Estações
3 capacidade
- Você não é capaz? — Eu ouvia aquela frase pela décima oitava vez. 18 não era na minha vida como 23, mas perseguia meus passos como uma força regente. Tudo começava aos 18 no meu mundo e se não fosse em 18, para mim não era um fato. 18 era a idade que eu tinha quando vi pela primeira vez os olhos de verão.
- Não sou. — Reclamei irritada.
- Então não faça, que coisa inútil ficar tentando. — Ele deu de ombros e virou-se de costas para mim. Soberbo... Eu senti muita raiva e quase enlouqueci com a tranquilidade que ele exalava.
- Eu farei!
- Você não consegue.
- Consigo!
- E por que disse que não era capaz?
- Eu menti!
- Então ataque-me e pegue essa fita!
Tentei concentrar meu corpo inteiro e minha mente naquele desafio. Assim que chegamos ele havia alimentado-me e vestido-me e disse pra mim mostrando-me uma fita de cetim rosa pegue-a. Aquela ordem foi assimilada rapidamente pelo meu cérebro, mas eu passei 17 horas tentando pegar aquelas fitas inutilmente... Talvez eu não fosse capaz de consegui-la mesmo... Ou talvez eu estivesse esperando o 18 mudar algo em minha vida.
- Você não pode esperar um número para salvá-la. — Ele disse quase lendo minhas sinapses, eu já havia contado a ele sobre o 18, e pelo visto era algo fácil de assimilar.
- O que eu posso fazer? Acho que não sou capaz de fazer isso, estou cansada.
- Nunca ache. Ou seja capaz ou não. Não ache que pode ou ache que não pode, SAIBA.
Sim eu sabia. Não era capaz de tomar aquela fita dele, não naquele momento e não daquela forma, mas talvez... Não. Eu era capaz de consegui-la se aprendesse como fazer, eu precisava aprender como pega-la. Fiquei em silêncio, estática... Apenas observando os movimentos ágeis dele.
- Decidiu que não é capaz?
- Sim você está certo. — Disse sorrindo, o que abalou um pouco a superioridade dele fazendo-o levemente surpreso. — Não sou capaz de conseguir essa fita agora. Mas serei capaz de tê-la se eu souber como. Sou capaz de aprender a capturá-la, mas de tê-la agora... Não, não sou capaz.
- Coerente. — Ele disse esboçando um sorriso majestoso. — Mas você realmente se acha capaz de aprender a tê-la? — Ele disse realçando a presença da fita em seu punho.
- Eu SOU capaz.
Ele sorriu para mim e colocou-me no colo, era uma forma inebriante de ajudar-me. Eu estava exausta de tanto correr e pular e inutilmente debater-me para buscar a fita que ele carregava no braço, porém ele também estava correndo, fugindo, evitando que eu pegasse as fitas e não demonstrava qualquer traço de cansaço. Senti meus olhos pesados e meu corpo extremamente cansado não pode reagir as pálpebras fechando-se.
- Boa noite.-ele disse antes de fechar a porta, mas já era dia.
Durante a noite tive sonhos bizarros com caçadas e corridas, lembro-me de estar armada e fugir desesperadamente. Ferida e com medo... Cada célula do meu corpo gritava para o cérebro que dispersava adrenalina desordenadamente. Meus músculos contraíram-se e eu levantei com alguma reação eletroquímica. O grito veio mudo e o suor escorreu fácil pelo rosto, como uma chuva de ansiedade.
- Pesadelos são realmente irritantes.
O homem estava sentado em uma cadeira ao meu lado com uma xícara amarela na mão. O rosto sem expressão olhava para mim esperando minha reação, mas eu apenas fitei-o confusa. Eu pensei de repente que gostaria de saber uma coisa...
- Qual o seu nome?
- Nome!? — Ele sorriu. — Pra que eu ia querer algo como um nome?
- Todo mundo tem um nome.
- Eu estou além do mundo, não me compare a ele. Nemu, os nomes também são formas de limite, mas eu compreendo a sua necessidade de chamar a mim.
- E então...
- Do que você quer chamar-me?
Ele parecia falar sério, repousei meu olhar tímido nos olhos de verão e pude jurar que eles emanavam calor para dentro do quarto. Passei algum tempo refletindo aquelas palavras e ele permaneceu pacientemente imóvel. O rosto era suava embora intimidador eu sorri com minha descoberta sobre a utilidade de nomes para ele, indicavam funcionalidade.
- Você é Heidh.
- Por quê? — Ele misturou algum espanto ao sorriso curioso.
- Hélio é o nome do deus sol que lembra os seus olhos e idh as letras tatuadas no seu pulso.
Percebi o sorriso dele enlarguecer, ele tirou a fita verde que trazia sempre amarrada no pulso esquerdo fazendo aparecer as três letras. Eu não tinha visto aquelas letras nele em momento algum, mas no sonho... Ele estava jogado ao meu lado e eu lembrei de ter desatado a fita revelando a tatuagem.
- Pesadelos podem ter mais de realidade do que imagina-se. — Expliquei como sabia sobre as tatuagens.
- Você não é a primeira a me chamar de Heidh, mas a primeira a descobrir tão rápido o meu limite. Seja bem vinda à guerra Nemu.
Lembro-me do espanto que senti ao ouvir aquele arranjo de letras. Não era uma brincadeira, mas guerra? O que seria uma guerra para ele? Quem eram os nossos inimigos?
- Guerra? — balbuciei de volta.
- Você já deve ter percebido que viver tem um preço. E o preço da vida é a morte, por isso homens querem guerra. Não basta para eles sobreviver querem um tal poder e ficam na busca dele para poder viver, Quem quer poder quer a morte e de preferência a dos outros, quem dribla a vida acha-se capaz de superar o limite.
- O que eu vim aprender?
- A viver, você não é capaz?
- Ninguém quer viver tanto quanto eu, se eu não for capaz ninguém mais será!
Ele sorriu contido e balançou a cabeça em sinal negativo pondo a mão fechada sobre a boca como quem tosse. Eu ri da expressão dele e ele sorriu ainda mais tentando controlar-se. Começaria ali a minha trajetória para o conhecimento deles, eu não imaginaria o tipo de coisa que eu enfrentaria.
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