Estágio
1 Estágio
Notas iniciais
Não tenho muito a dizer (e nem vou começar por falar na minha outra fic em atraso se não capaz de atirarem pedra em mim), apenas desejar que se divirtam lendo essa one-shot tanto ou mais como eu me diverti escrevendo.
Boa leitura!
Sabe aquela chefe chata, que pega no seu pé a toda a hora, e ainda exige que você cumpra funções que em nada acrescentam à sua formação académica ou contribuem para a sua realização profissional? Pois é ….
E aquela chefe que olha para a sua cara como se a sua única competência fosse tirar cafés ou fotocópias? Ou pior, levar o cachorro dela para passear e ainda ter de ficar apanhando o coco como brinde?! E pior do que isso tudo …. ainda ter de cumprir todas essas tarefas com um sorriso agradecido no rosto como se ela estivesse te fazendo um enorme favor! Conseguiu imaginar? Ótimo, bem-vindos ao meu mundo. Essa é a minha chefe: Regina Mills.
- Miss Swan, o que está fazendo aí parada com essa cara? – ela me pergunta, embora não seja bem uma pergunta, e sim uma repreensão encoberta para deixar nítido o quanto eu sou idiota. – Vá buscar o meu café! – ela faz um movimento com a cabeça e revira os olhos, suspirando de modo impaciente. E eu em vez de responder torto, como seria de esperar, aceno afirmativamente com a cabeça e corro até à máquina de café que temos no corredor.
Por esta altura acredito que devam se estar perguntando porque eu aturo esse tipo de desaforo … bem, eu poderia me explicar de várias formas. Poderia alegar que enquanto estagiária de jornalismo não podia abusar da sorte, afinal conseguir um estágio na editora Mills & Mills não era para qualquer um. Poderia também argumentar com base na remuneração que me pagavam, o que para uma mera estagiária recém-licenciada não era nem um pouco ruim, muito pelo contrário, era dinheiro suficiente para ir pagando o crédito que meus pais, Mary White e David James, haviam contraído para que eu terminasse os estudos na prestigiada Universidade de Cambridge. Enfim, poderia escrever uma ótima história, recheada de muitos sacrifícios e das peripécias constantes no seio de uma típica família de classe média americana, e ainda, fazê-lo com enorme emoção, capaz de despertar os mais nobres sentimentos em quem lesse. Poderia, até porque, e não me armando nem um pouco em modesta, me graduei com uma das melhores notas nas matérias sobre escrita criativa. No entanto, a razão que me leva a aguentar essa …
— Swan! – suspiro. – Daqui a pouco você terá de me ir buscar o almoço e não o café! – ela completa, olhando para as horas no elegante relógio de pulso, com certeza de valor equivalente a um salário meu.
- Desculpe, Miss Mills! – me aproximo dela, quase derrubando a pilha de dossiers que carregava. – Mas a máquina avariou, só está saindo água deslavada no lugar do café.
- Então o que você tá fazendo na minha frente ainda? – pergunta, me olhando de cima a baixo, o que não me deixa de incomodar e fazer sentir as maçãs do meu rosto quentes.
Na ausência de uma resposta minha, ela balança a cabeça com desaprovação, e simplesmente se aproxima. Na minha opinião, demasiado.
- Nesse caso – ela baixa a voz e diz muito junto do meu rosto, o que me faz recuar com os dossiers e me desequilibrar. –, porque não foi ainda buscar na Starbucks na parte de baixo do edifício? – e antes de cair redonda no chão, vejo o seu corpo mais próximo e os dossiers sendo tirados das minhas mãos por ela. – Miss Swan?
- Sim? – respondo, vergonhosamente do chão, literalmente aos seus pés.
- O que está fazendo no chão? – a sobrancelha perfeitamente delineada, erguida, e o seu ar superior acompanhado de um sorriso empertigado nos lábios encarnados me encaravam de cima.
- Apreciando os seus sapatos? – desci os olhos pelas pernas descobertas pela saia lápis até aos tornozelos morenos. – São novos? – fingi ficar muito interessada nos sapatos, quando na verdade a minha vontade era cavar um buraco no chão e me recolher para dentro dele levando comigo a minha insignificância.
Regina Mills bufou, irritada, colocando a pilha de dossiers em cima da mesa.
- Okay okay! Eu vou! – me levantei rapidamente, já me afastando, não sem antes acrescentar: – Com natas?
Assim que olhei a surpresa no rosto dela, decorada com um sorriso disfarçado, percebi finalmente que havia feito algo que prestasse. A sensação de insignificância pareceu diminuir, e muito embora ela não tivesse respondido, se limitado a assentir com a cabeça, voltando na mesma hora a atenção para o celular, mesmo assim senti que havia ganho o meu dia.
*** *** ***
Mills & Mills é responsável atualmente pela edição de cerca de 20 títulos com circulação de 188,5 milhões de exemplares, em um universo de quase 28 milhões de leitores e 4,1 milhões de assinaturas, sendo a maior do segmento nos Estados Unidos. A editora é líder em 21 dos 25 segmentos em que atua e tem sete entre as 10 revistas mais lidas do país, inclusive a Lux&Style magazine, uma revista feminina que abrange temas desde a moda, beleza, lifestyle e informação para a mulher com atitude.
Não posso dizer exatamente que esse tipo de publicação era o meu foco quando entrei em Jornalismo, mas é inegável o quanto o profissionalismo e a competência são requisitos obrigatórios para quem trabalha para a editora, por isso, não tenho do que me queixar. Assim que fui admitida para o estágio, não podia ter ficado mais satisfeita, pois logo pensei que era de fato uma privilegiada por ter como empregadora, e simultaneamente, como rampa de lançamento para o mundo profissional, uma empresa tão conceituada no mercado; sem dúvida seria ótimo para o currículo!
Por outro lado, meus pais tinham ficado tão orgulhosos quando souberam da notícia que não tinha tido coragem, apesar dos três meses já passados, de lhes contar que na verdade as minhas verdadeiras funções ali dentro nem sequer se aproximavam dos trabalhos realizados para técnicas de expressão desenvolvidos no primeiro ano de faculdade. E eu bem sabia o que eles diriam se soubessem a verdade …. “Emma Swan, minha filha, o conhecimento deve ser aplicado, ser privada de tal coisa é a pior das desgraças!” ou então “Emma, não se deixe pisar por ninguém, mais do que dinheiro, em primeiro lugar está o seu valor e contribuição para o mundo”. Sim, eu sei, parece exagero …. mas esses são meus pais, demasiado íntegros e corretos para esse mundo de cão.
De qualquer forma, como eu estava dizendo antes, nada disso faz parte do verdadeiro motivo pelo qual eu continuo estagiando na Mills & Mills. Vocês já devem ter percebido, acho que a única pessoa no mundo que não vê isso é aquela que eu gostaria que visse. Quer dizer, não sei se gostaria, ia depender da reação dela (risos). Claro que isso está fora de cogitação, além da minha incapacidade em ter uma conversa normal com ela, como vocês já puderam ver, ainda tem outro fator que em nada favorece o meu lado. Regina Mills é rigidamente hétero. Sim sim …. já sei o que devem estar falando; que esse negócio é mito, que deixa ela experimentar para ver se ela não fica rigidamente outra coisa (risos). Nossa, eu sou uma idiota mesmo! Enfim, o que realmente acaba com qualquer possibilidade mais ínfima que fosse de eu ter uma chance com ela tem nome e apelido: Robin Hood.
Robin Hood é o cara mais metido a besta, execrável, cafajeste, falso moralista e cínico que eu alguma vez conheci. E não que eu o conheça direito, graças a Deus, mas só um cego não vê como ele come a irmã de Regina com os olhos quando vem aqui. Isso se não comer também de outra forma! E isso não é dor de cotovelo nem nada do que se pareça, eu posso gostar de Regina e tudo mais, mas isso não me impede de continuar a ser boa a ler as pessoas. E afirmo com toda a certeza, esse Hood não vale nada!
Por falar em irmã, vejo ela assim que as portas do elevador se abrem. Está como sempre, e condizendo com Regina, impecável. Usando um vestido primaveril verde água que faz a cor dos seus cabelos soltos sobressaírem na cascata de mechas ruivas que lhe caem pelos ombros alvos descobertos pelo modelo do decote do vestido.
- Olá … Emma, certo? – se dirige a mim, com um sorriso cordial. Diferentemente de Regina que sempre me chama de Miss Swan, Zelena desde que me recebeu para a entrevista de estágio optou sempre por me tratar pelo primeiro nome. Aliás, Regina nem sequer estava presente na entrevista, daí eu ter conseguido o estágio, provavelmente se tivesse sido ela a me entrevistar eu não teria nem mesmo conseguido dizer o meu nome. Era esse o efeito que aquela mulher, de feições latinas e cheiro doce a maçãs, tinha em mim.
- Olá, Miss Mills. – devolvi o cumprimento. Ela fez um aceno rápido com a mão, descendo-a até ao meu ombro, onde deu um apertãozinho.
- Querida, quanto formalismo. Aposto que está aprendendo com a minha irmãzinha! – soltou uma gargalhada harmoniosa. – Pode me tratar por Zelena mesmo. – deu uma piscadinha, o que me fez mexer desconfortável no lugar, mas ela já desviara a atenção de mim para outro corredor. – Por falar nela, sabe onde ela está? Não há meio de apanhá-la no celular.
- A última vez que a vi ela estava na sala de reuniões – assim que estas palavras saíram da minha boca ela avançou na direção contrária que era onde ficava a sala de reuniões. – com o noivo. – acrescentei a última parte antes que ela sumisse, e assim que o fiz, vi-a se virar para mim novamente com um ar desconsolado.
- Ela está com Robin? – na verdade foi uma pergunta estúpida, como se eu lhe tivesse dito algo de outro mundo, mas ela parecia verdadeiramente surpreendida.
- Sim … que eu saiba continua a ser o noivo, certo? – saiu a pergunta impertinente que mais soou a provocação antes mesmo que eu tomasse consciência. – Ah.. desculpe. – baixei a cabeça.
- Não é necessário. – negou com a cabeça de forma fraca. – A culpa não é sua. – adicionou baixo, e mudando repentinamente de direção, passou por mim e se dirigiu novamente para o elevador.
- Ah …. Okay? – disse em voz alta , sem entender grande coisa, mas sem deixar de reparar também no ar transtornado nas feições da mulher antes das portas do elevador se tornarem a fechar e eu perdê-la de vista.
Eu bem digo que esse Robin não presta! Ele anda comendo as duas irmãs Mills!
*** *** ***
- Aqui estão as cópias que me pediu, Miss Mills. – disse, entrando na sala de Regina.
- Deixe aí. – respondeu de forma ausente sem tirar os olhos de um catálogo que eu não reparei do que era.
Como ela não dizia nada, tirei o celular da calça jeans que usava e espreitei as horas. Eram quase seis horas da tarde, fim de expediente.
- Precisa de mais alguma coisa? – perguntei meio sem jeito. Normalmente ela me dispensava logo com um “não vê que são horas de se ir embora?” ou então “arrume uma vida e vá beber pra algum bar. Não é assim que vocês jovens fazem?”. O que não deixava de ser rude e sem sentido; primeiro porque, bem, era rude, mas hein, esse era adjetivo para Regina Mills; e segundo porque ela não era tão velha assim, devia ter uns … vinte e oito, vinte e nov ….
- Porque se importa? – perguntou, levantando finalmente o olhar e me encarando.
- Ah? – como sempre aquela mulher me deixava fazendo uma completa figura de atrasada mental.
Ela revirou os olhos como sempre fazia cada vez que eu a irritava.
- Folgo em saber que após três meses continua tão fluente como antes, Swan. – disse, sem qualquer expressão que eu pudesse decifrar.
- Desculpe. – abanei a cabeça me sentindo … imbecilóide … isso existe? Mas foi aí que me dei conta de algo que me surpreendeu, e contrariando todas as minhas inseguranças, arrisquei perguntar: – Três meses? Anda contando? – ousei esboçar um sorriso de desafio.
E parece que a ousadia a pegou mesmo de surpresa, porque por longos segundos não disse nada, se mantendo apenas me olhando. Aquilo me fez sentir completamente exposta, não sei exatamente o que era, mas o olhar, a presença, cada gesto daquela pessoa ali à minha frente me deixava em um estado da mais pura vulnerabilidade. Sem aviso, os seus lábios curvaram lentamente, devolvendo o desafio no meu sorriso.
- A última estagiária aguentou dois meses. – informou simplesmente. – Não a censuro. Eu posso ser bastante… – fez uma pequena pausa, parecendo ponderar na melhor palavra. – …. difícil.
- Estou a ver. – e desta vez encarei-a com a mesma intensidade com que ela me encarava. Não desviaria o olhar primeiro desta vez, ela seria obrigada a ceder. Após algum tempo, incontável por mim, ela desceu o olhar, e eu sorri internamente.
- Porque se importa? – voltou a perguntar, mas desta vez não me encarava e sim ao catálogo de novo. – Esse emprego é tão importante assim pra você? Eu posso-te passar algumas recomendações. Essa última estagiária de que falei está trabalhando agora no The New York Times.
- Esse emprego é importante pra mim. – respondi, fazendo com que ela regressasse com o olhar no meu.
- Entendo. – sorriu, mas pude perceber que era um sorriso com uma pontada de … desilusão?
- Na verdade – dei uma pausa, engolindo em seco. – esse emprego me tem fascinada.
- Que parte? – deu uma gargalhada, e diferente de outras vezes que já a escutara rindo, desta vez havia uma leveza, uma espontaneidade, uma legitimidade como se aquela fosse a verdadeira risada de Regina Mills, e eu, ali, a privilegiada por a escutar. – A parte dos cafés, dos passeios caninos ou …. das quedas aparatosas …. – seus olhos cintilavam em divertimento. – no chão? – acrescentou com uma ponta de acidez.
Acabei rindo com ela, sem me importar por estar sendo usada como meio de chacota. Eu simplesmente decidi que a partir daquele momento em diante eu moveria céus e montanhas para fazê-la rir todos os dias como ela estava rindo agora.
- Eu confesso que um dos meus grandes talentos é saber cair. – declarei com descontração. – E mantendo a vista privilegiada! – completei sem me importar mais com as possíveis bobagens que poderiam sair da minha boca.
- Swan! – ela riu mais ainda, chegando a ter que levar a mão aos olhos para evitar de borrar a maquiagem ameaçada com as lágrimas de júbilo que pareciam querer cair. – Você sim … me deixa fascinada. – disse após alguns instantes rindo.
Congelei. Ela reparou, e imediatamente, a tensão voltou a recair sobre nós.
- O que eu quis dizer foi que – ela parou, pensando em como articular. – esse seu jeito às vezes me deixa sem saber como reagir. Bem, deixa pra lá. – balançou levemente a cabeça e olhou as horas – Tá na sua hora, não é mesmo?
Assenti com a cabeça sem sequer confirmar as horas, a verdade é que desconfiava que até já devia passar das seis.
- Vejo você amanhã? – ela perguntou. Foi estranho, ela nunca me perguntara nesses três meses nada similar. Foi quase como se ela quisesse ter a certeza que eu voltaria, quase como se ela …. se importasse. Tentei abandonar aqueles pensamentos inoportunos e respondi com um sorriso:
- Claro.
*** *** **
Mais um mês se passara, perfazendo a soma de quatro meses correspondentes a mais de metade do tempo total atribuído para aquele estágio. Dois meses era o que restava. Pensar que depois disso poderia nunca mais ter contato com Regina me deixava num estado profundo de ansiedade. A parte boa é que no último mês ela começara a distribuir verdadeiras tarefas de jornalismo, ou pelo menos, tarefas com pé e cabeça de alguma forma relacionadas com a minha área de formação. Sempre com supervisão direta da própria editora, Regina fizera questão de acompanhar cada trabalho meu, cada esboço, cada ideia e cada aprimoramento. Juntas, após várias correções e chamadas de atenção, editávamos as peças finais da coluna “Moda Jovem” atribuída como minha responsabilidade a solo.
- Então? – aguardava que ela ditasse o veredicto, já que havia feito uma série de alterações seguindo as indicações que ela fizera. – Fiz tudo errado! Eu sabia …. Miss Mills, eu …
- Emma – cortou, e pela primeira vez, o meu primeiro nome foi proferido por aqueles lábios, mas não foi proferido de qualquer forma, mas sim com uma suavidade tão peculiar que eu ainda tinha algumas dúvidas que se tratava de Regina Mills falando. – essa sua insegurança não se justifica. – me olhou por detrás da mesa da sala grande onde se realizavam as reuniões. – Por favor, sente-se aqui. – puxou a cadeira ao lado dela.
Nervosa, me dirigi até ela, e obedecendo, me sentei ao seu lado mantendo as mãos sobre o colo. Quase imediatamente senti o seu toque em uma das minhas mãos, e congelei. Se ela notou, nada disse, apenas pegou numa das minhas mãos a trazendo para cima da mesa.
- E acho que é hora de deixarmos o formalismo um pouco de lado, hm? – apertou a minha mão de forma simbólica, num gesto de amizade. – Pode me chamar de Regina. – permitiu, e tive de forçar os meus olhos a se manterem abertos porque o aroma que emanava da sua pele era tão doce e gostoso que se deixasse meu instinto à solta o mais provável era acabar mordendo aquela pele macia e morena.
- Ok, Regina. – assenti, sorrindo.
- Gostei muito do que você fez com o tema. – disse jovialmente, dirigindo a sua atenção para o texto em suas mãos: – “Jaquetas de couro: Feminilidade vs. Atitude”. – leu o título, e me senti corar sem saber muito bem porquê.
- Não em voz alta. – pedi, sentindo as mãos suarem.
- Deixa de ser boba. – soltou a minha mão e eu agradeci internamente, mas não me safei do resto já que ela recomeçou lendo de onde parou: – “Acho que nunca foi tão difícil ser mulher como nos tempos de hoje. Nunca tivemos tanta liberdade de escolha, mas simultaneamente, nunca tivemos tanto receio em fazer a escolha errada. São estes os sentimentos contraditórios e pensamentos díspares que muitas vezes se revelam ao se abrir o closet de muitas jovens mulheres desta era moderna. Frequentemente é nos exigida feminilidade, mas não fragilidade. Atitude, mas não rigidez. Somos bombardeadas com estereótipos como exemplos a seguir do que é ser feminina ou do que é a imagem da mulher do século 21, segura e repleta de atitude. Depois, abrimos o tal closet, retiramos de lá a nossa jaqueta por estrear de couro, vestimos uns jeans bem justos, como quer a moda, e saímos porta fora com a confiança redobrada porque foi assim que nos ensinaram. A confiança depressa é abalada quando uma outra pessoa, ironicamente, e na maior parte das vezes mulher, nos olha de cima a baixo e cochicha no ouvido da outra um “mulher macho” desagradável como se nossa escolha de vestuário fosse na verdade um atentado a todo um conjunto de gerações que lutou arduamente pela igualdade entre os géneros, entre outras coisas. Não vale a pena aprofundar este assunto, até porque aqui fala-se de moda, mas não será esta mesma moda, a dos novos tempos, responsável por difundir novos estilos de vida? E se o assim é, não será mais do que tempo de cada uma de nós vestir a sua jaqueta de couro simplesmente porque lhe assenta bem com o tal jeans que faz seu bumbum um pedaço de atrevimento e mau caminho? Sejamos duras, atrevidas, femininas, sejamos isso tudo, adotemos um novo estilo, particularmente nosso e transparente. Eu, particularmente, já adotei o meu. Chama-se ser mulher. E a melhor parte? Não vem com restrições, apenas com vontade de ser feliz.”
Ela terminou de ler e não disse nada por alguns segundos. Minhas mãos estavam ainda mais molhadas e eu nunca me sentira tão sem jeito como naquele momento. Não é que não confiasse na minha escrita ou algo do tipo, mas tinha noção que escrever para trabalhos da faculdade não era o mesmo do que escrever para uma revista com aquela amplitude.
- Você acredita mesmo nisso? – ela perguntou depois de um tempo, me encarando com atenção. Franzi a testa, sem entender ao que ela se referia ao certo, e ela esclareceu – O estilo … ser mulher? – sorriu. – Não vem com restrições,
- Apenas com vontade de ser feliz. – interrompi-a, completando.
- Sim.
- Eu tenho de acreditar. Sou mulher. – respondi, devolvendo o sorriso, agora mais confiante. – Ficou bom mesmo? – prendi o lábio com os dentes ainda um pouco nervosa.
Ela desceu o olhar castanho até aos meus lábios sem dizer nada, me permitindo contemplá-la mais à vontade desde a testa, passando pelo nariz até as maças do rosto, descendo até a curva do queixo. Seu semblante era lindo.
- Nunca li nada tão revigorante. – respondeu, subindo o olhar novamente até aos meus olhos. – Eu compraria. – piscou o olho, e brincando me deu uma cotovelada de forma cúmplice.
- Obrigada.
- Além disso, as jaquetas ficam bem em você. – disse já sem me encarar, se levantando. Eu acabei rindo com aquilo.
Vi ela arrumar as folhas num dossier, mas não sem antes reparar no catálogo que um mês antes ela estudava com extrema atenção. Olhando mais de perto percebi tratar-se de um catálogo de uma coleção de vestidos de noiva.
- Ainda não conseguiu escolher o vestido? – reunindo toda a coragem que tinha arrisquei perguntar. Ela primeiro enrugou a testa sem entender, mas acompanhando a direção do meu olhar viu o catálogo sobre a mesa e logo associou as coisas. – É que …. desculpe se me estou intrometendo.
Ela fez um movimento com a cabeça como se dissesse que não tinha importância, e tornou a se sentar ao meu lado, recolhendo o catálogo para si. Folheou algumas folhas em silêncio, e seu rosto parecia esconder tanta dor que num ato involuntário acabei por colocar uma mão por cima da sua.
- Não gosto de ver você assim. – sussurrei, baixinho. – Me desculpa.
- Emma – devolveu o sussurro, e embora ela estivesse triste, não consigo descrever o quanto o seu timbre de voz me fez sentir arrepios desde a espinha dorsal até às pontas dos pés, calçados numa bota de cano alto. – pare de pedir desculpa. Você não tem culpa.
- Okay.
- O casamento vai ser cancelado. – e aquilo me pegou de surpresa de tal forma que não soube o que dizer, mas também não foi preciso porque ela continuou – Robin engravidou a minha irmã.
- Oh! – exclamei, pateticamente. – Sinto muito?
Nossa como eu sou idiota! Eu realmente dei o tom interrogativo à frase? Contudo, antes que eu pudesse corrigir de alguma forma, ela começou rindo, me deixando num estado legítimo de confusão.
- Só você! – gargalhou, largando o catálogo sobre a mesa. – Sempre tão eloquente, Miss Swan!
- Só eu mesmo. – murmurei de forma irónica, enquanto revirava os olhos para mim mesma. – Pelo menos fiz você rir. – e de fato só por isso valia a pena fazer figura de idiota.
- Você sempre me faz rir. – respondeu, desta vez séria. Seu rosto se havia aproximado tanto que eu estava com sérios problemas em respirar. – Emma …
- Hm?
- O que vocês jovens fazem pra esquecer os problemas? – perguntou.
- Você fala como se fosse uma velha. – murmurei. Estávamos nessa troca de sussurros quase como se estivéssemos trocando segredos.
- E não sou?
- Tá de gozação não? – acabei rindo, respirando de novo. Ela devia estar sentindo minha respiração em cima dela, porque eu sentia a sua. – Você tá com uns quê, 28?
- Faço 31 mês que vem. – sorriu. – Você faz 22 daqui a uma semana. – minha cara deve-se ter contorcido porque ela riu. – Eu não ando te perseguindo.
- Eu não disse isso.
-Eu sei que não disse. – baixou o olhar até as nossas mãos, a minha ainda por cima da sua. Ia fazer menção de a tirar, mas ela não deixou, colocando a outra por cima da minha. – Pode não aparentar, mas eu estou sempre atenta aos meus funcionários.
- Você se importa, eu já havia percebido. – declarei, sorrindo.
- Você se importa também. – revidou. Depois voltei a sentir aquele clima tenso que volta e meia recaía sobre nós, e ela retirou as mãos das minhas.
- Está na minha hora. – disse, olhando o visor do celular.
- Assim parece, Emma.
*** *** ***
- Mas é você que eu amo! – escutei o tom grave da voz de Robin do outro lado da porta. Não queria ter ficado para ouvir a conversa, e não era um hábito meu, mas assim que os vi se trancando no escritório de Regina, e esta, por sua vez, visivelmente transtornada, não consegui evitar de ficar do lado de fora escutando, até porque eles não estavam falando propriamente baixo.
- Tem certeza que não confundiu as Mills? – ironizou. – Sim, porque somos tão fisicamente parecidas não é verdade? Me poupe, Robin.
- Regina, você sabe como sua irmã pode ser às vezes. Nós tínhamos tido aquela discussão enorme e eu não tava bem, e …
- E o quê Robin? Nós discutimos e você pra descontar sua frustração vai e transa com Zelena! Onde nesse mundo isso tem justificação? E o pior! Tinha de ser com a minha irmã! Não podia ser com outra vagabunda qualquer, tinha de ser uma com o meu sangue!
- Também não precisa falar assim.
Escutei passos, e me afastei da porta mesmo a tempo de ver Zelena entrar para se juntar à confusão. Mas esse povo tinha de lavar a roupa suja em pleno horário de expediente?
- Fala-se na vagabunda, e eis que ela aparece! – escutei a voz de Regina lançando com veneno.
- Olha o respeitinho, irmã.
- Respeito? Mas você por acaso se deu ao respeito pra vir agora falar em moralismos?
- Tecnicamente eu sou uma pessoa livre e desimpedida, agora não tenho culpa se você não sabe como segurar seu bofe, querida. E olha que ele estava bem necessitado.
O som do que me pareceu ser uma bofetada soou bem alto, e de seguida, mais gritos. As duas irmãs basicamente pareciam se ter atracado dentro do escritório e bem … eu entrei!
- Regina! – corri para o seu lado a agarrando pela cintura, enquanto via Robin agarrando Zelena.
- Eu não colaboro mais com você nessa porcaria de editora! – Zelena gritava. – Ouviu bem Regina? Pode tirar o meu Mills dessa porcaria …
- Por favor, se acalmem! – pedia o idiota do Robin, mas sem sucesso.
- O seu Mills como você diz também só servia mesmo de enfeite! Você sempre preferiu andar no shopping batendo perna do que estar aqui trabalhando!
- Eu te odeio! – Zelena berrou, mas desta vez já aos prantos, com lágrimas escorrendo pelo seu rosto sardento. – Eu não tenho culpa se eu me apaixonei pelo mesmo homem que você.
E foi essa declaração em específico que fez a morena nos meus braços deixar de espernear.
- Você o ama? – perguntou, subitamente muito calma.
- Claro que eu amo! Eu me senti horrível depois … mas ele me deu esperanças, disse que vocês não andavam bem, e depois – ela suspirou, cansada. – eu descobri que estava grávida.
— Eu pensei que você tivesse feito isso pra me afrontar. – admitiu. – Zelena …
- Eu sei, eu sei. Sempre fiquei de olho no que era seu. – confessou emburrada. – Mas eu juro que desta vez é verdade. Eu quero casar com ele!
- O quê? – Robin perguntou completamente perturbado. E eu, admito, embora toda a situação fosse trágica, tive de segurar naquele momento a vontade de rir. – Eu já tenho noiva.
- Tinha! – gritou Regina. – Passado. Portanto, é oficial, vejamos o lado bom …. Você pode noivar novamente, só muda a noiva!
- Regina, querida, pensando bem eu não quero deixar a editora. Me perdoa, vamos esquecer as besteiras que dissemos? – e da mesma forma que começara a chorar, agora a ruiva sorria abertamente para a irmã. Ok, estava provado, aquela mulher era doida.
- Claro, claro. – inspirou fundo. – Se acerte com Robin, ok? Depois falamos com mais calma irmã.
- Mas eu não quero … — começou o homem por dizer, mas foi cortado por uma Zelena extremamente feliz que o puxou para fora do escritório.
— Te amo, maninha! – ainda ouvimos a ruiva gritar no meio do corredor com Robin sendo levado pelo colarinho.
- Okay, isso foi estranho. – disse, assim que fechei a porta.
Regina riu, me surpreendendo novamente.
- Acha mesmo? – zombou, sentando na cadeira.
Eu abanei a cabeça e me sentei na cadeira de frente para ela, do outro lado da mesa.
- Sua irmã é bipolar. – comentei.
- Espere até conhecer minha mãe. – respondeu com humor. Ao ver que eu ia abrir a boca, interrompeu, levantando a mão. – Não pergunte.
— Okay. – sorri.
Depois, o habitual silêncio, mas curiosamente, desta vez não estava envolvido em tensão, muito pelo contrário, parecia haver uma leveza repentina no ar que tornava tudo mais claro e fácil.
- Faço 22 anos daqui a algumas horas. – disse calmamente. Ela me encarou e sorriu.
- É verdade, você faz. – se endireitou na cadeira, e cruzou as pernas. – Não vai comemorar com os seus amigos … família? – fez uma pausa meio estranha, antes de adicionar – Namorado?
Acabei dando risada pelo modo como ela pareceu atrapalhada, o que era extremamente raro tratando-se de Regina Mills.
- Não tenho namorado. – revelei, e talvez, muito provavelmente tenha sido da minha cabeça, mas ela pareceu aliviada com aquela resposta, mas talvez tivesse sido mesmo impressão. – E este ano não tenho nada planeado.
Ela assentiu, e novamente permanecemos em silêncio. Era acolhedor.
- Você está bem? – perguntei depois de alguns segundos.
- Sim, eu estou. Estranho, não?
- Porquê estranho? – quis entender.
- Porque eu acabei de desfazer o noivado; ganhei oficialmente um cunhado, e bem, vou ser tia. – respondeu bem humorada. – Talvez eu também seja bipolar. – riu.
- Vai ver é de família! – exclamei, e assim que olhámos uma para a outra desatámos a rir de forma compulsiva.
Talvez fossemos todos um pouco bipolares.
*** *** ***
Regina faria 31 anos daí a uma semana, o que significava que apenas me restava somente um mês na Mills & Mills, a não ser claro, que ela quisesse me dar um emprego no final do estágio. E embora eu estivesse bastante reticente no início, com o avançar dos dias e das semanas, eu cada vez mais desejava ficar. Estava desenvolvendo um bom trabalho na coluna “Moda Jovem”, e na última semana, Regina me havia deixado acompanhá-la a uma sessão fotográfica em Seattle em um dos estúdios de produção da editora. Foi uma experiência fantástica! Ver o trabalho dos fotógrafos do outro lado da lente, e as sugestões de Regina no que dizia respeito à postura e expressão das modelos foi incrível.
Na época dos cafés e fotocópias, não fazia ideia que Regina Mills em pessoa se ocupava de grande parte do trabalho da revista. Ela fazia questão de estar presente durante quase todo o procedimento de edição de modo a assegurar que a essência das publicações se mantivesse intocável. Claro que nem sempre isso era possível, até porque diversas vezes ela viajava até outras filiais da empresa para orientar os vários departamentos, mas sempre estava por dentro de tudo que se passava na Mills & Mills. Já Zelena Mills era outra história. Realmente percebi rapidamente que a irmã mais velha de Regina estava mais direcionada para outro setor; sua maior preocupação era marcar presença nos vários eventos de divulgação das publicações da editora. E de qualquer das formas, dentro desse setor, não se podia negar que a ruiva fazia um excelente trabalho na imprensa. Era polida o quanto bastasse, de presença leve e encantadora, e sempre com um sorriso largo nos lábios rosados.
Mas Regina …. Regina me fascinava! (risos) Desde o primeiro momento que a vi não consegui ter olhos para mais ninguém a não ser para ela. Até meu ex-namorado, Killian Jones, caçoava de mim. Ah, é verdade! Ainda não havia falado de Killian! Mas que despiste o meu.
Killian Jones é um rapaz moreno, bonitão, com um olhar felino e perigoso, mas que se você olhar com atenção para as suas íris azuis você terá a certeza que é um cara leal e um amigo paciente. Tem ar de durão, e acho que foi isso que um dia me fez aceitar namorá-lo, mas no fundo é um coração mole. Depois do namoro acabar ficámos uns meses sem nos falar, até porque ele me idolatrava, vivia em minha função. Mas o tempo é sábio e a vida rasteira, então depois de algum tempo, Killian começou a se interessar por Belle, uma menina que cursava também jornalismo, mas em outro ano, e tudo melhorou entre a gente. Ele ficou mais firme, mas de um jeito diferente, acho que mais seguro de ele mesmo, e por mais que ele não admita, acho que Belle conseguiu ensiná-lo a gostar mais de si próprio. Acho que até posso afirmar que ele acabou por se tornar no meu melhor amigo depois disso. Sem esquecer Ruby, claro! Mas essa danada eu já conheço desde que a gente aprontava na rua bem pequenas, parecíamos dois moleques sempre com os joelhos esfolados. (risos)
Mas retomando o foco! Regina! (mais risos) Tenho de tomar cuidado para não ficar como Killian no tempo que me namorava. Como eu dizia, ele sabe dos meus sentimentos pela minha chefe, e apesar de ter ficado surpreso na altura, hoje em dia ele vive caçoando de mim.
- Eu adoro o fato de você ser lésbica. – dizia naturalmente quando estávamos no barzinho perto de casa onde nos encontrávamos tantas vezes.
- Eu não sou lésbica. – respondi como tantas outras vezes revirando os olhos.
- Amor, porquê a negação? Já era hora, não? – atirou, rindo.
- Quem está em negação é você, Jones. – se intrometeu Ruby, dando um gole no meu drink. – Você adorava que Emma fosse sapata só pra aliviar seu orgulho de macho ferido.
- Ruby! – repreendi, mas não consegui deixar de rir. Killian acabou rindo também.
- Um brinde a isso! – sugeriu o moreno, levantando a mão para pedir outra rodada. – Essa é por minha conta!
- O que deu em você pra estar tão mãos largas assim? – quis saber, aceitando o shot de tequila. – Eu não devia beber isso. – pensei melhor, olhando a bebida. – Vou apanhar uma bebedeira.
Eles riram, erguendo os copos.
- Um dia não são dias, senhorita responsável. – provocou Ruby do meu lado. – Não se preocupe que a gente não conta nada pra patroa! – e desatou a rir novamente.
- Não admira que eu seja uma idiota! Olhem pra vocês! – balancei a cabeça, rindo também. – A quê brindamos, Kill?
Ele esboçou um sorriso enorme e cintilante, e erguendo o copo na nossa direção, respondeu satisfeito:
- Belle aceitou namorar comigo!
*** *** ***
- Bom dia, Regina! – cantarolei, entrando na sala dela. Pousei um copo da Starbucks de café com natas sobre a mesa, e sorri.
- Bom dia! – exclamou, espantada, deixando o olhar cair sobre o copo com café. – A que devo tamanha gentileza? – perguntou, se referindo ao café.
Encolhi os ombros, e respondi com simplicidade, sem pensar muito sobre isso:
- Há coisas que não têm preço.
Ela deu uma gargalhada sonora, mas curta.
- Como estamos modestas hoje. – retorquiu, mas não havia qualquer tipo de tom maldoso na sua entoação. – E concordo – deu uma pausa para dar um gole no café. –, há coisas que não têm preço mesmo. – deu uma piscadinha, me fazendo corar.
Silêncio; de repente me senti nervosa como já não me sentia há algum tempo na sua presença.
- O que eu quis dizer é que – levei a mão aos cabelos para disfarçar o nervosismo, apesar de eu achar que só piorou. – ter a oportunidade de estar aqui, com você, não tem preço.
Ela fixou as íris escuras em mim, como se me analisasse. Não disse nada, como era hábito seu quando algo lhe fugia do previsto, e só após alguns segundos sorriu.
- Emma, eu estava brincando. – assegurou, docemente. – Você não tem razões pra ser modesta. – lançou com uma pontinha de divertimento, e se levantou, caminhando até mim. – Até porque a sua presença aqui, comigo, também não tem preço. – confessou.
- Okay. – assenti, quase de certeza com um sorriso pateta no rosto.
- Quero te fazer um convite. – disse, alargando o sorriso lindo em seu rosto moreno.
- Um convite? – repeti de forma idiota.
- Não é nada de especial, apenas uma comemoração para os amigos mais chegados e família. – e de repente era ela que parecia ter ficado nervosa. Ou isso, ou estaria já imaginando coisas, o que não é improvável com a minha imaginação demasiado fértil e louca. – Faço 31 anos este Sábado.
- Eu sei! – me apressei a responder, e ela acabou rindo com o exagero na minha entoação. Ela assentiu com a cabeça, e continuou:
- Vou dar um jantar em minha casa. – informou. – Gostaria muito que você fosse.
- A sério? – nossa, eu perguntei mesmo isso? Idiota!
- É claro que é a sério, boba. – respondeu, ainda sorrindo. – Não é nada demais, ok? Moro num apartamento pequeno, mas aconchegante. Você vai gostar.
- Okay.
Ela se preparava para se sentar novamente, mas antes pareceu se lembrar de algo, e virou para mim de novo:
- Não quero que gaste dinheiro com presente.
- Mas …
- Nada de mas. – cortou, ríspida. E de repente parecia que a sua fisionomia se alterara para a antiga Regina Mills que eu conhecera há cinco meses atrás. – Sua presença vale mais do que qualquer presente. – acrescentou sucintamente. Tão sucintamente que quase não tive tempo de assimilar o significado das suas palavras, pois ela logo mudara de assunto. – Agora vamos trabalhar!
*** *** ***
- Você tem certeza que ela disse isso, Emma? – Ruby perguntou muito séria.
- Quantas vezes tenho de repetir, ela disse, rápido como se fosse apanhar um voo de última hora, mas com todas as letras, e citando: – inspirei fundo e declarei na íntegra as palavras de Regina. – “Sua presença vale mais do que qualquer presente.”
- Uau!
- Pois é! – exclamei, me encostando à cabeceira da cama do meu quarto.
- Ela te quer na cama dela! – uma voz grave soou vinda do telefone, no alta voz. – Swan, melhor você comprar uma lingerie bem bonita pra ela desembrulhar o presente dela! – e se desmanchou a rir do outro lado da linha.
- Você tem problemas, Jones. – ripostou Ruby, me devolvendo o meu revirar de olhos.
- Vocês estão revirando os olhos pra mim não estão? – soou a pergunta vinda do telefone.
— Como você sabe? – perguntámos as duas ao mesmo tempo.
- Mulheres. – murmurou o moreno, do outro lado da linha telefónica.
- Talvez eu esteja querendo enxergar demais, sei lá, procurando cabelo em cabeça de ovo! – disse, frustrada.
- Procurando o quê? – Killian perguntou.
- Cala a boca! – gritou Ruby na direção do aparelho.
- Talvez ela precise de uma amiga com quem desabafar. – continuei, pensativa. – Ela não parece ter grandes amigos.
- Ou talvez ela não saiba como se expressar emocionalmente. – retorquiu a minha amiga. – Ou então …. Já sei! – bateu com as mãos como se tivesse acertado a lotaria. – Talvez ela esteja perdidamente apaixonada por você, mas não saiba como agir porque nunca ficou com mulher nenhuma!
- Ruby …
- É sério, Emma! – cortou, entusiasmada. – Imensas mulheres descobrem essas coisas só depois dos 30!
- Quais coisas, Ruby? – contestei, começando a ficar irritada. – Não ajude o meu cérebro louco a criar histórias! Já decidi! – suspirei. – Vou me desculpar, mas dizer que surgiu um imprevisto que não me deixa ir ao jantar.
- Deixa de ser idiota, Swan! – desta vez foi Killian a repreender. – Vocês mulheres se perdessem tanto tempo a fazer sexo como a inventar mil e uma explicações para o inexplicável de certeza que não haveria divórcios!
- Machistazinho desgraçado! – berrou Ruby, quase saltando para cima do telefone. – Sua sorte é não estar aqui! Pois saiba que se vocês homens perdessem tanto tempo nas preliminares como em frente ao espelho pra ver quem o tem maior, talvez não fossem tão babacas!
- Parem os dois! – gritei.
- Foi ele(a) que começou! – responderam ao mesmo tempo.
- Meu Deus! O que eu faço com vocês? – gritei, exausta. – Killian, depois falamos. – disse, me preparando para desligar.
- Espere. – pediu. – Prometa que vai nesse jantar.
- Eu não sei.
- Amor, o pior que pode acontecer é você receber um não, certo? – assenti com a cabeça como se ele me pudesse ver. – Você não tinha adotado um novo estilo?
- O quê? – franzi o cenho, sem entender.
- “Chama-se ser mulher. E a melhor parte? Não vem com restrições, apenas com vontade de ser feliz.” – escutei-o citar, surpreendida. – Seja feliz, Emma. – e desligou.
Fiquei embasbacada olhando para o telefone. Nunca pensei que Killian acompanhasse a minha coluna, logo ele que sempre ficava tirando sarro da minha cara.
- Eu bem digo que esse daí continua caidinho por você! – exclamou Ruby, me tirando dos meus pensamentos com a sua implicância. – Ele te persegue!
- Ruby, já chega! – gritei, fazendo com que ela me olhasse admirada. – Vamos lá, me conta! Afinal, qual é o seu problema com Killian?
- Problema? – indagou, se fazendo de desentendida. – Quem disse que eu tenho um problema com ele? Tirando o fato de ele ser um imbecil, é claro.
Cruzei os braços, desconfiada.
- Estou esperando. – disse, com má cara.
Ela baixou o rosto e se sentou na beirada da minha cama, envergonhada.
- É Belle. – murmurou, baixo.
- Ah?
- Eu gosto dela tá bom? – confessou, levantando o rosto manchado com as lágrimas.
- Oh Ruby! – me sentei ao seu lado, abraçando-a.
*** *** ***
Decidi seguir os meus próprios conselhos, muito embora tenha sido preciso que Killian me lembrasse deles, e ir nesse bendito jantar. E fiz o que Regina recomendara; não comprei presente algum para ela. Em vez disso, decidi comprar antes um presente especial para mim mesma. Afinal de contas, o dinheiro serve também para nos recompensar pelo nosso esforço, e não somente para pagar créditos e dívidas.
Estávamos no início do Verão, então optei por comprar um vestido leve em tons vermelhos que fazia a minha pele branca sobressair mais. Não era nem muito comprido, nem muito curto, a barra da saia dando pela altura de dois centímetros acima do joelho. Meus cabelos estavam soltos, caiando pelos meus ombros e costas numa cascata natural de ondulações de fios loiros. Não tinha por hábito me maquiar, mas Ruby insistiu que eu a deixasse pelo menos me colocar uma máscara nos cílios, um lápis preto delineando o formato do olho, e um batom vermelho criando a ilusão que tinha os lábios mais cheios do que na verdade tinha. Acabei gostando do resultado, e assim decidi ir até ao jantar de aniversário de Regina. Estava bem assim, e mesmo que ela tivesse dito que não era nada demais, caso isso se mostrasse o contrário e se revelasse ser um desses jantares chiques e requintados, eu continuaria apresentável o bastante para não me envergonhar a mim… ou a ela (risos).
Chegando no número 108 da Rua 42, Nova Iorque, e sentindo um friozinho na barriga, eis que toco logo no 2º Direito. A porta se abre quase imediatamente, e eu prontamente pego o elevador.
- Oi Emma! – é Zelena quem atende, e com toda a gentileza se afasta para eu entrar. – Uau! Você está fabulosa! – elogia, com um sorriso. Eu agradeço, não sem antes parabenizá-la pela gravidez, pois ainda não tinha tido oportunidade de fazê-lo.
- Já se nota bem. – digo, sorrindo. – Posso? – pergunto, temorosa, me referindo ao seu ventre proeminente de quase quatro meses no vestido justo.
- Claro que sim. – pega nas minhas mãos imediatamente, colocando-as sobre a barriga. – É um menino. – informa, feliz. – Robin no início estranhou a ideia, mas agora não podia estar mais satisfeito. – encheu a boca para falar, acenando para Hood a um canto da sala. Este, por sua vez, ergueu o seu copo de martini na minha direção e forçou um sorriso amarelo.
- Que ótimo. – murmurei para Zelena, retribuindo o sorriso do idiota.
- Vem! – ela chamou, me levando com ela até aos outros convidados. – Quem devia fazer as apresentações era Regina, visto você ser convidada dela, mas sabe como ela é … sempre ocupada.
Disse que não tinha importância, e assim Zelena fez as honras. Me apresentou aos restantes membros da família: Cora Mills, mãe das duas, senhora com ar austero e digno, lembrava muito Regina na sua formalidade; depois o pai de ambas, Henry Mills, diferente da esposa, tinha um ar mais afável e simpático, no entanto em termos de elegância não ficava atrás de Cora.
Foram depois apresentados aqueles que provavelmente seriam as pessoas que Regina intitulara de amigos mais chegados: Kathryn Nolan, uma loira sorridente de olhos azuis; Maleficent, amiga de Regina desde os tempos da escola pelo que Zelena dissera; e Mr. Gold, um homem de semblante taciturno, que se apoiava numa bengala de madeira ornamentada, com quem a família tinha boas relações de amizade e nos negócios.
- Regina. – proferiu em modos de sentença Cora. Isso fez com que todos desviassem a atenção para a entrada da sala, onde Regina acabava de entrar.
- Desculpe, mamãe. – disse apenas. Depois sua atenção foi completamente roubada … por mim? (ela estava olhando para mim mesmo daquela maneira?)
- Emma! – exclamou, admirada. – Você – seu olhar percorreu desde o meu rosto até aos meus pés calçados num sapato fechado de salto preto. – está linda. – completou, sorrindo.
- Obrigada. – respondi, um pouco acanhada, mas mesmo assim o sorriso idiota continuava pendurado nos meus lábios.
Ela avançou até mim, e me beijou o rosto, o que foi estranho, porque nunca nos havíamos cumprimentado assim. Mas foi fantástico! Ela cheirava tão bem que eu tive dificuldade em me recuperar quando ela se afastou, ainda sorrindo.
O apartamento, como ela já havia dito, não era grande. Era composto apenas por dois quartos, um onde ela dormia, e embora sozinha (eu acho, né?), numa cama de casal, e outro reservado aos hóspedes. Depois as restantes áreas comuns de uma casa: sala, cozinha e banheiro. E como ela também dissera, era acolhedor.
Jantámos calmamente e embora eu não tivesse participado muito, deu para perceber que Regina vivia num apartamento tão pequeno contra a vontade da mãe, Cora. Não que alguma coisa tivesse sido falada, mas percebia-se pelas indiretas que às vezes a mãe dela lançava. Tirando isso, todos ali pareciam se dar bem, e ter uma verdadeira relação de amizade, até mesmo o tal Gold, que pouco ou nada falou.
*** *** ***
Entrei de fininho na cozinha, onde Regina estava conversando com Maleficent. Já era tarde, e tanto os pais de Regina como Zelena já tinham ido embora, esta última, levando consigo o seu cavalo, ups. Digo, o seu noivo. Mr. Gold então havia sido o primeiro a ir embora, alegando uma enxaqueca enorme que não o largava nos últimos dias.
- Me desculpem. – pedi, sem graça. – Acho que vou embora também. – disse, olhando as horas.
- Fica mais um pouco, Emma. – Regina pediu. Depois, trocou um olhar com Maleficent que eu não consegui bem identificar e acrescentou – Mal ficou de levar Kathy, porque ela está sem carro.
- Sim, aliás, ela deve estar já roncando no sofá como a princesinha que é! – caçoou Maleficent. – Foi um prazer te conhecer, Emma. – disse a loira, me beijando o rosto, antes de sair.
- É que eu vou de ónibus pra casa e o horário – comecei, envergonhada, me sentindo uma dessas crianças que tem hora para voltar para casa. – termina dentro de meia hora.
- Desculpa, Emma! – disse, parecendo tomar consciência da sua falta de tato. – Que falta de decoro a minha. Eu levo você a casa, é claro. – se aproximou, pela primeira vez sem graça. – Nem pensei … me desculpe.
- Hein, está tudo bem. – assegurei, sorrindo. – Eu que sou boba mesmo por não falar as coisas.
Silêncio; não soube bem identificar que tipo de silêncio foi aquele, mas quando a porta bateu com força, fazendo barulho, acabei dando um pulo com o susto.
- Foi Mal …. – murmurou. – … que saiu. – indicou, se referindo a amiga Maleficent. – Ela é sempre discreta, como pode ver. – acrescentou com ironia, acabando por rir.
- Percebi. – confirmei, rindo também.
- Você está mesmo linda. – comentou do nada, me deixando sem saber o que dizer. – Quero dizer, você é sempre linda. – abanou a cabeça, fazendo uma careta. – Perdão, eu estou meio tonta hoje.
Ela estava realmente parecendo tonta. Literalmente. Corri até ela e a segurei pelos braços com delicadeza.
- Melhor sentar, não? – sugeri apontando com a cabeça para a cadeira.
- Sim. – concordou. – Mas vamos antes pra sala. Não há necessidade de ficarmos sentadas nestas cadeiras duras.
Nos instalámos no sofá marrom que ela tinha na sala, de frente para o televisor, embora este estivesse desligado.
- Agora que reparei – comecei, tentando aliviar a tensão que parecia pesar imensamente no ambiente. – você sempre tão preocupada com a etiqueta e em ser delicada, e eu nem fui capaz de te dar os parabéns! Nossa, como você me aguenta?
Ela caiu na risada, mesmo antes de conseguir responder. Depois, descalçou-se, recolhendo as pernas para cima do sofá, dobrando-as e se sentando meio em cima delas, mas não totalmente. Ela estava usando um jeans escuro, colado, fazendo com que toda a sua silhueta ficasse marcada. Na parte de cima, uma túnica larga de cor verde, embora o decote redondo fosse generoso e justo, abaixo dos seios o tecido folgava, dando um ar leve e jovial.
- A propósito, você também está linda. – disse, quebrando o silêncio mais uma vez, uma vez que ela já não enchia o ar com as suas risadas. – Ou melhor … você é linda. – corrigi, meio imitando ela momentos antes, na cozinha.
Ela estava na outra ponta do sofá. Inexplicavelmente parecíamos demasiado longe uma da outra, como se fosse uma espécie de distância de segurança. Ela me encarou, e sorriu com suavidade. Aquilo me serviu de incentivo, muito mais que um shot de tequila.
- Nunca pensei ver você vestindo um jeans. – comentei, descontraidamente. – Qual a próxima aquisição, Miss Mills? – brinquei, e ela percebeu, porque me olhava na expectativa. – Uma jaqueta de couro?
- Quem sabe. – respondeu, bem disposta. – Mas talvez dispense por enquanto essa sugestão.
Ergui uma sobrancelha, tentando desvendar o significado oculto daquelas palavras, se é que havia algum. Depois, me lembrei de Killian, e simplesmente abanei a cabeça, me sentindo uma idiota por tentar analisar tudo novamente.
- Eu acho – ela tornou a falar, despertando a minha atenção. – que a minha próxima aquisição nessa área será outra.
- Então? – quis saber, curiosa.
- Algo sem restrições e com vontade de ser feliz. – respondeu, sorrindo de canto para mim. Eu correspondi ao sorriso, me sentindo mergulhar naquelas piscinas quentes de chocolate que eram os seus olhos. – Acha que isso assentaria bem em mim?
- A felicidade assentaria divinamente bem em você. – retorqui.
- Emma? – não foi mais do que um sussurro, suficientemente alto para que eu escutasse de onde estava.
- Sim?
- Vem me fazer feliz? – perguntou, muito baixo, num tom de voz embargado. Se eu não a tivesse visto bebendo, além de um único copo de vinho ao jantar, diria que ela estava bêbeda.
- Esse se tornou meu único objetivo desde que eu iniciei esse estágio. – respondi, e reunindo toda a coragem que restava em mim, me levantei e caminhei até ela.
Me sentei bem junto dela. Coloquei a mão esquerda em cima da sua perna, e a direita no seu rosto, do lado esquerdo da sua face que estava quente. Percorri o seu rosto mais uma vez com atenção, desviando o olhar até à sua boca que se encontrava entreaberta, expectante. Me aproximei devagar, tentando avaliar se realmente era isso que ela esperava de mim, e quando nossos lábios estavam prestes a se tocar, ela disse; baixo, quente, rouco:
- Quando termina?
Confusa, me afastei alguns centímetros para poder olhá-la nos olhos.
- Quando termina o quê? – perguntei na nossa familiar troca de segredos.
- O estágio. – respirou.
Sem entender o porquê da pergunta, revidei da melhor maneira que sabia:
- Você sabe quando termina. Você sempre sabe. – acariciei o seu rosto com carinho, e vi ela fechar os olhos por momentos. – O que isso interessa?
- Eu não quero que acabe. – confessou. Acabei rindo, afastando uma mecha de cabelos escuros da sua testa.
- O estágio? – indaguei, alienada, assim como ela. Ela fez que sim, mordiscando o lábio de forma manhosa. – Não tem de acabar. Você é a chefe. – brinquei.
- Eu vou – pareceu ponderar, mas na verdade estava fingindo – renovar o seu contrato. – depois revirou os olhos e corrigiu. – Não, eu vou colocá-la nos quadros da empresa como membro efetivo. Acha que sou louca?
- Não. – respondi, me aproximando novamente da sua boca. – Acho que você está cheia de vontade de ser feliz.
- Me beija. – disse, calma, e de forma séria. – E isso é uma ordem.
- Claro que sim, Miss Mills. – segredei, antes de tocar a suavidade dos seus lábios nos meus.
*** *** ***
Suas mãos se mantiveram nas minhas costas, arranhando suavemente a pele na zona das omoplatas. Havíamos terminado de fazer amor, na cama de casal do seu quarto. No entanto, ela continuava com as pernas enlaçadas em meu redor, permitindo que eu sentisse o seu centro de prazer junto do meu ventre, irradiando calor.
- Você é muito gostosa. – sussurrou, mordendo a cartilagem da minha orelha. – Acho que vou te promover.
- Pensei que tivesse acabado de ser promovida. – abafei a risada no seu pescoço. – Hm, duas vezes. – adicionei, descendo a língua pelo colo dos seus seios.
Ela gargalhou, mas rapidamente as gargalhadas entoaram de forma diferente quando comecei sugando um mamilo.
- Emma! – deu um gritinho, gemendo. – Me refiro ao seu trabalho na editora. – conseguiu articular.
Parei de sugar o bico, e levantei o rosto, encarando-a com seriedade:
- Não quero que me trate de forma diferente só porque estamos juntas. – disse. Ela sorriu imensamente, me deixando num primeiro momento confusa.
- Estamos juntas? – perguntou, e então entendi o brilho nos seus olhos, e sorri de volta.
- Só não estamos se você não quiser.
Sua resposta veio em forma de um beijo. Infelizmente tudo que é bom dura pouco, mas para contrapor essa realidade causal da natureza, um novo beijo se rompe na morte do anterior, tomando-lhe lugar. A saliva evapora ao estar em contato com o hálito quente, mas a língua serpenteia sempre por novos lugares, descobrindo novos recantos onde entrar. Onde se perder também, e no delicioso ciclo vicioso que é a vida, onde se encontrar depois, mordendo o anzol como a presa mais cega e surda que existe à face da terra, movida pelo instinto e comandada pelo desejo. E os desejos são incontroláveis. São feras indomáveis, febres avassaladoras capazes de atingir as mais altas temperaturas, causadoras dos piores infortúnios. Mas são também os mesmos desejos que mantém a circulação ativa por debaixo da epiderme, a adrenalina crescente na busca de novas metas e na coleção de novas vitórias. É o desejo que rompe e enfrenta a morte, sorri ou chora, cai ou se levanta, mas acima de tudo que vive cada minuto como se fosse o último, sem restrições, apenas com vontade de ser feliz.
Notas finais
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