Essence

2 Capítulo 2


Novamente, como se voltasse aos 7 anos de idade, ouvi minha mãe chegando mais um vez de suas noitadas durante a madrugada. Enrolada no emaranhado de lençois, a cena se repetia, mas a única diferença era que aquela garotinha de antes já não era a mesma. Depois de não conseguir dormir, me levantei da cama e caminhei silenciosamente em direção ao espelho. Meus olhos verdes fitavam um corpo magro e alto, extremamente branco e com a aparência exausta. Um rosto fino que havia perdido a delicadeza há muitos anos atrás, sendo substituída por olhos cansados e com olheiras de tantas noites mal dormidas, e por fim, fios ruivos que iam até metade da cintura e terminava com cachos grossos, sem nenhum tipo de cuidado a muito tempo.

Passei a mão entre eles tentando desatar os nós e fui até a cozinha. Depois de escolher uma fruta qualquer decidi que era impossível continuar em casa e sai rua a fora do jeito que estava, enrolada numa manta e de pijamas. Eram pouco mais de duas da manhã e as ruas estavam vazias, exatamente como eu esperava.

"O que eu fiz?" pensei.

"O que eu tenho feito?" disse, agora em voz alta, perdendo o controle novamente. Joguei a manta no chão e sai me esbarrando por entre os becos sem rumo, com esperanças de que alguém aparecesse e arrancasse o que quer que fosse aquilo que me motivava a atuar da mesma maneira que meu pai um dia fez.

Aquela não era a primeira vez, e eu sabia que a cada animal que matava, uma família choraria como a minha chorou um dia. Eu sabia que não queria aquilo, mas o impulso era mais forte que qualquer coisa.

Tremendo, sabe-se lá de frio ou medo, viro uma esquina e dou de cara com um jovem sentado no meio fio, injetando algo na veia. Ele olha pra cima e encontra o meu olhar e ao ver as lágrimas escorrendo pelo meu rosto diz, sussurando: Foi assim que eu vim parar aqui.

Ele tirou a seringa suja da veia e largou no asfalto, colocando a cabeça entre os joelhos depois disso e soltando uma gargalhada estrangulada. Seu corpo também tremia, o que aparentava talvez uma abstinência, provavelmente ele passava por uma recaída depois de muito tempo de uma recuperação rigorosa.

O garoto levantou a cabeça e observou enquanto eu fitava a seringa e disse, apontando:

- Vai fundo. Não apaga, mas ameniza.

Seitei-me ao lado dele e olhei para a seringa. Meus pensamentos podiam não ser em ordem mas eu sabia que aquele não era o melhor caminho para amenizar a dor.

- Não, obrigada. Tenho meus próprios métodos pra isso.

-Ah, é? Quais por exemplo?

Eu ri.

- Perto do meu, o seu se torna maravilhoso. Só a sí mesmo, sabe. Ninguém mais é atingido além de você.

- Agora você realmente me deixou curioso, como você apaga a sua própria dor atingindo os outros? Ele disse, levantando a cabeça e olhando para mim. Olhos cansados e tristes, percebi, exatamente como os meus.

Eu não iria simplesmente soltar para um estranho "ah, eu tenho uma obssessão em matar e torturar animais desde que meu pai cortou a garganta de minha gata e largou minha mãe! "

Até porque isso demonstra toda a minha fraqueza, egoísmo, e é claro, ele não deixa de ser um estranho. Ou seria um conhecido? Eu mal consigo ver o rosto dele na escuridão, seria pior ainda.

- Você sabe o que é sofrer um trauma, e a partir disso cometer os mesmos erros que fizeram com você, só que com os "outros"? E essa ideia de que tudo é culpa sua nunca sair da sua cabeça, do quão fraca eu sou de não conseguir me libertar de tudo isso, você sabe?

Agora eu já estava gritando e chorando de novo. Tão fraca...

O menino continuo me encarando, sem demonstrar nenhuma emoção, apenas absorvendo minhas palavras(ou bebado e drogado demais para formular uma resposta para aquilo) e graças ao silêncio percebi que ele realmente não sabia o que era aquilo muito menos pelo que eu passava.

Ele voltou a cabeça para a frente e encarando os latões de lixo do outro lado da rua disse:

- É, talvez eu não saiba realmente o que é isso. Mas, por mais que você saiba que o problema dos outros pode até ser maior, você não liga, não consegue sentir conforto com isso, você só quer resolver o seu problema e, cara, os caminhos que você acaba tomando pra fugir disso...

Eu esperei ele falar mais alguma coisa, mas ele só continuou encarando os lixões, perdido em pensamentos. Decidi que era hora de ir embora. Me levantei, peguei a seringa do asfalto e joguei no lixo. Me virei, olhei nos olhos dele novamente, esperando que ele me entendesse e voltei para casa.