Essa Estranha Atração

27 Esse estranho afastamento


Notas iniciais
Olá, leitores, mais um capítulo de EEA! Programei a postagem para 28/02/2014, pois se eu não fizer assim, vou acabar não terminando minhas histórias, pois sempre acho que o capítulo pode ser melhorado. Bem, não ficou exatamente como eu queria, mas espero que gostem e se divirtam. A música lindinha que aparece nesse capítulo está nesse link: http://letras.mus.br/andrew-belle/1682912/#radio Gente, ouvi-la, leva a leitura para outro nível, ao menos eu sinto assim!

Esse estranho afastamento

Capítulo 26

Ikki adormeceu depois de um tempo chorando contra o travesseiro. Estava tão exausto e ainda havia os comprimidos que logo adormeceu em um sono muito pesado, acordou somente no meio do dia seguinte quando a dor de tudo que havia acontecido voltou com força. Só que dessa vez, ele estava preparado, não chorou mais. Passado o choque inicial, ele começava a reequilibrar suas emoções. Não era homem de ficar chorando pelo cantos, nunca foi. Na verdade, somente Shaka o fizera chorar na vida. Pensar nisso foi doloroso, pensar o quanto o amara, o quanto se dedicou e se entregou aquele sentimento, o quanto pisou em tudo em que acreditava por ele e... Foi tão brutalmente usado e enganado.

Ergueu-se, sentindo todos os músculos doerem, foi para o banheiro e tomou uma ducha fria. Voltou para o quarto e se vestiu da forma elegante de sempre e discou para Shiryu querendo saber como as coisas estavam na boate, depois ligou para o dono do imóvel onde morava. Não queria ficar mais ali, ver Shaka todo dia, desfilando com outro. Isso seria demais para ele. Conversou com o proprietário, dizendo que entregaria o apartamento ainda naquele mês e que arcaria com as despesas de rescisão do contrato. O homem pareceu ficar insatisfeito, mas não poderia fazer nada. Ikki saiu em seguida para a santuário e passou o resto do dia trabalhando. Trabalhar e resolver as questões relativas à sua mudança foi tudo que fez nos três dias que se seguiram. Era uma forma de não pensar. Sempre odiou pensar demais em coisas que não poderia resolver e a solução para aquilo já existia. Dolorosamente... existia.

Com Shaka não aconteceu diferente. O mundo não pararia para eles. Também foi trabalhar e passou o dia inteiro mergulhado nos afazeres, mas nada tirava a noite anterior da sua cabeça. Tinha certeza de uma coisa: não podia deixar que as coisas terminassem daquela maneira. Precisava falar com Ikki, precisava que ele o escutasse. Mas sabia também que o melhor era dar um tempo para o moreno se acalmar e também acalmar seu próprio coração.

Assim, o loiro esperou três dias para procurar o vizinho e quando o fez, foi numa segunda, dia em que geralmente Ikki não trabalhava. Naquele dia, ele pediu dispensa do trabalho, alegando uma questão de saúde. Tocou a campainha do apartamento do vizinho e esperou que ele abrisse a porta.

“Espero que ele esteja vestido ou eu não sei o que faço”, pensou, enquanto esperava, agitado, que o mais novo aparecesse.

Ikki pareceu surpreso ao vê-lo, mas não foi hostil como Shaka imaginou. Seus olhos só demonstravam muito cansaço, decepção e tristeza. Não havia raiva, aquela raiva contida que eles geralmente expressavam, e isso, de certo modo, era ruim. A falta daquele brilho poderia significar que o que fora quebrado não se juntaria nunca mais.

Mudamente, ele deu passagem para que o indiano entrasse em seu apartamento. Dessa vez tudo era diferente, Shaka percebeu, não havia bagunça ali, havia somente algumas caixas num canto, nada mais que isso.

– Vai... embora? – ele perguntou, cortado de dor. – É tão difícil me olhar, Ikki?

O mais novo respirou fundo e se sentou no sofá, fazendo um gesto em que pedia que Shaka fizesse o mesmo.

– É o melhor pra nós dois, Shaka. Tentamos, não deu certo. – A voz era séria e baixa, desprovida de raiva, desprovida de sentimentos. Talvez se ele gritasse, xingasse e o acusado como na última noite, doesse menos.

– Não me ama mais? ... – a voz do loiro foi um sussurro magoado. – Será que o que fiz foi tão horrível assim? Tão horrível que é impossível perdoar?

O moreno ergueu os olhos para encará-lo.

– Shaka, você não entende. O que você fez só me fez ver que... que não damos certo! Não nos entendemos, tudo que fazemos parece ferir o outro. Eu estou cansado disso! Cansado de sempre estar com medo, sempre estar em dúvida. Eu não gosto disso! Não gosto de ser assim, alguém patético e inseguro, e foi isso que me transformei ao seu lado. – Acabou despejando e respirou fundo para se controlar. Não queria brigar, não tinha forças para isso, mas também não queria sucumbir à vontade de pegá-lo nos braços e beijá-lo. Era difícil encarar Shaka com aqueles olhos medrosos e lacrimejantes e não ter vontade de cuidar dele. Que os deuses o ajudasse a resistir, pois sabia ser preciso. Não dava mais, simplesmente não dava!

Shaka mordeu os lábios trêmulos.

– Eu só queria que soubesse que... Eu não fiz por mal... Eu só queria estar mais... próximo de você...

O moreno sorriu de lado, numa mistura de incredulidade e amargura.

– Sabe o que mais me magoa? – indagou,mas não esperou resposta. – Quando aconteceu o lance com a Pandora, você me disse que o que mais te magoou foi a mentira. Que se eu tivesse dito a verdade, você me perdoaria. Naquela época você já sabia que eu era o Fênix, você estava mentindo também e me julgou e condenou daquela forma.

– Não há comparação, Ikki! Você me traiu! – defendeu-se Shaka, ferido como nunca. – Eu menti apenas para estar perto de você e não de outro homem!

– Mentira é sempre mentira, Shaka. Mas eu não vou te julgar como fez comigo. – Ele disse e riu de leve, sarcástico. – É irônico isso, não? Eu acredito quando você disse que teve boas intenções, mas intenções não ajudam. Você me enganou e nenhuma boa intenção muda isso.

– Então vai acabar assim? – O indiano indagou, sem conseguir esconder a mágoa na voz. – Tudo que vivemos teve tão pouco significado, Ikki?

O moreno se calou por um tempo e depois se ergueu do sofá com um suspiro.

– Significou muito. Mais até do que eu queria. Eu preciso de um tempo, Shaka. Um tempo para me reencontrar, para saber quem eu sou. Na verdade, eu estou cansado de tanta luta, de tantas meias verdades, dessa loucura toda que se tornou nossa relação. Eu preciso de paz. Não é você a falar tanto de paz de espírito. Pois bem, é isso que quero agora. Quero voltar a ser quem era.

“Um galinha, ogro, idiota!” Shaka sentiu vontade de gritar, porque a primeira coisa que passou por sua cabeça ciumenta foi o antigo comportamento do moreno. Mas não disse nada, apenas umedeceu os lábios e assentiu com a cabeça.

– Você terá seu tempo, Ikki. Mas... Se um dia sentir saudades e me procurar, talvez eu não esteja mais aqui. – Disse ufano, erguendo-se e encarando o outro de maneira firme, com o queixo erguido. Não se humilharia mais. Não falou mais nada, saiu do apartamento do outro com o coração quebrado.

O moreno sorriu levemente com uma profunda melancolia.

– Eu sei... – Ele disse assim que o loiro saiu e não pôde ver a lágrima que escorreu pelo seu moreno.

Ikki preferia manter aquela postura calma, centrada. Estava um vulcão por dentro, mas sabia a hora certa para explodir e aquela não era a hora. Ao menos uma vez na vida, faria a coisa certa. E a coisa certa era viver sem Shaka. Estava doendo tanto, profundamente, mas ele era forte. Não era a primeira vez que abandonava alguém que era sua vida. Sobreviveria.

Os dias passaram lentos desde então, mesmo morando um de frente ao outro, ele e Shaka não se encontraram, parecia que ambos evitavam isso ao máximo. E as semanas foram passando. Os amigos percebiam que Ikki tinha mudado, estava ainda mais introspectivo e calado que o costume e totalmente desinteressado de tudo. Sua aparência também sofrera algumas mudanças que Seiya foi o primeiro a observar; estava mais magro, abatido e com olheiras. Shiryu aconselhou-o a procurar um médico, e ele argumentou entre dentes que estava bem. Ninguém teve coragem de aconselhar mais nada. Em fim ele conseguiu a casa que queria, à beira mar, que custou uma fortuna, mas era tudo que ele precisava: espaçosa, discreta, isolada, mas bastante aconchegante. Agora estava embalando e carregando suas coisas para fora do prédio e, definitivamente, da vida de Shaka.

Pensar nisso fez um suspiro amargo escapar dos seus lábios. Ele disse que queria um tempo, mas por mais que os dias passassem, a mágoa permanecia. Não tinha como duvidar que fosse o fim.

– Algum problema, Ikki? – Suzane, uma das suas garçonetes que havia se oferecido para ajudá-lo com a mudança perguntou tocando-o no braço enquanto ele segurava uma imensa caixa cheia de livros.

– Não, está tudo bem – sorriu sem vontade. – Você pode me ajudar abrindo a porta?

A garota sorriu de forma mais doce do que o necessário e fez o que ele pediu. Ele caminhou com a caixa para o corredor, enquanto ela o seguia com outra menor. Voltaram em seguida e entrar no apartamento quase vazio. Ikki pegou o livro que estava sobre a estante e leu o título. Ficou o observando por um tempo, numa mistura de saudosismo e tristeza.

– Suzane, você pode colocar esse livro na soleira da porta do apartamento em frente? – pediu. A garota que arrumava alguns copos numa caixa, limpou as mãos no short jeans que vestia e franziu as sobrancelhas.

– Tudo bem – deu de ombros e foi em direção a ele.

– Pensando bem, esquece! – disse e colocou o livro na caixa – Acho que isso era tudo que faltava pra embalar, vamos?

Ela sorriu e segurou o braço do chefe, saindo do apartamento com ele.

Naquelas semanas, Shaka se enterrou em trabalho. Terminou de revisar o livro com Mu e, já havia sido avisado que a publicação sairia em duas semanas, terminou o livro em que estava trabalhando e começou outro. Além disso, estava cumprindo religiosamente todos os seus horários e compromissos no seu outro emprego, o de guia turístico. Precisava manter-se ocupado ou enlouqueceria de tristeza e saudade. Procurava não pensar ou acabaria se desesperando.

Naquela manhã, ele estava em casa, e lia um pouco enquanto Mu cozinhava algo. Não estava conseguindo se concentrar na leitura e por isso observou Jack amuado no canto da sala, o olhando de forma pidona.

– Mu, eu vou levar o Jack para passear. Eu ando o deixando muito sozinho ultimamente. – falou se erguendo e deixando o livro no sofá.

– Isso é verdade. O coitado anda todo tristonho.– Falou o editor, enquanto mexia algo no fogão.

Jack, ao ver Shaka se aproximar com a coleira, ergueu a cabeça, mas não ficou tão animado como geralmente acontecia.

– Eu sei que você está triste também – o loiro sussurrou, acariciando o cachorrinho. – Mas não tem volta. Vamos ter que aprender a viver sem ele.

– Bom, eu não posso ir – Mu disse apontando com o queixo para o fogão. – Será nosso almoço.

– Espero que essa gororoba esteja comível quando eu voltar. – Shaka disse sem muito entusiasmo.

– Por que você é tão intragável? – indagou Mu, mas estava rindo.

– Voltamos logo. – Disse o escritor o ignorando e saindo com o cãozinho.

Shaka deixou o apartamento distraído, carregando Jack que não estava colaborando e não queria andar.

– Acho que vou te levar ao veterinário. Você está muito deprimido e... – a voz do loiro morreu quando ele viu Ikki sair do apartamento de braços dados com uma garota. O indiano quase voltou correndo para o próprio apartamento, mas fingiu indiferença. Deslizou os olhos suavemente pelas caixas, evitando olhar para Ikki. Tal como ele imaginou, não demorou a que o moreno voltasse à sua vida de galinhagem.

– Vamos, Jack? – Shaka voltou a falar com o cachorro, ignorando o casal. – Tenho certeza que o passeio vai te animar. – Foi dizendo na tentativa de sua própria voz abafar todas as vozes internas que gritavam.

Jack, porém, sentiu o cheiro de Ikki e se agitou todo no colo de Shaka latindo em direção ao moreno.

Ikki parou ao ouvir o latido do cachorro e se voltou rápido. Seus olhos e os de Shaka se encontraram, e sua boca ficou seca. Tentou não demonstrar sua perturbação, fez de tudo para que a mágoa e... o amor que sentia não fossem vistos em seus expressivos olhos, mas não sabia se teve sucesso nisso.

– Ikki? – a voz de Suzane o despertou, e ele suprimiu um suspiro – Vamos? O caminhão vem buscar o resto, não é? – sorriu a garota, solícita.

– Ah, claro, sim, vamos, Suzane – falou distraído, voltando a andar, evitando olhar para trás.

Os olhos dos dois se conectaram por breves segundos, e Shaka sentiu o ar faltar ao ver aquela dor que os olhos azuis do ex-namorado transmitiram. Mas em seguida, Ikki conseguiu vestir a máscara de indiferença e se afastou com a garota.

Jack latiu com mais força, Shaka tentava a todo custo segurá-lo, mas ele saltou dos seus braços e correu atrás do moreno. Shaka arregalou os olhos, temeroso que o cachorrinho se machucasse e se precipitou atrás dele.

Ikki parou quando sentiu Jack se bater em suas pernas. Soltou a caixa e segurou o bichinho que começou a lamber-lhe o rosto enquanto balançava freneticamente o rabo.

– Okay, rapaz, como você está? – indagou ao cão de forma carinhosa. Realmente tinha muito tempo que eles não se viam. Sentiu-se tão solitário naquele tempo que chegou a pensar em pedir o cãozinho de volta, mas achou melhor não. Ele ficara com Shaka todo aquele tempo, não era justo querê-lo agora. Claro que não pensava mais em jogá-lo no triturador de lixo, mas Jack era do loiro, era justo que continuasse com ele.

Afagou a cabeça de Jack com carinho, ignorando Shaka, evitando mesmo olhar para ele porque doía, doía demais. – Sentiu falta desse seu amigo troglodita, não é verdade? – sorriu com sinceridade. – Eu também senti sua falta, mas agora preciso ir – colocou-o no chão. – Volta para seu dono. Vai Jack, estou mandando! – falou, mas o bichinho continuava pulando sobre suas pernas, então ficou estático, esperando que Shaka tomasse a iniciativa de levá-lo dali, porque sabia que se começasse a andar, Jack o seguiria.

– Jack! – Shaka o chamou, mas o cachorrinho não o obedeceu. Ele suspirou pesadamente e foi até ele, sentindo uma perturbação por estar tão próximo de Ikki. Segurou Jack no colo e virou-se para descer pela escada, evitando olhar para o moreno. Não era nenhum idiota, já havia percebido a movimentação e imaginava que Ikki não fosse querer continuar morando ali e num primeiro momento até achou bom, mas agora, depois de vê-lo, sua certeza começava a vacilar.

Shaka foi diminuindo as passadas até parar de vez. Ele sentou na escada, acariciando a cabeça de Jack que havia ficado quieto outra vez.

– Você gosta mais dele, não é? – o loiro perguntou de forma distraída ao cachorrinho. –Não o culpo por isso. Talvez você devesse ficar com ele.

Jack continuou quietinho.

– E talvez ele também precise de você mais do que eu. Ele parecia tão sozinho... mesmo com aquela mulher grudada no braço dele.

O loiro havia percebido que Ikki estava abatido. Estava mais magro e com olheiras profundas. Pelo jeito ele também estava sofrendo. Mas Shaka continuava enciumado por causa da garota que estava pendurada em seu namorado...

“Ex, Shaka, ele é seu ex!”.

Ele suspeitou que Ikki fosse colocar outra pessoa em seu lugar, mas não esperava que fosse tão rápido. Provavelmente ele se recuperaria rápido e esqueceria que um dia namorou outro cara. Um tempo! Parecia que aquele tempo estava sendo muito bom para o moreno.

“Eu não me importo com isso! Não mesmo!”, repetia, tentando desesperadamente se convencer.

– Se você continuar triste desse jeito eu vou te entregar pra ele – Shaka ameaçou o cãozinho. – Temos que erguer a cabeça e continuar, Jack! Ele quis te jogar no triturador e mesmo assim você está aí pra morrer porque ele está indo embora. – Reclamava como se falasse com um ser racional.

Enquanto Shaka ralhava com Jack, pensava em seus próprios sentimentos. Continuava tentando se convencer de que seria melhor sem ele, que conseguiria continuar a sua vida como se nunca tivesse o conhecido. Que Ikki não o queria mais e aquilo era definitivo, sem chance de volta, sem chance de perdão. Ele até estava se mudando! Queria distância de si.

– Nós vamos conseguir, Jack! – ele exclamou, mas lá no fundo sabia que aquela era uma grande mentira.

Suspirou enquanto encostava a cabeça na parede. Talvez aquele namoro não devesse nem ter começado. Qual a lição que ele poderia tirar daquilo? Que sexo era muito bom e que dormir coladinho a quem você ama era tão bom quanto. Mas não foi apenas isso. Ele realmente viveu bons momentos ao lado de Ikki. O problema era que os maus momentos marcaram mais.

Ele sabia que se arrependeria caso não tivesse tentado. Ora, tentaram e não deu certo. A vida continua! Entretanto, Shaka sabia que quando a mágoa diminuísse, a saudade começaria a falar mais alto. Ele sentia que sua vida só havia começado depois que conhecera o moreno.

Realmente o amava! Por que as coisas tiveram que ir por aquele caminho? Por que Ikki tinha que ser tão obtuso e ciumento? Nada daquilo teria acontecido se ele não tivesse surtado por bobagem naquele maldito jantar. Mas, ao mesmo tempo, Shaka sabia que uma hora ou outra, Ikki descobriria que ele era Virgo e ficaria magoado, se sentindo extremamente enganado tal como estava naquele momento.

Tudo bem que ele não manejou direito a situação e nem foi sutil ao revelar a verdade, mas estava com tanto medo e mágoa que não pensou nem um pouco no que fazia.

O loiro sabia que era piegas e extremamente romântico pensar que jamais conseguiria se envolver com outra pessoa, mas era o que sentia. Não conseguia se imaginar com mais ninguém que não fosse Ikki. Ele era teimoso, ciumento, agitado, nervoso, não media as palavras ferinas quando estava irritado e, o que mais irritava Shaka, era extremamente fechado, mas o indiano o amava daquela forma. Amava os defeitos dele, assim como as qualidades que na maioria das vezes Ikki só demonstrava escondido atrás de uma tela de computador.

E continuaria amando, mesmo que sua boca insistisse em dizer as mais grandiosas mentiras sobre esquecê-lo e seguir a sua vida tal como antes de conhecê-lo.

Este é o começo do meu maior medo

Estou arrumando tudo, saindo daqui

Mas então você me liga e pede que eu não vá

Que eu sou o único que colocou o rock n roll

Em sua vida

Ikki viu Shaka se afastar e ficou olhando por um tempo, perdido, sentindo emoções tão contraditórias que não conseguia compreender. Sua vontade era ir atrás dele, dizer que ainda o amava, mas era em vão. O loiro nunca o amou, ele foi simplesmente um brinquedo dele, deve ter sido legal se divertir, pensar que conseguiu deixar um ‘hetero’ completamente apaixonado.

— Burro, idiota! — resmungou.

— O que disse, Ikki? — Suzanne indagou confusa.

— Nada, nada — entraram no carro e seguiram para seu novo lar, uma casa na beira da praia, bem diferente do apartamento pequeno e funcional. Kanon o convencera que era um bom investimento e embora ele achasse grande demais para si, o amigo lhe garantiu que seria ótima por seu isolamento e a paz que ele tanto queria, e o moreno acabou concordando. Percebeu logo de imediato que Kanon tinha razão. Não havia vizinhança, era somente ele, o céu e o mar, e, embora isso fosse ótimo, Ikki nunca se sentiu tão vazio na vida. A dor e a saudade eram profundas e havia noites em que ele não conseguia dormir e precisava apelar para os velhos remédios, coisa que há muito tempo não fazia.

Este é o começo do um novo dia

Eu nunca gostei mesmo dessa cidade

Eu preciso dessa cidade como preciso da chuva

Eu sei que em algum lugar há um trem indo para o norte

Shaka se dedicava totalmente ao trabalho, única forma de fugir da dor e da saudade, mas as noites... Essas eram solitárias. A ausência física de Ikki ali perto intensificou a ausência emocional que ele já sentia. Onde ele estaria? Estaria bem? Feliz? Seria feliz sem ele?

Este é o começo do um novo dia

Eu nunca gostei mesmo dessa cidade

Eu preciso dessa cidade como preciso da chuva

Eu sei que em algum lugar há um trem indo para o norte

O moreno entrou em um novo empreendimento. Abriria uma nova casa noturna em outro canto da cidade e isso para sua sorte, tomava muito seu tempo durante o dia, e a noite estava na santuário. Era quando voltava para casa que a falta de Shaka se fazia mais dolorosa. Então ele se entupia de remédio, porque precisava dormir. Isso de certa forma melhorou sua aparência que antes estava péssima. Ele também voltou a malhar todas as manhãs, correr na praia, tentava manter um ritmo saudável pelo menos fisicamente, porque o emocional estava em frangalhos, e ele não se esforçava muito para melhorar. Ainda era cedo para tentar mudar qualquer coisa.

Oh, eu conseguirei sem você

Conseguir sem você

E apesar de meu corpo estar deitado aqui

É minha boca que deve estar mentindo agora

O loiro passava as noites olhando as luzes da cidade, imaginando onde ele estaria, o que estaria fazendo. Muitas vezes temia ficar louco de tanta saudades, outras pensava em ligar apenas para ouvir a voz dele. Ikki também pensou em ligar várias vezes, nenhum dos dois o fez, continuavam seguindo separados... Ate quando? Até onde desse.

Este é o começo da minha queda do paraíso

Minha auto-estima, oh já viu melhores dias

Mas você sabe que eu nunca a desperdicei

Eu vou manter esta memória no mapa que tracei

De volta pra casa

Com a passagem dos dias, os amigos voltaram a se aproximar dele, sabendo-o “disponível” para as noitadas. Ikki passou a beber muito e, ao lado dos antigos “amigos” de farra, fazia questão de exagerar, era um jeito de não pensar muito. Mas demorou um pouco até voltar a ser o antigo predador noturno, simplesmente porque não tinha ânimo para muita coisa além de beber e sofrer...

Meu amigos saem, mas eu tenho ficado

Eu sei que deveria ir, era assim era o certo

Nunca me importei muito com o sabor do Gin

Eu ainda não sei, oh, mas tem ajudado

E o tempo foi passando, e o tempo é o melhor amigo de todas as causas. Ele voltou a esbanjar vigor e juventude, sua cama voltou a estar sempre ocupada por alguém, mas nunca a mesma pessoa por mais de duas vezes. Ele era o velho Ikki, sempre cercado de belas mulheres. Entretanto, dessa vez, ele guardou a chave de ouro seu endereço, nunca levava as garotas para sua casa, para isso havia hotéis e a casa dos amigos. Seu lar era agora o recanto para sua solidão, e ele não queria que ninguém mais o invadisse. Era nele que via o dia clarear pensando na única pessoa que foi capaz de conquistar seu indomável coração.

Oh eu, Oh eu conseguirei sem você

Oh eu, Oh eu conseguirei sem você

Oh eu, Oh eu conseguirei sem você

E os dias passavam lentos e agonizantes, nada fazia sentido, mas a rotina continuava. Eles tinham compromissos, números, cheques a assinar e assim viviam, enquanto continuavam separados. Enquanto o coração gritava silenciosamente no peito.

Oh eu, Oh eu conseguirei sem você

Oh eu, Oh eu conseguirei sem você

Oh eu, Oh eu conseguirei sem você

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Era algo em torno das dez quando o sino que tinha sobre a porta começou a badalar. Ele ergueu-se ainda sonolento e abriu a porta para o irmão que entrou muito calmo.

— Ikki, precisamos conversar.

— Bom dia, Shun.

— Bom dia, agora desamassa essa cara e me diz por que você e o Shaka continuam essa palhaçada de término de namoro? Eu ainda não entendi, se está na cara que os dois estão sofrendo.

Ikki encarou o irmão de forma zangada. Ele e Shun agora passavam ainda mais tempo juntos, saíam juntos, almoçavam geralmente, se falavam ao telefone três a quatro vezes ao dia. Ele ganhou mesmo o irmão de volta, de alguma maneira, não estava mais sozinho e sentia-se mais forte.

Passou as mãos nos cabelos, olhando o outro de soslaio enquanto ia para a cozinha e colocava água quente na cafeteira.

– Tem visto ele? – indagou como se não se importasse.

– Não com a frequência que gostaria. Como você, ele está sempre ocupado. – Disse o mais novo. – Irmão, não tem como reconsiderar? Já passou tanto tempo, Ikki. Vocês se amam tanto!

– Não nos amamos mais, Shun! – disse até com um pouco de violência, batendo a caneca que segurava na bancada e apertando os olhos com força. – Você deveria procurá-lo, tenho certeza que descobriria que ele está com o tal Mu. Ele me disse claramente que eu deveria deixá-lo para que o caminho ficasse livre pra lagartixa. Eu fiz o que ele pediu, simples!

– Burro! – irritou-se o mais novo. – Você está sofrendo, Ikki! Não adianta fingir pra mim essa postura estóica, eu sei que você está gritando por dentro!

— Sofrendo eu? Pirou? Eu estou muito bem sem aquele loiro falso se você quer saber! – respondeu, rindo de leve e começando a encher uma caneca com café.

Shun mirou o irmão. A aparência dele estava melhor, ele até estava mais forte do que geralmente era, intensificara os treinos na academia, parecia saudável, mas... Os olhos de Ikki sempre foram janelas sem cortinas da sua alma. Seus olhos diziam o quanto ele estava machucado.

— Não, Ikki, não está não, é notório o quanto isso está fazendo mal a você — falou Shun condoído — se olha no espelho, irmão, esse não é o Ikki que eu conheci.

— Está com sorte então, Shun — sorriu — Aquele Ikki só fez magoá-lo, lembra-se?

Shun baixou o olhar, não queria se lembrar daquilo, já havia perdoado o irmão e de uma forma bem irônica, Ikki já estava pagando bem caro todo o preconceito que usou contra ele.

— Não estamos falando de mim, estamos falando do Shaka, ele te ama...

— Ele está com outro, Shun! Será que não me ouviu! Ele mesmo me disse com todas as letras que eu deveria deixá-lo para que ele ficasse com aquela lagartixa roxa do Mu! — crispou o punho com raiva. Só de pensar naquele cara já tinha vontade de esmurrá-lo.

— Ikki, como pode ter certeza disso? Não, eu não me enganaria...

— O que um pirralho como você sabe de amor, Shun? Até pouco tempo você estava com um cara só porque ele era “legal” – fez sinal de aspas com os dedos – com você!

O mais novo suspirou.

— É impossível conversar com você, que gênio! – irritou-se o Amamiya mais jovem. – E saiba que entendo de amor mais que você! — revidou — O Shaka é a primeira pessoa que você ama, Ikki, você não entende nada de relacionamento e nem de amor, mas eu entendo, porque tenho que viver com esse tipo de amor complicado e diferente desde que sou um adulto e não é fácil... Você mesmo me incentivou a deixar o Mime e me apaixonar de verdade, eu fiz isso e estou feliz! O Hyoga me satisfaz de um jeito que nenhuma relação nunca satisfez. Eu estou feliz, e de certa forma, você me ajudou nisso... É tão bom viver uma relação de verdade, inteira em todos os sentidos...

— Poupe-me dos detalhes, Shun... – O mais velho revirou os olhos e recostou-se à pia, sorvendo seu café.

— Ah, que droga! Deixa de ser teimoso! aquele homem te ama e você o ama também! Por que não pode procurá-lo?

— Porque eu não quero! Acabou, entendeu? E saiba que a fada arco-íris parou de salpicar sua purpurina em minha cabeça! Eu não quero mais saber de homem, não quero mais! Foi uma experiência única e eu não gostei, entendeu? Saí muito mais ferido que em qualquer outra em que me meti!

— Obtuso! Ogro! Burro! – gritou Shun, cruzando os braços inconformado.

— Você está falando igualzinho a ele, coitado do Hyoga, ele que se cuide, daqui a pouco faz um fake na net para descobrir os segredos dele — sorriu irônico terminando o café e colocando a caneca na pia. — Vou correr um pouco na praia, hoje à noite tenho um show pra ir com algumas gatas — piscou fingindo uma vitalidade que não tinha. — Quer ir comigo?

— Não, vou jantar com Hyoga — falou com desgosto, vencido pela teimosia do irmão.

— Okay, então almoçamos amanhã? — deu um beijo nos cabelos do caçula.

— Certo, Ikki, vou esperá-lo então. Vou nessa!

O mais novo dos Amamiyas saiu, e Ikki quase esmurrou uma parede, mas parou antes de terminar o golpe. Mirou o punho que já tinha sido machucado uma vez e desistiu, não valia a pena.

Continua...

Notas finais
Obrigada a todos que leram e comentário. É o carinho de vocês que me faz continuar, sempre! Sion Neblina