Estações
6 Descoberta
- Onde você estava?
- Cumprindo minha palavra.
- Você deixou todos preocupados. — Ele estava sério. Os olhos de verão emanavam um calor ainda maior que o de costume, mas não era um calor brando e saudável, era um dia voraz de verão preso nos olhos claros.
- Por que? — Fingi uma normalidade que não combinava com meu rosto comum de surpresa ou curiosidade e desentendimento.
- Você pode se machucar lá fora.
- É mais coerente você dizer que eu posso me machucar aqui. — Disse jogando os filmes em cima dele.
Os olhos de verão pela primeira vez tornaram-se olhos com expressão definida e o que eles transmitiam era algum sentimento entre a dor e o medo, talvez culpa... Era um sentimento estranho por ser dele e que eu já havia visto em muitos rostos antes, mas nenhum trouxe a mesma intensidade em mim.
- Quantas vezes você olhou o espelho depois que veio pra cá?
NENHUMA... Essa resposta chocou-me como se eu tivesse deixado de beber água por 3 dias, espelhos nunca foram meus grandes companheiros, mas eu costumava buscar meu reflexo para encontrar algo em minha aparência que preenchesse o vazio da minha significância nula. E desde que eu entrei para aquele mundo eu não havia tido necessidade de buscar a imagem e pelo olhar dele, a imagem em mim diria algo que eu não sabia ainda sobre mim mesma.
Ele abraçou-me forte, o sentido que tinha aquele abraço eu não podia saber, ele jamais tinha demonstrado uma expressão pra mim, um gesto como aqueles poderia destruir meu cérebro de tanto pensar, o que eu veria no espelho? O homem conduziu-me até a sala onde eu pude ver alem do garoto de outono e a menina de primavera uma outra mulher...
Quando ela olhou para mim senti cada músculo meu resfriar, exatamente o contrário dos olhos de Heidh. Os olhos cinzas pareciam neve e o desprezo que ela exalava pela expressão pouco mais suave que de um bloco de gelo fazia meu coração temer. A adrenalina tomou conta do meu corpo por alguns segundos até os olhos de verão fitarem-me aquecendo-me novamente.
- Você é como nós! — A garota de olhos de primavera falou sorrindo.
- Sabemos que você repara em nós apenas os olhos. — O menino de outono complementou enquanto remexia o cubo colorido.
Era verdade, eu nunca havia prestado atenção em nada além dos olhos, não saberia descrevê-los se não pelo olhar singular deles. Era impossível olhar outra coisa além dos olhos, apenas eles davam a sensação tão familiar de vida pra mim que já havia sido rejeitada de diversas formas, o diferente daqueles olhos fazia-me sentir mais comum, embora mais inferior. Os olhos reluziam força e magnitude para mim.
- Você não aprendeu a se conter ainda, o mundo lá fora pode ser o fim para nós, entende? Você já deve ter percebido que não somos comuns.
- Do que você?... — Era visível que eles estavam tratando-me por igual, mas eu não era como eles, não podia sentir-me assim ao ver aqueles olhos tão belos fitando meu tosto tão simplório. No mundo onde eu vivia e era ignorada os olhos eram assustadores e intimidadores, mas naquele lugar eu havia sido acolhida pelos olhos bonitos de estações.
Heidh sorriu sem grandes traços no rosto, era linda a forma como ele expressava-se suavemente, eu pensava bastante sobre aquilo, mas daquela vez eu não pude raciocinar direito... Todos pareciam extremamente ansiosos e ao verem ele pegar um espelho ficaram ainda mais apreensivos.
O tempo entre o olhar no espelho e o choque foi incalculável. Senti o costumeiro flash de adrenalina ao ver olhos de verão fitando-me confusos. Eles eram sim, olhos quentes como o verão, incomuns... Notei neles vários rabiscos dourados como raios cortando a cor tabaco do fundo e a sensação de acolhimento que eles transmitiam provocaram repulsa. Não podiam ser meus.
- O que está acontecendo? — Não lembro de ter, em vida, ficado tão assustada como naquele momento, o maior trauma da minha existência fora aquele ganhando de longe do parto, famoso trauma humano... Naquelas condições eu nem senti mais humanidade no meu rosto. — Eu estou... Sou?... Monstro?
- Quanta hipocrisia. — Quem reclamou foi o garoto com olhos opacos de outono. — Na gente é bonito e em você é feio? Ou você olha pra gente com medo e só eu não me toquei?
- Não, mas... Não é, não era assim.
O pânico é a cegueira mais ardilosa e a surdez mais rancorosa que há. Ele doma os sentidos a seu favor e manipula reações. O pânico não é só o medo em grande escala, mas um estado de comando do espírito onde razão e emoções misturam-se e perdem ambas as forças deixando-se de corpo aberto para o instinto nu e cru de bicho homem. E tudo que eu pude naquele momento foi sentir pânico e correr até esbarrar na porta que bateu com o vento.
- Acredite, você não vai querer sair daqui. — A voz do garoto soprou como uma brisa cortante.
Eu não queria realmente fugir então fiquei ali encarando todos eles, foi a unica vez que vi todos rirem juntos. Eu finalmente estava em casa... Senti o corpo aliviar e a tenção diminuta me fez sorrir também. Notei que a garota com olhos de inverno voltou rapidamente a sua forma sisuda e até aquilo tranquilizou-me. Era hora de adaptar-me a mim mesma, realizando a mais árdua tarefa da vida, aceitar-se.
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