Essa Estranha Atração
17 Esse estranho passado
Notas iniciais
Eu demoro, mas não desisto de vocês. Bem, como tenho dito a cada resposta em review, estou nos penúltimo semestre da faculdade e a coisa apertou agora de vez. Não vou abandonar nenhuma fic, mas vocês sabem como as atualizações saem a passos de tartaruga, então peço a compreensão de todos.
Peço desculpas também pela demora de responder as reviews e por algumas respostas meio corridas, mas é que realmente o tempo me falta e eu não gosto de deixar sem responder. Gosto demais do retorno de vocês, para fazer algo assim.
Bem, é só isso por enquanto. Espero que vocês curtam o capítulo.
Beijos afetuosos a todos e boa leitura!
Esse estranho passado
Capítulo 16
A cabeça de Shaka parecia que iria estourar. Ele friccionou os olhos com força antes de abri-los, mas sua visão estava turva e demorou um pouco para que as coisas ao seu redor entrassem em foco. De repente, as lembranças o atingiram como um raio, e ele tentou se erguer, mas algo o impedia. O escritor percebeu que era Ikki que cochilava ao seu lado, segurando-lhe a mão.
O moreno acordou e o fitou preocupado.
— O-O que aconteceu? — o indiano murmurou. Sua mente ainda estava um tanto confusa e ele não conseguia se recordar de tudo.
Ikki o abraçou com força. Sentia-se aliviado por Shaka estar acordado e ao que parecia bem e lúcido. Tivera tanto medo de perdê-lo, medo de que a mente dele não suportasse e de que ele enlouquecesse de verdade. Suspirou de alívio e o apertou com força nos braços.
Ao sentir o calor do corpo do homem mais novo, o indiano acalmou-se e começou a se recordar parcamente da sessão de hipnose. Tudo parecia um sonho confuso e disforme, mas o loiro tentava reconhecer as imagens e entendê-las, até que as lembranças ficaram muito claras e fizeram com que ele cravasse os dedos nos braços do namorado, amarrotando sua camisa, em desespero.
— Não me pede pra voltar lá... — murmurou angustiado — Eu não posso voltar lá, Ikki, não posso!
— Não, você não vai voltar lá, nunca mais, Shaka. Está tudo bem agora. — Ikki falou acariciando os cabelos dourados, tentando consolá-lo.
Shaka afundou o rosto na curva do pescoço do moreno, inspirando profundamente, sentindo o cheiro bom que ele tinha. Parecia que não importava a hora, Ikki estava sempre cheiroso e isso o acalantava mais que qualquer sedativo.
— Estou no hospital? — sussurrou agitado — Eu não quero ficar aqui.
O empresário beijou-lhe os cabelos e o rosto com carinho. Ele queria passar força ao amado e tranqüilizá-lo.
— Está sim, amor, e precisa ficar calmo para que os médicos o deixem sair, entendeu? — afastou-se para olhá-lo nos olhos — Você teve uma crise nervosa muito séria. Eles estão preocupados, mas vai ficar tudo bem — adiantou-se a dizer para não preocupá-lo mais e sorriu tentando demonstrar confiança — Eu sempre vou cuidar de você, eu prometo.
Shaka o abraçou com mais força, sentindo lágrimas virem aos olhos.
— Desculpe por ter te assustado... Eu sei que devo tê-lo assustado muito. — Falou com angústia. Sentia-se fragilizado e não queria se esconder atrás de nenhuma máscara naquele momento. Precisava de Ikki. Precisava sentir que ele não o abandonaria. Precisava do carinho e do amor dele.
— Eu sei... — murmurou o moreno afagando os cabelos dele — mas quero que saiba que não está sozinho, eu estou aqui. — replicou e segurou-lhe as laterais do rosto o beijando com carinho — Não importa se todos duvidem disso, Shaka, não importa — falou beijando seus lábios várias vezes, pensando nas palavras cruéis de Shun. O irmão dissera que ele era incapaz de amar e isso o angustiava a ponto de ele repetir para Shaka o que queria na verdade falar ao irmão. Convencê-lo de que havia mudado, que era uma pessoa melhor e que era sim capaz de amar.
Shaka apertou a mão do namorado antes de levá-la de encontro ao próprio peito. Não queria mais fazer tratamento algum. Não queria passar por aquilo outra vez. Nunca mais queria voltar àquele quarto escuro.
— Obrigado por estar comigo — disse sincero. — Eu não sei o que faria sem você. Eu acho que enlouqueceria... de vez.
Ikki não disse nada, apenas o abraçou mais forte e ficou assim com ele até que uma enfermeira entrou no quarto com um novo comprimido que obrigou o loiro a engolir. Apesar dos sedativos, ele ainda estava muito agitado e não teria alta enquanto continuasse dessa forma. O namorado tentava acalmá-lo, mas o indiano continuava nervoso e isso fazia com que o moreno tivesse vontade de socar aquele psiquiatra maluco novamente! Iria processá-lo, espancá-lo, matá-lo e ressuscitá-lo para matá-lo de novo. E pensar que estava pagando rios de dinheiro para aquele ruivo imbecil, ainda por cima, escondido do namorado, porque sabia que Shaka não tinha condições de bancar as contas do tratamento.
Ikki fizera um acordo com Valentine de que ele pagaria parte das despesas se o terapeuta mentisse a Shaka dizendo que o valor era menor. Explicou que o namorado era orgulhoso e não aceitaria que ele o ajudasse. Um tratamento tão caro, para que no final... Aquele louco fizesse aquela terapia desastrosa. Mandaria sustar todos os cheques pagos a ele e ainda o processaria!
— Ikki? — o indiano o chamou após tomar o remédio que não demoraria a fazer efeito, já que o escritor ainda continuava um pouco sonolento. — Não vá embora. Eu não quero ficar sozinho aqui.
— Eu não vou embora. Só sairei daqui com você, certo? — sorriu — Quer alguma coisa? Água, algo pra comer? Eu mando providenciar. Deve estar com fome, passou o dia dormindo...
— Comida de hospital? — fez uma careta. — Vê alguma coisa que não tenha gosto de borracha — brincou. — Vai ser difícil...
O moreno riu — Eles não vão me deixar entrar com comida, mas se você se comportar, a gente sai daqui bem rápido. Daqui a pouco o médico virá examiná-lo, seja bonzinho, certo? — piscou.
— Não tem outro jeito — Shaka encolheu os ombros e bocejou em seguida. — Desculpe. Acho que não vou conseguir ficar acordado por muito tempo.
Ikki deixou que ele se recostasse no travesseiro e dormisse. Também estava cansado, mas não conseguia dormir, acabou vendo o dia amanhecer pela janela. Então se aproveitou do sono do loiro e resolveu voltar para casa, comer alguma coisa e tomar um banho. Estaria mais disposto quando o escritor despertasse.
Dirigiu rapidamente e como ainda era muito cedo, o trânsito estava tranqüilo. Quando entrou no apartamento, seu coração falhou uma batida. A decoração indiana ainda estava impecável. Os organizadores do jantar deveriam ter dado com a porta na cara na noite anterior. Depois ligaria para se desculpar.
Caminhou até a mesa e tirou do meio de um buquê de lírios a caixinha com a jóia. Suspirou e a deixou sobre a mesa mesmo. Haveria outra oportunidade. Tomou um banho rápido. Vestiu-se num jeans e camiseta, pegou a caixa e rumou de volta ao hospital. Esperava chegar antes que Shaka despertasse.
Mas Ikki não teve essa sorte. Quando acordou, Shaka virou a cabeça de um lado a outro à procura do namorado, mas ele não estava. Para onde ele teria ido? Ele não dissera que ficaria ao seu lado o tempo todo? Não queria estar sozinho caso um médico aparecesse. Agitado e ansioso, o loiro tentou levantar, mas não o fez por causa do soro que era introduzido em sua veia. Tentou então, pegar à campainha para chamar uma enfermeira, mas antes que a alcançasse, um rapaz vestido de branco entrou no quarto. Shaka gelou e o fitou assustado.
Shun observou o rapaz na cama por trás dos seus óculos de grau por um tempo em silêncio. Tinha consultado a ficha dele e se certificado de que o irmão não havia mentido. Não entendia muito bem porque pensou que ele mentiria, já que Ikki nunca foi homem de mentir ou dar satisfações a ninguém. Entretanto, não sabia mais quem era aquele Ikki, já que para ele, seu irmão havia morrido há quatro anos.
Percebendo que o paciente estava nervoso e assustado, o estudante achou melhor falar alguma coisa:
—Oi — sorriu. — Não se preocupe, eu não vim aplicar nenhuma injeção, não sou médico, ainda... Shaka. É esse seu nome, não é?
— Oi — Shaka respondeu o cumprimento ainda desconfiado. Ele não era médico? O que queria com ele então? — Sim, meu nome é Shaka Anish. Você é estagiário ou algo assim?
O loiro achou que o conhecia de algum lugar, mas não conseguia se lembrar de onde. Shun sorriu e tirou os óculos colocando-os no bolso do jaleco.
— Sou estudante sim, mas não estou aqui por causa disso. —Falou— Eu precisava muito conhecê-lo... Eu... eu sou ou fui irmão do Ikki...
—Irmão? — Shaka arregalou os olhos. Ele recordou-se do dia em que viu a foto de Ikki com o irmão mais novo em um porta-retrato. Os olhos incrivelmente verdes do garoto continuavam iguais. Lembrou-se também da vez que estiveram no hospital, e Ikki ficou terrivelmente pálido após ver alguém. Shaka só vira o rapaz de costas antes que sumisse pelo corredor. Mas naquele mesmo dia, Ikki confidenciou a Virgo que vira o irmão e por isso não estava bem.
— Ikki foge do assunto quando eu tento falar de você — o loiro disse hesitante e tentou ver o nome dele no crachá, mas o rapaz estava um pouco longe e a visão do indiano, meio embaçada.
Shun se aproximou um pouco mais. Continuava a fitar seriamente o rapaz na maca.
— Eu imagino. Durante muito tempo eu fugi também. não é um assunto fácil de falar. — Disse e estendeu a mão ao loiro —Meu nome é Shun.
— As condições não são as melhores, mas é um prazer conhecê-lo, Shun — Shaka disse balançando levemente a cabeça. — Me perdoe, mas... Eu não consigo tocar nas pessoas sem minhas luvas, e elas não estão aqui — explicou sem jeito. Não queria ser grosseiro com o irmão de Ikki.
Shun recolheu a mão enquanto erguia uma sobrancelha. Realmente o caso dele parecia bem extremo. Soube que o loiro entrara em crise por causa de um tratamento feito por Valentine Harpy, um renomadíssimo psiquiatra e psicólogo, mas que era conhecido por métodos pouco tradicionais. Agora, com aquela pequena demonstração, sabia o motivo do médico ter sido tão rigoroso.
— Tudo bem — falou calmo se sentando em uma cadeira — Eu não quero tomar muito do seu tempo, só queria conhecê-lo mesmo. Gostaria de saber como você conheceu meu irmão e... como vocês se envolveram, por que... Desculpe, mas até onde eu sabia, Ikki sempre foi heterossexual.
— Eu sei que é meio chocante ele estar comigo — Shaka disse enquanto se ajeitava melhor na cama para poder encarar o jovem. — Na verdade, acho que até hoje ele não aceitou muito bem... Mas aconteceu. É uma história complicada... Nós vivíamos brigando, somos vizinhos. Seu irmão sempre foi muito mulherengo. Levava muitas garotas para casa e o barulho era bem incômodo porque sou escritor, preciso de tranquilidade para me concentrar e o apartamento dele fica bem de frente ao meu. — Foi dizendo de vez sem pensar muito a respeito — Nós brigávamos por tudo, aí, num belo dia, eu fui à boate dele, nós discutimos outra vez e ele me beijou. Ele me achava um arrogante. Dizia que eu tinha nojo das pessoas, não sabia do meu problema. O beijo foi como uma punição. Depois disso ele ganhou um cachorrinho... O Jack. Ikki ficou ameaçando jogar o pobre coitado no incinerador de lixo e eu fiquei com pena... Acabei ficando com o filhote e isso nos aproximou — tentou resumir a história, embora não tivesse certeza de que houvesse se saído bem.
Shun escutava chocado e confuso as declarações do namorado do irmão. Então as coisas aconteceram daquela forma? Bem, Ikki beijando um homem somente para lhe dar uma lição não era algo muito convincente. Isso o levava a crer que o irmão já estava interessado em Shaka e a implicância, as mulheres e tudo mais, era apenas uma forma de fugir daquilo. Sua mente treinada analisava todas as palavras do loiro com atenção e astúcia.
— Quando vocês começaram a namorar, ele tentou esconder o relacionamento dos outros? — sabia que deveria ir com calma, estava agindo como se fosse o psicólogo do rapaz, mas não conseguia conter a curiosidade.
O loiro balançou levemente a cabeça em uma negativa.
— Não. Muito pelo contrário. Ele nunca fez questão de esconder nada. Me abraçava e beijava, muitas vezes em público.
Shaka queria perguntar por que ele e Ikki estavam brigados, mas achou cedo demais para indagar algo tão íntimo. Tudo bem que o que respondia era íntimo também, mas imaginava que fosse uma curiosidade de irmão e se isso ajudasse os dois a fizerem as pazes, continuaria a responder com prazer.
Já Shun, imaginava que Ikki estava passando por uma batalha interna sobre seus sentimentos e preferências. Ele gostava do loiro, mas não aceitava ainda muito bem sua condição e, como sempre odiou dar satisfações ao mundo, agia de forma contrária. Escolheu assumir abertamente como forma de proteção, porque preferia as ofensas públicas que o burburinho dissimulado às suas costas.
— Você não faz ideia dos motivos pelos quais nós brigamos, não é?
Shaka se espantou com a percepção do rapaz, mas logo sorriu.
— Não, não faço. E confesso que queria saber, porque Ikki parece sentir muito que aconteceu.
Shun cruzou os dedos os estalando e depois colocou os cabelos longos atrás das orelhas, encarando Shaka de uma maneira um pouco mais pessoal e melancólica.
— Brigamos porque eu sou gay. — Disse de forma simples e direta — Ele não aceitou. Eu já sabia do que gostava há muito tempo, mas esperei fazer 18 anos para contar ao meu irmão. Bem... Parece que eu deveria ter esperado mais. Entende por que é tão chocante pra mim, saber do relacionamento de vocês?
Os lábios do loiro se entreabriram com a surpresa da informação.
— Claro. Imagino o que você está sentindo... E o que ele está sentindo também. Foi tão preconceituoso com você e agora sente na pele o que você sentiu. Você acha que não consegue perdoá-lo? Eu tenho certeza que ele sente a sua falta, Shun. E seria ótimo para ele ter o seu apoio agora... Eu sei que é meio egoísta da minha parte pedir que fique ao lado dele, mas eu... Com esse meu problema... Não sei se nosso namoro vai durar, entende? Eu o amo e não quero fazê-lo sofrer. Ikki é uma pessoa que precisa muito das... sensações... físicas!, e eu não consigo ultrapassar certas barreiras. Se-Se não der certo e terminarmos, eu gostaria que você estivesse ao lado ele. – Disse tudo que pensava e o amedrontava sem receio de parecer exagerado. Realmente não sabia até quando Ikki suportaria tudo aquilo.
Shun sorriu com amargura.
— Por que eu tenho a impressão de que meu irmão não merece você? Creia, Shaka, entre Ikki e eu não dá mais. Ele me disse muitas coisas ruins no momento que eu mais precisei dele. Não dá pra simplesmente passar uma borracha. Mas acho que você não deveria estar tão preocupado com ele, pense em ficar bem por você mesmo. O Ikki sobrevive, ele sobreviveu ao se livrar da sua única família, com certeza ele não precisa tanto assim de alguém. — Ergueu-se e sorriu para o loiro. — Foi um prazer conhecê-lo, agora tenho que ir.
Shaka tentou impedi-lo, mas Shun foi mais rápido e deixou o quarto antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. O loiro se recostou na cama e ficou encarando a porta por alguns minutos. Shun parecia ser um rapaz doce, sensato e gentil. Com certeza Ikki dissera coisas muito graves para que provocasse tanta mágoa no irmão mais novo.
— E eu não posso fazer nada para ajudar — murmurou o indiano sentindo-se completamente impotente naquela situação. As feridas de Shun pareciam profundas demais. Esperaria Ikki chegar e tentaria conversar com ele, mas se bem conhecia o namorado, ele fugiria do assunto mais uma vez.
A porta se abriu e uma enfermeira entrou empurrando um carrinho com a comida
— Senhor Anish, hora do café da manhã. — Ela disse.
Shaka torceu o nariz, mas forçou-se a aceitar o alimento enquanto pensava numa forma de ajudar o namorado.
Ikki voltou horas depois. Havia aproveitado a rápida saída para comer alguma coisa. Infelizmente, sabia que não poderia levar um café da manhã decente ao namorado, mas aproveitou e comprou flores. Riu disso, ele comprando flores? Bem, não era do seu feitio, nem mesmo quando namorava mulheres, mas achou que Shaka se sentiria bem com elas. Escolheu lírios à rosas. Achou algo menos... Certo! Achou algo menos gay, dar lírios ao invés de rosas a outro homem. Na verdade, se classificar como gay ainda não era confortável e ele procurava não pensar muito no assunto.
Entrou no quarto no momento em que o escritor começava a tomar o café da manhã.
— Bom dia, loiro — disse se aproximando e beijando seus cabelos — Trouxe pra você — entregou as flores — Espero que goste, não conheço flores, mas achei essas bonitas...
Shaka sorriu enquanto levava as flores ao nariz.
— Bom dia. Você realmente se tornou um romântico depois que começou a ficar comigo — brincou. — Eu me assustei quando acordei e não o vi. Imagino que você foi ao seu apartamento. Lembrou de dar comida ao Jack?
— Lembrei sim, o Jack está bem, não se preocupe. — Falou examinando a bandeja que estava sobre as pernas do amado e fazendo uma careta — Eu queria ter trazido algo melhor que isso pra você, mas eles não deixaram. Já sabe quando vai sair daqui?
— Não, o médico não apareceu ainda e eu nem queria que ele tivesse aparecido mesmo. Não quero ser examinado se você não estiver comigo — Shaka colocou as flores na mesinha lateral e voltou a brincar com a comida. Já não estava com fome e aquela comida sem sal terminava por acabar com o seu ânimo.
— Hum... — o moreno pareceu ficar pensativo, então tirou algo do bolso e, puxando a mão do indiano, colocou sobre ela — Comprei isso pra você.
O loiro se surpreendeu e ficou um bom tempo olhando para a caixa de veludo negro, antes de soltar o talher e a abrir. Seus olhos se arregalaram ao ver o belo anel em ouro branco. Era uma jóia simples, sem muitos detalhes, mas elegante, de muito bom gosto.
Shaka sentiu os olhos úmidos e o coração disparar no peito.
— Eu...Obrigado! E-Eu não sei o que dizer!
Ikki apenas sorriu, segurou a mão do amado e colocou o anel em seu dedo.
— Não precisa dizer nada. Que bom que serviu — falou e beijou o indiano de leve na testa — Agora volte a comer, mocinho.
Shaka sorriu e obedeceu, mas não parava de olhar para o anel, embevecido. Sentia-se tão amado e importante, mas em meio a essa sensação boa, lembrou-se que precisava conversar com o moreno, sem demora.
— Ikki... Eu preciso falar com você sobre uma coisa que aconteceu enquanto você esteve fora — começou de forma pausada, pensando em como dizer aquilo sem assustá-lo, mas não havia outra forma que não fosse a direta. — Shun esteve aqui e conversamos por alguns minutos.
Ikki se ergueu abruptamente e piscou por um tempo sem nada dizer. Depois engoliu em seco e caminhou até a janela, mirando o dia lá fora, sem olhar para Shaka. Não queria que o loiro visse o quanto ficara perturbado com aquela informação.
— O que ele queria? — perguntou de forma seca, mas sentia o coração disparar no peito. As lembranças do último encontro e de todas as acusações ainda doíam, e ele temia um segundo encontro e a repetição de tudo.
Shaka suspirou. Tal como imaginava, Ikki estava tentando se refugiar em sua fortaleza interna onde seria difícil para o loiro alcançá-lo.
— Ikki, olhe para mim, por favor — pediu, mas não obteve sucesso. O moreno continuou encarando a rua como se a movimentação lá fora fosse muito mais interessante. Shaka suspirou mais uma vez — Ele só queria conversar... Perguntou-me como nos envolvemos — respondeu.
— E? — Indagou o moreno ainda sem olhar para o namorado. Não conseguia, simplesmente não conseguia encará-lo. Imaginava as coisas que Shun deveria ter dito a ele. Estava envergonhado de tudo que fez no passado e aquilo machucava e quando Ikki se sentia machucado, simplesmente fugia.
— Eu respondi e ele se mostrou bastante surpreso. Depois me contou que vocês brigaram, quando ele lhe contou que era gay, mas não entrou em detalhes. — Shaka odiava aquela postura do namorado, mas obrigou-se a falar sem deixar transparecer o quanto Ikki o irritava ao agir assim —-Vocês são bem parecidos. Quando eu tentei persuadi-lo a conversar com você, ele fugiu do quarto sem nem me dar chance de argumentar.
O empresário finalmente se virou para mirar o namorado.
— Não somos nada parecidos, Shaka. — Disse serio, mas sem agressividade — Vamos fazer o seguinte, que tal esquecermos tudo que o Shun disse hein? Não vale mesmo à pena ficar insistindo nessa história. — Falou se afastando em direção à porta — Eu vou procurar o médico, quero saber quando você sai daqui.
"Idêntico ao irmão", Shaka pensou enquanto observava Ikki se afastar. Até mesmo a dor que ambos mostravam em seus olhos eram iguais. E extremamente teimosos. O indiano sabia que a briga deveria ter sido séria, que não era fácil, mas estava claro que ambos sentiam muito o acontecido. Uma ideia passou por sua cabeça, entretanto não sabia se daria certo. Ele não queria fazer nenhum tratamento, porém não poderia desistir assim. Sua relação com Ikki terminaria se Shaka não melhorasse.
Shun parecia ser um bom profissional. Ele ainda era um estudante, mas o escritor sentia que conseguiria ficar a vontade com ele e que o garoto poderia ajudá-lo, mesmo sem uma terapia convencional.
— Eu quero que Shun seja o meu terapeuta — disse antes que Ikki alcançasse a porta.
Ikki parou e ficou um tempo de costa para o indiano tentando assimilar aquela afirmação. Quando se sentiu capaz, virou-se e o encarou de forma dura.
— Nem comece, Shaka, porque isso não vai nos levar a lugar algum. Não pense que pode me ajudar nessa questão porque não há o que ser feito. Shun e eu simplesmente não nos entendemos, então nem tente.
— Mas eu gostei dele e acho que ele é capaz de me ajudar. Não confio em mais em nenhum terapeuta — Shaka disse em um tom tranquilo. — Se ele não puder me ajudar, eu não quero qualquer outra ajuda. — Chantagem não era algo legal, mas situações extremas pediam medidas desesperadas.
O moreno cruzou os braços e sorriu com ironia.
— Ele é um estudante ainda, não tem respaldo profissional para tratá-lo, e se você insistir nisso... — respirou fundo para se controlar — Se você insistir nisso, Shaka, eu não poderei ficar ao seu lado durante o tratamento...
Ikki tinha certeza que aquela insistência era apenas uma tentativa de reaproximá-lo do irmão e não queria mais isso. Não falaria a Shaka que também já tinha procurado Shun e que ele havia se negado a ajudá-lo e até mesmo a ouvi-lo. Não precisava falar, só precisava que o indiano o compreendesse.
— Eu estou falando sério, Ikki. Depois do que passei ontem não vou voltar a nenhum consultório por mais renomado que seja o psiquiatra — Shaka disse triste. — E... Bem..., nós somos dois teimosos. Eu não vou ceder, você não vai ceder. Só nos restará a opção de...nos separarmos...
Obviamente não era o que o indiano queria, mas não estava insistindo para que Shun o tratasse apenas para ser uma ponte entre os irmãos. Ele realmente não se submeteria ao tratamento de nenhum outro profissional, e sendo assim, por mais que amasse Ikki, era melhor deixá-lo livre de uma vez.
Ikki o encarou por um tempo em silêncio.
— Se é esse valor que você dá ao que temos, algo que pode ser desfeito apenas por causa de teimosia... Como queira, Shaka, eu estou tirando meu time de campo! — falou e voltou a dar as costas ao loiro, saindo do quarto. Se ele pensava que fazer aquele tipo de ameaça seria o suficiente para convencê-lo estava muito enganado e não fazia aquilo apenas para manter distância de Shun e suas acusações. Seu irmão era um estudante e não possuía mesmo qualificações para tratar um caso complexo como o de Shaka. Seria um irresponsável se permitisse tal coisa.
O moreno chegou ao corredor e se sentou em um banco, segurando a cabeça entre as mãos. Estava cansado, muito cansado, e Shaka não ajudava nada com aquela ideia absurda. Parecia que o que fazia nunca era o suficiente.
Shaka balançou levemente a cabeça enquanto encarava a porta fechada.
"Não, amor, não é por causa da teimosia, é que eu sei que você está sofrendo e não sei o que fazer para te ajudar", pensou desesperado.
Enquanto pensava e tentava encontrar uma solução, alguém bateu na porta. O loiro autorizou a entrada da pessoa, mas imediatamente se arrependeu.Era o psiquiatra.
— O que você quer? — Shaka perguntou tentando manter um tom frio, mas estar sozinho com aquele homem o deixava nervoso. Ainda se lembrava da voz... Das ordens que ele lhe dava no momento em que estava naquele quarto mais uma vez.
— Conversar, Shaka. Apenas conversar — Valentine disse tranquilo.
— Eu não vou mais fazer tratamento algum com você! — o loiro vociferou — Saia daqui agora!
— Por favor, senhor Anish, não se altere ou será sedado novamente. Quero apenas conversar e explicar o que aconteceu —- Valentine continuou calmo — Escute, o senhor Amamiya pagou por todo o tratamento e não podemos interrompê-lo dessa forma abrupta. Tudo bem, o tratamento com hipnose não deu certo, então partiremos para outra opção.
— Eu não quero outra opção! — Shaka exclamou alterado — Fique longe de mim! Você é louco —- sentiu que o corpo estremecer de pânico. Estava retornando para O quarto, para todo aquele processo horrível de hipnose.
— Sim, tudo bem, eu vou sair! Acho que o tratamento de ontem deixou sequelas. O senhor está agitado demais... Precisa se acalmar eu terei que recomendar a ala psiquiátrica...
— Não! Eu não sou louco, entendeu? — Shaka exclamou desesperado — Vá embora! Vá embora!
A enfermeira, ao ouvir os gritos, entrou correndo no quarto e tentou acalmá-lo. Shaka parecia que entraria em uma nova crise nervosa. Valentine percebeu aquilo e principiou a sair do quarto. Não imaginava que o paciente ficaria tão agitado.
Ikki ergueu a cabeça quando ouviu barulho e movimentação vinda do quarto. Correu até lá e quase deu um encontrão com Valentine que saía. Um enfermeiro tentava conter Shaka que estava agitado e gritava contra o psiquiatra, enquanto uma enfermeira preparava-se para aplicar uma injeção no loiro.
— O que vocês pensam que estão fazendo?! — berrou entrando correndo, praticamente arremessando Valentine contra a parede e socando quem estava pela frente: psiquiatra e enfermeiros. — E a mulher só não levou um safanão porque foi prudente o suficiente para sair do caminho da locomotiva Amamiya antes — O moreno tirou o namorado dos braços do homem que o segurava e o abraçou com força, como se quisesse não apenas protegê-lo, mas escondê-lo do mundo. Ikki olhava para cada rosto ali como se fosse um animal raivoso.
— Eu vou arrebentar qualquer um que tentar chegar perto dele... — ameaçou entre dentes, e os profissionais acharam por bem recuar.
— Está cometendo um erro, senhor Amamiya — disse Valentine se erguendo do chão,massageando a nuca, mas mantendo a frieza de sempre — Seu companheiro precisa de um tratamento severo. Não é dessa forma que irá ajudá-lo.
— Não é você quem decide isso seu louco! Saia daqui! — berrou Ikki. Valentine fez um sinal e a equipe médica saiu do quarto.
Ikki abraçou o namorado com mais força, beijando-lhe os cabelos e repetindo que ficaria tudo bem. Ele nem percebeu que Shun os observava parado na entrada do quarto.
Continua...
Notas finais
PERDOEM-ME POR POSSÍVEIS ERROS PELO TEXTO. SEM TEMPO PARA UMA BOA REVISÃO.
Beijos a todos e até a próxima postagem!
Sion
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