Essa Estranha Atração
32 Essa estranha felicidade - Epílogo
Notas iniciais
Essa estranha felicidade — Epílogo
Fazia dois meses que estavam juntos novamente, e só agora Shaka conseguiu realmente organizar sua vida para poder se mudar de vez para a casa de Ikki. O moreno o ajudava como podia, mas ele tinha uma vida movimentada também. Então, o loiro acabou por contar com a ajuda dos amigos para levar suas coisas, assim como arranjar uma imobiliária que cuidasse do seu apartamento, dentre outros.
Mu, Aiolia e Sasha o ajudaram com a mudança, e embora ainda sentisse ciúmes, Ikki tentava conviver com os amigos de Shaka. Um resmungo ou outro, mas nenhuma crise séria. Estavam vivendo uma maravilhosa lua de mel naquelas semanas, matando a saudade intensa e fazendo planos para o futuro.
Nunca foram tão íntimos e não demorou muito para que todas as sombras e dúvidas se dissolvessem; voltaram a ser o mesmo casal apaixonado do passado com o adicional da confiança e da liberdade. O moreno não parecia ter mais receios de falar seus sentimentos e mesmo quando tinha, forçava-se a se libertar dessa sensação. Confiava em Shaka, confiava que ele nunca usaria nada contra si e por isso não mais temia. Shaka por sua vez também se mostrava mais aberto a falar de si e das suas necessidades. Agora, além de namorados e amantes, eles eram muito amigos e compartilhavam tudo.
Certo, os desafios existiam. Ainda era complicado para Ikki aprender que não deveria guardar as roupas misturadas – azul tinha que estar com azul, vermelho com vermelho, preto com preto – ou o loiro poderia surtar com isso. Ele ainda não conseguia se lembrar exatamente a posição que deveria ficar um par de canecas dentro do armário – e a pobre da empregada também não, coitada! –, mas ele tentava ter paciência. Aliás, conseguir que Shaka aceitasse uma empregada que ia à casa três vezes por semana foi muito difícil e eles brigaram por dias seguidos até que o moreno conseguiu convence o loiro que sim, existia um mortal capaz de limpar uma casa tão bem quanto ele. As portas e janelas também eram um problema constante, mas ele driblava-o, deixando o loiro tão cansado na cama, de forma que ele não fosse capaz de levantar quatro vezes na noite para verificar se tudo estava mesmo fechado. O tratamento continuava e as manias se suavizavam, mas nunca terminariam de fato. Ikki sabia e aceitava isso, às vezes se irritava, noutras se divertia, mas aceitava porque amava demais o companheiro e estaria ao lado dele sempre; mesmo nos momentos mais difíceis.
Shaka tentava segurar suas manias, mas havia épocas em que elas estavam incontroláveis e em que Camus precisava receitar medicamentos a mais para que ele controlasse a ansiedade. Ainda assim, o escritor estava cada vez melhor e esses episódios tornavam-se cada vez mais raros.
O loiro também se esforçava para que ambos fossem menos antissociais. Organizou até um jantar na casa do moreno em que convidou Kanon e a nova namorada, assim como Shun, Hyoga, Mu, Aiolia, Ângelo, Shura, Sasha e o namorado, Tenma, além da namoradinha do Jack, Safi.
Todos elogiaram a casa e o jantar, e a noite foi agradável. Ikki conseguiu controlar o ciúme e aos poucos foi se acostumando com os amigos do loiro. Logo, tornou-se natural o encontro deles. Shaka e Ikki iam aprendendo a socializar, pois ambos eram pessoas esquivas, Ikki por gênio e Shaka por causa do seu transtorno.
O tratamento do loiro continuaria por toda a vida. Não havia cura, mas controle.
Mudar-se para a casa de Ikki foi a melhor escolha que Shaka havia feito, embora ela tenha sido especialmente difícil para um Obsessivo-compulsivo, todavia ele venceu mais essa etapa e mudou-se, sempre tentando não pensar demais. Ali havia espaço para Jack e era um local tranquilo como gostava. Nunca mais teria que suportar vizinhos mal educados, se bem que o único vizinho com quem tivera problemas agora era seu ilustre marido.
Ainda brigavam de vez em quando, claro! Não existe vida perfeita e nem relacionamento sem desavenças, mas talvez toda essa imperfeição fosse de fato o que dava tempero à vida. Eles poderiam discutir acaloradamente por minutos, e também conversar por horas a fio, olhando as estrelas numa noite sem lua, e nunca, nunca dormiam zangados um com o outro. Isso era um acordo sugerido por Shun durante uma das muitas conversas que Ikki tinha com o irmão e aquilo dava muito certo e harmonizou a conturbada relação dos dois.
Era domingo e depois de almoçarem com Shun e Hyoga, eles voltaram para casa e dormiram o resto da tarde depois de fazerem amor. Shaka foi o primeiro a acordar e puxar o edredom para se proteger, pois como fazia muito calor o ar-condicionado estava na potência máxima. Ikki passou o braço pela cintura dele ao sentir-lhe os movimentos.
– Pra onde está fugindo? – ele murmurou, sonolento.
– Não estou fugindo, só estou com frio... – Shaka explicou, se aconchegando ao corpo dele.
– Então me deixe te esquentar mais um pouco... – ele falou e o indiano riu o abraçando, disposto a ficar ali até que anoitecesse, mas um latido ao pé da cama o fez se afastar um pouco do moreno. Ambos ergueram um pouco a cabeça e viram Jack abanando o rabo e os olhando ansioso.
– Ah não, Jack! – Ikki reclamou, escondendo a cabeça embaixo do travesseiro.
– Ele quer sair, Ikki, passou o dia inteiro sozinho – Shaka falou, se sentando na cama e começando a se vestir. – Vamos levá-lo para dar uma volta na praia.
– Não! Eu não quero sair! – resmungou o moreno.
– Certo, então dorme, eu levo – o loiro disse compreensivo, mas Ikki, resmungando, se sentou e começou a se vestir também.
– Por que você não deixou que eu o matasse quando podia? – disse, olhando feio para o cãozinho que nem se importou, saindo pulando na frente dos dois.
Como eles iriam somente ali perto, deixaram o Tsu apso sem a guia, e ele saiu em disparada, correndo e explorando a areia, latindo para as ondas, feliz da vida.
Os dois seguiam devagar, abraçados, observando o cão. Soprava uma brisa quente como era o vento do verão grego, mas a praia estava um tanto deserta naquele final de tarde o que conferia tranquilidade e paz ao ambiente.
– Estive pensando em tirar algumas semanas e fazer uma pequena viagem, o que você acha? – o moreno perguntou, olhando para onde Jack corria.
– Eu terei que pedir uma licença na agência.
– Shaka, já está na hora de você largar esse emprego. Seu livro está vendendo bem, não precisa mais dele.
– Estou amadurecendo essa ideia. Eu sou um psicótico maníaco depressivo, Ikki, é difícil pra mim, mudar minhas rotinas. – Disse tranquilo, pousando a cabeça no ombro do amado.
– Eu sei, por isso é só uma sugestão. Se você se sentir mais confortável mantendo o emprego na agência, não há problemas para mim, só não o quero exausto. – O mais novo falou, beijando a ponta do nariz do loiro.
– Eu estou bem, não precisa ficar preocupado. Estou sendo um bom menino e seguindo o tratamento direitinho. – Sorriu e viu Jack correr latindo para o meio de umas pedras. – Pobres siris! Jack! – Chamou o cãozinho que o ignorou, continuando em sua batalha.
– Mas como ia dizendo, pensei em viajarmos, passarmos alguns dias na Índia, falamos sobre isso uma vez, lembra?
– Claro que lembro, eu vou adorar – Shaka falou e chamou o cãozinho novamente. Acabou correndo até ele quando viu que Jack subiria nas pedras atrás do seu inimigo.
Ikki riu, pondo as mãos nos bolsos e observando o loiro pegar o cãozinho no colo, sem luvas. Ele quase nunca usava as luvas agora.
Voltaram para casa fazendo planos para a viagem, e quando relaxavam na cama, vendo alguma coisa na TV, Shaka lembrou-se de algo, ergueu-se e foi até o armário, voltando em seguida para a cama e subindo no quadril do moreno.
– Comprei algo pra você – disse, mostrando a ele uma caixinha. – Não é justo que eu tenha uma aliança e você fique desfilando naquela boate como solteiro... – abriu a caixinha e mostrou um anel muito semelhante ao que Ikki lhe dera. – Agora podemos nos considerar oficialmente casados.
Ele segurou a mão do moreno e colocou o anel em seu dedo. O empresário sorriu meio bobo, emocionado, e riu de leve.
– Puxa... Acabou com meu sucesso com as gatinhas... – provocou.
– Se falar isso novamente, eu coloco o anel em outro lugar...
– Hum... Depende de qual anel você está falando...
– Ikki, seu depravado! – Shaka ficou vermelho e riu ao mesmo tempo. O moreno se ajeitou nos travesseiros, o puxando para si pela cintura e inclinando-se para beijá-lo lentamente, saboreando os lábios dele como se os provasse pela primeira vez. Shaka simplesmente se perdia em devaneios quando Ikki o beijava daquela forma, era como se flutuasse num mundo de delícias.
Depois de muito tempo o mais novo deixou seus lábios e ficou o encarando com seus olhos escuros brilhantes.
– O que foi? – O loiro indagou com um sorriso bobo nos lábios.
– Nada. Eu só não canso de te olhar. Eu sei que é piegas, mas é a verdade...
– E existe algo mais piegas que amar de verdade? – Shaka perguntou e Ikki negou com a cabeça.
– Então sejamos sempre piegas!
Eles se beijaram avidamente enquanto a TV exibia um filme de ação qualquer, as ondas quebravam na praia, as sirenes urravam pelas ruas, a vida banal continuava em todas as suas cores e movimentos, e eles aproveitavam-se daquele momento, simplesmente aceitando a angústia de ser feliz.
Aproveitavam aquele estranho e intenso amor.
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