Notas iniciais
Oi pessoal.
Bia postando.
Sion e eu andamos meio ocupadas nesse começo de ano e por isso o capítulo demorou mais que o previsto. Espero que a gente consiga respirar um pouco entre tanta coisa pra fazer e postar o próximo logo.
Bom, espero que curtam o capítulo :)

Esse estranho namoro

Capítulo 6


Ikki ouviu a campainha. Estava no quarto se vestindo e correu para sala trajando apenas a calça leve branca e com a regata azul nas mãos. Deu uma olhada no ambiente que estava limpo, mas um tanto desorganizado. Tirou jornais e revistas de cima do sofá e jogou em algum canto. Estava preocupado com o que Shaka pudesse pensar da sua casa, mesmo que não quisesse admitir isso.


— Estou indo — falou caminhando em direção a porta, esquecendo a camisa sobre o sofá. Quando abriu, surpreendeu-se ao vê-lo com uma bandeja nas mãos — Oi... — disse e deu passagem para que ele entrasse — Eu... obrigado, mas eu não estou com fome... — falou sem jeito, umedecendo os lábios.


O loiro travou completamente com a visão do dorso nu de Ikki. Aquilo deveria ser provocação! Aquele peito forte, definido, os braços malhados, o abdômen sarado, os pêlos negros que sumiam no cós da calça de cintura baixa...


O primeiro pensamento de Shaka foi de dar meia volta e correr para longe da tentação. Céus, ele não conseguiria resistir por muito tempo e Ikki certamente o rejeitaria! Com que cara ficaria depois disso?


— Você não tem querer — conseguiu dizer e amaldiçoou-se por deixar sua voz sair tão rouca e falha. — Está fraco. Precisa se alimentar para ficar bom logo — falou entrando, após o convite do moreno.


Olhou cuidadosamente ao redor. Não era o mais organizado dos lugares, mas era limpo e aconchegante.


— Eu imaginava outra coisa — sorriu um pouco sem jeito.


Ikki riu gostosamente — O que imaginava? Um verdadeiro pardieiro não é? — Falou tirando a bandeja das mãos dele e colocando na mesinha ao lado do sofá. Estava nervoso, algo dentro dele dizia que precisava resolver as coisas naquele momento. Agora ou nunca, precisava definir o que sentia pelo loiro e se levaria aquele sentimento adiante por que... Deuses! Ele era um homem e o moreno nunca sentira atração por homens. Sim havia Virgo, mas Virgo não era o que se podia chamar de HOMEM, porque nunca chegara perto dele e não sabia se seu corpo responderia da forma que respondia a Shaka.


Aspirou profundamente e sentiu o cheiro fresco do sabonete dele. Ah merda! Isso não vai dar certo!


— Eu não sei explicar bem — Shaka andou pela sala observando os pequenos detalhes. — Imaginava muito vermelho, espelhos... E é melhor não continuar porque senão vou ofendê-lo e... estou gostando de ficar mais de dois minutos sem brigar com você — disse e corou ao se dar conta das palavras. Um porta-retrato perto do telefone chamou-lhe a atenção; nele, um adolescente sorridente acenava ao lado de um Ikki bem carrancudo. — É seu parente? — perguntou sem conseguir conter a curiosidade e para fugir também do embaraço das palavras.


Ikki olhou em direção ao porta-retrato onde apareciam ele e Shun, uma foto muito antiga que conservava como uma das poucas lembranças do que chamara de família um dia.


— É meu irmão — disse simplesmente. — Mas é engraçado, então achava que eu morava em uma espécie de motel residencial? — desconversou para desviar a atenção de Shaka do porta-retrato. — Não imaginava que pensasse tão mal de mim... — observou pegando a bandeja e levando-a para a cozinha com a intenção de se livrar dela também. Não estava com muito apetite.


Shaka olhou da fotografia para o vizinho e percebeu que havia algo errado ali. Será que o tal irmão havia morrido? O olhar do moreno foi tão melancólico... No entanto, achou melhor não insistir no assunto.


— Com a quantidade de mulheres que entram e saem daqui... — o loiro encolheu levemente os ombros. — E nem pense que vai fugir com isso — disse em um tom aborrecido. — Ou serei obrigado a te dar na boca?


Ikki parou com a bandeja, encolhendo os ombros e respirando fundo. — Se você quer saber, eu nunca as convidei, elas vinham porque sozinhas e... caramba, não sou santo também. – Estava se explicando e se expondo demais. Pensou. Mas já havia dito mesmo e não tinha como voltar atrás. — E tudo bem, se você insiste tanto, eu como, não precisa se incomodar... — colocou a bendita bandeja sobre a mesa e se sentou, pegando a xícara que fumegava sobre ela e começando a sorver... Um chá horroroso!


— Não faça cara feia, isso é chá de gengibre. Vai ajudá-lo a melhorar mais rápido. Aposto que você está rezando para que eu volte a me trancar no meu apartamento e deixá-lo em paz — falou o escritor em um tom de brincadeira. Ouvi-lo falar sobre as garotas era um golpe duro, e Shaka sabia bem que Ikki não era santo, mas se ao menos ele se interessasse por homens também...


"Deixe como está, Shaka, vocês não estão discutindo e isso já está de bom tamanho", pensou após um suspiro mais carregado.


Ikki sorveu o chá com repugnância e olhou para o loiro por cima da xícara — Por que acha que quero isso? Não acha que se eu quisesse isso... — Interrompeu-se num suspiro — Ah, esquece, deixe-me terminar meu chá horroroso, não quero ficar empatando você e... ainda tem o Jack...


— O que tem o Jack? — o loiro ergueu uma sobrancelha. — E, não sei, talvez eu esteja empatando a sua vida sexual totalmente... como foi que você disse mesmo? Ah sim, "jovem e sexualmente ativo e não frustrado, recalcado e azedo, além de lunático".


Ikki parou de tomar o chá e entreabriu os lábios surpreso com as palavras do vizinho. As palavras ditas por ele pareciam tão duras ao serem proferidas pelo loiro, duras como ele nunca achou que fossem quando as despejava no calor do momento.


— Você não atrapalha nada — murmurou meio envergonhado e tentando disfarçar isso. Não gostava da forma que Shaka sempre conseguia acuá-lo. Não era fácil intimidar alguém como Ikki Amamiya, era ele quem intimidava com sua presença máscula e dominadora, seu jeito sempre reservado e hostil. Era um homem realmente de poucos amigos ou nenhum. Seus envolvimentos, meramente eventuais. Na verdade, há muito tempo que a pessoa mais próxima a si (pessoa real) era o loiro que sempre encontrava um pretexto para provocá-lo... Pretexto? Será que era somente isso? — Posso fazer uma pergunta? — ignorou a maior parte do que o escritor disse — É uma pergunta muito pessoal...


Shaka pensou em negar e ir para o próprio apartamento de uma vez, mas era extremamente curioso, às vezes até demais; e obviamente, a vozinha irritante ficou gritando em sua mente: 'Diga que sim!' Ele percebeu que Ikki ficou sem jeito depois que repetiu o que ele havia dito na briga mais recente dos dois e isso atiçou ainda mais a sua curiosidade.


— Pergunte — foi quase um sussurro. Esperava não se arrepender da liberdade que estava concedendo.


Ikki mordeu o lábio inferior e encarou o vizinho sério por um tempo, analisando se realmente deveria fazer aquela pergunta. Apesar de ser muitas vezes um homem impulsivo, ele também era alguém extremamente calculista quando necessário e percebia que Shaka exibia aquela máscara de superioridade porque fugia de alguma coisa, embora não soubesse exatamente o que fosse.


— Como é o relacionamento entre dois homens? — despejou de uma vez com uma voz que demonstrava segurança embora seu coração batesse forte.


— Relacionamento... como assim? — gaguejou o escritor. – Sexo?


— Cama, mesa e banho, Shaka — cruzou os braços bufando —, tudo. Como é amar um homem? Alguém igual a você, assim... TUDO igual a você, entende? — estava um pouco nervoso em ter que ser tão direto.


— Não é tão diferente de... de um relacionamento hetero — Shaka respondeu um pouco inseguro. Não gostava de mentir, mas não se sentia bem em dizer a Ikki que só conhecia a teoria naquele caso. O moreno com certeza riria se soubesse que ele ainda era virgem. — Não é como se um dos dois virasse uma mulher na relação. Eu mesmo nem gostaria que isso acontecesse porque nós continuamos sendo homens mesmo nos relacionando com um igual... É como qualquer outra relação, com seus altos e baixos e... encontros e desencontros — falava nervoso até que encarou o mais jovem atentamente — mas... Por que você quer saber sobre isso?


Ikki pousou a xícara na bandeja e virou o corpo para encarar o loiro que estava sentado ao seu lado. Resolveu que seria direto.


— Shaka, ontem... Nós dois nos beijamos esqueceu? Não acha isso suficiente para me interessar pelo assunto?


— Então... Você me usou como um teste para a sua curiosidade? – o indiano deixou os ombros caírem, sentindo-se subitamente desanimado.


Ikki franziu as sobrancelhas — Curiosidade? Não. Eu nunca tive curiosidade sobre bichas... Digo... sobre isso! Merda, desculpe! — teve vontade de se estapear — Bem, loiro, não foi por curiosidade, isso eu sei que não foi...


Shaka se levantou quando ouviu Ikki falar daquela forma. E doeu, doeu muito. Ele continuava sendo o mesmo homofóbico de sempre.


"Fui tolo ao pensar que ele estava mudando!", pensou dolorido.


— Os remédios estão aí — disse seco. — Pode deixar a bandeja na porta da minha casa. Depois eu pego — e fez o movimento de que sairia, mas Ikki se ergueu abruptamente e segurou-lhe o braço, evitando que ele prosseguisse.


— Me desculpa! eu não quis ofendê-lo — pediu o olhando nos olhos. — Eu não sou muito bom com as palavras e muitas vezes sou um idiota, mas não quero que vá embora assim. Não quero deixar a bandeja em sua porta, não quero que volte a ser como antes. Eu... — respirou fundo — eu gosto das coisas exatamente como estão agora... você e eu assim... sem brigas e... — sucumbiu à vontade e tocou a pele macia do rosto dele com os nós dos dedos — Eu gostei de beijar você... — confessou. Seu coração parecia que sairia do peito. Pensava que a qualquer momento Shaka começaria a rir da sua cara.


Mesmo sem querer, Shaka fechou os olhos e entregou-se ao carinho que Ikki fazia em seu rosto. Sua vida já era tão complicada com suas manias... Seria certo mergulhar de cabeça naquilo que vinha sentindo por ele? E sua amizade com Fênix como ficaria?


— Você tem que aprender a controlar sua língua — forçou-se a soar calmo ao abrir os olhos, mesmo seu coração querendo sair pela boca de tão rápido que batia. — Você me magoou várias vezes, Ikki, e tenho medo de ficar perto de você e me machucar ainda mais. Talvez seja melhor deixar como estava antes, mas sem as discussões...


O moreno afastou a mão do rosto do loiro e soltou o braço de Shaka, fechando a expressão para que sua decepção não se estampasse em seu rosto. — Desculpe, devo estar pedindo demais. Devo está falando demais como sempre. Se você prefere assim, tudo bem — declarou sério — Pode levar a bandeja, já comi o suficiente. Obrigado e desculpe novamente — começou a caminhar para o quarto. Estava frustrado porque pela primeira vez não sabia como agir em uma situação, não conseguia prever os próximos movimentos, a próxima jogada. Não sabia como jogar aquele jogo, porque era novo para ele e estava confuso, perdido... Era melhor recuar.


Shaka mordeu levemente o lábio inferior, porém não voltou atrás em sua decisão. Deixou o apartamento, mas não levou a bandeja, pois continuava achando que Ikki precisava se alimentar se quisesse se recuperar mais rápido. Ao entrar em casa, foi recebido por um alegre e saltitante Jack.


— É, vocês que são felizes — disse ao cachorrinho. — Sem problemas amorosos.


Sentou-se diante do computador e conectou o MSN. Sentia-se frustrado e desanimado. E o pior era que não achava que uma conversa com Fênix fosse melhorar as coisas e até horas atrás, Fênix sempre conseguia deixá-lo de bom humor. Estava realmente se desconhecendo!


Ikki entrou no quarto e ouviu quando a porta do seu apartamento bateu, denunciando que Shaka fora embora. Talvez fosse melhor assim, aquilo o livrava de problemas, mesmo que... Puta merda! Só conseguisse pensar naquele maldito beijo.


Ligou o computador e conector o MSN, dissera a Virgo que voltaria e não voltou desde o dia anterior, deveria lhe dar uma satisfação. Sentou-se de frente ao computador e tossiu sentindo o gosto do chá de gengibre nos lábios. Percebeu que Virgo estava definido como “ausente”, ainda assim arriscou:


Fênix diz: Está aí?


Shaka apoiou a cabeça em uma das mãos enquanto olhava sites de notícias, mas não havia nada que estivesse realmente chamando sua atenção.Viu quando a janelinha do MSN começou a piscar e pensou se deveria ou não responder. Acabou digitando a mensagem, apesar de saber que não poderia desabafar sobre Ikki com o amigo virtual.

Virgo diz: Sim, estou. Bom dia.


Fênix diz: Bom dia, tudo bem?


Virgo diz: Não quero te amolar com os meus problemas em plena manhã de domingo então vamos pular essa pergunta (risos).


Fênix diz: Pena. Eu adoraria ouvir seus problemas, porque achar alguém que estivesse mais ferrado do que eu talvez melhorasse meu humor (Risos).


Virgo diz: Nossa, mui amigo você, viu? Mas é sobre aquele assunto que você não quer ouvir e eu não quero ficar falando sozinho outra vez.


Fênix diz: Sobre o cara que você gosta que é homofóbico? Não se preocupe, pode falar o que quiser. Eu estou em uma situação bem esquisita também com outra pessoa, então sinta-se à vontade.


Shaka franziu a testa ao ler a resposta. Situação estranha com outra pessoa? Deveria ter sentindo um aperto no peito ao ler isso. Sentiu-se estranho, claro, mas não foi aquela onda de ciúme que o afundava como quando pensava em Ikki com as infinitas mulheres. Bom, depois o questionaria sobre isso.


Virgo diz: Sim, o homofóbico. Nós nos aproximamos um pouco e eu até pensei que ele pudesse ter superado o preconceito, mas ele só conseguiu me magoar outra vez.


Fênix diz: Que cara idiota! Ah, desculpe, sei que isso não é exatamente o que precisa ouvir. Mas fico revoltando, como ele pode fazer isso com alguém como você?


Virgo diz: Eu não sei o que fazer. Tenho medo de me envolver e sair ainda mais machucado disso tudo. É uma situação muito complicada.Mas e você? Eu estou mais ferrado que você ou não?


Ikki hesitou. Ele e seus dedos nervosos. Não queria falar daquilo, mas já que começou, era sua obrigação responder as perguntas dele.


Fênix diz:Tão ferrado quanto (Risos). Eu estou...Apaixonado por uma garota que não me dá bola...


Contou uma meia verdade, porque Shaka não era uma garota e a questão era bem maior e mais complexa do que simplesmente alguém que não lhe dava bola. Oras! Ele o rejeitara categoricamente e não lhe dera chance de argumentar. Agora só podia mesmo esquecer e fingir que aquele beijo delicioso não existiu. Voltar a sua rotina sadia de sexo casual...


Não soube porque se sentiu triste ao pensar naquilo. A verdade era que naqueles poucos momentos que passaram juntos, a presença do loiro lhe levara um calor e bem estar que há muito tempo não sentia.


"Eu sabia que aquela história de estar interessado em mim era apenas uma confusão de sentimentos", Shaka pensou após um suspiro pesado. Pelo menos não corria o risco de perder a amizade dele caso ele e Ikki... "Não tem VOCÊ e Ikki!", pensou exasperado enquanto começava a digitar a resposta.


Virgo diz: Essa garota é cega então! Como alguém em sã consciência pode não te dar bola? Sinceramente, não sei se ela te merece.


Ikki mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça enquanto digitava.


Fênix diz: Mas na verdade, o problema sou eu, eu errei, a magoei. Já disse que não sou a mais adorável das pessoas e não sou muito bom com as palavras, entende? Ah, eu queria pedir desculpas pela confusão daquele dia. Como falei, acho que estava muito confuso com meus sentimentos e como... Bem, como você sempre foi a pessoa mais legal em minha vida, acho que acabei confundindo tudo.


Virgo diz: Tudo bem. Isso tira um peso das minhas costas porque eu não queria perder a sua amizade... Mas, ainda sobre a garota, você tem que se desculpar, se realmente a ama, tem que lutar por ela.


Fênix diz: Eu tentei, ela não quer saber de mim.


Virgo diz: Tentou? Mesmo? Para valer? Não sei, você parece ser uma pessoa que coloca o orgulho acima de tudo. Acho que ela disse não uma vez e você já desistiu.


Claro que sim! Quem em sã consciência diz não a Ikki Amamiya?


Pensou e coçou os cabelos. Será que tinha feito isso? Como Virgo podia saber tanto dele estando tão longe? Seria tão mais fácil gostar dele, já que tinha que gostar de um homem, do que daquele vizinho belo e esquisito que estava dando um nó em seus sentimentos e pensamentos.


Fênix diz: Talvez eu não tenha insistido muito mesmo, eu... bem, eu não entendo muito dessas coisas de relacionamento. Eu só tive uma namorada quando tinha 16 anos, depois disso foram mais casinhos sabe? Nunca algo sério e depois que briguei com meu irmão, aí sim eu me tranquei completamente.


Virgo diz: Também não sei muito sobre relacionamentos. Mas aí está a graça de tudo, não acha? Descobrir com ela como levar as coisas.


Shaka parou de digitar ao ver que Jack estava fazendo xixi em seu sofá. Ele fechou os olhos e contou até dez, mas o surto histérico veio mesmo assim.


— JACK!!!!!!!!!!! — gritou alterado e o cachorrinho correu para o outro lado da sala.


Bufando como um touro bravo, recomeçou a digitar.


Virgo diz: Olha, eu vou ter que sair. Surgiu um problema urgente aqui. Depois nos falamos. E pense no que disse.


Ikki desconectou assim que Virgo saiu sentindo um vazio profundo no peito. Fosse um domingo normal, ele estaria em algum lugar com uma das garotas que não paravam de ligar para o seu celular. Mas agora, seu telefone estava desligado e seu domingo perdido entre uma tosse filha de uma mãe e sentimentos confusos. Voltou à sala, precisava comer alguma coisa ou cairia de inanição a qualquer momento. Caminhou até lá e viu que Shaka deixara a bandeja no mesmo lugar. Mordeu o lábio inferior um tanto irritado. Foi para a cozinha e tomou um copo de suco de laranja. Tratou de jogar no lixo os pães e as frutas que o loiro lhe levara, não queria que ele achasse que era uma desfeita. Saiu do apartamento e colocou a bandeja na soleira da porta do vizinho, tocando a campainha e começando a se afastar. Foi quando ouviu o loiro gritar com o cachorro e se obrigou a ficar no mesmo lugar tocando a campainha novamente.


Em passos pesados e furiosos Shaka foi atender a porta.


— O que está havendo? Quer que chame os bombeiros? — ironizou o moreno sobre os gritos dado pelo vizinho.


— Eu vou matar aquele cachorro — volveu Shaka em um tom furioso.


— O que o coitado do cachorro fez? — indagou o moreno lhe entregando a bandeja e entrando no apartamento, chamando o animal que se aproximou ressabiado com rabinho entre as pernas. Pegou o bichinho nos braços vendo-o fazer festa, sorriu — O que esse malvado fez com você? —questionou ignorando Shaka.


— Malvado eu? Esse cachorro é um monstro imundo! — falava o escritor furioso. E a culpa é sua! Foi você quem trouxe esse bicho para cá então me deve um sofá novo! — realmente era difícil deixá-lo naquele estado, mas Jack havia conseguido. — Ele saiu da varanda e achou que o meu sofá era um bom lugar para demarcar território! E não olhe para mim com essa cara, Jack! Você não vai me comover!


Ikki riu divertido da revolta do vizinho — Que coisa feia, Jack! Você estragou o sofá do loiro, bichinho malvado, muito malvado mesmo! — falou teatralmente, soltando o cachorro e mirando o indiano — Eu mando trazer um sofá novo para você amanhã, okay?


— Não tem graça nenhuma — Shaka retrucou irritado. Depois suspirou. As duas noites praticamente em claro estavam começando a querer derrubá-lo. — Coloque-o na varanda e feche a porta. Estou esgotado, não dormi nada — murmurou enquanto massageava as têmporas.


— Por minha causa — volveu Ikki olhando-o de lado — Acho que só fiz atrapalhar sua vida, o Jack, seu editor, a noite mal dormida. Acho melhor levar esse cachorro daqui, você ficará melhor sem ele e... sem mim...


Um alerta pareceu se acender no escritor e ele não soube o que dizer, mas precisava falar alguma coisa urgente, pois parecia que, dessa vez, Ikki sairia da sua vida para valer. Caso ele levasse Jack embora, não haveria mais nenhum vínculo entre os dois.


— Não! Deixa o Jack aí. Eu reclamo, mas... eu estou me afeiçoando a ele. É só ensiná-lo a fazer as coisas no lugar certo — falou um pouco incerto. —E quanto a você... Eu... Só tenho medo de me machucar, Ikki.


Ikki suspirou com a declaração e fechou a porta do apartamento do vizinho. Aproximou-se de Shaka e tirou a bandeja das suas mãos colocando-a numa banqueta – Eu não vou machucá-lo, prometo – disse segurando-lhe o queixo e olhando dentro dos seus olhos — Preciso só que... Que tenha paciência e me ensine a... a viver isso que é tão novo pra mim, a vencer meus preconceitos... ou conceitos não sei! Eu só sei que não quero me afastar de você, eu não sei muito bem o que sinto, o que acontece entre nós dois, Shaka, mas quero descobrir. Você quer?


— Eu... — Shaka o encarou procurando por alguma mentira nos olhos dele, mas só conseguia ver desejo, paixão. Por todos os deuses! Tinha que viver aquilo. Estava completamente envolvido por Ikki e achou que ele jamais corresponderia e lá estava a sua chance. Se dissesse não, sabia que se arrependeria para o resto da vida.


— Sim — disse com a voz firme—, eu quero tentar.


Aquela pequena frase foi suficiente para Ikki o puxar pra si e dominar sua boca em um beijo sôfrego, apertando a cintura delgada do loiro por cima da camisa que ele usava, explorando os lábios doces com a língua. O desejava de forma desoladora, e perguntava-se agora se a implicância mútua não era na verdade tensão sexual desde o começo.


Shaka gemeu baixinho diante da impetuosidade daquele beijo. O contato parecia estar causando pequenas descargas elétricas por todo o seu corpo, fazendo-o ansiar por mais. Passou os braços em torno do pescoço do moreno para trazê-lo para mais perto. Ele não conseguia entender porque sentia aquilo. A sensação de beijar Ikki era diferente de tudo que já havia sentido e nem de longe se assemelhava ao nojo que sentia dos demais. Apertou os fios negros com força e enroscou a sua língua na dele clamando por algo que nem sabia exatamente o que era. Só sabia que precisava de mais. Muito mais.


Ikki ao sentir o quanto o loiro estava receptivo, deslizou os dedos por suas costas o puxando mais contra seu corpo, deixando o beijo ainda mais urgente. Uma de suas mãos massageava a nuca do loiro o mantendo perto e a outra deslizava por suas costas, dedilhando os músculos suaves dele. Estava excitado, sua ereção já desperta pressionava-se contra o quadril de Shaka pelo tecido fino da calça. Há muito tempo não se sentia tão excitado com apenas um beijo... Estava mesmo ferrado, ferrado de paixão por ele, um homem. Sua mente ainda tentava lutar contra aquilo, mas seu corpo já havia decidido se entregar há tempos. Desceu os lábios ofegantes pelo pescoço macio, afastando os fios trigueiros e provando a pele cheirosa com beijos e lambidas sensuais, subindo para mordiscar a orelha dele, ouvindo seu gemido excitado e permissivo...Sorriu, estimulado a continuar com a carícia.


— Ikki... — Shaka suspirou sentindo o corpo tremer a cada beijo depositado em seu pescoço. Hesitante, o loiro levou as mãos ao peito do vizinho o tocando por cima do tecido. Mordeu levemente o lábio inferior impedindo-se de gemer mais alto.


Céus, que revolução era aquela que estava acontecendo com ele? A necessidade de tocá-lo sobrepujava qualquer outro pensamento que cruzasse sua mente. Brincou com a barra da camisa dele, e sem conseguir resistir mais, deslizou a mão até o abdômen e suspirou ao sentir os músculos fortes se contraírem por causa dos seus toques tímidos e desajeitados. Sentia-se como um menino descobrindo um brinquedo novo, mas teria que fingir que tinha experiência, afinal não dera a entender que havia tido outros relacionamentos? Morreria de vergonha caso Ikki percebesse o quão inexperiente era.


O moreno arfou ao sentir a mão macia em seu abdômen, procurando conhecer cada músculo seu. Gemeu e voltou a beijar a boca do loiro, prendendo seus lábios entre os dentes por um tempo e deixando depois a língua vasculhar o interior e brincar dentro da boca gostosa do escritor. Desceu as mãos pelo peito dele, tocando os músculos definidos, embora bem menos que os seus. Sorriu com os pensamentos, quando o chamava de magricelas, vendo que apesar de magro, Shaka tinha um corpo muito bem proporcionado. Experimentou os botões da camisa dele, sentindo o loiro recuar um pouco, abriu os olhos que estavam fechados até então e encarou os dele – Eu quero te tocar... – sussurrou pedindo permissão para continuar desabotoando a camisa que Shaka vestia.


Shaka gemeu, mas virou o rosto. – Acho que... Está rápido demais. Vamos com calma.


Ikki não entendeu. O que significava ir com calma? Suspirou e recolheu a mão confuso, afinal eles eram dois homens adultos e não duas garotinhas inocentes, mas tentaria ser paciente, sabia que Shaka era cheio de manias e aquela com certeza era mais uma delas — Você não quer? — indagou tentando não demonstrar insegurança na voz e sim tranqüilidade, embora estivesse nervoso como poucas vezes esteve na vida. Ser rejeitado não era bem o que esperava e nem o que estava acostumado. Tinha consciência que sua cama era um lugar que a grande parte do público gay da Santuário ansiava por estar, embora nunca tenha dado chance a nenhum deles.


— Quero, mas... — Shaka desviou o olhar por um segundo antes de voltar a se fixar no azul profundo dos olhos à sua frente. — Nós mal nos conhecemos, Ikki. Pode parecer bobagem, mas eu não quero somente ir prá cama com você, não quero ser como as pessoas que freqüentam sua casa... — acrescentou com cuidado.


O mais jovem franziu as sobrancelhas e adquiriu uma expressão mais fechada — Você acha que pra mim é só isso? Que você é só mais uma pessoa que quero levar pra cama? Por Zeus, Shaka, eu não precisaria de tantos subterfúgios se fosse apenas isso! Não estaria aqui pisando em todos os valores que tive até hoje somente por uma transa. Você não faz idéia... — inspirou para não perder o controle, baixando o olhar e colocando as mãos no quadril — Você não faz idéia do quanto isso é difícil pra mim e... das coisas que perdi exatamente por... porque isso é difícil pra mim...


– E você acha que é fácil para mim? – Shaka exasperou-se e se afastou ainda mais do moreno. – Nós nunca nos demos bem... E de repente eu sinto tudo isso... É muito confuso. Não consigo esquecer todas as coisas que você me disse durante esse tempo! E pelo jeito você continua pensando o mesmo... Eu sou uma “bicha” que não merece qualquer tipo de consideração – não sabia porque estava falando aquilo. Ainda estava magoado. Talvez quisesse feri-lo também.


Ikki encarou o loiro profundamente por um tempo. Um olhar profundo e um tanto triste. – Se você não é capaz de esquecer as coisas que eu disse, é melhor mesmo não continuarmos. – suspirou – Olha, Shaka, eu estou tentando, estou tentando ser legal como nunca tentei na vida por ninguém, mas se você ficar o tempo inteiro jogando as coisas que disse na minha cara, ficará difícil um relacionamento entre nós dois. Eu vim de peito aberto, morto de medo de você rir da minha cara e mandar o troglodita aqui catar coquinhos na feira. Então, acho que um pouco de boa vontade da sua parte em esquecer o passado seria legal para o nosso relacionamento. Além do mais, que importância tem uma palavra, você entendeu o que eu quis dizer, por que a palavra é tão importante?


— Desculpe-me, mas não consigo esquecer tão fácil e não vou mudar do dia pra noite. Não foi a primeira vez que você me magoou. Mas posso tentar melhorar. E também, se quer mesmo saber, estava morrendo de medo do que estou sentindo por você e pensando que jamais seria correspondido! Sou... tão humano quanto você — suspirou profundamente. — Só pedi um tempo para me acostumar com tudo isso. Acho que você também precisa disso. Se você acha que estou pedindo demais então vamos encerrar sim por aqui.


Ikki deixou escapar uma risada irônica:


— Parece tão fácil pra você dizer “vamos encerrar por aqui”, isso me faz pensar que na verdade o que você sente não é assim tão forte quanto me fez acreditar há... Minutos atrás! — falou irritado, disfarçando com ironia. Estava magoado com as atitudes de Shaka, não com o fato de ele querer ir devagar, entendia o seu lado, mas se ficassem jogando o passado na cara um do outro a cada discussão, realmente aquilo não daria certo. Queria ficar com ele... Deus! Queria de verdade contra todas as probabilidades do mundo, contra todos os preconceitos que existiam. Estava realmente apaixonado por ele, mas... Bem, talvez apenas gostar não bastasse...


— Por Buda, Ikki! — Shaka exclamou exasperado. — O que você quer afinal de contas? Foi você quem sugeriu que não insistíssemos nisso! Quando eu digo que tudo bem, você surta! Eu não agüento isso! Não consigo simplesmente virar a página da forma que você quer! Eu disse que vou tentar, que não vou pensar mais nisso, o que mais você quer que eu diga? Droga, eu gosto de você! — explodiu. — Eu quero muito tentar!


Ikki massageou as têmporas e andou um pouco pela sala do loiro em silêncio, pensando no que responder. Shaka tinha razão, mas também não entendia seu lado. Parecia ao vizinho que era muito fácil pra ele e difícil pra si, quando as coisas não eram dessa forma.


— Eu não sei mais o que dizer, Shaka, eu também quero tentar, porque...porque há muito tempo não me sinto tão bem ao lado de alguém como me sinto ao seu lado, mas... parece que não conseguimos passar um minuto sem que uma discussão aconteça... Eu gosto muito de você também, loiro, mesmo sendo um troglodita como você me chamou tantas vezes...


— Ikki... — Shaka se aproximou e segurou uma das mãos dele. Ficou fazendo carinhos com o polegar na palma. — Eu o magoei e você me magoou. É fácil esquecer isso? Não, não é. Mas tenho certeza de que teremos mais lembranças boas a partir de agora e vamos conseguir superar essas brigas. Me desculpa pelo que eu disse, tá? — beijou de leve a boca dele antes de deslizar os lábios até o lóbulo da orelha e mordê-la com mais força que o necessário.


Ikki gemeu de leve com a dor, mas sua pele se arrepiou inteira com o contato dos lábios de Shaka. Segurou sua cintura e beijou de leve a ponta do nariz arrebitado do escritor.


— Nunca imaginei que aquelas palavras o magoavam, não sei, eu nunca liguei muito para o que os outros pensam de mim, não imaginava que aquilo o feria... Ah, eu não sou muito bom com desculpas, com palavras também, prefiro demonstrar com ações... — dedilhou os lábios pequenos e carnudos do loiro com carinho, sentindo-os se abrirem de leve, mas não queria “avançar o sinal” novamente, se afastou e beijou a mão dele — Vou colocar esse sofá na varanda, ok? Amanhã peço para alguém retirá-lo daqui, preciso também limpar a bagunça do Jack! — saiu em direção ao sofá começando a empurrá-lo para fora da sala.


Aquilo pareceu uma fuga. Shaka observou o... Como iria definir Ikki agora? Sentia que mesmo com aquela conversa continuam quase na mesma. Enfim, observou o vizinho afagar Jack. Aquele cachorrinho traiçoeiro roubando o carinho que deveria ser seu. Pensou que teria sido melhor ficar de boca fechada, mas aí até onde teriam ido? Puxa vida! Ele não queria ter parado! Só não queria ir até o fim. O problema era que com Ikki era oito ou oitenta.


Irritado, largou-se diante do computador e abriu o Word, mas não conseguiu escrever já que, pelo canto do olho, ficava observando Ikki brincar com o filhote o tempo todo.


"Ótimo. Fique com o cachorro! Eu não ligo!", resmungou irritado.


Ikki colocou o sofá na varanda e aproveitou para limpar a área e a casinha de Jack, além de trocar a água e a ração. Enquanto fazia o serviço, observava Shaka que o olhava de canto de olho. Gostaria de saber o que se passava na cabeça dele. O vizinho parecia irritado e ele tentava entender o motivo. O que faria pra agradar aquele loiro difícil? Bem, era melhor chama-lo de difícil que esquisito e correr o risco de magoá-lo. Riu com os pensamentos e terminou a limpeza, lavando as mãos e os braços cuidadosamente em seguida e verificando a roupa para ver se havia algum pêlo de cachorro. Voltou para onde estava o escritor, de frente ao computador, chegou próximo o suficiente para falar com ele, mas evitando invadir sua privacidade. – Loiro, escuta, hoje é domingo, o que acha de irmos ao cinema?


O indiano entreabriu os lábios, surpreso com a proposta. Pensou que Ikki fosse para casa depois que terminasse de limpar a bagunça de Jack.


— C-Claro — gaguejou sentindo-se mais animado. — Podemos almoçar antes — sugeriu.


Ikki sorriu. Era tão raro sorrir antes, por que agora não parava de sorrir pra ele? “Ele deve estar te achando um imbecil, Ikki Amamiya...”, pensou, mas logo afastou os pensamentos. — Tudo bem, eu conheço ótimos restaurantes, mas irei onde você quiser, não sou muito exigente.


—Tá! — Shaka perdeu o ar momentaneamente com aquele sorriso que Ikki lhe dedicou. Será que ele tinha alguma noção de como aquele sorriso era devastador? — Vou só tomar um banho. Prometo não demorar.


Ikki assentiu com a cabeça ainda sorrindo — Eu também vou tomar um banho e já volto. – falou saindo rápido pela porta.


Shaka o observou partir, sentindo o coração acelerar e o rosto aquecer. Céus! Ele iriam? Arregalou os olhos, ao que parecia, eles estavam...


NAMORANDO!


Continua...