Esse tal Velhote.

1 Na estação de trem...


Notas iniciais
Espero que gostem.

Eu andava pelas ruas de Nova Iguaçu, resolvia coisas para minha família. Já estava ficando cansado. Subi as escadas da estação de trem, e perto das escadas havia uma senhora cega que pedia por esmolas com um copinho de Guaracamp, coloquei a mão no bolso da bermuda e dei duas moedas de um real para a senhora que me sorriu gentilmente e agradeceu dizendo aquele já antigo “Deus te abençoe”.

E é aqui que começava as minhas divagações e, sem mais nem menos, me lembrei de um antigo conhecido meu, um personagem criado já há muito tempo, ao qual dei o nome de Velhote. Ele realmente era diferente de todos os outros ...

De andar curvado, fala cansada, voz rouca e pele enrugada. Vestia sobretudo e usava gravata, seu estilo era o social em tons escuros, a bengala lembrava um galho de arvore retorcido e enegrecido. Tudo nele denunciava sua idade avançada. Mas tinha um grande pique para a vida, andava muito e mesmo cansado continuava em frente; reclamava de tudo, porém fazia parte de suas brincadeiras, afinal ele com nada se estressava.

Mas era cheio de segredos esse velho, nisso você pode apostar! Ele carregava consigo uma chama de vida, um desejo, uma vontade que nunca morria.

E ao ver aquela senhora cega pedindo esmolas na estação lembrei-me dele, pois eu sabia que ele teria ajudado ela. Velhote teria chegado como quem não quer nada, comentaria sobre o calor daquele sol que fazia, pediria a permissão dela para poder se sentar ao seu lado e se bem recebido diria “Muito obrigado, com licença” e então com muita dificuldade ele se sentaria ali no chão ao lado dela. Iria sorrir para todos que por ele passassem e fizessem cara feia para seu ato, xingaria uma ou duas pessoas que olhassem com repudio para a doce senhora cega ao seu lado e respiraria fundo, uma, duas, até três vezes se necessário.

Tiraria o chapéu da cabeça e colocaria de lado, e então gentilmente ia pedir para segurar a mão da senhora. Se bem aceito, perguntaria a ela como foi o seu dia e ouviria atentamente cada detalhe, caso ela quisesse falar, é claro, ele jamais a forçaria a nada. Ele também contaria um pouco de si, contaria suas historias de guerra para ela e lamentaria não ter filhos, mas se caso ela dissesse a ele “Eu sinto muito”, ele logo diria para ela que não tinha tanta importância, pois mesmo ele não tendo filhos ou família nenhuma, era muito bem amado por seus amigos. E se durante aquela conversa tão insignificante para aquela cidade, para as pessoas que por ali passavam, ela ou ele chorassem relembrando os velhos tempos, Velhote prontamente teria um pacotinho de lenços para enxugar aquelas lagrimas.

E depois de tanto conversar e perder a noção do tempo, ele olharia para o relógio em seu pulso direito, arregalaria os olhos e com muita tristeza diria que precisava ir embora. Ele se levantaria, provavelmente tendo que pedir ajuda a alguém que passava e que o olharia feio, daria um abraço na senhora cega e com as mãos enrugadas retiraria da carteira uma nota de cinco, talvez de dez e daria a ela, mesmo se sentindo mal por poder fazer tão pouco por ela.

Ele colocaria o chapéu na cabeça e então... Bem, eu não sei, pois fui novamente puxado para a realidade pelo som da campainha de “Parada Solicitada” do ônibus. Eu me levantei de meu lugar e desci já em minha rua, agradecendo mentalmente a vizinha que estava no ônibus comigo, deve ter sido ela a puxar a cigarra.

Mas quando eu chegasse em casa eu lembraria disso, e escreveria sobre isso, pois o meu real desejo é um dia ser como esse tal Velhote que há muito tempo foi criado pela fértil imaginação de uma criança que não acreditava na maldade do mundo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!