Essa Estranha Atração

16 Essa estranha terapia


Notas iniciais
Olá, meus leitores lindos, tudo bem?
Sion postando! Sei que demorou como sempre, mas em compensação o capítulo sempre vem tão gigante que vale por dois XD! Espero que gostem.
Meu mais sincero obrigada a todos que estão acompanhado e comentando.
Kao, Daftookami, Sarah, DDKcarolina, Hanajima, PollyWeasley, Lord Juno Apollo, KIRA FOX, Mary Winchester, Agathachan, Su Cabral, Sayuri no Virgo, Jenny Camui, Hatake Sayuri, JuhViolet, Thatta Chan, Álefe, Elaine, Medecris, KitsuneKiki, Matheus_Uchiha, Fnanda.
Boa leitura a todos, espero que gostem do capítulo!
Sion Neblina

Essa estranha terapia

Capítulo 15


As primeiras semanas de tratamento de Shaka passaram tão rápido que Ikki nem se deu conta que o loiro já estava há um mês em terapia com Valentine. Ele ainda não havia conversado com o loiro sobre o ocorrido entre ele e Pandora, e esse segredo o estava comendo como uma chaga cancerígena.

A mentira e a traição não saíam nem por um momento dos seus pensamentos e aquilo era uma tortura que ficava cada vez mais difícil de suportar.

Havia dois tipos de medo em Ikki; o primeiro era o mais altruísta: ele temia que a descoberta da traição atrapalhasse o tratamento de Shaka que parecia ir muito bem. O segundo era mais egoísta: ele temia que o loiro não conseguisse perdoá-lo pelo que fez e o deixasse.

O mais velho dos Amamiya travava uma cruel batalha consigo. Nunca foi um homem afeito a mentiras. Mesmo quando a verdade implicava em perder algo importante e mesmo quando suas conquistas estavam em risco, ele sempre enfrentou a todos com a cabeça erguida e falou a verdade. Ainda que corresse o risco de magoar e ser abandonado pelas pessoas que amava, como fez a Shun, ele sempre disse tudo o que achava sem nunca mentir ou ocultar. Então por que agora isso era tão difícil? Sentia-se um covarde e esse fato começava a abater seu espírito.

— Ikki?

Ele ouviu a voz de Shiryu e saiu de suas indagações, mirando o amigo sem jeito.

— Ah..., prossiga, Shiryu, desculpe, eu estava distraído!

— Você tem andado distraído demais nos últimos tempos. Está acontecendo alguma coisa?

O moreno soltou a elegante caneta que tinha em mãos. Era manhã de quarta-feira. E ele e o gerente estavam fechando as contas da boate. Na verdade, Shiryu tentava, porque o patrão parecia não prestar atenção nem um pouco no que ele dizia.

— Shiryu, o que você faria se estivesse mentindo para alguém e não soubesse como falar a verdade, porque essa verdade pode ser... forte demais para a pessoa? – tentou. Não era muito bom em pedir ajuda, mas precisava.

— Está falando daquele rapaz... Shaka, não é isso?

Ikki se sentiu incomodado em falar daquele assunto, mas realmente precisava dividir aquilo com alguém ou enlouqueceria.

— Sim, é dele sim.

— Pelo visto, ainda não conversou com ele sobre aquela noite com a Pandora em seu escritório — ponderou o gerente e ouviu o suspiro cansado do moreno.

— Não. Ainda não contei e não sei como contar.

— Por que, Ikki? Você sempre foi uma pessoa tão honesta. Além do mais, você cometeu um erro quando estava completamente bêbado. Isso não justifica, mas atenua sua culpa. Meu amigo, creia: a verdade, por mais cruel que ela seja, é sempre a melhor saída para tudo.

— Eu sei, Shiryu, mas acontece... — respirou fundo novamente. Era difícil falar sobre aquilo, difícil demais expor seus medos e angústias, mesmo confiando muito no amigo.— Shaka sempre me julgou um cretino. Um galinha sem sentimentos e... Eu tenho certeza de que ao saber do que aconteceu, ele apenas confirmará tudo que pensa de mim.

— Ikki,você está supondo e sofrendo por algo que ainda não aconteceu. Acha melhor ficar se torturando assim? Isso só está fazendo mal a você, meu amigo. Fale a verdade, e se Shaka não te perdoar, o que poderá fazer? Ficar nessa angústia só vai prejudicá-lo.

— Eu... — os lábios do moreno tremeram e ele os mordeu baixando o olhar — Estou com medo, Shiryu... Medo de perdê-lo.

O gerente entreabriu os lábios surpreso. Ele trabalhava com Ikki há quatro anos. Nesse tempo, havia visto o chefe sair com uma infinidade de mulheres magníficas, mas nenhuma delas foi capaz de domar o coração do jovem empresário. Alguns relacionamentos duraram algumas semanas, outros não mais que dois meses, mas em nenhum deles, Ikki parecia se envolver de verdade ou mesmo ter qualquer compromisso. Era livre, inconstante e solitário, isso foi o que lhe valeu o apelido, entre os mais íntimos, poucos na verdade, de Fênix, a ave imortal e solitária. Era assustador ver Ikki Amamiya sofrendo daquele jeito por amar alguém, por amar um homem.

— Fale a verdade – aconselhou novamente Shiryu. — Encontre o momento certo e toque no assunto ou você irá enlouquecer.

Ikki mordeu o lábio inferior. — Ele está em tratamento psiquiátrico.

O jovem gerente suspirou, entendendo melhor o amigo. — Entendo. Sei que deve ser muito complicado, mas, me ouça: faça da forma mais suave possível, mas fale a verdade. Sei que é inteligente o bastante para criar uma ocasião.

O mais velho assentiu com a cabeça e nesse momento, Seiya apareceu no escritório depois de bater na porta de leve.

— Olha, eu não quero interromper não, mas a Pandora está histérica lá no palco, reclamando dos músicos e dizendo que não vai se apresentar amanhã à noite!

Ikki bufou. Só pode ser karma! Pensou se erguendo e saindo do escritório junto a Seiya e Shiryu.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou mal humorado. A alemã que vestia um short jeans curto e camiseta baby look colocou as mãos nos quadris e sorriu com ironia:

— Essa banda que você me arranjou não tem um saxofonista que preste! — ela disse. — Minha melhor música precisa de um solo de sax como você deve saber, Ikki... —Os olhos perigosos da mulher miraram o moreno de cima a baixo. — Venha, ensaie comigo e me consiga um bom saxofonista para amanhã ou eu desisto de me apresentar.

Ikki trocou um olhar com Shiryu que soube exatamente qual eram os planos da mulher. O dono da boate santuário subiu ao palco, contrafeito, e tirou o saxofone das mãos do coitado do músico que saiu resmungando.

—No três. Vamos rapazes! — pediu Pandora animada. Ela ainda não havia esquecido as ofensas que ouviu de Ikki e faria de tudo para tornar a vida do empresário um inferno, enquanto tivesse contrato com a boate.

A banda começou a tocar, e Ikki iniciou as notas no sax. Pandora principiou a música com sua voz doce e melodiosa. Logo o moreno se envolveu na melodia e fechou os olhos aproveitando ao máximo aquele momento tão raro em que podia tocar saxofone.

— Fala a verdade, Ikki, você adorou aquela noite não foi? — Pandora sussurrou no ouvido dele no meio da melodia, afastando o microfone para que os outros não ouvissem. Ikki a ignorou e continuou tocando o instrumento. — Você gemeu tanto... Estava tão louco de tesão...

Ela continuou falando entre uma estrofe e outra da canção, muito perto do corpo do empresário que não apresentava reação além da concentração na música e em sua própria performance.

— Já contou a ela?... — Pandora voltou a sussurrar e nesse momento sim, Ikki abriu os olhos e errou a nota, interrompendo o ensaio.

— Chega... — ele murmurou entre dentes e quando olhou para frente do palco, paralisou. Shaka estava parado, mirando a insinuante posição em que Pandora se encontrava; inclinada sobre seu ouvido. A mulher mirou na direção que o moreno olhava e pela expressão de Ikki não teve dúvida que “sua rival” não era “ela” e sim “ele”.

A cantora ficou um tempo parada com os olhos arregalados, como alguém que está tentando processar informações. Ikki se afastou dela e desceu a pequena escada chegando até o namorado.

— Oi — sorriu sem jeito. — O que faz aqui?

— Eu vim buscá-lo para almoçar. Tenho percebido que você não tem se alimentado bem, Ikki, já perdeu peso, não notou? — Shaka sussurrou próximo ao moreno, para que os outros não escutassem. Não haveria sessão de terapia naquele dia, e ele também não foi à Agência, por isso pensou em buscar o namorado. O carro de Ikki tivera que ficar mais tempo na oficina devido a um problema nos freios, e o moreno já estava há algumas semanas a táxi.

— Não precisa se preocupar, loiro, está tudo bem...

Mas a testa franzida de Shaka e a forma que ele olhava para Pandora, por cima do ombro do moreno,indicavam que nada estava bem.

— Vamos embora. — Ikki falou o puxando pelo braço, mas a voz insinuante de Pandora interrompeu a saída dos dois.

— Eu vou buscar o Jack hoje, Ikki — ela falou com um meio sorriso — Já encontrei um dono para ele.

O loiro se virou lentamente e encarou os olhos maliciosos da mulher.

— Jack já encontrou um dono legal — Shaka disse friamente antes que Ikki se pronunciasse.

A cantora o mirou com desprezo e depois olhou novamente para o moreno.

—Quem é ele? — indagou.

— Não é da sua conta, Pandora... — falou e puxou Shaka para que eles saíssem dali.

— Então me tratou daquela forma por causa dele?! – perguntou irritada, sentindo o orgulho cada vez mais ferido, mas sorriu com ironia – Parece que seu gosto mudou, senhor Amamiya.Uma pena!

Ikki respirou fundo, tentava se controlar. Não queria envolver Shaka numa discussão naquele momento. Muito menos queria que Pandora abrisse sua maldita boca sobre o acontecido entre eles.

— Pandora, escuta: você já sabe que encontrei um dono legal para o Jack, o que quer mais? — Ikki a mirou tão profundamente que a mulher se sentiu estremecer. Aquele olhar era uma ameaça — Me deixe em paz — ele advertiu.

— Eu quero uma explicação! — falou a alemã tremendo de raiva. — Foi por causa dele que você me rejeitou? Eu... Eu larguei todos naquela boate por você, tem noção do privilégio que teve? — ela falava ignorando Shaka completamente.— Foi por isso, Ikki? Por isso me tratou como uma vadia?

Ele largou o namorado e se aproximou da mulher, ficou tão perto que ela pôde sentir sua respiração descompassada.

— Pandora... — Ikki tentou manter a voz calma para que aquilo não se tornasse um escândalo ainda maior. Estava apavorado com a possibilidade de Shaka ficar sabendo de tudo daquela forma — Se você fizer o que está pensando, eu juro que vou acabar com você. Não brinque comigo porque não sabe do que sou capaz.

A cantora estremeceu e engoliu em seco, recuando em sua decisão de jogar a verdade na cara do “namoradinho” do Amamiya. Não faria aquilo, pelo menos não naquele momento. Ainda assim, ela sorriu e encarou o empresário e sussurrou:

— Realmente, eu não devo ter o que ele tem, sua... BICHA! — gritou com raiva — Quero ver como vai ficar sua reputação quando todo mundo souber disso!

Ikki sentiu o rosto arder com as palavras da mulher. Um mal-estar se apossou dele, e o moreno pensou em todas as vezes que repetiu aquela palavra pejorativa e magoou as pessoas. Não teve reação, não por Pandora, mas por pensar que estava recebendo uma bela lição. Além do mais, o melhor mesmo era ficar quieto, antes que as coisas só piorassem.

Shaka observou toda a discussão quieto e sem entender muita coisa, mas achou o comportamento dos dois muito estranho. As imagens da noite em que Pandora beijara Ikki ainda estavam em sua mente, trazendo-lhe um doentio ciúme. O que havia entre eles? Será que Ikki estava tendo um caso com aquela mulher vulgar? Ainda assim, ele controlou sua insegurança e seu ciúme e ao ouvir o que Pandora gritou ao moreno teve a certeza: a cantora não havia desistido do seu namorado.

O indiano trincou os dentes com aquela ladainha irritante de "Quero explicações", e fechou totalmente a expressão quando ela chamou Ikki de bicha. O loiro fitou o namorado sem saber o que fazer. Ah, não era fã de violência, mas se aquela criatura não fosse mulher iria receber um cruzado de direita bem certeiro.

— Você é medíocre — ele falou friamente, sem perder a postura séria e compenetrada. Segurou a mão do namorado com força e o puxou para longe de Pandora. Naquele momento, Shiryu já tinha tratado de deixar os três sozinhos, retirando os músico e Seiya que, curioso, não queria sair — Está desesperada a esse ponto? Nos chame do que quiser, mas fique sabendo que nós estamos felizes e você, com essa sua atitude infantil, egoísta e mesquinha, jamais conseguirá sentir nem um terço da felicidade que sentimos. Você não pode obrigar alguém a ficar com você. Ikki não a quer. E ao invés de compreender isso você tenta coagi-lo e intimidá-lo? Eu só consigo sentir pena da pessoa que você é.

Pandora sorriu com ironia e meneou a cabeça. Sentiu vontade de falar para aquele homem o quanto Ikki a quis, mas se calou momentaneamente por temer a reação do empresário.

—Que bonitinho! Defendendo o namoradinho! — riu mais alto. — Dois anormais e iludidos!

— Pandora, chega! — Ikki recomendou mais uma vez — Não me faça perder a paciência, eu não sou tão cavalheiro quanto Shaka, advirto.

A mulher sorriu e deu um passo para trás se afastando do moreno.

— Uma pena, Ikki, você é realmente um desperdício. — falou com desprezo e depois olhou para Shaka e sorriu. — Seu namorado é maravilhoso, eu adorei prová-lo sabia? Ele é um amante fantástico! — riu debochada — E quando ele cansar dessa brincadeirinha de casal gay, eu estarei esperando. — caminhou sensualmente em direção ao vestiário.

O indiano olhou sério para o namorado, ignorando completamente a mulher que já havia desaparecido pelo corredor.

— Que história é essa? — perguntou sentindo a garganta seca. — Aconteceu algo entre vocês além daquele beijo no palco?

Ikki sentiu-se gelar com aquela pergunta. Como poderia respondê-la sem mentir e sem magoar Shaka? Respirou fundo e apertou mais forte a mão do loiro.

—Vamos para meu escritório... — declarou tentando desviar a atenção do assunto, mas Shaka o segurou pelo braço, forçando o moreno a encará-lo.

— Não fuja! Me responde? O que há entre vocês dois. Ela... Ela disse que adorou prová-lo o que significa isso, Ikki?Vocês são amantes?!

Ikki se sentiu contra a parede, literalmente, os olhos de Shaka tremiam em expectativa.

— Loiro, vamos para o escritório, conversamos lá — ele puxou o namorado pelo braço e o arrastou escada acima, fechando a porta depois. Ficou em silêncio, mordendo os lábios, simplesmente não conseguia encarar Shaka e mentir, então esperaria e ouviria o que o indiano tinha a dizer.

— Ikki – Shaka disse com a voz trêmula. — Por favor, me explica o que ela quis dizer. Eu vi vocês se beijando durante uma apresentação... Mas isso foi antes de começarmos a namorar. Se você... Se... Eu sei que não sou um bom namorado e talvez você tenha tido uma recaída. Foi isso? Me explica! — pediu desesperado.

O moreno engoliu em seco mirando o estado alterado do namorado. — Shaka... — ele tentou começar, mas o olhar do loiro ficou ainda mais angustiado. — Eu não tenho nada com aquela louca! —segurou o rosto do loiro entre as mãos — Confia em mim, por favor. Eu amo você, eu... — deuses, como era difícil! — Eu não tenho nada com ela! —Repetiu a única verdade que se sentia forte o suficiente para dizer naquele momento.

Shaka mordeu o lábio inferior com força. Estava com uma sensação ruim e não conseguia afastá-la mesmo com Ikki garantindo que não tinha nada com aquela cantora. A raiva que sentia de si mesmo era tanta que o estava sufocando. Se ele fosse uma pessoa normal poderia dar a Ikki o que ele precisava, e o namorado não estaria sofrendo nem pensando em outras pessoas.

Estava indo tudo tão bem! Tinha acordado bem naquele dia. Planejado um almoço tranquilo com o amado e depois um passeio só ele, Ikki e Jack. Mas agora estava num estado emocional tão deplorável que não sabia mais o que fazer.

— Não tem, mas teve — o indiano sussurrou com a voz fraca, enquanto afastava a mão do namorado do seu rosto. — Só de imaginar que ela... que ela... — Shaka nem ao menos conseguia formular uma frase inteira de forma coerente. Era incrível como Ikki conseguia jogar sua segurança e altivez no espaço. Só o moreno podia vê-lo sem qualquer máscara e isso o deixava muito assustado. Ele não queria parecer tão vulnerável diante do namorado.

— Loiro, vamos esquecer isso? Eu não tenho nada com aquela louca, isso basta, certo? — “Por enquanto, mas eu vou contar a verdade, eu juro”, pensava o moreno angustiado. — Vamos embora. Estou com fome, você não? — perguntou com carinho dando vários beijinhos no rosto do indiano.

Shaka, mais uma vez, afastou-se dele. Estava confuso e magoado com o discurso da alemã. Não conseguia nem ao menos sentir o carinho que o namorado transmitia em seus beijos.

— Eu vou embora sozinho — murmurou. — Preciso ficar sozinho um pouco. Foi uma péssima ideia ter vindo até aqui.

Ikki suspirou e mordeu os lábios, permitindo que o loiro se afastasse e pondo as mãos no quadril. Se Shaka já mostrava tanta fragilidade sem que ele lhe dissesse toda a verdade, imaginava o que aconteceria quando finalmente falasse tudo.

— Loiro, não faz isso comigo... — pediu baixo e dolorido. — Eu não sou perfeito, Shaka. Sei que errei muito e continuo errando todos os dias, mas... Eu não minto quando digo que te amo e que é com você que quero ficar e mais ninguém.

Algo em seu íntimo gritava: Covarde! Covarde! Mas ainda assim, ele não conseguiu dizer toda a verdade.

— O que você quer que eu faça, Ikki? – Shaka exclamou desesperado. — Que diga que está tudo bem quando na verdade não está? Ela disse que provou você! Por todos os deuses! Eu prefiro nem tentar interpretar o sentido dessas palavras senão vou enlouquecer de tanto ciúme! Às vezes, penso que estou te obrigando a carregar um fardo grande demais e que seria melhor, para nós dois, terminar de uma vez com isso — falou sem pensar muito no que dizia. Esse era um pensamento que de vez em quando surgia em sua mente, mas ele tratava logo de afastar.

— Alguma vez eu disse ou dei a entender que está com você era um fardo para mim? — perguntou sério. Sentia-se triste com os pensamentos do indiano, mas se ele achava aquilo, o melhor era terminar mesmo de uma vez.

— Não tente virar o jogo e me prensar contra a parede! — Shaka disse em tom cansado. — Estávamos falando da sua relação com aquela mulher. — Porém, as palavras começaram a jorrar da sua boca sem que conseguisse detê-las. — Vai me dizer que você não sente falta de sexo? — perguntou antes que o namorado tivesse chance de retrucar — Eu não sirvo para fazer sexo! Não sirvo para te acompanhar aqui na boate porque tomo dois copos e já estou bêbado! Não podemos namorar na praia porque eu tenho horror a areia, não podemos ir um restaurante porque eu começo a esterilizar tudo! Preciso tomar dez banhos por dia... Sou inseguro, teimoso e tenho a auto-estima abaixo de zero. Não era muito mais fácil estar com aquela alemã do que comigo? Fala a verdade!

Ikki ficou calado por um tempo mirando o rosto angustiado e nervoso do escritor. Depois fez um gesto de mão que era um “basta” silencioso e levou as mãos aos fios curtos dos cabelos.

— Você tem razão — declarou calmo. — Seria muito mais fácil estar com ela. — deu uma pausa longa e proposital esperando alguma reação de Shaka, mas o indiano continuou trêmulo e calado. — Mas quem disse que tem que ser fácil? Sim, eu sinto falta de sexo, mas não sou um macho no cio que fica atacando qualquer rabo de saia que apareça por causa disso. Sei que... Bem... Eu não posso convencê-lo com palavras. Shaka, estamos há quase seis meses juntos! Por que diabos você acha que estou com você se não acredita que eu te amo? — Aquilo era mesmo ofensivo para ele. Sim, que Shaka duvidasse da sua fidelidade, dos seus instintos e necessidades, mas não do seu amor.

— Eu não... — o loiro mordeu o lábio mais uma vez, demonstrando nervosismo. Provavelmente, Ikki já havia percebido que era um dos seus costumes. — Não duvido que me ame. Só não acho justo te prender a mim – sussurrou. – Não sei como você pode amar alguém tão cheio de defeitos como eu. Eu sou uma pessoa quebrada, Ikki, e não sei se tenho conserto. Eu juro que estou tentando melhorar, mas... Eu tenho tanto medo de te perder. Só de pensar que aquela mulher está tentando tirar você de mim eu entro em curto! – sabia que o que dizia talvez não estivesse fazendo sentido algum, mas eram apenas palavras sinceras e desesperadas.

Ikki se aproximou dele e segurou-lhe os ombros, mirando seus olhos. — Ninguém vai me tirar de você, Shaka. Eu sei os motivos da sua insegurança e entendo, mas lembre-se de que eu abrir mão de todos meus conceitos e preconceitos para estar com você e saiba de uma coisa: eu aguento! Eu aguento, loiro, não tenha dúvidas. — abraçou o indiano. Não sabia se tinha se expressado da forma correta, mas queria apenas dizer que mesmo que se passassem anos e Shaka não melhorasse, continuaria ao lado dele porque o amava e mesmo não podendo garantir, pois era humano e falível, tentaria ao máximo não voltar a errar com ele. Era forte, suportava, precisava suportar... Por ele, a pessoa que amava.

Shaka ficou com os braços no ar por alguns segundos, mas acabou rendendo-se ao abraço do namorado. Enlaçou o pescoço dele com força enquanto correspondia ao abraço. Sentiu que algumas lágrimas despencavam de seus olhos e molhavam a camisa fina de Ikki.

— Eu também te amo — sussurrou com a voz embargada. — Vou tentar esquecer o que ela disse. Eu confio em você.

O empresário suspirou o abraçando com mais força. Sua mente não parava de repetir: “Mentiroso! Covarde!”. Mas ainda assim, ele se calou. — Vamos almoçar. — disse se afastando do loiro e beijando-o delicadamente, enquanto limpava suas lágrimas.

O clima ficou tenso por um tempo. Eles seguiram calados até o restaurante. Almoçaram comida italiana, conversando amenidades. Depois do almoço, atravessaram a rua até chegar ao estacionamento onde estava o carro do loiro. Mas Shaka o impediu de entrar, quando ele abriu a porta do carro.

— Espera — pediu o indiano o olhando nos olhos. Ikki o encarou ainda sério, tinha medo do que poderia vir. — Eu quero um beijo — Shaka pediu, e o moreno estranhou, pois estavam em um local público, embora o estacionamento fosse bastante afastado, coberto por árvores e estivesse relativamente vazio.

— Aqui? — ele indagou receoso.

— É, aqui. Você ainda não me beijou hoje e estou sentindo falta — sorriu o escritor. Ikki sabia que aquela era sua forma de fazer as pazes com ele.

Ele tocou os lábios do indiano com os seus e o beijou intensamente. Também queria pedir desculpas, declarar seu amor e fidelidade naquele beijo. Shaka se agarrou a camisa dele, correspondendo ao beijo com fogo, querendo senti-lo, ter a certeza de que Ikki continuava sendo seu.

Lentamente, o moreno foi diminuindo a intensidade do beijo, até que ele se tornou um leve toque nos lábios macios do loiro. – Vamos embora... – sussurrou e sua voz saiu mais rouca que o normal. .

Shaka sorriu e o clima entre os dois melhorou de vez. Conversavam , riam e provocavam-se. Shaka dirigia e Ikki não cansava de atentá-lo, beijando-lhe o pescoço e mordiscando-lhe a orelha, tirando a atenção do loiro da estrada.

— Eu vou acabar capotando esse carro! — Shaka disse rindo, tentando fixar atenção à estrada, mas era difícil com o moreno o provocando daquele jeito. — E você diz que sou eu que provoco! — reclamou, e um gemido acabou escapando dos seus lábios quando o moreno deslizou a mão para mais perto do seu falo que não tardaria a despertar com aqueles toques e beijos.

Ikki ignorou o que ele disse e continuou mordiscando e lambendo sua orelha, enquanto a mão se insinuava sobre o tecido da calça clara que o namorado vestia. Há muito tempo eles não tinham um momento tão íntimo, tão confinados nos problemas estiveram.

— Para o carro, amor, de preferência em uma rua bem deserta... — sussurrou o homem mais novo, soprando o ar quente no ouvido do mais velho, começando a descer os beijos por seu pescoço novamente, enquanto a mão migrava para o meio de suas pernas.

— Mas... que... fogo — Shaka murmurou entre gemidos, tentando lembrar-se de onde estavam exatamente. Ikki conseguiu deixar sua mente em branco. — Ah, tem um farol aqui perto... Não costuma ter muita gente essa hora — disse enquanto ligava a seta para a direita. Chegaram bem rápido ao local, quase ultrapassando o limite de velocidade.

Assim que desligou o carro, Shaka praticamente voou para o banco do passageiro, deslizando as mãos pelo corpo do namorado e atacando sua boca, exigindo um beijo profundo.

Ikki acolheu o peso de Shaka circundando sua cintura com os braços, enquanto as línguas se tocavam num beijo cheio de desejo. Ambos gemiam no beijo e as mãos sôfregas lutavam contra a barreira das roupas. O moreno se ajeitou melhor no banco, abrindo as pernas, encaixando seu corpo ao do namorado, ao passo que provava da sua boca, invadiu a camisa dele, tocando a pele quente dos seus quadris e deslizando os dedos para abrir a calça e invadir a cueca que o loiro vestia...

— Só você pra me fazer perder a cabeça desse jeito — Shaka murmurou e se contorceu de prazer com o primeiro toque de Ikki em seu falo. — Parecemos... Dois adolescentes... Isso... Isso não está certo... Ikki! — gaguejou, mas não conseguia se controlar. Lambeu o lóbulo da orelha do namorado antes de começar a mordiscá-la. Tinha medo de reagir mais e Ikki parar o que estava fazendo.

O empresário encaixou Shaka sobre suas pernas o que não era confortável já que os dois eram homens grandes. Afastou-o delicadamente para abrir sua camisa e expor o peito pálido, começando a mordiscar ali, enquanto a mão continuava a masturbá-lo lentamente. Remexeu-se no banco, querendo aumentar o contato do corpo do loiro sobre seu falo desperto, gemendo com isso, enquanto a língua brincava com um dos mamilos do indiano.

Shaka jogou os quadris para baixo quando sentiu o membro desperto do namorado roçando em suas nádegas. Simplesmente não conseguia mais pensar. Não tinha nojo dos toques de Ikki ou de tocá-lo. Muito pelo contrário, queria prová-lo por inteiro. Era um desejo louco, irresistível e que o escritor não conseguia — nem queria — controlar.

Sem hesitar, abriu o botão da calça do namorado e antes que sua mente tivesse tempo de processar o que sua mão estava fazendo, envolveu o falo de Ikki e começou a copiar os movimentos que ele fazia em seu próprio pênis. Sentia o rosto arder e sua visão estava turva, mas conseguiu encontrar a boca do moreno para exigir um novo beijo. Era uma sorte ele ter encontrado um local escondido para estacionar senão acabariam presos por atentado violento ao pudor.

Ikki gemeu mais forte ao sentir a mão de Shaka se apossar do seu membro, mas seu gemido foi abafado pela boca gulosa do loiro. O ar-condicionado estava ligado, mas isso não os impedia de suar e embaçar os vidros do carro. Afastou a camisa de Shaka por inteira do corpo do loiro o segurando com força e sugando sua língua, sentindo a excitação chegar ao limite, não demoraria a gozar naquele ritmo. Shaka subia e descia a mão em uma cadência constante e delicioso, e ele só conseguia gemer contra sua boca em resposta, enquanto tentava continuar o acariciando também.

O corpo de Shaka estava trêmulo, e ele sentia que iria alcançar o ápice a qualquer momento, mas não queria gozar antes de Ikki, então acelerou o movimento com a mão, apertando-o com força enquanto rebolava na direção da mão que continuava a acariciá-lo. Interrompeu o beijo e o fitou tentando transmitir com o olhar tudo o que estava sentindo.

"Te amo, te amo!", repetia mentalmente desesperado sem conseguir encontrar a voz para verbalizar esses pensamentos. Ikki jogou a cabeça para trás caindo no encosto do carro, soltando um gemido estrangulado, sentindo como se uma descarga elétrica o tomasse. Gozou na mão do loiro que olhava dentro dos seus olhos e com isso era como se seu prazer se tornasse mais intenso. Ainda perdido no próprio orgasmo, continuou estocando o falo do namorado até que ele também gozou se derramando em suas mãos e caindo sobre si, ofegante.

Shaka caiu sobre o peito do moreno, puxando o ar com força na tentativa de se recuperar.

— Isso... Foi uma loucura... — murmurou quase sem voz.

Aos poucos, porém, sua consciência foi voltando e a euforia desapareceu por completo. Shaka sentiu o corpo tremer outra vez, mas agora foi de pânico e horror. Ele estava sujo! Sujo! Imundo!

Afastou-se imediatamente, olhando assustando e com nojo para a mão ainda molhada de sêmen. Sentiu vontade de gritar e procurou com os olhos algum lugar em que pudesse se lavar.

— Eu... eu preciso... — sussurrou sem conseguir concluir a frase.

Ikki estava de olhos fechados, mas os abriu quando percebeu o corpo do loiro que estava tão relaxado ficar tenso de repente. Quando encarou Shaka percebeu seu olhar apavorado, voltando para a mão ainda suja de sêmen.

“Merda...”, resmungou e se endireitou no banco rápido, limpando a própria mão na calça que vestia e tirando a camisa, segurando a mão do namorado a limpando rápido.

— Pronto, já passou certo? — dizia enquanto limpava a mão de Shaka que continuava com o olhar apavorado e murmurando que precisava se limpar como se estivesse em transe.— Shaka, fica calmo — falou e se inclinou procurando no porta-luvas até achar algo que sabia que estaria ali: um frasco de álcool em gel. Pegou uma boa quantidade nas mãos e começou a passar nas mãos do indiano, tentando chamá-lo à razão. – Está vendo? Você já está limpo —dizia de maneira assustada, porque a reação do namorado o assustava sempre, embora não admitisse.

O loiro ouvia a voz de Ikki bem distante, mas à medida que o namorado limpava sua mão, o indiano foi se acalmando e a respiração voltou a ficar regular. Quando a crise diminuiu, ele percebeu que o moreno o encarava com uma mescla de medo e preocupação. Shaka mordeu levemente o lábio inferior e fechou os olhos com força. Levou as mãos ao rosto, com vergonha de estar quase chorando outra vez na frente o namorado.

— Eu tinha que estragar tudo... — sussurrou com a voz abafada.

— Hey... — Ikki o puxou para um abraço, embora estivesse profundamente perturbado. Toda a alegria que poderia sentir naquele momento esvaiu-se com a nova crise do namorado, mas ele tentava não demonstrar isso. O abraçou com força — Está tudo bem — afagou-lhe as costas — Não fica assim, amor, eu te amo, te amo muito... — fechou os próprios olhos com força sentindo a angústia o dominar. Esperava realmente que aquele tratamento desse certo. Não suportava mais ver Shaka sofrendo daquela forma.

— Desculpe-me, Ikki. Eu não queria que isso acontecesse, mas eu não consigo controlar — Shaka tentava explicar. — É mais forte do que eu, mas quero que saiba que eu não tenho nojo de você. Acredita em mim —falou tentando equilibrar as emoções para não parecer um louco desvairado, mas já sentia algumas lágrimas rolarem por seu rosto.

Ikki o apertou nos braços. Sabia que não era culpa dele e vê-lo sofrendo daquela forma só aumentava sua angústia e medo. Todavia, não queria que Shaka percebesse isso, não queria que ele sofresse mais do que já estava sofrendo.

– Vamos pra casa, amor, está tudo bem. – o afastou e enxugou-lhe o rosto – Não fica assim, Shaka, você vai melhorar, apenas começamos o tratamento.

O loiro se afastou tentando identificar os sentimentos do namorado, mas estava ansioso e nervoso para conseguir ler qualquer coisa na expressão facial de Ikki. Inspirou e expirou profundamente, tentando se acalmar e colocar a máscara de indiferença de sempre no rosto. Ikki não merecia ter que aguentar os seus surtos.

— Eu não estou em condições de dirigir— Shaka disse enquanto passava a mão no rosto para limpar as lágrimas. — Ah... Eu também te amo, Ikki — sussurrou. — Muito. E é por nós que eu vou me curar desse transtorno.

Ikki sorriu de leve e beijou o namorado. Mudaram de banco do carro e ele guiou de volta ao prédio onde moravam. Parou o carro no estacionamento e seguiu abraçado a Shaka para o elevador.

Eles passaram aquela tarde juntos, e à noite, o moreno foi trabalhar. O quase fatal encontro entre Shaka e Pandora não saía da sua cabeça e também a conversa que tivera com Shiryu o atormentava. Chegou à conclusão que precisava resolver aquilo e seria no dia seguinte sem mais protelação. Já estava mentindo há muito tempo e não permitiria que uma mentira ficasse entre ele e Shaka. Era hora de resolver aquilo e mesmo que o indiano o odiasse, ele exporia a verdade de uma vez por todas, pediria perdão e garantiria que nunca mais repetiria o ato. Esperava que Shaka o perdoasse. Essa era toda sua esperança. Shaka teria terapia no dia seguinte, e isso lhe daria tempo para sair e comprar um presente para o indiano que seria também uma forma de pedir desculpas. O convidaria para jantar e finalmente revelaria seu deslize. Esperava que, na melhor das hipóteses, Shaka quebrasse a garrafa de vinho em sua cabeça e depois entendesse que ele errou, mas que o amava.

Ikki aproveitou a manhã para ir a uma joalheria e comprar o presente para o namorado. Depois pediu um delicioso jantar num Buffett especializado em comida indiana. O próprio Buffett ofereceu o serviço de um lindo jantar com decoração indiana que foi preparado na aconchegante varando do seu apartamento. Só precisaria manter o segredo até a noite.

Satisfeito,ele mirou o relógio. Já estava com seu carro, era hora de ir buscar Shaka na terapia.

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Shaka estava ansioso naquele dia. Valentine lhe dissera que tentaria um novo método: hipnoterapia. Coisa que ele não sabia absolutamente o que era, mas que autorizou que fosse feito.

Não podia negar que estava um tanto frustrado, afinal já havia mais de seis sessões e em nada seu quadro se alterou. Valentine lhe explicou que o tratamento era mesmo lento e que dependeria muito dele, mas Shaka estava se esforçando, tentando de tudo para controlar a fobia, e nada parecia acontecer de novo.

O terapeuta apenas o incentivava a falar da sua infância, adolescência e até mesmo dos seus relacionamentos profissionais e amorosos. O loiro não percebia qualquer mudança ou avanço. Ele sabia que seria um processo demorado. Imaginava que fosse tomar algum remédio para auxiliar no tratamento, porém tudo continuava exatamente como começou.

Sua relação com Ikki continuava na mesma também. Shaka estava com os dois pés atrás em relação à Pandora. Algo lhe dizia que tinha muito mais coisa naquela história do que o namorado quis dizer e isso, somando-se a todo o resto, o deixava cada vez mais angustiado.

— Vamos fazer algo diferente agora — Valentine disse atraindo a atenção do loiro que estava divagando. — Me acompanhe até o jardim, por favor.

Shaka franziu a testa, mas fez o que o psiquiatra pediu.

— Por que no jardim? — indagou não gostando daquilo.

— Porque é um lugar mais tranquilo, mas não se preocupe. Toda a equipe médica estará a postos e nada de errado acontecerá — continuou o terapeuta friamente. — Agora, fique aqui — Valentine indicou um lugar. — Não se preocupe. Vai ficar tudo bem — garantiu.

Mais desconfiado ainda, e já se arrependendo de não ter saído correndo, Shaka se sentou no local informado pelo terapeuta. Era um banco confortável ao lado de uma fonte artificial com imagens de animais. Por alguns minutos, ele só ouviu o barulho da água que caía e do vento que soprava nas copas das árvores. Valentine ficou completamente em silêncio, parecia que tentava deixar o paciente mais relaxado.

O terapeuta começou a conduzir o paciente ao relaxamento. Pediu que ele fechasse os olhos e respirasse profundamente, solicitando também que, ainda com os olhos fechados, ele os girasse para cima e para os lados — isso durou alguns minutos — e que depois tentasse abri-los. Shaka não os abriu. Suas pálpebras apenas tremularam dando a Valentine a certeza de que ele estava realmente no estado esperado.

— Ótimo, Shaka — ele disse numa voz pausada e sussurrada — Agora vamos voltar onde tudo começou. Você tem seis anos e está com seus amiguinhos brincando no quintal do mosteiro... Conte-me o que aconteceu...

As pálpebras do loiro continuaram a tremer e seu rosto adquiriu uma expressão de sofrimento com as lembranças.

— Brincávamos no... quintal... No-No lugar onde eram criados os animais...

— E o que aconteceu? — continuou Valentine suavemente.

— E-Eles me empurraram... — ele murmurou — Eu caí...

— Onde você caiu?

— N-Na... sujeira... — a voz do paciente saiu mais trêmula e seu rosto se contorceu em agonia.

— E o que aconteceu depois disso, Shaka?

O coração do escritor batia forte e seus lábios tremiam.

— Você está imundo, imundo! Será que não consegue brincar como uma criança normal? Vai ficar trancado nesse quarto até aprender a não brincar com esterco! Vai ficar sujo até essa sujeira secar e nunca mais deixar seu corpo!

— Não! Por favor, irmão Chirang! Não me deixe aqui sozinho! Por favor! Não!

A porta bateu. Tudo tornou-se escuro...

O odor nada agradável chegou de forma vívida às narinas de Shaka. Ele abraçou o próprio corpo, começando a chorar. Estava totalmente escuro e parecia que todos os sons haviam parado. Só havia aquele cheiro e a sensação de estar tão podre quanto aquele esterco. Ele novamente tinha seis anos e estava sujo e sozinho naquele quarto escuro.

— Tirem-me daqui... — sussurrou desesperado. — Por favor! Não me deixem aqui! — sua mente não processava mais as instruções do terapeuta. Ele havia entrado definitivamente no quarto da infância e sua percepção sensorial estava comprometida. — Eu prometo não me sujar mais! Prometo! Mas por favor, abra a porta, irmão Chirang!

Valentine engoliu em seco percebendo que o paciente não mais respondia ao seu chamado.

— Shaka, é hora de acordar. Shaka abra os olhos e saia daí! — ele instruía, mas nada parecia funcionar. O terapeuta dava-se conta da gravidade da situação e tentava chamá-lo de volta ao mesmo tempo em que acionava a equipe médica para que ela ficasse de prontidão.


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Ikki havia acabado de chegar à recepção e perguntava a secretária do terapeuta o horário que a sessão daquele dia acabaria. Franziu a testa quando a mulher informou que doutor Valentine pedira para não ser incomodado em hipótese alguma. O moreno não gostou nada daquilo, não gostou nada mesmo e sentiu uma sensação ruim no peito, mas resignou-se. Ficou andando de um lado a outro na recepção até perceber uma movimentação excessiva de enfermeiros.

— Que diabos está acontecendo? — perguntou aflito. A mulher da recepção sorriu sem jeito.

— Eu não sei senhor, mas... parece que alguma coisa deu errada e... senhor, espere! — ela gritou ao ver Ikki invadir o corredor pelo qual havia passado os enfermeiros. Shaka não estava na luxuosa sala do psiquiatra, então ele correu até chegar à ala externa. Viu um aglomerado de pessoas e abriu passagem por ela até encontrar o namorado.

Seu coração falhou. Shaka estava sentando no banco, ao lado do psiquiatra, abraçado ao próprio corpo, chorando sem parar. Valentine continuava a falar com ele, embora o indiano parecesse não ouvir. O loiro abraçou-se ainda mais aos próprios joelhos eescondeu o rosto, pedindo apenas para sair dali.

— Saía desse quarto, Shaka, você pode sair sozinho! Essa sujeira não é permanente, você pode se livrar dela... Venha, sou eu, Valentine, estou chamando. Shaka, você está me escutando?— o psiquiatra dizia de forma firme e gentil, ajoelhado ao lado do paciente, mas o loiro não demonstrava reação.

—Desgraçado... — Ikki grunhiu e chegou rápido até ele.

— Senhor Amamiya, o que...? — o homem não terminou a pergunta pois um murro no queixo o arremessou ao chão.

— Nunca mais chegue perto dele! — bradou o moreno enfurecido. — O que você fez com ele? O que aconteceu aqui? — o empresário perguntava desesperado mirando para todos. A equipe médica evitava se aproximar e piorar as coisas. Ikki se ajoelhou de frente a Shaka e segurou-lhe os ombros o balançando de leve.

— Shaka, sou eu, sou eu, Ikki! — disse aflito, forçando o indiano a encará-lo — Lembra-se de mim? Sou eu, seu namorado. Você não está sozinho e não está sujo! Olhe pra mim, Shaka! — pedia desesperado, segurando o rosto do loiro entre as mãos, olhando em seus olhos desesperados, olhos que pareciam não vê-lo — Vai ficar tudo bem, entendeu? Entendeu, Shaka? Olhe pra mim!— mas o loiro parecia não escutar. Estava em crise. Ikki olhou para o psiquiatra, que tentava se recuperar do soco, com toda sua raiva — Se algo acontecer a ele, eu mato você, ouviu bem? Eu o mato...

O jovem psiquiatra se ergueu massageando o queixo, meio tonto. Mirou o paciente com preocupação.

— Ele está em crise severa, precisa ir para um hospital. — disse com frieza — O removerei para a ala psiquiátrica...

Ikki sentiu o sangue gelar; ala psiquiátrica? Se por causa daquele cara, Shaka ficasse louco de vez, ele... Não conseguia nem se quer imaginar no que faria.

Tudo aconteceu muito rápido, em minutos eles entravam em uma ambulância e chegavam ao hospital. Shaka foi examinado e sedado. O psiquiatra que o atendeu disse que ao que parecia, ele havia passado por um profundo estresse emocional.

Ikki mirou o namorado que agora dormia serenamente numa cama. Tocou-lhe os cabelos e sentiu a angústia o corroer. A culpa de tudo aquilo era sua! Tinha sido ele a insistir no tratamento e olha no que deu?Saiu do quarto pelo corredor para pegar um copo d’água, parecia que Shaka não acordaria tão cedo. Estava andando distraído quando acabou esbarrando em alguém.

— Por que não olha... — já estava resmungando quando seus olhos encontraram os olhos do irmão e ele se interrompeu — Shun?!

O mais novo o olhou seriamente e sem nenhum sobressalto.

— Eu vi quando você chegou. O que veio fazer aqui? — indagou o Amamiya mais jovem — Se veio pra tentar me convencer daquela história ridícula de novo...

— Eu não vim por sua causa, ‘tá legal? — Ikki estava ainda mais impaciente — Você foi muito enfático ao dizer que me quer fora da sua vida e eu não vou mais insistir.

— Sabe o que mais me choca, Ikki? É você ter inventando toda aquela história de namorado, toc, etc. apenas para tentar se aproximar de mim novamente — falou o menor magoado. —Não era tão mais fácil reconhecer que errou e pedir desculpas?

— Eu não vou reconhecer nada, entendeu? — falou irritado — Eu agi como achava que deveria ter agido na época e não vou me martirizar por isso. Sei que falei demais e disse coisas que não deveria, mas eu tentei me redimir e você não aceitou, então tudo bem! E eu nunca inventaria histórias para me aproximar de você, vejo que me conhece muito pouco!

—Quatro anos! Você pode ter mudado!

O moreno sorriu com ironia e amargura mescladas.

— Sim, Shun, eu mudei, mudei muito não tenha dúvidas disso. — Terminou de encher o copo— Preciso ir — disse e saiu andando de volta ao quarto de Shaka.

Ikki sentou-se ao lado da cama do loiro e segurou-lhe a mão com carinho a beijando.

— Acorda logo, loiro. Diz que vai ficar tudo bem... — a angústia que sentia era profunda e levava lágrimas aos seus olhos, mas ele respirou a controlando. Afagou os cabelos de Shaka e o beijou na testa – Temos que voltar para dar comida ao monstro do Jack... — sorriu ao pensar no cachorrinho.

E entretido com seu monólogo, Ikki não percebeu que o irmão o havia seguido e que observava a cena, estupefato, da porta do quarto.

Depois das últimas palavras do mais velho, Shun saiu evitando que ele o visse. Estava chocado. Então não era mentira? Ikki estava mesmo namorando um homem? Apaixonado por um homem? O mais jovem dos Amamiya estava pálido e pasmo. Resolveu sair dali, voltar para seus afazeres, naquele momento não tinha condições de pensar direito.


Continua...

Notas finais
Gente, eu não entendo nada de terapias nem de hipnose. A Bia também não, então, por favor, lembrem-se que tudo que há aqui não passa de fantasia. Pesquisei um pouco sobre o processo de hipnose na net, mas não tive tempo de fazer uma pesquisa mais aprofundada, então, relevem se viajamos demais XD!
Somente a título de esclarecimento: Essa fanfiction começou com um jogo de RPG por MSN. Eu sugeri o PLOT e a Bia aceitou participar. A Bia interpreta o Shaka e eu Sion o Ikki. Ou seja, as ações dos personagens e a interação entre eles têm a participação das suas autoras. Não escrevemos capítulos separadas. Todos os capítulos foram feitos pelas duas,os diálogos, ficando a cargo de a Sion arrumar o RPG e transformá-lo em fanfiction, observar a coerência de ritmo e atitudes dos personagens, corrigindo alguns deslizes durante a escrita quem joga RP sabe que sai muita incoerência -. Deixo isso claro, pois me responsabilizo inteiramente pelos atrasos nos posts. Sei que é chato ficar esperando muito, mas infelizmente, como não ganho nada para escrever fanfiction bota infelizmente nisso! T.T , as obrigações profissionais vêem em primeiro lugar e não posso me livrar delas.
Obrigada àqueles que entendem e apóiam.
Beijos a todos vocês e até o próximo post.
Sion Neblina