, mas sem sucesso – Eu já vi isso antes, é um problema com a bateria. Não conseguirá sair com ele daqui hoje.
— Não acredito! – novamente soltou o ar em frustração – Esse carro é novo, não deveria estar me causando problemas.
— Isso já aconteceu comigo um tempo atrás, geralmente esse tipo de problema ocorre em carros novos mesmo, é como se a bateria entrasse "em coma", precisa de um choque para ativá-la outra vez.
— Tudo bem, o senhor conhece o telefone de algum taxista – pegou o celular da bolsa.
— Senhorita Helena, eu não a deixarei sair daqui em um táxi se posso lhe dar carona, vamos, vou levá-la até sua casa.
— Não senhor, não quero incomodá-lo.
— Você não irá me incomodar, vamos – Heitor sorriu indicando o caminho. O destino estava começando a lhe dar uma ajudinha, conseguiria finalmente ficar um tempo sozinho com ela e aproveitaria para chamá-la para sair.
* * *
Mil coisas rondaram sua mente, seu coração começou a bater mais forte, pode sentir um jato de adrenalina agitar seu estômago no momento em que sentou no banco do carona e Heitor sorriu exibindo os dentes brancos e bem alinhados, o cabelo loiro deixava um mecha cair despojadamente sobre a testa enquanto a fitava com os olhos azuis brilhantes.
— Onde a senhorita mora?
— Juro que nem vou incomodá-lo muito, minha casa não é tão longe, conhece o condomínio San Lorenti?
Heitor sorriu.
— Oh sim, conheço. – ela não entendeu e deixou que os conduzisse no endereço citado. Quinze minutos se passaram, dentro desse tempo conversavam trivialidades, as vezes entravam em um silêncio confortável, mesmo conversando pouco, o tempo se estendeu rapidamente e logo Heitor parou em frente ao portão de entrada de veículos. Ela já ia agradecer pela gentileza quando viu o portão se abrir, ele entrou e confusa perguntou:
— Como conseguiu abrir o portão? Não me diga que o senhor também...
— Mora aqui? Sim, eu moro – ele sorriu.
— Não acredito nisso – sorriu também – Qual sua torre?
— Torre 2 e a sua?
— Torre 4 – Estacionou em frente a recepção do prédio 4.
— Boa noite, senhorita Helena.
— Boa noite e muito obrigada!
— Disponha. Se precisar de carona para ir amanhã posso passar aqui para pegá-la.
— Não senhor, não o incomodaria dessa forma novamente.
— Não foi nenhum incômodo.
— Ok, estou muito grata pela gentileza então – ela se virou para sair e ele segurou delicadamente seu braço.
— Espera... – Helena o olhava surpresa – Eu queria saber se, já que somos vizinhos... Eh... Se você não gostaria de sair comigo para jantar qualquer dia?! Prometo que a carona de volta não será um problema – ambos sorriram.
— Olha, nós temos tido muito trabalho ultimamente e o pouco tempo livre que me sobra procuro passar com meu pai, acredito que o senhor tem muitas companhias para levar para jantar, então por enquanto, eu prefiro não aceitar seu convite – aquilo entrou cortando e seu ego não estava preparado – mas– ela continuou com um sorriso enquanto mordia suavemente o lábio inferior –é bom saber que tenho carona para casa quando precisar, tchau – a amazona saiu fechando a porta e não lhe dando chance de resposta.
Heitor simplesmente não podia acreditar. Ela tinha praticamente lhe dado um baita tapa na cara com a primeira resposta e feito carinho em cima com a segunda. Não só tinha dispensado seu convite, como tinha dado com a porta na sua bela face com toda elegância que o momento pedia. Ele tinha receios profundos de se apaixonar outra vez, não entregaria seu coração de bandeja a outro rosto bonito, mas Helena era mais que isso. Suas negativas estavam surtindo efeito contrário, quanto mais o repelia, mais ele se sentia sendo puxado na direção dela. Se ele estava certo, podia ver uma pequena chama de interesse queimando de leve por dentro de seus olhos, e a vontade de descobrir o que aquele belo par de írises escuras e densas como chocolate queriam dizer era desesperadora.
Chegando em casa ligou para o amigo, que como ele imaginava, não tinha saído sozinho de casa e contou-lhe o episódio de poucos minutos atrás.
— Ela disse mesmo isso?! – perguntou Alexandre surpreso.
— Disse sim Alê – ele revirou os olhos para o tom divertido que Alexandre estava usando.
— Oh man, ela é demais, nem a conheço e já a acho formidável por tê-lo dispensado, é bom para seu ego tão massageado pela maioria das mulheres... Cara, de uma coisa você pode ter certeza, ela não está de olho no seu dinheiro, as vantagens de um casamento entre vocês seriam suas.
— Eu nem a trouxe para minha cama e você já está falando de casamento – ele gemeu baixo– Não sei se casaremos, formaremos uma linda família e blábláblá... Mas tenha certeza de uma coisa meu amigo, eu terei aquela mulher! Alexandre, Helena será minha, desejo-a com tanto afinco que quando eu beijar sua boca que tanto me provoca com seus batons vermelhos, ela se arrependerá por ter me dispensado tanto, vou deslizar meu nariz pela curva atraente e insuportavelmente cheirosa de seu pescoço, vou morder o lóbulo da orelha e quando ela menos esperar vai estar implorando para eu...
— Eu já entendi o que você quer ok?! Guarde seus desejos para ela.
— Vou conquistá-la, você verá!
— Você terá que conquistá-la mesmo, por que ela Heitorzinho, além de já ter fisgado você faz tempo, é uma mulher que merece ser apreciada e cativada — ele sorriu e levantou-se dando um tapinha no ombro do amigo — Agora vá dormir, de preferência tome um banho frio, ou terá sonhos quentes com a sua bela arquiteta morena.
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Alexandre estava certo.
Nas primeiras horas da manhã seguinte, Heitor gemeu frustrado ao perceber que infelizmente a visão de Helena montada em seu colo nessa mesma cama tinha sido apenas um sonho.
* * *
Pela manhã ao chegar à empresa encontrou no estacionamento um guincho com o carro de Helena em cima e próximo a ele, ela e um senhor muito bem apessoado que ele já vira outras vezes na TV e em revistas. Manobrou sua Ferrari, desceu e foi na direção dos dois.
— Bom dia senhorita Helena – acenou para ela, em seguida estendeu a mão cumprimentando o homem – Sr. Soriano.
— Bom dia Sr. Herrera – falou Helena.
— Bom dia meu rapaz – respondeu aceitando o aperto de mãos.
— Papai esse aqui é Heitor Herrera, o presidente da construtora e meu chefe. Senhor, esse aqui é meu pai, Inácio Soriano.
— É um prazer conhecê-lo pessoalmente, meu pai sempre me falou muito bem do senhor.
— É um prazer também, diga a Philip que mando lembranças – finalmente ele sorrira, apesar de ser bastante reservado, ele podia ver que o homem estava sendo gentil – Tem sorte de tê-lo como pai, é um amigo de longa data.
— Obrigado senhor, ele é um grande homem sim, pode deixar que darei seu recado – olhando para Helena, sorriu com simpatia – Fico feliz que seu problema foi resolvido senhorita.
— Mais uma vez obrigada pela ajuda de ontem.
— Bom, vou não vou mais atrapalhá-los, fiquem a vontade, qualquer coisa que precisarem não hesitem em pedir, estarei na minha sala – despedindo-se deles seguiu rumo ao prédio.
Quando Heitor já estava a uma distância em que não podia ouvir os dois, Inácio comentou:
— É um rapaz elegante e muito educado Helena... Me lembra Philip quando nos conhecemos.
— Papai!– ela repreendeu.
— Eu só comentei... – defendeu-se Inácio erguendo as duas mãos para cima.
* * *
O mês passou rápido e Heitor conseguiu se aproximar de Helena. Tinha um objetivo e ia cumpri-lo. Como toda sua equipe, de engenheiros e arquitetos, muitas vezes estavam extrapolando o horário e ficavam até tarde alavancando o projeto, se sentia no dever de além de pagar as horas extras que eles tinham direito, alimentá-los também. A turma estava tão empenhada no sucesso do projeto que isso o estimulava.
Nesses momentos ele aproveitava para ganhar espaço. Fez tudo ao seu alcance para atrair a atenção dela, sempre que podia servia um café para Helena (ele tina descoberto que ela adorava café preto e forte, "quanto mais melhor", era o lema dela), assim como também virara freguês de uma modesta panificadora só porque uma tarde ela havia dito ser sua preferida, e religiosamente comprava a versão italiana do croissants preferido dela para os lanches.
Depois de algumas semanas, começou a perceber que ela se sentia mais a vontade em sua presença, já não fugia tanto dos olhares nada discretos que ele lhe direcionava (por mais que ele jurasse que eram), todas as vezes em que estavam juntos, seja para um almoço ou uma saída sexta após o expediente ele fazia questão de estar por perto, sempre cativado por tudo que ele falava e principalmente por seu charme, quando ambos menos esperavam já estavam flertando um com o outro, por mais moderados que pudessem ser, já estava ficando bem óbvio para todos no grupo o interesse mútuo entre eles.
Principalmente depois da última sexta quando Helena tinha exagerado nas doses de tequilas e Heitor também, a turma toda já estava bem "alegre", quando a amazona foi para a pista de dança ao escutar um ritmo latino bem atual, descontraído e sensual começando a tocar, Heitor primeiro admirou-a interagindo com as outras mulheres na pista, mas, ao perceber que não era o único interessado, pulou na frente antes que tivesse que assistir outro homem dançar com ela.
"- Eu não sabia que você dançava Sr. Herrera.
— Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim senhorita e eu adoraria que descobrisse. Me daria a honra?"
Ela nada respondeu, apenas se virou de costas para ele e começou a se mexer no ritmo do reggaeton, Heitor chegou junto e Helena se surpreendeu com o fato de que ele realmente sabia o que fazer. Eles seguiram passos sincronizados, quase como se tivessem ensaiado, a energia entre eles era contagiante, ninguém que olhasse duvidaria de que eram um casal, pois tinham tanta sincronia quanto possível.
Envolvidos pela música, a arquiteta se virou novamente e colou as costas no peito de seu chefe, a música mudou de tom e ela deslizou até o chão, Heitor sentiu o corpo inteiro responder ao movimento engolindo a seco. Enquanto Helena subia, a música dava as batidas finais, entretanto eles aparentemente tinham esquecido de se mexerem, apenas olhando nos olhos um do outro, totalmente aquecidos pelo momento.
Helena umedeceu os lábios e ele subiu a mão que estava na base de sua da coluna enfiando-a entre seus cabelos, de alguma forma conseguiram se aproximar ainda mais. O engenheiro se inclinou quase tocando os lábios dela, porém o beijo tão esperado nunca aconteceu porque uma jovem "trêbada" escorregou em cima deles os distraindo do momento. A moça pediu desculpas, eles a ajudaram a se levantar e voltaram para a mesa. Se alguém mais percebeu o que ia acontecer não tocou no assunto, Helena principalmente.
* * *
Os briefings com os clientes haviam começado, Helena acabou sendo muito solicitada, alguns por apreciarem seu portfólio incrível e outros por pura curiosidade por causa de seu sobrenome. Por sugestão de Heitor, Alexandre a escolhera também, mas sua curiosidade era outra, Deseja desvendar o que tinha na bela mulher que despertara o interesse do amigo.
Helena a essa altura, em especial depois da noite no bar há algumas semanas, estava bastante atraída por seu patrão, não podia negar as pequenas coisas que ele fazia para chamar sua atenção conquistaram uma parte de seu coração. Tinha fugido do assunto todas as vezes que ele tentara iniciá-lo, mas estava ficando cada vez mais complicado ignorar a faísca eletrizante que quase se incendiava todas as vezes em que estavam juntos.
"Não sei se devo deixá-lo entrar Heitor, não sei se deveria deixar qualquer outro entrar na verdade, porém tem algo em você Bonitão que me atrai de forma absurda... Será que você vale a pena o risco?"
Um toque na porta a trouxe de volta de suas divagações.
— Srta. Helena, Alexandre, meu amigo médico, pediu para que lhe perguntasse se você teria disponibilidade de fazer o briefing com ele hoje a noite em um jantar? – Heitor perguntou com o rosto escorado no caixilho.
A arquiteta ergueu os olhos, que estavam por trás de um óculos de leitura (que ele achara extremamente elegante), por cima do monitor respondendo-o:
— Eu tenho disponibilidade hoje a noite sim, mas o senhor irá também? – voltou a olhar para a tela.
— Bom, eu não sabia se deveria me incluir no jantar, mas estarei lá se está me pedindo – ela o encarou novamente e o pegou com um sorriso vitorioso que ela resolveu tirar.
— Oh, mas eu não pedi nada senhor, só perguntei se estaria presente – Helena segurou-se para não sorrir.
— Então a senhorita não quer que eu vá?! –sua expressão mudou para confusão e ela começou a se sentir um pouco ruim pelo que estava fazendo com ele.
— Eu não disse isso senhor – ele percebeu um sorriso começar a surgir no canto dos lábios dela e se sentiu um otário pela confusão que estava permitindo que ela fizesse propositalmente em sua cabeça.
— Ok. Vou mandá-lo reservar uma mesa para três – tentou sondá-la novamente, mas ela simplesmente continuava com aquele sorriso que ele tinha dificuldades em desvendar e voltou a olhar para seu computador.
Helena tinha ideia de que o jogo no qual estava jogando com ele era atraente na medida que era perigoso. Ela sabia que conseguia afetá-lo, como agora pouco, mas ele também podia se quisesse. A química entre eles crescia exponencialmente e podia levá-los a combustão, como experimentaram no dia da boate, não ia demorar para de fato pegarem fogo. Mas ela precisava se lembrar de que não tinha garantias nenhuma de que ele não era um canalha. Mesmo que em todos os meses em que trabalhava para ele nunca o vira mostrar interesse em qualquer outra mulher. Todavia, como saber se seu interesse não se limitaria até o ponto em que ele tivesse conseguido levá-la para a cama dele?!
Esse era o tipo de dúvida que a consumia, impedindo-a de ceder as suas vontades e investidas de Heitor. Já havia sofrido muito no passado com um coração partido, tudo o que menos precisava era de outra decepção com um cafajeste bonito, cheio de promessa vazias. Mesmo que ele quisesse um lance sem compromisso, a amazona sabia que era intensa demais para isso, com ela ou era tudo ou nada.
Soprando o ar pela boca, procurou voltar sua atenção ao projeto em que estava trabalhando antes dele interrompê-la. Quem sabe o jantar com o amigo não lhe ajudasse a descobrir quais as reais intenções de seu chefe. Afinal, ele já elogiara diversas vezes o quão correto era o tal médico.
* * *
O local escolhido era muito agradável, Heitor se ofereceu para levá-la, mas claro, a amazona recusou com toda boa educação que seu velho pai lhe dera. Porém, Heitor também sabia ser teimoso quando queria, por isso fez questão de acompanhá-la até o restaurante, os carros seguiram em fila indiana até chegarem ao destino. Estacionando primeiro, ele se apressou para abrir a porta para ela, como ainda não a tinha visto ainda, sentiu seu coração parar alguns instantes assim que ela colocou os pés para fora do veículo.
Helena estava simplesmente deslumbrante em um Gucci preto de caimento justo, se ele tinha dúvidas de sua descendência latina, elas haviam sumido a cada curva bem acentuada pelo vestido. "Bloody hell!". Heitor teve certeza que ela era a coisa mais linda em quem já tinha posto os olhos. Cada cara obra de arte nas paredes de sua casa não chegavam aos pés dela.
Ele sorriu saindo do transe e ficou ainda mais feliz ao perceber que ela também estava admirando-o. Talvez não fosse tão caso perdido assim. Se recompondo, estendeu o braço para Helena que o aceitou então ambos entraram no restaurante onde Alexandre já estava sentado os esperando. Avistando-os de longe, abriu um sorriso enquanto pensava o quanto eles combinavam e acenou discretamente para eles que logo chegaram até ele e tomaram seus lugares.
— Então o senhor é o famoso Dr. Alexandre Del Rio que meu chefe tanto elogia?
— Culpado! Mesmo que eu ache famoso um adjetivo exagerado – ele estendeu a mão e ela colocou a sua sobre a dele, sorrindo quando ele gentilmente a beijou –Muito prazer em finalmente conhecer a bela e talentosa arquiteta de quem tanto ouço meu amigo falar – Helena olhou para Heitor e o viu um sorriso nascer em seus lábios – Oh, e por favor, me chame apenas de Alexandre, senhor faz eu me sentir mais velho do que realmente sou — a única mulher na mesa abriu a boca para responder, entretanto Heitor fora mais rápido.
— Meu amigo, não se dê o trabalho, srta. Helena prefere "manter as formalidades" — ele ironizou, o que não passou despercebido para ela.
— Oh não Dr. Del Rio – seus olhos foram de Heitor para Alexandre, a quem ela ofereceu um sorriso simpático – já que me deu a liberdade vou chamá-lo de Alexandre – virou-se para Heitor encarando-o – Entenda algo, o senhor e eu somos patrão e funcionária, por isso busco manter as formalidades para que não haja nenhuma confusão.
Ele tinha começado as provocações, agora aguentaria. Alexandre nunca adorou tanto assistir as pequenas farpas afiadas que eles trocavam. Podia claramente perceber o desejo reprimido por trás de tudo aquilo, ele estudava pessoas por dentro, psicologicamente também, a linguagem dos corpos deles estavam quase entrando em concordância e possivelmente não demoraria para se tornarem uma só.
* * *
Pelo pouco tempo de interação não podia negar todos os adjetivos que seu amigo atribuíra aquela mulher, ela realmente era um espetáculo de linda, definitivamente inteligente e na mesma proporção atrevida. Desejava que os dois dessem certo, Heitor nunca dedicara tanto tempo na conquista de uma mulher antes, como bom conhecedor do amigo, sabia que ele só se empenhava em algo com tanto afinco quando estava apaixonado por aquilo. No que tivesse a seu alcance, contribuiria para que eles acontecessem.
— Senhorita...
— Helena, por favor, Alexandre.
— Helena... Me diga como está sendo trabalhar com esse senhor? – ambos olharam para Heitor– Qualquer queixa que tiver juro que darei um jeito em meu amigo – socou de leve o bíceps do loiro.
Helena fitou Heitor justamente com aquela expressão que ele tinha dificuldades em decifrar.
— Eu diria que – ela levou o indicador a bochecha e bateu com ele de leve pensando a respeito, estampando uma expressão divertida – hmm... Incerto no começo, excêntrico e diferente no meio e o final ainda não está definido.
— Tenho certeza que o final será muito bom, surpreendente talvez – Helena sorriu para Alexandre e fez um leve movimento lateral com a cabeça enquanto levava sua taça com seu vinho à boca.
* * *
As horas passaram, a conversa entre Alexandre e Helena fluía fácil e Heitor mesmo tentando duramente não conseguiu não se sentir incomodado com isso. Se retirou da mesa com a desculpa de ir ao banheiro, mas na verdade, precisava respirar um pouco e desmanchar a carranca, se não acabaria por dizer algo para uma das duas pessoas queridas do qual ele poderia se arrepender depois.
Alexandre percebeu instantaneamente que a saída de seu amigo não era uma necessidade fisiológica e sim ciúmes. Helena realmente massacrou o coração do pobre homem ao praticamente ignorá-lo. Mas para a amazona sua saída fora ainda melhor, ela não hesitou e foi direto ao ponto.
— Alexandre – ela o chamou e quando se encaram sua postura retornou indicando a seriedade do que viria a seguir – tenho que lhe perguntar algo e vou ser direta, não é do meu feitio enrolações... Não sou tola para não perceber que Heitor está interessado em mim, ele não tem sido nada sutil em esconder, se esse era o objetivo dele. Porém, não ouvi coisas boas a seu respeito com relação as mulheres para me dar a segurança de que não fará o mesmo comigo depois de conseguir o que quer. Tudo que menos preciso é de um idiota que quer ganhar meu coração, todavia não irá mantê-lo... – ela suspirou com lembranças de um passado dolorido e Alexandre apertou sua mão em compreensão, ele conhecia o olhar de alguém que fora traído – Eu não tenho costume de me lançar de cabeça em algo que eu não conheço, por isso pergunto a você, que apesar de ser amigo dele, já o ouvi elogiando sua integridade para acreditar que você me dirá a verdade... Afinal, você é médico – Alexandre sorriu quebrando um pouco da tensão e a arquiteta o acompanhou.
— Prossiga Helena, prometo que serei o mais sincero possível.
— Posso confiar que Heitor não está comigo apenas para conseguir uma noite e depois nem olhará para mim? Eu não sei me envolver pela metade, se me dou em algo, me entrego de corpo e alma, se Heitor não está disposto a investir em nós dois também, não quero nem começar.
— Quando Heitor me disse que você era incrível eu não imaginava que fosse tanto assim. Sorte dele ter ganhado sua afeição, você possui uma beleza deslumbrante como uma joia rara – ela corou e sorriu em agradecimento – porém não é só por isso que estou feliz que Heitor tenha caído nas suas graças... Helena, meu amigo é sim um 'Don Juan' como costumo chamá-lo, por que no passado ele foi muito machucado, ele age assim para se proteger de partirem seu coração outra vez. Juro a você que desde que recomeçamos nossa vida nessa cidade, Heitor afastou qualquer mulher que quisesse mais que sexo, então você chegou – ele sorriu revirando os olhos – E eu nunca vi Heitor se esforçar tanto para chamar atenção de uma mulher, ele nunca precisou na verdade. Jamais o assistir tão interessado em realmente impressionar alguém, nem mesmo seu pai a quem ele tanto estima, e claro, não me lembro de ouvi-lo falar o nome de outra mulher pelo menos três vezes por dia como faz com o seu – ao notar que a medida em revela os sentimentos do amigo o rosto da bela mulher a sua frente se acendia de esperança e felicidade, ele continuou – Você é uma boa pessoa, não está interessada no que meu amigo possui, mas simplesmente nele. Sem perceber você derrubou as barreiras ao redor do seu coração. Ele a deseja em sua cama? Estaria mentindo se negasse isso, entretanto, o que Heitor sente por ti está além da atração, ele está se apaixonando por você tão intensamente – Alexandre olhou ao redor procurando-o, sem sucesso retornou para seu foco anterior –Por que você acha que ele se retirou?
— Não foi para ir ao banheiro?! – era uma afirmação cheia de dúvida agora.
— Porque ele estava morrendo de ciúmes de você ter me dado certas liberdades que não ofereceu a ele, por toda atenção que designou a mim e maldosamente tê-lo ignorado – Helena sorriu sem graça e piscou entendo o porque dela ter agido assim – Tudo bem, só tenha em mente que Heitor não sabe como reagir quando quer muito algo e não consegue, ele foi muito mimado por tia Victoria, então algumas vezes é um "meninão" dentro daquele corpo de homem.
— Oh minha nossa Alexandre, com certeza ele está furioso comigo.
— Um pouco, mas logo passa. Basta você abrir um desses sorrisos lindos e toda a raiva que ele estiver sentindo vai se esvair.
* * *
Depois de alguns minutos, Heitor retornou a mesa e interagiu mais com os outros dois. A conversa seguia agradável até Heitor perceber que vez ou outra Helena olhava para Alexandre e lhe dava um sorriso cúmplice. Seu corpo inteiro se arrepiou quando um pensamento fugaz lhe sobreveio:
"WTH, que diabos eu fiz? Ela não estaria se interessando por Alexandre não é mesmo?! Inferno! É claro que sim! Alexandre é tudo o que uma mulher deseja, tem uma excelente aparência, estabilidade e uma reputação invejável... Bloody hell!!! Isso não pode acontecer de novo, só que dessa vez eu estaria no papel de Alexandre".
Suspirou com todo afinco tentando extinguir essas suposições, todavia, a partir dali, o restante do jantar seguiu ainda mais estranho para ele.
Não demorou muito para Alexandre sugerir o fim do mesmo, os três despediram-se e seguiram para seus carros rumo suas casas, Alexandre a frente, com um sorriso de satisfação enorme no rosto por ter encaminhado os dois pombinhos. Heitor no meio com um carranca imensa . Helena ia por último, feliz e com o coração em paz, finalmente podia aceitar as investidas dele e ver onde essa atração os levaria.
Quando estacionou na torre 2, Alexandre esperou Heitor para que pudesse conversar sobre Helena, mas o rapaz loiro desceu do carro mal humorado e visivelmente chateado.
— Heitor, amigo, tenho boas novas... – o engenheiro o olhou com uma cara de poucos amigos e instantaneamente ele estranhou a atitude –Achei que estaria com uma expressão melhor depois de passar algum tempo na companhia da bela Helena – com um sorriso debochado ele respondeu.
— Estaria se ela tivesse passado tempo na minha companhia –com um suspiro sofrego, ele se virou na direção do amigo e prosseguiu –você não notou a forma como ela te olhava? Ou os sorrisos encantados que Helena lhe ofertou? Boa sorte meu amigo, ela se interessou por você, eu a entendo, és um homem muito melhor do que eu, alguém que ela realmente merece.
— Não seja tolo Heitor! – Alexandre elevou um pouco a voz – Dizem que quando estamos apaixonados ficamos cegos mesmo né... Helena sorria para mim por que na hora em que você saiu, questionou-me sobre seus sentimentos por ela, pois também estava gostando de ti e antes de dar-lhe permissão para entrar na vida dela, desejava ter certeza de que queria mais que uma noite com ela.
— Uma noite com ela é tudo o que eu desejo, mas tenho certeza que depois que a tiver uma única vez, não vou parar de querê-la!
— Então diga isso a ela– Alexandre sorriu e apertou o ombro do amigo –acredito que se correr, ainda a pega na portaria da sua torre.
Entrando no carro, correu em direção a Helena. "Bom Deus! Ela o queria também!". Uma alegria sem tamanho inundou seu interior e quando menos percebeu estava descendo do veículo e o deixando estacionado de qualquer forma na portaria. Passou pela recepção e a avistou esperando o elevador. Se aproximou o mais rápido que conseguiu sem assustá-la e chamou seu nome.
— Helena... – ainda existia uma distância significativa entre eles, que Heitor diminuía a cada passo dado, quando ela se virou, uma ruga se formou no meio da testa de surpresa por ele estar ali.
— O que houve? Aconteceu algo? – o engenheiro já se posicionava em frente a arquiteta quando ela lhe fez a pergunta, sua expressão também tinha mudado quando ela percebeu que ele a fitava com a mesma intensidade do dia em que quase se beijaram no barzinho.
— Eu só me esqueci disso – Heitor se inclinou esperando alguns segundos que ela se afastasse, mas quando ela permaneceu no mesmo lugar o encarando ele apenas enfiou a mão pela nuca e levou sua boca a dela, a beijando com toda vontade que guardou por meses.
O som do beijo se misturava com as respirações ofegantes e suspiros, Heitor vasculhou a boca dela inteira, inebriado pelo gosto dela. Era ainda melhor do que ele tinha imaginado. Quando notou que ela já estava vermelha demais, a liberou para que pudessem respirar.
Helena puxou o fôlego, permanecendo calada, ainda incrédula pelo que tinha acontecido. Heitor imaginou que ela não tivesse gostado, já esperando por um xingamento ou um tapa quando surpreendentemente ela subiu as mãos pelos ombros dele, envolvendo-o pelo pescoço.
— Vais me beijar assim todos os dias? Ou foi só o primeiro mesmo? – Helena mordeu o conto do lábio inferior e ele adorou o fato do quanto ela era doce e sexy.
— Se me permitir fazer parte de sua vida, sempre que desejar.
— Se soubesse que o – fez questão de chamá-lo assim, agora totalmente recheado de desdém e malícia – o "senhor" beijava tão bem, já teria lhe beijado antes.
— A senhorita vai continuar me chamando de senhor?
— Depende... O senhor vai continuar me chamando de senhorita? – os dois riram.
— Bem, sempre quis chamá-la pelo primeiro nome, por que o acho um nome forte e lindo como você, mas primeiro, existe um pronome que gostaria de acrescentar – ele deslizou o nariz pela curva do pescoço delicado e lúcido, notando os pelos se eriçarem pela quentura da respiração, até chegar ao ouvido, onde ele mordiscou o lóbulo antes de sussurrar – Minha Helena, minha.
— Também posso acreditar que você é meu? – perguntou antes que ele pudesse beijá-la outra vez.
— Ser seu homem é tudo o que mais desejo minha linda – ele ajeitou uma mecha do cabelo dela e a beijou mais uma vez.
* * *
Sentaram em um sofá da sala de espera da recepção, como estava tarde ninguém iria transitar ali e incomodá-los. Conversaram, riram, trocaram muitas carícias e beijos tão ardentes quanto o primeiro que deram em frente ao elevador.
Heitor sabia que ela não o convidaria, pelo menos não hoje, para subir ao seu apartamento, ele precisava parar de beijá-la, tinha que ir embora, mas não conseguia, seu desejo aumentava a cada toque suave das mãos de Helena em sua face, o que sentia era mais forte do que ele imaginava. Respirou procurando sua razão e finalmente conseguiu focar sua atenção em outra coisa que não fosse o cheiro adorável que ela exalava. Abriu a boca para falar algo, mas quem acabou se pronunciando foi ela.
— Heitor, nós vamos mesmo fazer isso? – a arquiteta se afastou e o olhou com uma expressão que ele não tinha outra palavra para descrever se não adorável –Vamos mergulhar nesse mar desconhecido que somos eu e você?
— Helena – ele retirou uma mecha de seu cabelo que havia escorregado por sua face – eu nunca tive medo do desconhecido. Sei que sabemos pouquíssimo um do outro, mas isso o Google resolve, tem muita coisa sobre você lá, sabia? – eles riram diante da brincadeira – Agora falando sério, não peça para não procurá-la, seus beijos só despertaram ainda mais o que sinto por ti, há tempos não gosto de uma mulher como tenho gostado de você, quero conhecê-la melhor para assim poder te amar.
— Acho que nós dois somos muito parecidos, mentiria se te dissesse que não tenho medo, depois que machucam seu coração, você aprende a se prevenir, porém quando estou contigo, de uma forma estranha eu me sinto confortável, e esse é o meu maior medo, de gostar tanto de você a ponto de não conseguir mais parar.
— Já eu espero que seja assim – sorriu, em seguida tomou as mãos dela e cruzou seus dedos – Vamos nos dar uma chance, não posso te garantir que não vou magoá-la, mas farei de tudo para que não aconteça. O que posso assegurar é que enquanto eu estiver contigo, serei leal a você, meu desejo, carinho e cuidados serão seus, minha atenção, dedicação e admiração também, pois eu escolhi e quero você Helena, quero que seja total e literalmente minha – ele a fitou tão intensamente que ela teve que puxar o ar com mais força.
A amazona ruborizou, controlando-se diante do que ele tinha dito e da forma como a olhava tão fixamente, Heitor despertou nela desejos que ela não tinha fazia um tempo, ele não ajudava sendo tão lindo, estava ficando difícil resistir a tentação de convidá-lo para subir, porém por mais que quisesse ceder, não o convidaria, não hoje. Testaria um pouco o que ele dizia sentir. Passando a mão por seus cabelos loiros falou:
— Serei sua, mas não totalmente hoje. No momento certo eu saberei se devo e então, acontecerá, deixe-me conhecê-lo melhor. Heitor eu realmente só quero levar isso em frente se para você for uma coisa séria também!
— Para você entender que estou falando sério mesmo, vou lhe fazer uma pergunta que eu provavelmente não faço desde a faculdade... Helena, namora comigo?
— Vou arriscar saber aonde esse barco nos levará – sorrindo ela selou seus lábios rapidamente – Sim, eu aceito ser sua namorada – dando um último beijo em seu amado,Helena se afastou desejando boa noite e subiu radiante para seu apartamento.
Heitor voltou para casa não menos feliz que sua namorada, estava nas nuvens, não sentia o chão que pisava de tão leve, abriu a porta de seu apartamento e ligou para Alexandre que em cinco minutos estava em sua sala, pronto para ouvir tudo.
— Você demorou e está sujo de batom no pescoço – nesse momento ele fez uma expressão maliciosa, tentando arquear umas das sobrancelhas como Heitor fazia – Então suponho que tudo ocorreu bem.
— Só não foi melhor por que não terminei a noite no apartamento dela, mas isso não vai demorar muito, pelo menos eu espero – soprou uma risada – ainda mais agora que somos – ele encheu o peito de orgulho para dizer a próxima palavra – namorados.
— Aêê, aleluia! – Alexandre sorriu levantando as mãos para o alto, abraçando-o em seguida – Agora sem brincadeiras, estou realmente feliz por você irmão. Helena parece ser uma grande mulher.
— Alê, eu cheguei lá e quando a vi não pensei muito... Corri até ela e a beijei com toda a vontade que eu guardei por três meses.
— E...?
— Esperei levar uma bofetada na minha bela face, porém, ao invés disso, Helena perguntou se eu a beijaria assim todos os dias – ele abriu um sorriso que quase não cabia em sua face.
— Ela está apaixonada por você também – constatou Alexandre sorrindo – Tentou esconder o máximo que pode e fugir, mas ela também gosta de ti.
— Que bom... Por que estou louco por aquela mulher.
— Vocês estão trilhando o caminho do amor novamente Heitor, apenas lute com tudo o que tiver para manter isso.
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