Estórias curtas de cada um
12 Capítulo 12 - Paulo
Notas iniciais
O que falar de uma pessoa que entre tantas outras, consegue se destacar?
Mas não em aparência e não em talento, ele apenas era uma pessoa comum, tentando ter uma vida comum. Mas infelizmente o que acontecia com ele diariamente não o ajudava, mas mesmo assim ele tentava, acordava todo santo dia tentando ser a melhor versão dele mesmo, embora estivesse sendo tudo muito complicado. Pois ele não chegou a conhecer sua mãe, não conseguiu sentir o amor materno, a proteção e o cuidado de uma mãe, o poder e a força que isso lhe teria dado e o ajudado a suportar tantas dores.
Seu pai sempre foi contra o fato dele estar ali e não sua mulher, e ele não escondia esse fato. Ela faleceu em seu parto, foi uma gravidez de risco, ela passou a vida sabendo que não poderia por conta de seu cisto no ovário, mas esse sempre foi seu maior sonho. E quando ela descobriu que estava grávida, ela não podia ter ficado mais feliz no presente que a vida tinha lhe dado. Ela planejou tudo, imaginava como ele cresceria, como ela estaria lá em todos os momentos que ele precisasse, seja quando ele estivesse triste, alegre, magoado… Era seu maior desejo estar lá. Mas seu pai nunca viu nada disso, ele sabia que poderia perdê-la, que não a teria mais, e que aquele feto a estaria tirando dele.
Isso foi nutrindo um rancor dentro dele, de uma criança que não tinha culpa alguma. Mas isso não era algo a ser pensado, então em todos os momentos em que ele se irritava, se frustrava, não conseguia aquilo que queria era apenas mais um motivo com que ele acabasse descontando tudo aquilo nele. Seu filho era tão sensível, queria apenas ter um pouco de paz para ele, conseguir olhar para frente e enxergar um bem estar, mas cada vez mais ele se via em meio a brigas e conflitos que desgostava tanto ele.
Paulo herdou o dom de cantar de sua mãe, e ela cantava quando estava grávida, e ele não sabia de nada disso, pois seu pai nunca dizia nada sobre sua mãe, só sabia dizer que ela morreu por sua causa. Às vezes acabava quebrando tudo dentro de casa em um de seus ataques de fúria, o fazendo se retrair ainda mais, ele começou a ir mal na escola, aos poucos foi se desligando das pessoas ao seu redor, porque não era visto com bons olhos. Mas sempre que ele cantava se sentia mais conectado a ela, como se de alguma forma conseguisse se conectar com ela profundamente, como um abraço quente. Paulo ia em lágrimas sempre que começava a cantar, sentindo em todo seu ser o amor de sua mãe.
Mesmo sentindo essa força, ele se sentia só, até porque estava sempre fisicamente só, pois sua mãe o acompanhava para todo o sempre. Mas ele tentou, de todas as formas possíveis, de todos as maneiras, jeitos, formas, ver a vida de uma forma mais leve, e na simplicidade, encontrar a paz que sempre sonhou em ter. Porém, chegou a um ponto em que via tudo desmoronando diante de seus olhos, todas as tentativas falhas de ficar sossegado com tudo ao seu redor.
Aos poucos ele foi adoecendo, e não tinha mais o que se fazer, era o que ele pensava. Mas dava para entender, se via em frente ao espelho de seu quarto chorando desesperado enquanto seu pai ainda não tinha chegado com mais problemas a acrescentar, somando mais uma dor de cabeça. Então ele escreveu, em meio a seu desespero e angústia que carregava a muito tempo.
“Eu tentei, de todas as formas eu tentei, a todo custo eu me agarrei a qualquer coisa que me fizesse ver a vida de outra maneira, de outra forma. Fazer continuar, mas vocês conseguiram trazer meu pior, mastigaram tudo aquilo que me fez tentar. Todas as vezes que eu tentei foi uma tentativa de sentir algo além de desgosto por mim mesmo. Sinto muito a quem magoei, sinto muito por não ter sido a minha melhor versão. Eu só não aguento mais nada disso. Só espero que depois dessa noite eu encontre a paz que sempre sonhei.”
Ele lia tudo aquilo em voz alta, para reafirmar o quanto ele tinha tentado, em meio a soluços desesperados, os olhos vermelhos e irritados de tanto chorar, ele cortou seus pulsos e deixou que seu sangue o levasse para um lugar melhor.
Aos poucos ele foi adormecendo até não acordar mais.
Seu pai quando chegou em casa, só percebeu algo de errado 1 dia depois que ele já havia feito aquilo.
Foi triste perceber que ele realmente não se importava com o próprio filho.
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