Está Chovendo de Novo
1 Pare a Chuva
Notas iniciais
É temporada de chuva, aquela época do ano que você diz que me torno mais preguiçosa que o normal e mal consigo sair da cama, mas esse ano... Esse ano é diferente. Não consigo sair da cama porque sinto terrivelmente a sua falta. Tanta que não tenho forças para viver, você a levou junto consigo. Escuto o barulho dos pingos de água batendo no telhado e na lagoa do quintal e sinto como se eles perfurassem o meu coração. Eles me lembram aquele dia... Lembra-se dele? Eu acordei no meio da noite com o som dos seus dedos dedilhando suavemente as cordas do violão. Suas mãos suaves e gentis. Mãos que eu amo. À pouca luz da lua escondida sob as nuvens carregadas, na varanda do nosso quarto, você parecia etéreo, lindo vestido apenas com uma cueca boxer preta e com toda a sua pele morena exposta. Você estava sentado numa cadeira de palha, tocando o violão e olhando a chuva, envolto daquela aura de paz que somente você emana. Passei um bom tempo te olhando, te ouvindo... Te amando. Você virou para mim e trocamos um olhar cheio de significados antes de você me sorrir. Perdi o fôlego e meu coração palpitou mais rápido. Naquele ínfimo momento me perguntei como você conseguia fazer isso comigo após tantos anos juntos, como eu poderia estar tão apaixonada ainda? Você tocou por mais alguns minutos antes de deixar o violão na cadeira e vir até mim. Deitei sobre o seu peito e perguntei se você estava com insônia de novo, você me disse que não, só queria assistir a chuva um pouco. Assenti e ficamos quietos, naquele silêncio confortável que sinto apenas com você, ouvindo o barulho dos pingos caindo lá fora. Sua mão escorregou lentamente por minhas costas e meu corpo se arrepiou, levantei o meu rosto para ver o seu, já reclamando contigo que você sabia o que essa simples carícia faz comigo, você se desculpou e eu percebi que de fato você estava tão distraído vendo a chuva que o movimento fora totalmente inconsciente. Sorri e te disse que estava tudo bem antes de te beijar brevemente os lábios. Você disse que me amava e como sempre, meu coração transbordou de amor, te respondi, você beijou-me lenta e profundamente, roubando meu ar e atiçando a chama em mim que arde por ti. Agarrei-me em você como se minha vida dependesse disso, querendo mais do que tinhas a me oferecer, suas mãos deslizaram por meu corpo, deixando um rastro de fogo por onde elas passavam. Eu gemi quando suas unhas arranharam a minha pele e seus lábios soltaram os meus, nos olhamos e eu vi em seus olhos que você me queria tanto quanto eu o queria. Fizemos amor sem pressa, apenas preocupados em conseguir apaziguar, pelo menos um pouco, aquele desejo que aparentemente só aumentava ao longo dos anos. Ao fim, cansados e momentaneamente satisfeitos, dormimos ao som da chuva. Hoje, o que me resta é apenas essa dolorosa lembrança, que outrora fora tão doce. Você foi embora e eu fiquei, sem saber o que fazer de minha vida agora que não mais te tenho. Tem dias que é insuportável a sua falta. Hoje é um desses dias... A chuva? Essa continua lá fora. E eu quase posso ouvir o som de suas mãos suaves e gentis à tocar o violão.
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