Essa Estranha Atração

11 Esse estranho ciúme


Notas iniciais
Nota da Bia: Capítulo extremamente OOC e gigante xDD Pra compensar o fato da gente demorar um pouco pra postar x.x
É a vida corrida, gente.
E desculpem por qualquer erro. Eu e a Sion lemos e relemos os capítulos várias vezes, mas sempre passa alguma coisa.
Bom, esperamos que curtam o cap. :)

Esse estranho ciúme

Capítulo 10



Manhã de terça-feira. Ikki abriu os olhos ao sentir o movimento de Shaka que saía da cama. Resmungou, lembrando-se que ao contrário dele, o namorado precisava trabalhar. Espreguiçou-se, enquanto o puxava repentinamente pra si e beijava seu pescoço.


— Loiro em fuga... — resmungou brincalhão — Bom dia... Nem um beijinho de despedida?


— Ikki... — Shaka reclamou, mal humorado por ter dormido em uma posição tão desconfortável. — Eu preciso ir pra casa ver o Jack, depois vou trabalhar — disse enquanto escapava dos braços do namorado. Alongou-se, sentindo uma dor irritante no pescoço e nas costas.


Não beijou o namorado, ainda se lembrava do sorrisinho em seu rosto, depois daquela mensagem, e isso fazia seu ciúme atingir um nível alarmante.


— Primeira descoberta para o futuro: péssimo humor matinal! — falou o moreno se sentando na cama e o olhando, mas sem mágoa, apenas com um misto de curiosidade e estranheza. — Poderia apenas responder meu bom dia?


— Bom dia — Shaka disse a contra gosto, enquanto procurava a blusa e só então se lembrou que havia ficado na sala. — E vá se acostumando com isso — resmungou ranzinza.


O loiro deixou o quarto, vestiu a camisa e em passos não muito animados foi até a porta. Voltou-se para Ikki que o acompanhava e acabou não resistindo: abraçou o moreno.


— Tenha um bom dia — desejou. — Mais tarde nos falamos.


Foi o que ele imaginou, que conseguiria encontrá-lo antes que ele fosse para a boate à noite. O problema foi seu dia caótico. A agência de turismo estava uma loucura por causa de um grupo de turistas recém chegados do Brasil. Eles haviam escolhido um hotel na orla, mas por algum problema de comunicação entre a agência e o hotel, não foi possível acomodá-los lá.


A confusão estava armada. Foi estressante conseguir outro hotel com o número de quartos vagos para atender ao grupo e ainda apareceram outros clientes que levaram todo o seu tempo.


Shaka não conseguiu nem ao menos dez minutos para entrar no MSN e desejar um bom dia a Fênix — e mesmo que não admitisse as suas segundas intenções, o que queria mesmo era tentar obter mais informações sobre o namorado.


Já no final da tarde, o loiro foi à editora e levou um senhor chá de cadeira do chefe. Shion só chegou duas horas depois do horário combinado e não trouxe nenhuma novidade sobre a sua situação.


— Estamos entrando em contato com outras editoras para ver se eles têm algum funcionário disposto a trabalhar por comissão nesse caso — dissera o chefe, e Shaka saiu ainda sem nada de concreto, para sua decepção.


Quando chegou ao prédio, foi direto para o apartamento de Ikki, mas deu de cara com a porta, pois o moreno já havia ido para a boate.


— Droga — resmungou aborrecido, sentindo a saudade de o namorado aumentar. Resolveu então tomar um banho e tentar escrever um pouco.


O dia de Ikki foi razoavelmente tranqüilo, a não ser pelo excesso de mensagens em sua caixa postal. Resolveu não ler e nem excluir nenhuma, uma hora a caixa lotaria e as mensagens retornariam às destinatárias.


Aproveitou para ler um pouco mais sobre TOC, distúrbio que tinha quase certeza ser a doença de Shaka, e pensava em uma forma de convencer o loiro a se tratar. A noite anterior foi um progresso, mas quanto a convencê-lo a procurar um psiquiatra...


Saiu para almoçar e depois foi resolver algumas coisas na rua. Quando deu por si, já estava na hora de voltar à Santuário. Vestiu-se de forma simples, — durante a semana a casa noturna era freqüentada por outro público, pois apresentava performance de jazz e blues. Esses eram os dias que Ikki mais gostava de trabalhar, o clima ficava tranqüilo e aconchegante — escolheu uma camisa branca de um tecido rústico e jeans claro, além de sapatos marrons.


Quando chegou à boate, cumprimentou os freqüentadores que já o conheciam. Um grupo de soul francês se preparava para a apresentação. O moreno viu Seiya conversando com algumas garotas que cochichavam e olhavam para ele, mas resolveu nem dar importância, queria mesmo ver aquele show. Escolheu a mesa de um grupo já conhecido de jovens que estavam na boate todas as terças. Eram duas garotas e três rapazes que o cumprimentaram afavelmente. Sentou-se e esperou que o show começasse, enquanto bebia seu uísque.


— Olá, Ikki — ergueu os olhos ao ouvir seu nome e mirou a bela loira que antes estivera conversando com Seiya — Posso me sentar com você?


Ikki olhou para os companheiros de mesa que deram de ombro, então a desconhecida sentou-se ao seu lado entre as outras duas jovens e logo engataram um papo animado — papo de mulher — que o moreno se forçava acompanhar, pois estava mais interessado no show.


Não demorou muito, ele sentiu a mão da garota desconhecida que já havia se apresentado como Anne em sua perna, ao tempo em que ela sussurrava ao seu ouvido: “Está gostando mesmo desse show?”.


Ikki a olhou nos olhos e levou sua mão a delicada mão da garota que estava sobre sua perna. Sorrindo, sussurrou-lhe de volta: “Você é linda, mas me desculpe, sou comprometido”.


A tal Anne riu gostosamente, mas aceitou retirar a mão da perna do moreno, meio ruborizada. Ambos fingiram que nada aconteceu depois daquilo e ficaram apenas falando sobre o show. Anne mostrou-se alguém inteligente e agradável, e Ikki não viu por que não conversar com ela.


Shaka se cansou de escrever e como Jack não parava de saltitar ao seu lado, resolveu abandonar o computador.


— Okay, garoto, vamos dar um passeio? — o loiro perguntou em um tom gentil.


Pelo visto, o cachorrinho já havia entendido que o dono não gostava de demonstrações de afeto e não o lambia mais. Shaka deu uma volta pelo quarteirão com o filhote que lhe pareceu feliz por sair do apartamento apertado. Não demoraram mais que dez minutos na rua. Quando voltaram, o loiro reabasteceu a tigela com ração e depois foi tomar um banho. Enquanto estava embaixo da ducha de água morna, pensava no namorado. Queria vê-lo e simplesmente não conseguia compreender aquela necessidade absurda de estar com Ikki, de conversar com ele, de tocá-lo, abraçá-lo. Nunca foi tão dependente da presença de alguém antes e aquilo era... Deliciosamente assustador.


Deixou o chuveiro decidido a ir encontrá-lo na boate. Passaria lá, o cumprimentaria e voltaria para casa, ficaria satisfeito se ao menos pudesse falar com ele por alguns minutos. Não queria atrapalhá-lo e tomar muito do seu tempo, só estava com uma grande e injustificável saudade que talvez fosse apenas sentimento de culpa pela noite passada.


Vestiu uma camisa branca de mangas curtas, por causa do calor absurdo que fazia naquela noite, e uma calça azul marinho. Deixou os cabelos soltos, pois ainda estavam úmidos. Antes de sair, olhou para o álcool e para as luvas. Hesitou, mas acabou pegando os objetos.


Pouco tempo depois já estava entrando na Santuário. Ele tinha que admitir; Ikki tinha muito bom gosto, e o clima na casa de show estava excelente.


Distraído, procurou pelo dono do local, mas não o avistou de imediato; foi até o barzinho e chamou o rapaz que servia as bebidas.


— Com licença, estou procurando o senhor Amamiya — disse de uma forma polida, mas hesitante, enquanto continuava procurando com o olhar.


— Ah, ele ‘ naquela mesa ali — Seiya indicou o local com um sorrisinho malicioso. — Acho que o chefe vai se dar bem. Não que isso seja novidade. Ele parece que tem mel... — acrescentou em um tom risonho e sacana.


Shaka olhou para o local indicado e cerrou as mãos em punhos ao ver como Ikki se inclinava em direção da loira ao seu lado. Eles pareciam tão íntimo que isso causou um ciúme dilacerante no escritor. O indiano hesitou se deveria ir até eles ou não e, na dúvida, permaneceu no mesmo lugar. Permaneceu tempo demais e a cada toque da mão delicada da mulher no braço do seu namorado, seu ciúme cravava agulhas em sua pele. Queria gritar de raiva e... Medo.


— Me dá algo para beber, por favor..., uma dose de uísque duplo! — Ele pediu, mesmo sabendo que não deveria beber algo tão forte já que não era nem um pouco acostumado. Mas o que poderia fazer? Não era de sua natureza fazer escândalos nem tomar satisfações. Além do que, ele sabia que poderia ser prejudicial a Ikki se ele resolvesse surtar ali na boate.


A única coisa que poderia fazer era tomar algumas doses de uísque e depois ir embora. O problema era que a sua determinação de ficar onde estava, quase ia para o espaço quando via a forma como a garota se insinuava para o moreno. E Ikki, cheio de hormônios e necessidade, acabaria não resistindo e cairia dentro daquele decote exageradamente vulgar.


Ele realmente não aguentou olhar. Depois da terceira dose, e já meio ébrio, foi até à mesa onde o namorado estava e, com as mãos no quadril o encarou:


— Boa noite! — cumprimentou com a voz meio arrastada.


Ikki se sobressaltou ao escutar aquela voz lânguida. Não podia acreditar que ele estivesse ali, mas estava, loiro e lindo, o encarando irritado.


Ergueu-se de imediato e beijou de leve os lábios do loiro, parecendo ignorar tudo e todos ao seu redor. Sabia que Shaka deveria estar com ciúmes, pois ele estava sentado entre duas mulheres bonitas e muito perto da tal Anne.


Os companheiros de mesa o olhavam de forma confusa e estarrecida. Todos eram grandes conhecedores do assédio feminino e das conquistas do moreno e ficaram meio perdidos naquele momento, presenciando aquele beijo que, mesmo suave, demonstrava que Ikki era bem íntimo de... Outro homem!


— Oi amor, que surpresa — falou após o beijo nem se lembrando do mundo ao redor. – Sente-se aqui conosco, esses são Angie, Kaius... – e passou a apresentar toda a turma – estarrecida – ao namorado, até a desconhecida Anne que também exibia uma cara de paisagem.


Aquela reação realmente pegou Shaka de surpresa. Ele não esperava que Ikki fosse assumir o relacionamento deles na frente dos clientes e amigos. As garotas pularam dois lugares para que ele pudesse se sentar ao lado do moreno, todas com sorrisos amarelos nos lábios.


Percebeu como a tal Anne, depois do susto, continuou olhando para Ikki. Em seu estado de semi-embriaguez, ciúme e irritação, aquilo era afronta!, então ele não pensou duas vezes antes de abraçar o namorado de uma forma possessiva.


— Eu quero dançar — pediu Shaka. — Vão tocar alguma coisa mais animada depois?


Os conhecidos do moreno continuavam se entreolhando sem nada entender. Afinal nada no mundo seria mais heterossexual que Ikki Amamiya, mas, ou estavam vivendo uma pegadinha de um daqueles programas de TV de mau gosto, ou ele era mesmo namorado, amante, peguete, ficante, ou seja lá o que fosse, daquele loiro de mais de 1,80 m e... Lindo!


Ikki percebeu que Shaka estava estranho e sentiu o leve cheiro de uísque em seus lábios. Tinha que ser, só assim para ele se mostrar tão apaixonado.


— Shaka, hoje não é uma noite dançante, amor... — falou o empresário percebendo o clima à mesa, mas nem ligando, não devia satisfações a ninguém do que fazia, de quem comia, ou melhor, deixava de comer.


Shaka torceu o nariz e tentou assistir a apresentação, mas não conseguia se concentrar. Só pensava em como todas as noites teriam mulheres e mais mulheres se atirando aos pés do seu namorado. Ele precisava deixar bem claro que Ikki era seu. Assim, nenhuma se aproximaria e ele não cairia em tentação.


Sem pensar duas vezes, puxou o namorado pela gola da camisa e deu um beijo cinematográfico nele. Estava preocupado em arruinar a reputação de Ikki por causa da boate, mas ele mesmo o apresentou aos amigos então não deveria ter problema algum em dar mais provas de que O BELO EMPRESÁRIO IKKI AMAMIYA TINHA DONO E UM CIUMENTO DONO!


Ikki apoiou a mão espalmada no peito do namorado, tentando afastá-lo. Shaka estava completamente bêbado! Só podia, para se comportar daquela forma. Não queria se esconder, mas aquele beijo, por mais gostoso que fosse, era expositivo demais e ele não gostava de tanta exposição da sua intimidade. Afastou o loiro com dificuldade, olhando seriamente em seus olhos ébrios.


Ergueu-se, tomando-o pelo braço e o arrastando, sob os olhares curiosos, para o banheiro da sua sala no segundo andar. Lá chegando, ligou uma das torneiras da pia de mármore e praticamente enfiou a cabeça do loiro embaixo d’água, deixando que ela escorresse por seus cabelos e rosto.


Estava irritado, mas tentava não ralhar com ele. Pegou uma toalha e desligou a água minutos depois, percebendo que Shaka ainda demorava a ter reação.


— Que merda pensa que está fazendo? — perguntou zangado, empurrando o loiro com delicadeza para que ele se sentasse no sofá de couro negro, enquanto tentava enxugar-lhe os cabelos.


Shaka não entendia por que Ikki estava zangado. Ele não fizera nada de errado! Pensava sua bêbada mente.


— O quê? Só estava mostrando para aquela atirada que você tem dono! Assim ela espalha para as outras e elas te deixam em paz! — obviamente o banho gelado não fez sua sanidade voltar ao normal. — E aquilo lá é silicone! — disse em um tom de “é sim, que eu sei!”, e depois desatou a rir. — Mas eu mostrei ‘pra ELA que você não está disponível!


O loiro nem esperou por qualquer reação do namorado. Simplesmente o puxou, fazendo com que ele caísse sentado ao seu lado. Sem qualquer traço de hesitação, Shaka subiu no colo do moreno, prendendo-o entre suas pernas e começou a distribuir beijos por seu pescoço.


— Eu te amo, Ikki... Você é meu, apenas meu... — murmurou antes de lhe mordiscar a orelha.


O loiro tentou prosseguir, tentou repetir a declaração, mas seu corpo estava pesado e não obedecia mais. Aos poucos os beijos foram ficando cada vez mais fracos até pararem completamente. Ele ronronou baixinho e adormeceu com o rosto escondido na curva do pescoço do namorado.


Ikki tentou reagir, mas quando pensou em dizer alguma coisa, o indiano já caía desacordado em seus braços.


— Ah, merda, não! — Resmungou o envolvendo pela cintura para sustentar seu corpo. Shaka deixou a cabeça pender para trás, dando total demonstração de ausência, havia mesmo desmaiado.


— Shaka, acorda! — deu leves tapas no rosto dele, tentando acordá-lo. Caso o deixasse dormir, ele poderia convulsionar. — Shaka, seu encrenqueiro, quer abrir os olhos?


Nada! Nada era capaz de despertar o loiro. Com dificuldade, tomou-o nos braços e saiu da sala, antes pegando as chaves do carro. Saiu pelos fundos da boate para que ninguém os visse. Ainda assim, os seguranças se entreolharam sem entender nada.


— Desfaçam essas caras de idiotas e me ajudem aqui — falou mal humorado, jogando a chave do carro para um dos brutamontes que logo trouxe o veículo. Ele colocou Shaka no banco do carona e se sentou ao volante, em minutos chegavam ao prédio.


Para seu azar, havia vários vizinhos na entrada do edifício que ficaram boquiabertos ao vê-lo com o loiro nos braços. O zelador correu para ajudar, Ikki pediu apenas que ele chamasse o elevador.


“O que você fez com ele?”, uma adolescente perguntou com um olhar desconfiado. Ikki revirou os olhos e não respondeu. “Era o que me faltava!”, resmungou.


Entrou no elevador ainda ouvindo o burburinho das pessoas. Chegou ao seu apartamento, colocou Shaka na cama e suspirou cansado. Livrou-o das roupas e sapatos, deixando-o apenas de cueca. Sentou-se ao seu lado e acabou rindo da situação. Seu namorado era completamente louco e também ciumento.


Pegou a chave do apartamento do loiro que estava no bolso da calça e foi verificar como Jack estava, antes de voltar, tomar um banho, deitar ao lado de Shaka e velar seu sono até que ele mesmo acabou adormecendo.


Na manhã seguinte, Shaka foi o primeiro a acordar.


— Ai, alguém anotou a placa do que passou por cima de mim? — murmurou sentindo a cabeça latejar. Girou na cama e bateu em algo duro. Imediatamente, abriu os olhos e sentou-se de supetão. Encarou o quarto com os olhos do tamanho de pires. Por Buda! O que fizera? O pânico só aumentou quando percebeu que estava praticamente nu. Lembrava-se de ter ido à boate... Ikki estava com uma loira, ele se irritou e começou a beber... e depois... e depois... Não conseguia lembrar de mais nada!


— Ikki — sacudiu o namorado que ainda dormia a sono alto. — Ikki!!!


Ikki acordou ao levar os sacolejos do escritor. Abriu os olhos se sentando de vez na cama e olhando para os lados como se estivesse cercado de malfeitores. Vendo que não havia ninguém, mirou Shaka com cara de poucos amigos.


— Não dava pra me acordar sem berrar não, loiro?


— O que aconteceu? — Shaka perguntou ansioso, ignorando a expressão fechada do moreno. — Eu sou fraco ‘pra bebida. Ai, minha cabeça... parece que vai explodir... — gemeu enquanto deixava o corpo cair e a cabeça afundar no travesseiro. — Eu sei que não devia ter bebido... Não sei no que estava pensando.


Ikki bufou e cruzou os braços, recostando-se na cabeceira da cama. Seus pensamentos ainda estavam confusos em relação à reação do namorado. Ciúmes? Sim, claro, mas não achava que Shaka fosse um homem que bebe por ciúmes. Insegurança... Sim, muita, mas, sobretudo... Amor!


“Eu te amo, Ikki”. As palavras ecoaram em sua mente como um sino, fazendo-o franzir o cenho. Será que era verdade ou apenas efeito do álcool? De qualquer forma, aquilo o enchia de um calor tão genuíno que o assustava. Era tudo muito novo, muito rápido. Ele, Ikki, nunca amara alguém antes, nunca imaginou amar um homem, muito menos alguém como Shaka.


— Não aconteceu nada — disse tentando fugir de sua própria confusão. —Vamos tomar um banho e tomar café, tá legal? Vou pegar uma aspirina pra você — saiu do quarto em direção à copa.


Shaka não tinha forças nem para estranhar aquela reação do mais jovem, mas suspirou aliviado. Ikki não era um homem de esconder nada então realmente não deveria ter acontecido nada.


— Eu nunca mais coloco uma gota de álcool na boca — fez a clichê promessa, gemeu e virou-se para o lado, escondendo o rosto na cama. Não conseguiria trabalhar daquele jeito. Naquele ritmo, acabaria sendo demitido.


O máximo de álcool que o seu corpo tolerava eram as doses mínimas de vinho que ele tomava nos finais de semana. Uísque?! Onde estava com a cabeça? Ah, sabia bem; estava com a cabeça cheia de medo e ciúme, mas jamais admitiria isso em voz alta.


Ikki voltou ao quarto e entregou o comprimido e a água ao namorado, olhando-o sem saber muito bem o que dizer. Coçou os cabelos em dúvida. Não sabia se deveria perguntar a Shaka sobre as palavras ditas durante a embriaguez. Achava, e não sabia o motivo, que mesmo sendo verdadeiras, o indiano as negaria, então preferiu se calar.


— Fica deitado mais um tempo, se quiser eu ligo pro seu trabalho, digo que você sentiu um mal-estar... — falou Ikki hesitante, ainda tentando ler algo no rosto do loiro. Mas sem muita coragem de dizer o que realmente queria.


Shaka arregalou os olhos com a proposta e prontamente saltou da cama. O movimento brusco quase o fez cair de cara no chão.


— Eu... tenho uma reunião com o meu chefe — inventou. Não poderia dizer que trabalhava numa empresa de turismo. — Ainda sobre o problema com o editor.


— Ah... Tudo bem — murmurou o moreno um tento desconfiado.


Enquanto se vestia, o escritor percebeu os olhares que o outro lhe lançava e isso o deixou em duvida sobre o não aconteceu nada, dito sobre a noite anterior.


— Ikki, eu fiz alguma bobagem? — perguntou preocupado.


O empresário ficou calado um tempo, apenas observando o loiro se vestir.


— Nada muito importante — respondeu com um sorriso um tanto divertido. — Você só me beijou em público, um beijo de cinema, depois disse que era para as mulheres saberem que eu tenho dono e... disse que me amava.


Pronto, estava dito. Seu coração acelerou com a declaração e a expectativa que se seguiu a ela. Ele não falou mais nada, continuou apenas olhando sério para o namorado.


— Eu... o quê? — Shaka encarou o namorado totalmente assombrado. — Eu não posso... Ter te exposto desse jeito no seu local de trabalho! — Por Buda! E ainda havia admitido em alto e bom tom que o amava? — Por todos os deuses! — murmurou atordoado, enquanto se sentava na ponta da cama. — Você deve estar me odiando por essa cena patética.


Ikki mirou o namorado por um tempo de maneira séria, depois se ergueu da cama e foi até a cozinha voltando em seguida com uma caneca onde um café fumegava e se sentando tranquilamente ao seu lado.


Quando voltou a falar sua voz era fria e pausada.


— O que me intriga, Shaka, primeiro é o motivo de você ir até lá e só falar comigo depois de estar completamente bêbado. Qual era sua intenção?, observar até onde eu iria com aquela garota?


— Eu não ia falar com você! — o loiro aborreceu-se pelo tom do namorado — Minha intenção era tomar um drinque e ir embora. Não queria incomodá-lo já que você parecia estar bem acompanhado, mas acabei passando da conta na bebida..., aquele fedelho irritante não parava de repetir que você ia se dar bem... — falou sem conseguir conter o ciúme. Em seguida suspirou e o encarou de forma firme — Eu sei que vou ter que me conformar. Você vive cercado por mulheres e isso não vai mudar, afinal você não tem como controlar quem frequenta a boate. Mas também não espere que eu fique satisfeito com isso! é pedir demais!


“Um dia eu mato o Seiya”. Só em ouvir pirralho irritante, Ikki já adivinhou o seu nome. Mas aquilo não era o mais importante no momento.


— Você foi à Santuário em plena terça-feira apenas para beber e vir pra casa? Conta outra, Shaka!, foi lá me ver, então por que sairia sem falar comigo?


Shaka bufou irritado, sentindo-se encurralado. Levantou-se , foi até a janela e ficou observando a rua, ainda pouco movimentada. Era muito cedo.


— Eu fui até lá pra te ver — confessou enquanto cruzava os braços sobre o peito, ainda sem encará-lo. — Não nos vimos o dia inteiro... Eu só queria falar com você e depois voltaria para casa. Mas me irritei com aquela loira que estava praticamente te jogando dentro do decote dela! Eu sei que é infantil e irracional, mas não consigo controlar esse... ciúme — disse por fim.


Ikki pousou a caneca no criado-mudo, se erguendo e indo até o namorado, envolvendo-o pela cintura com carinho e pousando o queixo em seu ombro.


— Você não sabe beber, poderia ter se machucado sabia? Foi irresponsável e não precisava de tudo isso. Era só me tirar do lado dela. Não estou zangado, só gostaria de entender, principalmente a parte em que disse que me ama... É sério?


O loiro sentiu o corpo tremer e o rosto arder. Ele não sabia como ser gentil ou carinhoso e um eu te amo realmente era algo muito difícil de ser pronunciado por seus lábios. Entretanto, sentiu que Ikki precisava daquela confirmação, por isso, fechou os olhos e obrigou-se a falar:


— Eu não estaria com você se não o amasse.


O moreno respirou fundo e soltou o ar devagar. Afagando de leve os cabelos de Shaka.


— Estamos juntos há tão pouco tempo... — murmurou pensativo — Por isso achei que tinha sido efeito do uísque. Eu também estou apaixonado por você, loiro, mas acho que... amor seja algo maior. Algo que só vem com o tempo... — virou o loiro em seus braços para encará-lo nos olhos — Eu não quero me iludir com isso. Você pode até me achar um safado de marca maior, mas eu nunca tive relacionamentos sentimentais antes e, às vezes, não sei como agir e nem o que dizer, mas... Eu sei que não quero me decepcionar e nem me iludir... A paixão pode passar...


Shaka enfureceu-se. Eles se relacionavam civilizadamente há pouco tempo, mas Virgo e Fênix eram amigos de longa data. O indiano conhecia o lado carinhoso, gentil e atencioso que Ikki só demonstrava quando estavam conversando pelo computador. Com Ikki a relação começou de uma forma mais física, de uma necessidade que ele nem sabia que tinha; mas agora que sabia que Ikki e Fênix eram a mesma pessoa, estava totalmente convencido de que o amava. Não havia dúvidas e não era paixão!


Era lógico que ele não poderia dizer isso ao moreno, mas mesmo assim, aquela desconfiança de Ikki o deixou irritado. Ele estava negando sentimentos óbvios demais.


— Ótimo! Então acredite que foi efeito do álcool! — disse com raiva, enquanto se desvencilhava dele. — Não ficarei repetindo isso todos os dias para que você acredite nos meus sentimentos. Quem sabe daqui uns dez anos você acredite?! E eu vou trabalhar que ganho mais do que ficar nessa discussão inútil.


O moreno não entendeu o rompante do namorado. Ele que tinha fama de impulsivo, estava tentando ser racional. Aquele questionamento era racional, não era? Eles antes se odiavam... Okay, poderia ser sim tensão sexual, mas eles só faltavam se matar. Então não era muito lógico que em tão pouco tempo, Shaka o amasse. Ele poderia estar apaixonado, empolgado, desejá-lo, mas amar? Esse sentimento profundo ia além e exigia mais responsabilidade. Não entendia o porquê de ele estar tão furioso com suas palavras.


Segurou o braço do loiro não permitindo que ele saísse.


— Fique exatamente onde está — olhou sério nos olhos dele —. Você vai ficar pra gente conversar direito e nem se atreva a tentar sair porque eu vou segui-lo até o trabalho. Você quer que eu faça isso? Garanto que não sou o tipo de homem que tem medo de escândalos.


— Decididamente eu devo ter dançado tango sob as árvores gêmeas na minha encarnação anterior — Shaka murmurou enquanto girava os olhos. — O que você quer conversar? Não acredita no que eu digo mesmo! Conversar pra quê? E eu não consigo demonstrar com ações! Não consigo ser a pessoa que você espera! Você acha que eu não queria te jogar naquela cama e fazer amor com você até que acreditasse nos meus sentimentos? Até que confiasse em mim para falar dos seus sentimentos também?!


E Shaka, no auge da sua comoção, acabou despejando todas suas dores e dúvidas sobre o namorado. Claro que Ikki não poderia saber como ele se sentia. O moreno não sabia das suas conversas com Fênix, não sabia que ele era Virgo!


— Espera um minutinho, loiro! — Ikki também se irritou. — Eu fiz um questionamento racional, não disse que não acreditava em você! Por que está se comportando de forma tão imatura? Sabe, Shaka, pra mim já deu! Vai pro seu trabalho, não precisa responder nada, não vamos mais tocar nesse assunto, certo?! — libertou o braço do namorado e pegou a caneca ao lado da cama, indo para a cozinha. O café já estava frio mesmo, e ele o Jogou na pia, pousando a caneca também; mas exagerou na força com que a bateu no mármore e acabou quebrando-a em sua mão, se cortando.


Merda! — grunhiu segurando o corte profundo que verteu sangue imediatamente. Ligou a torneira e colocou o ferimento embaixo, tentando estancar o sangue.


Shaka, já vestido, estava abrindo a porta para deixar o apartamento do vizinho, quando escutou um barulho, seguido de um grunhido do namorado. Preocupado foi até ele rápido.


— O que houve? — e estancou ao ver o sangue que o moreno perdia. — Como você...? — interrompeu-se ao perceber que o corte sangrava muito. Pegou um pano de prato e enrolou a mão do namorado, nervoso e preocupado, sentindo-se culpado por ter discutido com ele. — Acho... Acho melhor irmos ao hospital. Talvez precise de uns pontos... Eu dirijo! Só vou pegar a chave do carro.


— Shaka, espera, é só um corte! — tentou impedir os movimentos frenéticos do loiro — Shaka!


Mas ele parecia não ouvir, pegou a chave do carro e saiu o arrastando, mal dando tempo ao moreno de vestir-se num jeans e camiseta. Ikki pegou uma toalha social e envolveu a mão que ainda sangrava, o corte na porcelana foi mesmo feio, mas hospital era exagero, ele achava.


— Não discute comigo! — Shaka ralhou como se falasse com um menino pequeno que apronta uma pirraça. — Eu não posso te deixar um minuto sozinho na cozinha! Como você sobreviveu 25 anos sem mim? — resmungava aborrecido.


Ikki fez careta para Shaka, exatamente como faria um menino birrento. A verdade era que o ferimento continuava a sangrar e, embora não quisesse dar razão ao namorado... Bem, a toalha já estava ficando molhada.


— Me saí muito bem até aqui se quer saber, e se você não insistisse em me irritar isso não teria acontecido! — acusou, estava nervoso e precisava extravasar.


— Te irritar... — Shaka repetiu enquanto o empurrava para dentro do elevador. Uma garotinha e a mãe estavam lá e arregalaram os olhos ao vê-los daquele jeito. O loiro obrigou-se a ficar quieto afinal não queria assustar a criança. — Me diz... Por que é tão difícil acreditar que eu te amo? — perguntou assim que elas desceram e os dois seguiram sozinhos para a garagem — Só por que namoramos há pouco tempo? Tem que existir um prazo para amar? E se for assim, você está comigo só por tesão? Porque faz muito pouco tempo que estamos juntos e... — parou e respirou fundo. — Eu não vou discutir isso agora. Preciso ficar calmo para dirigir.


Ikki sempre, sempre, sempre conseguia fazê-lo agir totalmente fora da sua personalidade. Era um homem tão centrado e calmo, e agora parecia uma matraca! Jurou para si mesmo que tentaria controlar seus nervos.


— Amor e paixão são coisas diferentes se você não sabe e... que merda! Eu não disse que não acreditava, só perguntei se você tinha certeza do que sentia, e o que sinto não é tesão, é um sentimento que ainda não sei definir porque nunca senti antes, merda! — Ao contrário de Shaka, Ikki não se importava nem um pouco em soltar a voz enquanto caminhavam para o carro.


Shaka soltou uma risadinha irritada enquanto apertava o controle para destravar o carro.


— Então vamos dar tempo ao tempo, Ikki — disse fingindo indiferença. — E eu estava bêbado mesmo. Uma declaração de um bêbado não deve mesmo ter muita importância.


— Okay, como quiser! — virou a cara para o lado de fora do carro. Não insistiria mais naquilo.


Chegaram ao pronto-socorro, preencheram uma ficha e ficaram esperando sentados. Um clima tenso pairava entre eles. O movimento era intenso naquela manhã. Crianças choravam, médicos e enfermeiros iam de um lado a outro. De repente, os olhos do moreno se encontraram com os olhos de um jovem que vestia jaleco e tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo. Ikki empalideceu mortalmente. Ele estava tão diferente! Mais alto, não era mais o adolescente de anos atrás... Engoliu em seco e desviou o olhar totalmente perdido.


O rapaz ficou um tempo parado, também pálido, como se pensasse se deveria falar com ele ou não, mas depois sumiu por um corredor. O empresário fechou os olhos com força para controlar a dor que o invadia, mas foi difícil mesmo depois de tantos anos.


— Ikki? — Shaka o chamou em um tom preocupado ao vê-lo empalidecer ainda mais. — Você está sentindo alguma coisa? — olhou para onde o namorado estivera olhando e viu um rapaz que se afastava rapidamente. Não comentou nada, porque Ikki realmente parecia estar passando muito mal, mas registrou o fato para questionar outra hora.


— Por aqui, por favor — uma enfermeira chamou o moreno. — Só o paciente, senhor — ela disse quando Shaka fez o movimento de que iria acompanhá-lo.


Resignado, o escritor permaneceu o mesmo lugar, ainda pensando na cena que acabara de presenciar.


Ikki seguiu a enfermeira, mas como um autômato, sua mente estava pensando no irmão. Então ele estava trabalhando ali? Há tanto tempo não o via e... Aquele olhar sério... Nem parecia o Shun doce e inocente do passado.


Sentiu o ferimento ser limpo e a anestesia ser aplicada em sua mão, para logo depois a enfermeira começar a saturar. Minutos depois, ela o liberava, antes lhe entregando uma receita que ele fez questão de amassar e colocar no bolso, ele nem queria estar ali, lógico que não tomaria remédio.


Quando chegou à recepção, Shaka já estava de pé, andando de um lado a outro. Aproximou-se do namorado e olhou ao redor para ver se veria Shun novamente, mas ele não estava ali.


— Pronto, satisfeito? Vamos embora — falou sem agressividade, mas tristeza, suspirando e começando a deixar o pronto-socorro.


Shaka franziu a testa e o acompanhou até o carro, mas o impediu de entrar.


— Não passaram nenhum remédio? Podemos parar na farmácia no caminho para casa — disse em um tom casual, vasculhando o rosto do moreno em busca de alguma pista do que estava acontecendo. Ele não era cego e percebia o quanto Ikki ficou agitado depois de ver aquele rapaz. O indiano não conseguira ver o rosto da pessoa, mas o que via nos olhos do moreno eram tristeza e dor.


"O que você está me escondendo?", indagou-se angustiado.


Ikki ficou parado por um tempo com a respiração suspensa, mas não pensava na pergunta do namorado. Tinha vontade de chorar e não faria isso, não faria mesmo! Ele chorou uma vez, uma única vez e prometeu não chorar nunca mais e não choraria.


— Não passou nada, vamos logo embora! — falou de repente, abrindo a porta do carro e entrando. Não queria olhar para Shaka ou ele perceberia seu estado. Fechou os olhos se recostando no banco de couro do carro.


—Tudo bem, não vou insistir — Shaka disse enquanto ligava o automóvel.


Dirigiu tentando manter a atenção na pista, mas volta e meia olhava, de canto de olho, para o namorado que continuava recostado no banco, olhando a paisagem pela janela. Quando parou em um sinal, ele deslizou a mão pela coxa de Ikki, sem dizer nada, apenas indicando que estava ali caso ele precisasse.


—Você vai ficar bem? — o loiro perguntou assim que chegaram ao prédio e ele manobrava na vaga da garagem. — Eu preciso tomar um banho e ir trabalhar... Mas se você não estiver se sentindo bem, posso marcar a reunião para outro dia.


Ikki suspirou com o carinho e a atenção que recebia. Sorriu, estava preocupando Shaka e não queria isso. Era melhor voltar a agir como o de costume.


— Estou bem, loiro, vai trabalhar. Não quero atrapalhá-lo, eu vou ficar bem, afinal foi só um corte.


Shaka suspirou sentindo que alguma coisa estava muito errada, mas não insistiu. Conhecia Ikki. Ele não falaria nada. Mas Fênix poderia esclarecer... Não, ele não iria entrar na Internet com a mão daquele jeito, era melhor esquecer essa ideia.


Acompanhou o namorado até a porta do apartamento, e despediu-se com um leve beijo. Precisava mesmo ir trabalhar, antes que perdesse o emprego.


Quando Shaka saiu, Ikki recostou-se a porta e respirou fundo. Não podia crer que havia estado perto dele e nem se quer tivera coragem de cumprimentá-lo.


“Você é mesmo um ogro idiota”, resmungou e foi para o quarto, dormiria para esquecer seus problemas.


Continua...



Notas finais
Especial obrigada para ddkcarolina, Alexia-Black, Sarah,
Hatake Sayuri, Pandora Hiei, Hanajima, PollyWeasley, marciabs, Belle Princesse, Agathachan, Su Cabral, Lord Bol, KitsuneKiki, Chakal_Maldito, CahFencz, Álefe, Matheus_Uchiha, Alone Chan, guima e Kira FOX pelos reviews.
Aos leitores fantasmas... Bem, eu tenho medo de fantasma então se quiserem que eu agradeça, tomem forma O.o
EEA vai fazer aniversário de 1 aninho! (Como eu e a Sion demoramos pra postar huahauhuahua). Não merecemos recomendações de presente de niver? xDD
Beijos!
Bia Yuuji.