Essa Noite Não
3 As cortinas transparentes não revelam
Notas iniciais
Faz tempo que eu conheço o Saga, fiz amizade com Kanon nos tempos de colégio. Era o mais novo na turma dele.
Sempre achei o Saga muito reservado e chato, não tinha a mesma liberdade do irmão. Idênticos na aparência, mas quase opostos.
Quando a guerra chegou ao nosso país sempre tive certeza de que estaria tudo bem,mas hoje temos que lutar. O Kanon morreu enfrentando um inglês vira-casaca. Pelo que Camus me contou, ele era estudante de direito, se apaixonara por uma bela alemã e simplesmente mudara de lado. Pegou Kanon de surpresa e o pior é que estávamos todos lá. Saga não chegou a tempo de evitar que Kanon fosse preso e quase se atirou contra o esquadrão inimigo tentando o resgatar. Foi difícil para mim e Camus o conter.
Aiolia não fez nada. Ele está desacreditado em Saga e Kanon desde que Aiolos foi pego. O mais contraditório éque Shura estava lá e ele nunca disse um A pra ele...
Mas eu acho que ele tá em depressão depois de tudo. Na verdade os dois estão, desde a captura e inevitável morte dos respectivos irmãos.
Eu tenho o Camus, grande amigo, motivo de minha sanidade mental. E Shura se mantém lúcido graças ao seu inabalável orgulho, é sua base de vida.
O Saga parece afeiçoado ao novato. É melhor para ele.
- Você ainda não se apresentou.
- Meu nome é Shaka, sou indiano.
-Fala sério, isso aqui tá virando uma mistura incrível! Como é a Índia?
- Sem graça.
- Meu nome é Milo. Sou grego, hehe. –estendo a mão e percebo o quão forte ele é. Já está mais confiante.
-Bom humor não é uma característica de tempos de guerra.
-Bem observado, mas eu sou feliz, fazer o que?
- É um prazer conhecê-lo.
- Vem, vou te apresentar ao resto do pessoal.
Ele me segue até onde Camus está sentado, lendo.
- Camus, o Shaka está começando a conhecer o pessoal agora, não seja muito chato tá?
- Hum... –Camus é muito diferente de mim, mas nossa amizade é muito forte-Olá.
-Espero que possamos recomeçar...
-Tudo bem.
- Homem de poucas palavras... –rio e Camus franze as sobrancelhas para mim – Vamos,ainda tem que conhecer Shura e Aiolia, isso se você não matou esse ultimo com aquele golpe...
-Foi sem querer.
-Relaxa, a gente vive brigando, e o Aiolia é estressado mesmo.
Entro no quarto do Aiolia sem bater e me deparo com mais uma das infindáveis brigas do Saga e do Aiolia.
- Você matou nossos irmãos, não pode me acusar de nada!
-Eu não matei ninguém, não pude evitar, eles sabiam o que estavam fazendo desde o começo!
- E o que me diz daquela menina, a japonesa, você desacreditou, eu quase a matei!
-Você é o assassino!
Pela primeira vez vejo alguém da resistência levantar a mão para outro, e Aiolia não chegou a acertar Saga. O novato, Shaka, entrou na frente, segurando o soco bem mirado do outro.
- Por favor...- arranco a mão do Aiolia da mão de Shaka, que parecia prestes a quebrá-la, e peço calma. Saga ainda está na mesma posição, e percebo que está prestes a desabar- Aiolia, isso é jeito de recepcionar um novato, vim aqui te apresentar e você é grosso desse jeito?
Minha tentativa de piada, no desespero de aliviar o clima, pelo jeito, não ajudou. Aiolia me empurrou para longe e saiu.
Saga está chorando. Ele faz isso às vezes, desde que o irmão morreu, mas costuma esconder de nós. A coisa tá mal.
- Não chore. A culpa não é sua.
É uma cena muito bizarra de ver, uma vez que o Shaka tem a minha idade, e é apenas poucos centímetros menor.
Eleabraçou o Saga como se estivesse lidando com uma criança.
Saga é o mais velho entre nós, e o mais ingênuo também. Perdendo talvez para o recém chegado, porque conhecendo Saga como eu conheço, jamais ele permitiria que encostassem nele. Um minutopassou e ele não reagiu, apesar de eu estar ali para impedir uma briga ainda maior.
- Eles morreram e eu não evitei, não evitei Shaka! Fugi covardemente.
-Eu abandonei meu país por medo da guerra Saga, fui covarde. Você não pode evitar, foi obrigado a fugir para sobreviver, então...
Sagaenterrou a cabeça no ombro de Shaka e chorou ainda mais. Me sinto deslocado e incomodo.
Apesar de tudo, nunca o vi neste estado.
Abro a porta e saio o mais silenciosamente possível.
- O que está havendo?
-Nada. –minha resposta é seca por que não gosto de Shura. Ele é muito encrenqueiro e eu aposto que ele abandonou Aiolos, que sempre confiou nele, quando viu que a coisa tava feia.
- Aiolia saiu batendo a porta, ele está tentando nos matar?
Camus se juntou ao coro descontente que me cercava e eu dou ombros. Não estou a fim disso, mais discussão.
- Ele vai nos denunciar.
- Isso se a casa não cair.
- Ah, vão pro inferno vocês, eu to tentando manter isso sobre controle, mas se não me ajudarem...!
- Milo... –Camus toca levemente meu braço- Só estou...
- Deixa quieto Camus. Só digo uma coisa, se estão com problemas, resolvam isso diretamente com o Aiolia.
Conheci Camus faz tempo, porem quando o reencontrei ele já estava com o Radamanthys. O governo inglês deve estar mesmo desesperado se se aliou a França, mandando para a luta fotógrafos e juízes...
Trabalhamos juntos, e quando começou a desconfiar de Radamanthys (ele foi o primeiro a perceber) se juntou a nós. É um desertor. Mas um desertor adorável...
- Milo, precisamos conversar.
- Diga.
- Estou preocupado. Acho que há risco de sermos pegos, pois eles- ele se referia a Shura, Saga e Aiolia- estão sendo muito descuidados.
-Eu concordo plenamente. Porém...
- Também fico receoso pelo novato, o Shaka me parece...
- Não precisa se preocupar. –me apressei em responder- Pelo que percebi, ele é o elo que faltava entre Saga e a causa pela qual lutamos, desde a morte de Kanon.
- Elo?
- Exato. Criaram um vinculo tão forte quanto o nosso em metade do tempo...
- Certeza do que está falando...? Saga é tão...
- Absoluta.
- Isso me alivia.
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