Essa Estranha Atração

15 Essa estranha mentira


Notas iniciais
Bia postando, pessoas!
Eu peço mil desculpas pela demora para postar. Vocês sabem como é final de ano, né? Vida ultra corrida. Mas uma hora ou outra o capítulo sai xD
Não vou prendê-los mais xD Boa leitura!

Essa estranha mentira

Capítulo 14



Ikki sentiu a cabeça pesada e não conseguiu abrir os olhos imediatamente. Ela doía muito e, além disso, uma náusea amarga teimava em querer subir por sua garganta. Depois de minutos que pareceram horas, ele finalmente abriu os olhos e demorou a entender onde estava. Percebeu, aos poucos, que dormira na boate. O empresário mordeu os lábios e tentou se recordar da noite passada, mas as imagens chegavam como flashes doloridos e obscuros. Dança, bebida, Pandora, Shaka, tudo se misturava e piorava a náusea que ele sentia.


Finalmente, percebeu que não estava sozinho no sofá-cama. Pandora dormia tranquilamente ao seu lado, envolvida nos negros lençóis de seda.


A primeira reação do moreno foi esbugalhar os olhos o que levou uma martelada de dor ao seu cérebro, fazendo-o gemer e rolar para o lado. Começou a se recordar lentamente da noite regada a uísque e outros coquetéis. Coquetéis doces... Não gostava de bebidas adocicadas, mas bebeu muito dos drinques que Pandora lhe ofereceu, enquanto conversavam.


“Vamos conversar como amigos”, ela dissera. Ela mentiu. As imagens confirmavam a verdade: eles se beijando, abraçando-se, os lábios quentes e aliciantes prometendo prazeres inimagináveis...


— Que grande merda que eu fiz?! — Ikki se perguntou chocado num murmúrio, como se toda a sanidade levada pelo álcool voltasse como um tapa violento em seu rosto. Ergueu-se e levantou a calça e a cueca que ainda estavam pendentes no meio de suas coxas. Cambaleou até o banheiro, onde vomitou na privada. Sua cabeça girava violentamente e doía como se um martelo a atingisse constantemente. Não tinha dúvida de que o álcool foi o grande incentivador do que aconteceu entre ele e a mulher que dormia em seu escritório, mas não podia eximir-se da culpa. Só havia um culpado: ele. Culpado porque era adulto e, se não foi, ao menos deveria ter sido, dono das suas próprias ações.



Lavou a boca e enfiou a cabeça embaixo do chuveiro na tentativa de fugir de todo aquele incômodo. Só então, algumas lembranças nebulosas pareceram se encaixar numa conexão que era um pesadelo. Enxugou a cabeça com uma toalha e voltou ao escritório. Pandora já estava sentada, enrolada num lençol e sorria para ele.


— Bom dia — ela falou. — Vejo que não acordou melhor...


— O que faz aqui ainda? — perguntou Ikki entre dentes e sem nenhuma delicadeza.


— Não é óbvio? — Pandora foi irônica.


O moreno levou as mãos à cabeça com um olhar desesperado. Deuses! Ele traiu Shaka... Ele passou a noite com outra pessoa e havia marcas em seu corpo que o lembrariam da coisa mais mesquinha que, em sua opinião, uma pessoa poderia fazer a outra: trair.



Sentiu os olhos úmidos ao pensar nisso. Ele odiava mentiras, ele odiava traição. Como pôde deixar aquilo acontecer? Como pôde permitir? Sentia uma vontade patética de chorar e lamentar sua fraqueza, mas não era o momento para aquilo. Mirou o relógio, lembrando-se abruptamente da consulta marcada para as nove, já eram oito e vinte.



Passou as mãos freneticamente pelos cabelos e respirou fundo tentando recuperar a frieza, mas seu coração continuava disparado.


— Pega suas coisa e dá o fora... — murmurou para a mulher, fechando fortemente os olhos.



— Foi sexo consensual, Amamiya, não faça essa cara de arrependido! — Pandora replicou, começando a se vestir. Pegou a calcinha rasgada no chão, mas com um sorriso cínico, a deixou no mesmo lugar e calçou os sapatos. — Vai dar uma de virgem violada agora? Ah, minha calcinha é a prova de que o selvagem de ontem, foi você!


Ikki se exasperou e segurou a mulher pelos ombros. — Escuta?! Quantos nãos são necessários uma mulher dizer para que seja considerado estupro hein?



— Você não é uma mulher, meu querido! — riu a morena e o encarou de maneira indignada. — Você gostou tanto quanto eu, não finja!


Ikki a encarou com extremo ódio. — Eu estava bêbado! Eu me lembro que... eu disse que não queria! Fui pra cama com você porque foi a única mulher vadia o suficiente pra sentar no pau de um bêbado sem reação!


— Cretino! — bradou Pandora e o esbofeteou. — Vai se arrepender por me tratar assim!


— Cala essa boca! — pediu Ikki entre dentes. — Pega suas coisas e sai daqui agora, antes que eu perca a cabeça!


— Você vai se arrepender... — grunhiu a cantora novamente, terminando de se vestir — Nenhum homem me trata assim, Ikki Amamiya, nenhum!


— Vai embora sua louca! Eu tenho nojo do que aconteceu!


Pandora o encarou com toda sua indignação. — Como pode dizer isso? Ikki, eu... — ela gaguejou, não esperava por aquilo. Era uma mulher vaidosa e acostumada a todos os homens caírem aos seus pés. — Você não pode estar falando sério...


Ikki caminhou até a alemã e a segurou pelos braços.


— Que parte do dá o fora, você não entendeu? — falou exasperado. — Pandora, pelos deuses, eu não sou e nunca fui muito cavalheiro, mas não me faça passar dos limites...


A mulher estremeceu, terminou de se pegar suas coisas e saiu quase correndo de dentro do escritório, praticamente às lagrimas, repetindo o tempo inteiro que Ikki pagaria pelo que fez.


O empresário ficou parado, sem nenhuma reação, apenas sentindo a respiração ofegante pela comoção que o tomava. Lentamente, baixou o olhar para a calça ainda aberta e procurou pela sala alguma evidência de que havia usado preservativo.


“Só me falta engravidar essa vadia...”, pensou angustiado e se deixou cair no sofá segurando a cabeça entre as mãos.


O que faria agora? Sentiu uma vontade imensa de chorar e soluços tentaram escapar da sua garganta. Foi fraco, fraco! Não havia perdão para sua irresponsabilidade. Por outro lado, seu cérebro de “macho” tentava lhe dizer que estava exagerando no drama, mas seu coração não cansava de fazê-lo se sentir a mais vil das criaturas. “Foi uma escorregada, ele não precisa saber”, dizia uma parte de si. “Você o traiu, precisa ser sincero e dizer a verdade”, afirmava a outra, e ele estava completamente confuso.


Mirou o relógio e lembrou-se da consulta. Deuses! Não podia furar com o namorado. Tratou de terminar de se vestir e voar para casa. Já bastava a traição, se ainda o deixasse sozinho naquele momento... Vestiu a camisa apressado, percebendo, para seu desespero, que seu corpo estava marcado inteiro pelas unhas e pela boca de Pandora. Como justificaria aquilo? Não havia justificativa, teria que dizer a verdade somente. Dizer que foi fraco, irresponsável e que acabou caindo em tentação.


O moreno terminou de se vestir e pegou as chaves do carro, descendo as escadas tão rápido que quase tropeçou nos últimos degraus. Saiu praguejando e fez seu carro voar até chegar ao apartamento. Entrou correndo e caiu imediatamente sob o chuveiro numa tentativa insana de se lavar do ocorrido na noite anterior, como se fosse possível.



Shaka acordou cedo, como já era de costume. Fez um pouco de yoga e depois levou Jack para passear. Estava se sentindo descansado, pois sua noite foi calma. Depois que Ikki foi trabalhar, o loiro brincou um pouco com o filhote e escreveu quase um capítulo inteiro do seu novo livro. Ele procurou não pensar na consulta. Estava enfrentando todos os seus medos de uma vez e era somente porque sabia que Ikki estaria ao seu lado para apoiá-lo. Caso contrário, não conseguiria, pensava.


Quando o relógio marcou oito e meia, o indiano começou a se preocupar. Com certeza o namorado estava cansado por mais uma longa noite de trabalho. Shaka não queria acordá-lo, mas se não fizesse isso, acabariam perdendo o horário da consulta. Assim pensando, ele rumou para o apartamento da frente e tocou a campainha apenas duas vezes. Se Ikki não acordasse, poderiam marcar a consulta para outro dia — aquela era sua vontade inconsciente se manifestando.


Ikki havia acabado de sair do banho quando ouviu a campainha. Sua cabeça doía miseravelmente e o gosto amargo continuava em seus lábios, embora ele já houvesse escovado os dentes. Ainda com a toalha amarrada na cintura, caminhou até a porta, mas parou antes de abri-la e voltou para o quarto se olhando no espelho; arranhões e chupões cobriam todo o seu corpo, e ele não precisaria de mais nada para ferrar sua relação com Shaka. Bastaria aparecer de toalha na frente do loiro. Contaria a verdade, pensava, sim, contaria, mas não era saudável esfregá-la na cara do namorado à queima roupa.


Vestiu um roupão e colocou a toalha pendurada no pescoço para esconder uma mancha roxa nada discreta que havia nele. Então voltou para a sala, abrindo a porta e encontrando o escritor.


— Oi, loiro, estou atrasado, eu sei me desculpe... — murmurou com uma careta tentando não pensar nas lembranças que o atormentavam — me visto rápido, só preciso de um café e já saímos... — falou andando na direção do quarto.


Shaka realmente tinha esperanças de que a consulta fosse adiada, mas esquecera-se que Ikki conseguia ser mais teimoso do que ele quando queria algo.


O indiano se sentou no sofá e esperou que o moreno retornasse do quarto. Ao vê-lo, o encarou com um ar de desconfiança.


— Você parece de ressaca — comentou com um ar de “não estou fazendo cobranças”.


— Bebi demais ontem... — murmurou totalmente sem jeito, indo até a cozinha e voltando com uma caneca de café. Sentia como se a palavra “traição” estivesse brilhando em néon vermelho no meio de sua testa. Tentava não pensar nisso, todavia, sua consciência não parava de acusá-lo de forma cruel. Mas o que poderia dizer naquele momento, dizer a verdade? Shaka, eu bebi demais e transei com aquela garota que me deu o Jack, você se lembra dela? Não podia fazer isso. Não naquele momento crucial para o loiro e também para a relação dos dois. Com certeza, Shaka ficaria magoado e com raiva e desistiria da visita ao psiquiatra. Mentir também não era o certo a fazer; sabia e diria a verdade, mas não naquele momento importante. Esperaria o momento certo.


— Bom, acho que faz parte do seu trabalho, não é? — a voz calma do escritor interrompeu seu monólogo mental — Ser gentil com os clientes e tomar alguns drinques com eles — o loiro balançou levemente os ombros, disposto a não brigar mais com Ikki por causa de suas desconfianças quanto à boate e as garotas que frequentavam o lugar. — Estou ansioso — confessou quase em um murmúrio, mudando completamente de assunto.


Ikki sentiu seu mal-estar piorar com aquela afirmação. Sentimento de culpa? Admitia que sim. Shaka confiava nele e, por mais que estivesse bêbado e tivesse sido praticamente atacado, ele poderia ter evitado se realmente quisesse. Puxou o loiro pra si e o abraçou — Desculpe... — pediu, embora não fosse explicar o motivo. Falaria a verdade para Shaka, mas depois. Falaria em um momento melhor e não naquele em que uma consulta complicada o esperava. — Acho melhor irmos, assim sua ansiedade passa logo... – sorriu e se ergueu pousando a caneca na mesa.


Shaka não entendeu aquele pedido de desculpas e pensou em perguntar se o namorado estava escondendo alguma coisa. Não, não deveria ser nada. Talvez fosse um pedido de desculpa ainda pela forma como Ikki reagiu quando ele admitiu a doença. Provavelmente, o namorado ainda se sentia mal por ter chorado na frente dele. Só poderia ser isso.


Ikki foi para o quarto, e o indiano ficou na sala andando de um lado a outro e apertando as mãos. O namorado estava demorando mais do que deveria. Era estranho, Ikki geralmente se vestia tão rápido. Pensou em ir até o quarto vê o que estava acontecendo, mas desistiu. O moreno apareceu minuto depois, vestido em uma calça cinza elegante e uma camisa azul clara. O loiro sorriu, achando-o ainda mais lindo com aquela cara enfezada que ele estava, mas esses pensamentos sumiram da mente de Shaka quando ele percebeu um curativo adesivo no pescoço do moreno, que escondia parcamente uma mancha roxa.


— O que foi isso em seu pescoço, Ikki? — perguntou segurando-o pelo braço, tentando analisar o machucado de mais perto.


O moreno gelou como há muito tempo não acontecia. Atrapalhado, levou a mão ao pescoço se afastando instintivamente do namorado. Por um tempo não soube o que dizer. Passou as mãos nos cabelos, sentindo as imagens da noite anterior chegarem como flashes em sua cabeça. Que grande merda! Nunca perdia o controle com a bebida e tinha que perder justamente ao lado de uma ninfomaníaca. Era um homem que detestava mentiras e não poderia esconder aquilo por muito tempo, mas precisava achar o momento certo para contar a verdade.


— Eu... me cortei com o aparelho de barbear — e somava-se mais uma mentira. — Acho que meu corpo ainda sente os reflexos da noite anterior, minhas mãos estão trêmulas...


O indiano ficou olhando para ele um tanto desconfiado. Percebia que Ikki estava reticente e estranho. — Não achei que tivesse bebido tanto assim — falou, tentando conter o tom de censura. — Álcool demais não faz bem, Ikki. Você precisa se controlar mais — enquanto falava entregou a chave do próprio carro para o moreno. — Está em condições de dirigir agora? — eles combinaram de alternarem os carros utilizados durante as saídas do casal. Ideia de Shaka que não achava justo saírem apenas no carro do moreno. Ikki aceitou, contanto que ele dirigisse.


O mais novo sentiu vontade de resmungar um “Ah, Shaka, tudo o que eu não preciso agora é de um sermão!”, mas ficou calado. Pegou a chave do carro das mãos do loiro e entrou no veículo com a pior das caras. Sentia-se muito mal; culpado, perdido; e isso o deixava de péssimo humor, porque nunca foi muito bom em lidar com as próprias frustrações. Olhou o cartão e guiou até a sofisticada clínica no centro da cidade, estacionando e saindo rápido do veículo, abrindo a porta para que Shaka saísse também por instinto. Afinal, até então, ele só havia se relacionado com garotas. Sentia-se aborrecido com suas próprias atitudes e isso estava muito evidente, embora tentasse disfarçar para não deixar o loiro ainda mais nervoso.


Eles chegaram à recepção, e uma atendente pediu para que esperassem, pois logo seriam recebidos. Shaka se sentou ao lado do namorado, mas não conseguiu se tranquilizar. Balançava o corpo para frente e para trás e batia o pé no chão sem perceber. Não queria estar ali de forma alguma, e o mau humor e a introspecção de Ikki não ajudavam muito.


O empresário observou os movimentos do loiro e sorriu de lado mesmo sem querer, segurando-lhe a mão. Deixou momentaneamente seus problemas de lado. Que egoísta ele era! — pensou — Shaka precisava dele, então era hora de esquecer completamente Pandora e a noite passada. Precisava se concentrar no loiro e só nele. Depois resolveria aquela história.


— Amor, assim você vai quebrar a poltrona... — afagou a pele clara de leve — Calma, eu estou aqui... — Falou, e nesse momento a recepcionista pediu para que eles entrassem, pois o terapeuta os esperava.


O loiro se assustou com o toque, mas não o afastou. Quando a recepcionista os chamou, Shaka se ergueu e em passos mecânicos foi até a sala do psiquiatra. Ao entrar, viu um homem jovem sentado do outro lado da mesa. Ele era ruivo, possuía frios olhos verdes e quando se ergueu para cumprimentá-los, o indiano percebeu que ele era bastante alto também.


Ficou quieto, observando o consultório. Havia um divã perto da janela e alguns enfeites que desviaram a sua atenção por um tempo. O psiquiatra pediu que eles se sentassem e fez algumas perguntas de praxe. Informações pessoais, profissionais, qual o nível da relação dos dois, quanto tempo, idade, etc. Só depois disso, ele dirigiu-se a Shaka exatamente.


— Então, senhores, o que os traz aqui? — Valentine perguntou, e Shaka engoliu em seco olhando para Ikki que fez um sinal o incentivando a falar.


— Na verdade... Eu tenho acho que... eu tenho uma mania, doutor — disse reticente e desconfiado. — Desde pequeno eu sinto... Eh... Eu acho que tudo está sujo e... sinto uma necessidade quase incontrolável de limpar tudo... o tempo inteiro. Eu me sinto sujo com um mero toque de... de outra pessoa... — disse e ficou em silêncio, enquanto o ruivo o observava de forma analítica.


— Lembra-se de quando isso começou ou desde sempre foi assim? — o psiquiatra perguntou fazendo algumas anotações. — Eu ouvi quando você disse que foi na infância, mas sabe se isso teve início em algum momento? Algo traumático, a morte de um ente querido?...


— Eu... Não me lembro muito bem — Shaka disse hesitante. Estava confuso e se sentia desconfortável.


— E o senhor resolveu buscar ajuda profissional somente agora? Algum motivo especial para isso? — indagou o ruivo o encarando.


— Eu... — Shaka mirou o namorado que fez um leve gesto de sim com o queixo. Então ele voltou a mirar o terapeuta. — Porque isso tem afetado o meu relacionamento com o Ikki. Estou fazendo isso para me tornar uma pessoa melhor para o meu namorado — respondeu sem titubear.


Ikki observava a série de perguntas e resposta ainda com a mão de Shaka entre as suas. Queria que ele se sentisse seguro de que nunca o deixaria, por pior que as coisas ficassem. Quando ele declarou a última frase, teve vontade de se esconder debaixo da terra. Sentiu-se tão ingrato, tão irresponsável, tão baixo... Estava apavorado com a possibilidade de magoar e decepcionar a pessoa que amava da mesma forma que fez a Shun. Sabia que o relacionamento era recente, mas era o único relacionamento verdadeiro que tinha havia anos e realmente estava apaixonado por Shaka. Como? Não sabia, mas não queria perdê-lo para uma noite de bebedeira e também não queria mentir... Merda! Por que precisava ser tão difícil?


— Tornar-se alguém melhor... — Valentine ponderou as palavras do futuro paciente. — Em qual sentido, senhor Anish?


“Ah, isso precisava ficar ainda mais embaraçoso!”. Pensou Shaka ficando vermelho. Para piorar, percebeu que Ikki ruborizou também e baixou o olhar para a mão que tinha entre as suas.


— Eu... eu não consigo... me relacionar... sexualmente... — Shaka falou quase como se soletrasse as palavras, e Ikki, embora embaraçado, controlou-se para não rir.


— Entendo. — Falou Valentine tranquilamente. — Sabe exatamente por quê?


— Porque sexo é sujo! E por que... há o suor e o sêmen... e a saliva... e... — o loiro começou a tremer, somente com a imagem mental em que se via coberto por todos aqueles fluídos corporais.


Ikki apertou mais forte a mão do namorado e o gesto pareceu trazer o indiano de volta à realidade. Instantaneamente, o escritor temeu ser considerado louco e ficou ainda mais nervoso.


— M-Mas... Desde o Ikki, eu... eu estou melhor... Não é Ikki? Fala pra ele, fala! — seus olhos desesperados miraram o moreno, e Ikki entendeu que Shaka na verdade queria dizer: não o deixe me internar! Diga que não sou louco!

— Sim, ele está bem melhor, doutor — respondeu prontamente, agora enlaçando os ombros do namorado. — A gente só... só não conclui a coisa... O ato!


— Sexual! — tornou Shaka vermelho como um camarão e com um risinho nervoso. O olhar sério e analítico de Valentine não ajudava muito para aliviar sua tensão.


— Bem, Sr. Anish — Valentine disse após confirmar o nome na ficha. — É muito cedo para uma avaliação, e eu preciso de mais detalhes acerca do seu problema para verificar a extensão, mas tudo indica que o senhor sofra de algum tipo de Transtorno obsessivo compulsivo. Pode ter ocorrido algo em sua infância que impulsionou isso ou não. Preciso de uma conversa mais profunda e mais tempo para avaliar o grau do problema. Sugiro que comecemos nossa terapia o mais depressa possível, e o senhor terá sim que me contar detalhes de sua vida que podem ser embaraçosos, mas entenda que cada detalhe é muito importante para que eu conheça melhor o problema e possa ajudá-lo — ele explicou rapidamente.


Shaka balançou levemente a cabeça, desejando realmente acreditar no que o médico dizia, mas havia algo nele que o deixava inquieto. Não gostava daquele olhar frio e impessoal e daquele jeito arrogante de quem falava com crianças.


Ele apertou mais forte a mão de Ikki e respirou fundo. Dera um grande passo, agora teria que seguir pela estrada que surgia. Esperava superar sua mania logo e poder dar a Ikki todo o carinho e prazer que ele merecia.


— Então, podemos marcar uma nova consulta? — o psiquiatra perguntou. — E na próxima será somente nós dois, senhor. Anish. Eu sei que a presença do senhor Amamiya faz com que se sinta mais seguro, mas precisaremos de privacidade e liberdade em nossas conversas.


Shaka quis se opor, mas apenas deixou os ombros caírem e concordou. Ikki ergueu uma sobrancelha, que historia era aquela de privacidade? Mas resolveu se calar. Entendia que era necessário. Talvez Shaka não se sentisse à vontade com sua presença para dizer certas coisas; era melhor aceitar.


Quando a entrevista terminou, o terapeuta marcou a primeira sessão para a próxima semana, e o casal deixou a clínica. Seguiram para o estacionamento, cada um deles envolvido por seus pensamentos. Ikki, especialmente, conseguia agora, depois que a dor de cabeça cedeu ao analgésico, lembrar com perfeição da noite passada. Que grande merda! Esperava somente que depois daquela, Pandora o deixasse em paz de uma vez.


— Não foi tão ruim quanto eu achei que seria — Shaka comentou no momento que eles entravam no carro.


— Disse que não seria. — Falou Ikki se sentando ao seu lado e apoiando a cabeça com a mão — Não gostei dessa história de vir sozinho — confessou —, se ele tentar qualquer gracinha eu parto aquele nariz arrebitado dele, avise-o, por favor...


— É bom saber que eu não sou o único ciumento por aqui — Shaka disse divertido com o exagero do namorado.


Ikki fez uma careta, ao contrário do loiro, estava com um humor do Hades. – Eu estou falando sério, muito sério. — resmungou mal humorado — E sim, eu sou ciumento mesmo, é bom que saiba e não me provoque.


— Sua noite deve ter sido terrível. Você está com um mau humor matinal pior que o meu! — Shaka reclamou colocando o cinto de segurança.


— Eu enchi a cara, loiro. E estou com uma puta ressaca, não tem como ficar de bom humor. Mas vou tentar melhorar, desculpe por isso — pediu afagando a perna de Shaka.


— Eu não entendo porque você foi beber tanto — o indiano balançou levemente a cabeça, mas logo parou e olhou para a mão do namorado que subia por sua perna. — Sabe, nós poderíamos tentar continuar de onde paramos da última vez... Com certeza, seu humor melhoraria e muito.


Ikki sorriu de lado e continuou afagando a perna dele por cima da calça — Loiro, não provoca... — murmurou — eu não sei o que farei se aquilo acontecer novamente. Creia, não sou tão controlado quando pareci ali...


— Talvez eu precise que você não se controle — Shaka sorriu e começou a brincar com os dedos dele. — Quem sabe a minha cura não é um moreno de 1,85 m com um sorriso que me tira um fôlego?


Ikki mordeu o lábio inferior e suspirou fechando os olhos e dando um aperto forte na coxa do indiano. — Hum... Você parecia tão santinho, agora vejo que era pura fachada... — murmurou e escorregou no banco do carro, chegando mais perto do loiro e passando a mão entre ele e o banco. O puxou para si, subindo a mão da sua coxa até acariciar-lhe o peito por cima da camisa e roçar seus lábios nos dele — Olha, pensa bem, loiro, se eu começar, não vou parar mesmo que peça... — mordiscou-lhe os lábios de maneira sensual.


Shaka estremeceu, fechando os olhos e se entregando completamente a carícia do namorado.


— Acho que devo ficar preocupado com todo esse tempo que você está sem sexo — sondou com fingida despreocupação. — Não sei... com tantas mulheres o assediando naquela boate...


Ikki se afastou abruptamente ao escutar aquilo, e Shaka abriu os olhos com estranheza, mirando o rosto do namorado.


— O que foi? Falei algo errado?


— Shaka, eu... Eu acho... — mordeu o lábio inferior. Não era o momento de falar, ainda não.


— O que foi, Ikki? Você está estranho, quer me contar alguma coisa? — indagou preocupado.


— Não, loiro. Ainda é a maldita ressaca... Vamos pra casa, hoje eu não vou trabalhar e poderei dormir um pouco.


Embora desconfiado, Shaka deixou o assunto morrer, e eles seguiram em relativo silêncio para casa. Assim que chegaram, Ikki foi direto para seu apartamento, onde desabou na cama e tentou dormir à base de aspirinas. O indiano voltou para seu livro e para Jack que estava impossivelmente barulhento naquele dia.


Já era noite, quando o loiro resolveu bater na porta do namorado. Ikki atendeu com cara de sono, e ele riu.


— Puxa, dormiu mesmo o dia inteiro! — falou o escritor, entrando quando o moreno lhe deu passagem.


— A noite passada não foi muito boa — respondeu o empresário ainda com a voz enrouquecida pelo sono.


O mais velho mirou-o atentamente. Ikki vestia uma camiseta larga e uma calça de pijama. Era estranho, porque o moreno parecia sempre sentir todo o calor do mundo e quando estava em casa, ficava sempre sem camisa ou de regata.


— Está com frio? — indagou. O empresário mirou o próprio corpo e depois passou as mãos nos cabelos. Shaka sabia que quando ele fazia isso era porque algo o incomodava.


— É... acho que estou... um tanto febril...


— Sei — murmurou o mais velho. — Bem, então é melhor voltar para a cama, o que acha? — provocou o empurrando para o quarto. — Quer um café? Eu faço!


Ikki segurou as mãos do amado que estavam em volta da sua cintura e apoiou a cabeça em seu ombro. — Não, não precisa. Estou mesmo melhor, que tal me fazer companhia na cama, hein? Vamos ver um filme.


— Tudo bem — o loiro aceitou. Eles foram para a cama e ligaram a TV. Passava um filme de ação e ambos ficaram atentos a ele. Shaka até tentou provocar o moreno, mas Ikki parecia cansado e nada receptivo, o que era ainda mais estranho, mas o escritor achou melhor deixar como estava. Também era gostoso ficar apenas abraçadinho ao corpo forte do namorado.


Shaka acabou dormindo na casa de Ikki e na manhã seguinte, eles se despediram normalmente. O empresário achava que a verdade poderia esperar um pouco. Com certeza, aquele era um momento delicado demais e não queria que nada tirasse a tranqüilidade do indiano.


As consultas com o terapeuta eram duas vezes por semana e em todas, Ikki acompanhava Shaka, embora não pudesse ficar com ele durante as conversas com Valentine. Nas primeiras consultas, sentiu que o indiano saiu um tanto triste, mas não quis comentar o que de fato tratara com o terapeuta, e ele respeitou seu silêncio. Essa tristeza de Shaka foi mais uma desculpa para ele postergar a revelação da traição alcoólica. O empresário fazia vários ensaios mentais de como revelaria o ocorrido, mas no final acabava desistindo, pois nada tirava da sua cabeça que a descoberta da traição faria com que o resquício de auto-estima que o loiro possuía desabasse.


Dois dias depois do ocorrido na Santuário, ele soube por Shiryu que Pandora esteve em seu escritório, segundo ela, para procurar um par de brincos que havia perdido e que, como não o achou, saiu logo em seguida. O contrato entre a cantora e a boate terminaria em dois meses, e Ikki não via a hora de se ver livre da alemã.


Por sua vez, Shaka notava o comportamento reticente do namorado, mas preferia acreditar que aquilo se devia ao tratamento. Há dias, Ikki não tentava uma aproximação mais... íntima, embora o tratasse com toda a atenção e carinho de sempre, talvez ainda mais. Ele pensava que o moreno não queria tentar nada e arriscar-se a vê-lo entrar em crise e com isso estragar o tratamento. Por esse motivo, o indiano preferia não perguntar nada.


Ikki também passava mais tempo com ele, indo à boate mais tarde e voltando para casa mais cedo. Evitava beber mais que um copo de uísque e fugia como o diabo foge da cruz de qualquer tentação feminina.


Às vezes, entrava no MSN, mas não encontrava Virgo. Mal sabia ele que Shaka estava ocupado demais com seu livro, trabalho e o tratamento para visitar sua vida virtual, e isso evitava, coincidentemente, que ele acabasse, quase sem querer, descobrindo a escapulida do amado. E Ikki continuava a esconder o quanto e até onde podia, seu não tão pequeno deslize.


Mais um dia de terapia chegou e como sempre, o empresário foi levar o namorado ao luxuoso consultório. Dessa vez, eles foram no carro de Shaka, porque o luxuoso esporte do moreno estava na revisão.


Quando o loiro deixou o consultório naquela manhã, ao contrário das outras vezes, estava mais animado. Ele tiraria a tarde livre e cuidaria um pouco do seu livro. Depois, pretendia sair com o namorado para jantar ou, como sempre preferia para evitar o contato com as pessoas, pediria algo em casa mesmo. Ikki nunca parecia se importar com isso.


— Ah, que bom que o vejo sorrir ao sair dessa sala. Já estava pensando que a terapia estava lhe fazendo mal — disse o moreno.


— Sim, hoje estou melhor — respondeu o indiano, enquanto eles andavam pelo estacionamento. — Não falamos tanto do passado dessa vez. Falamos mais de você.


— De mim? — espantou-se Ikki.


— Sim. Valentine quis saber como é a nossa relação.


Pra quê?


— Não sei! — deu de ombro e, quando chegaram ao carro, ele enlaçou o pescoço do amado, olhando Ikki nos olhos. — Mas eu disse a ele o quanto estou feliz ao seu lado, o quanto você me faz bem. Como é bom ser amado por você.


O mais novo sorriu um pouco emocionado, um pouco sem jeito, baixando o olhar.


— Eu te faço tão feliz assim? — murmurou tímido.


— Faz sim. Não sabe o quanto, Ikki. Obrigado.


O moreno sentiu o coração bater forte, mas ao mesmo tempo, a dor da culpa o penetrou como espinhos. Sentia-se tão mal por mentir que até mesmo tocar em Shaka, depois do que fizera, parecia errado. Precisava dizer a verdade, mas simplesmente não conseguia, não naquele momento.


— O que foi, Ikki? Que cara é essa? — indagou o indiano preocupado. — Disse alguma coisa que o incomodou?


O moreno mordeu o lábio inferior e negou com a cabeça.


— Loiro, eu... — tentou, mas não conseguiu concluir. Sorriu forçadamente e se aproximou do mais velho beijando-o no rosto. — Eu amo você. Muito. Nunca esqueça, me promete?


O escritor mirou os olhos escuros do namorado, um tanto confuso, e tomou-lhe o rosto entre as mãos.


— Eu não vou esquecer. Eu também te amo muito. Você me faz feliz.


Ikki sorriu emocionado e tomou os lábios do amante num beijo quente e terno. Haveria tempo de contar a verdade. Em outro momento que seria em breve — pensava. — Mas por enquanto, enquanto pudesse fazer Shaka feliz, ele continuaria, mesmo a contragosto, essa estranha mentira.



Continua...


Notas finais
Eu achei esse final tão fofo! Mas aí lembro o que o Ikki fez e a raiva começa a subir... xD
Mas que foi fofo o final isso foi xD
*Bia adora um açúcar*
Obrigada a Sarah, Lord Juno Apollo, Su Cabral, Sayuri, Hatake Sayuri, Kao, Alone chan, Daftookami, ddkcarolina, Matheus_Uchiha, guima, Belle Princesse, Agathachan, Sandrini, SanyEricsson, KitsuneKiki, Pandora Hiei, Koya, Hanajima, Rosemary, Kira Fox, JulianaMoraes, Álefe, Thatta chan, Azarella e Mary Winchester pelos reviews.
Beijinhos!
Bia Yuuji.