Essa Estranha Atração
3 Essa estranha noite
Notas iniciais
Aqui é a Hannah atualizando ^^
Eu e Sion combinamos que vamos alternar nas atualizações.
Bom, sem muitas delongas porque vocês devem estar curiosos.
Aproveitem! E esperamos que vocês se divirtam tanto quanto nós estamos nos divertindo ao escrever.
Essa estranha noite
Capítulo 2
Aiolia chegou pontualmente. Ele sabia o quanto o indiano era chato em relação compromissos e horários.
-Como foi lá na agência? — o editor perguntou em tom causal enquanto dirigia até a boate.
-Ah… — Shaka suspirou desanimado. — O mesmo de sempre. Uma família quis que eu elaborasse um roteiro, mas a filha mimada só falava na Disney. Fiquei com dor de cabeça! Tanto lugar mais interessante para conhecer…
-Seu próximo livro será um estouro, Shaka. Você vai ver. Aí não precisará mais desse bico.
-Você diz isso há tempos, mas começo a achar, às vezes, que não tenho futuro como escritor de suspense. O público está mais interessado no próximo livro da “saga crepúsculo”.
-Nem comece com essa história outra vez! Você é muito talentoso, o mundo só precisa te dar uma chance e uma hora isso vai acontecer.
Shaka suspirou. Sabia que tinha talento, não era inseguro quanto a isso, mas ano vinha, ano ia, e sua vida continuava igual. Não que detestasse seu trabalho na agência de turismo, mas também não adorava. O que ele queria mesmo, seu maior sonho, era ser um autor mundialmente reconhecido, mas seus livros foram considerados medianos pelos críticos, e a editora acabava sempre optando por fazer apenas uma primeira tiragem das obras. O seu terceiro livro já estava com Aiolia para que fosse editado e segundo o grego seria um sucesso total, mas era difícil acreditar, já que até então o sucesso era um mero sonho.
O editor parou o carro de frente a uma luxuosa casa noturna e um dos manobristas tomou a chave cumprimentando-os com educação. Ele e Shaka seguiram pela elegante escada de mármore até entrar no ambiente sofisticado e escurecido. A boate estava lotada. Shaka torceu levemente o nariz, detestava lugares assim. Ainda tinha a opção de pedir para ir embora a qualquer momento, mas tentaria não fazer isso antes do tempo apropriado. Acompanhou o amigo e editor que falava sem parar do quanto a noite seria maravilhosa.
Quando Ikki chegou a “Santuário”, sua cara e exclusiva casa noturna, dirigiu-se ao bar, tratando de dar algumas ordens aos funcionários. Pediu que os barmen se posicionassem atrás do balcão e que os garçons seguissem para o salão vip. O local era divido em três ambientes, a boate, o mezanino, área vip de onde se poderia apreciar o palco com conforto e comodidade sendo servido por garçons, e a área externa que tinha uma vista maravilhosa da cidade e do mar. Esse conjunto fazia da Santuário uma das casas noturnas mais badaladas da Atenas.
O moreno gostava de ele mesmo verificar todo o ambiente e checar se tudo estava em ordem, mesmo que seu gerente de nome Shiryu Suiyama fosse umas das pessoas mais competentes que já conhecera. Era noite de sexta e nessas noites, toda ajuda era bem vinda, pois o lugar se tornava o próprio Hades.
- E aí, chefe, animado com a atração de hoje?- indagou Seiya um dos barmen mais antigo da casa e fofoqueiro nato.
Ikki franziu as sobrancelhas e pegou um copo de uísque se recostando no balcão e mirando a pista de dança. Naquela noite, eles teriam como atração uma cantora alemã que começava a ter certo sucesso, seu nome era Pandora e, desde que chegou à Grécia, a bela mulher se mostrara muito interessada pelo dono da boate. No entanto, devido ao ritmo louco da vida de ambos, um encontro ainda não havia acontecido.
- Sim, não vê como a casa está cheia? – falou de forma hostil, não gostava de insinuações e nem boatos; preferia manter os funcionários fora dos seus relacionamentos pessoais. Engoliu o uísque em um gole e observou a entrada da boate, entreabrindo os lábios ao perceber quem chegava ao seu estabelecimento, sorriu com alegre ironia.
- Eu não acredito!
- O que? – Indagou Seiya seguindo o seu olhar.
- Um vizinho meu. – falou distraído colocando o copo no balcão – Vou falar com ele.
Afastou-se e se dirigiu até onde estavam parados Shaka e Aiolia. Sorriu seu mais sensual e provocante sorriso e encarou o loiro de forma muito profissional enquanto lhe estendia um folder com a atração da noite.
- Bem vindos ao santuário! Fiquem à vontade para uma experiênciaúnica. – a voz de agente de parque temático falou e ele quase riu de si mesmo.
Shaka se sobressaltou ao ouvir a voz arrastada do vizinho. Por mais que Ikki tentasse disfarçar o seu tom, ele sempre conseguia perceber a ironia por trás das suas palavras. Sempre.
Aborrecido, o loiro segurou o folder que ele estendia e o puxou da mão do moreno sem delicadeza.
-Você trabalha aqui? — perguntou fingindo indiferença, mas na verdade estava fervendo de raiva. Aquele homem conseguia tirá-lo do sério com apenas um olhar.
Ikki sem tirar o sorrisinho cínico do rosto assentiu com a cabeça.
– Digamos que sim, mas me acompanhem, que tal ficar no mezanino? É uma visão privilegiada e tenho certeza que o dono da casa adoraria a companhia de vocês. — Não perderia a chance de provocar aquele esquisitinho. Ah! A noite prometia ser mais divertida do que se quer imaginou no começo dela.
-Não precisa se preocupar — Shaka disse erguendo levemente a cabeça. — Ficaremos bem.
Ah sim! O que menos precisava era que aquele moleque irritante passasse a noite colado nele.
-Vamos, Aiolia? – convidou mal humorado, percebendo que seu agente estreitava os olhos em direção ao moreno. Aiolia passou o braço de forma possessiva em sua cintura, o assustando – Aiolia... — protestou baixinho, sendo pego se surpresa por aquele ato do amigo.
Ikki não desviava o olhar e o sorriso de Shaka. Percebia cada gesto ciumento do homem que o acompanhava. Ah, então ele é mesmo gay? Pensou rindo por dentro, imaginando formas de fazer o vizinho pagar por todas as vezes que o pentelhou por causa do som, das mulheres, por causa das plantas que não regava... Cara chato!
- Bem, então sintam-se a vontade. – falou educadamente – Mas caso mudem de idéia, o mezanino estará à disposição. Advirto que são os lugares Vips da casa. – ameaçou se afastar, mas antes se virou e sorriu com charme – Ah, a bebida será free para vocês essa noite, será uma cortesia para o casal!
O rosto de Shaka ficou extremamente vermelho e ele saiu do enlace dos braços do seu editor olhando do vizinho para o amigo bastante irritado. Quem aquele garoto pensava que era para sair fazendo juízo precipitado a seu respeito?
- Espere um minuto, Aiolia. — pediu e, sem esperar por resposta, seguiu o vizinho a passos duros e pesados — Espera aí! Eu não tenho obrigação nenhuma de esclarecer isso, mas não quero que tenha problemas com o seu chefe... Eu sou uma pessoa muito bondosa, sabe? – ironizou também — Eu e Aiolia não somos um casal, viemos apenas como amigos, então se a área vip e as bebidas são por causa disso, sinto muito, não podemos aceitar.
Não soube por que fez questão de ir até aquele irritante dizer aquilo, mas sua irritação não deixava que pensasse direito.
Ikki se voltou para o loiro e lhe lançou um olhar de cima abaixo, o examinando detalhadamente, antes de voltar a sorrir com sarcasmo:
– Senhor, quem sou eu para insinuar algo. Bem, eu posso escolher a quem oferecer certos privilégios aqui e escolhi conceder algo ao senhor e ao seu amante, ah, desculpe! Quero dizer amigo...
Shaka estreitou os olhos demonstrando toda sua insatisfação e raiva contidas.
- Se for assim, meu caro — disse com ironia sem se deixar abalar pelo comentário. — O dono do lugar iria à falência porque o senhor não tem critério algum em escolher a quem fornece tais cortesias. E que problema teria se Aiolia fosse meu amante? Muito bom saber que os funcionários da boate Santuário são preconceituosos, eu posso processá-lo e ao local, sabia? Tenho certeza que seu patrão ficaria muito feliz com isso!
Ikki soltou uma risada divertida. Precisava mesmo de muito pouco para tirar aquele loiro metido a sábio oriental do sério. Shaka não gostou nada da risada, estava confuso com as atitudes do rapaz, mas pensava que seu desejo era mesmo irritá-lo como sempre, então decidiu que não lhe daria esse gostinho de vitória.
– Não é preconceito – disse o moreno depois que parou de rir –, é que eu realmente achava que você fosse assexuado como uma samambaia! Aliás, você odeia qualquer citação a sexo e até gemidos mais... – aproximou-se do loiro e falou quase ao seu ouvido – exaltados!
Shaka deu um passo para trás, assustado com a aproximação repentina e acabou esbarrando em Aiolia que o havia seguido.
-Ele está o incomodando, Shaka? — o grego perguntou com uma expressão de poucos amigos.
-Não. Vamos — murmurou enquanto pegava o lencinho que sempre carregava e passava na orelha na qual Ikki havia sussurrado para eliminar qualquer traço de saliva que por ventura o tivesse atingido. — Essa apresentação parece interessante — comentou com o editor enquanto se afastava.
Ikki ergueu uma sobrancelha, curioso com o gesto do loiro. Será que ele tinha tanto nojo dele assim? Afinal o que fez para aquele idiota o odiar tanto? Frustrado, era isso! Ele o odiava porque ele tinha uma vida de verdade enquanto... E desde que inferno você tem uma vida de verdade, Ikki Amamiya? Bufou impaciente e observou Pandora entrar no palco e o público aplaudir. Sorriu para ela e trocaram um olhar malicioso, enquanto ele se afastava em direção ao bar. Seus olhos se perderam por um tempo nas tentativas frustradas do vizinho de não esbarrar nas pessoas, enquanto se aproximava do palco com o amigo. Não tinha dúvidas, aquele homem era mesmo muito estranho.
Recostou-se com os cotovelos no balcão enquanto sentia a cantora alemã comê-lo com os olhos e sorria com charme para ela, passando a língua nos lábios.
- Boa noite senhoras e senhores, é um prazer estar aqui. – ela começou a falar o de praxe. Logo a sua voz suave repercutia na casa noturna enquanto Ikki só fazia observar o movimento. Confessava que estava sendo até monótono, pois as pessoas pareciam encantadas por Pandora e muito calmas. Tomou o terceiro uísque sentindo o olhar dela, vez por outra, passar por si.
A apresentação chegava ao fim, as pessoas aplaudiam a última música, e a cantora voltou a falar depois de cumprimentar o público:
- Obrigada – ela agradecia às palmas – Senhoras e senhores, eu gostaria de agradecer a presença de todos vocês e para encerar, convidar um amigo meu, o dono da santuário, Ikki Amamiya, para me acompanhar nessa música. Ikki é um ótimo saxofonista e substituiu recentemente um dos meus músicos em um ensaio. Ikki, sua performance me encantou. Seria muito pedir para que toque aquela música comigo?
Todos os olhos da casa noturna se voltaram para ele, e o jovem empresário perdeu a voz. Não gostava daquela exposição toda, mas não poderia fazer uma desfeita à cantora, seria muito mal educado. As pessoas aplaudiam e assoviavam enquanto ele se encaminhava ao palco.
Shaka tomava água com gás e observava Aiolia dispensar mais uma garota que se atirava sobre ele de forma descarada. O loiro até pensou em dizer: "Vá, rapaz, pois comigo você não conseguirá nada", mas desistia sempre que via os olhos brilhantes do amigo o fitarem com expectativa. Sabia que era errado dar esperanças daquela forma, mas tinha medo de machucá-lo ao dispensá-lo tão bruscamente.
Quando a cantora anunciou que Ikki era o dono da boate, ele praticamente cuspiu a água que bebia.
-Quê? — exclamou incrédulo.
- O que foi, Shaka? — Aiolia perguntou preocupado.
-O moleque irritante é dono disso tudo? — continuou impressionado.
Ikki começou a tocar um jazz, sendo acompanhado pela voz melodiosa da cantora. Todos diziam que sua performance com o sax era muito sensual e envolvente. Alguns diziam que ele conseguia sublimar o seu magnetismo sexual naquele instrumento e, embora nunca tivesse pretensão de seguir carreira, tocava sim muito bem. Envolvia-se completamente com a melodia. Tocava de olhos fechados, como se fizesse amor com o instrumento, ignorando completamente tudo ao redor; aqueles momentos eram somente dele, e a música do sax o levava a outra realidade.
Quando terminou de tocar, depois de alguns minutos, cumprimentou o público sem olhá-lo, já que não gostava de todo aquele assédio. Recebeu um entusiasmado abraço de Pandora, além de um beijo muito sensual.
Shaka percebeu que estava com os lábios entreabertos enquanto observava Ikki tocar. Ele tocava de um jeito... Ficou até ruborizado com a forma que o moreno exalava sensualidade. Ao final da apresentação, porém, apenas bufou ao ver como Ikki se deixou agarrar pela cantora atirada que procurou seus lábios sem nenhum pudor da multidão.
“É um pervertido mesmo.” O loiro resmungou e terminou de beber sua água em um fôlego só. Mas logo percebeu que só água não iria apagar o calor que estava sentindo, e ele realmente não queria pensar nos motivos de se sentia tão quente. — Vou pegar um drinque — avisou a Aiolia e se dirigiu ao bar.
Ikki se afastou de Pandora que não opôs resistência depois de beijá-lo. Ele fez um cumprimento ao público e deixou o saxofone em um canto, saindo do palco. O dono da boate desceu do palco em um pulo enquanto era assediado pela multidão que o aplaudia. Não gostava daquilo, mas fazia parte do seu trabalho e não poderia ser hostil. Seguiu para o bar, vendo o seu odiado vizinho recostado no balcão. Sorriu e lambeu os lábios querendo provocar, sabendo que ele era sim gay ficava ainda mais divertido tirá-lo do sério. Aproximou-se por trás e quase colou seu corpo ao dele, sussurrando bem perto ao seu ouvido:
- Oi...
Shaka praticamente deu um pulo de susto ao ouvir a voz sussurrada. Bufando, se virou e deu de cara com o idiota dos idiotas!
-Você é um cretino! — ralhou enquanto colocava o seu Martini sobre o balcão. — Se divertiu enquanto me fazia de idiota? — perguntou furioso — E não encosta em mim outra vez!
Ikki franziu as sobrancelhas com toda aquela agressividade. Segurou o loiro pelo braço o surpreendendo e saiu o arrastando para o jardim externo da boate enquanto ele se debatia e reclamava, mas não estava nem aí. Mirou os olhos furiosos e diria também horrorizados do vizinho, mas não teve piedade, ele era mais forte e exerceria seu poder de domínio naquela situação.Só soltou-lhe o braço do loiro quando já estavam bem longe da multidão.
- Vamos lá, esquisitinho, você me deve uma explicação. Por que me odeia tanto? O que eu fiz de tão ruim pra você, além de fazer um barulhinho de vez em quanto?
-Barulhinho? — Shaka repetiu com ironia enquanto massageava o braço. -Eu posso devolver a pergunta. Você vive me ofendendo e eu nunca te fiz nada!
- Eu não o ofenderia se você não ficasse me importunando enquanto eu... transo, senhor assexuado! – falou irritado – Você nunca deve ter tido um bom sexo! Mesmo que eu ache que sexo com um homem não deve ser lá grande coisa, mas que merda! ME ERRA! Quando eu tento ser legal com você, como fiz hoje, você parece que tem nojo de mim! Qual o seu problema, hein?
-Nojo? — Shaka pendeu levemente a cabeça, e seus olhos se arregalaram um pouco quando ele lembrou como havia limpado a orelha logo após Ikki sussurrar daquele jeito perto dele — Ah... Eu não me incomodo realmente que você transe até desfalecer. O problema é que você faz isso alto demais e eu preciso de paz para ter concentração e escrever. E eu não tenho nojo de você... O problema é mais... amplo — não sabia se Ikki entenderia o seu problema e nem via muito motivo para explicar isso.
- Amplo? – Ikki repetiu – Olha, você é alguém muito estranho, eu realmente não entendo o que você quer dizer, mas percebi que está o tempo inteiro fugindo das pessoas, acho que deve se sentir bom demais para ser tocado por elas, não é isso? Tudo bem, eu desisto, tentei ser legal, mas se Você quer guerra, você terá guerra!
O loiro começava a achar que havia sido uma péssima idéia sair de casa naquela noite. Deveria ter seguido o plano original e ficado em casa. Se pelo menos Fênix não tivesse que trabalhar... Eles poderiam ter passado a noite conversando. Encarou o moreno duramente. Ele era tão diferente do seu amigo virtual! Enquanto Fênix era gentil, doce, carinhoso... Ikki Amamiya era grosseiro, tratante e intragável!
-Olha, eu só quero tranqüilidade — Shaka suspirou cansado. — Você tem que parar de julgar as pessoas pela capa. Achou que fosse gay porque cheguei aqui com Aiolia... Tudo bem, talvez eu seja mesmo e agora diz que eu me acho bom demais? Se você soubesse... — interrompeu-se antes que falasse alguma bobagem. Não era tão fácil assim admitir para um estranho que tinha algumas manias, nem mesmo Fênix sabia disso, nem para ele mesmo era fácil admitir que fosse um pouco... diferente das pessoas. Preferia acreditar que sua obsessão por limpeza era completamente normal; os outros eram que careciam de asseio!
- Se eu soubesse o que? Que você é um mala sem alça? – devolveu Ikki irritado – Sério, quando o vi aqui pensei que tivesse me enganado a seu respeito, mas logo vi que não, você é mesmo esquisito e metidinho! Ficou o tempo inteiro olhando as pessoas como se fossem ETs!
Ele não sabia por que se irritava tanto com as atitudes daquele cara, mas era um poder que Shaka Anish possuía. Quando dava por si, já estava disparando farpas, irritado e com ganas de esganá-lo!
Shaka ouviu as acusações e ofensas com a testa tão franzida que a pinta que tinha no meio dela desapareceu entre a franja.
-Ah, quer saber? Pense o que quiser! Eu não me importo! — disse e se virou para procurar Aiolia e pedir que ele o levasse para casa.
- Ei, volta aqui! – Ikki o segurou pelo braço, o puxando pra si. Seus olhos se encontraram e ele sentiu algo estranho, acabou soltando o braço do loiro e deixando que ele fosse sem dizer uma única palavra. Sentia algo como se estivesse engasgado.
“ Que olhos ele tem. Olhos muito bonitos para alguém tão insuportável...” Pensou e balançou a cabeça, fugindo daqueles pensamentos. Era melhor voltar a boate e ver como iam as coisas.
Shaka tremeu quando seus olhos encontraram os do moreno e algo explodiu dentro dele. Assustado e confuso, ele demorou um pouco para reagir assim que Ikki o soltou. Ao retornar à boate, dirigiu-se rapidamente até o bar, onde Aiolia ainda o aguardava.
-Uma dose de uísque, por favor — o loiro pediu ao barman.
-Aconteceu alguma coisa? — Aiolia perguntou preocupado.
-Não. Por que teria acontecido alguma coisa? — Shaka retrucou após virar o copo de uma vez só e fazer uma careta pelo gosto forte da bebida.
-Porque você não está acostumado a beber coisas tão fortes, Shaka — Aiolia tirou o copo das mãos dele e lhe segurou o queixo –, o que aconteceu?
Shaka angustiou-se com o toque e tentou escapar, mas o grego passou os braços em torno de sua cintura e o puxou para mais perto.
-Aiolia... – o escritor advertiu em pânico. — Me... Solte!
Ikki passou as mãos nos cabelos e balançou a cabeça de leve, tentava entender porque aquele metido a besta o tirava tanto do sério. Parecia sentir um prazer sádico em atormentá-lo tanto quanto ele o atormentava. Precisava admitir que nos últimos tempos não estava sendo o que se chamava de vizinho discreto, mas também não tinha culpa da quantidade de mulheres que batiam em sua porta. O que poderia fazer se não sabia como elas descobriam seu endereço? Sim, ele não gostava de toda aquela intimidade e nem de tanta gente em sua casa, mas... talvez por preguiça, acabava deixando as garotas ficarem, por carência física acabava na cama com elas e muitas das vezes não se sentia satisfeito nem sexualmente.
Voltou para dentro da boate, sendo notoriamente assediado por várias e belas mulheres, mas seus pensamentos estavam distantes e seus olhos acharam o vizinho próximo ao bar agarrado ao tal amigo.
“Ah, realmente, ele tem nojo de mim e não das pessoas!” Pensou e nem soube dizer o motivo daquilo o incomodar. Ele odiava o vizinho não odiava?
“Deve me achar promiscuo, sujo, galinha, e daí? eu sou mesmo!Além do mais... Ele é macho e eu não me incomodo com o que nenhum macho pensa de mim! O máximo que posso querer com ele é partir aquela carinha bonitinha e ponto!”
Caminhou até o bar, se sentou num dos bancos e pediu um uísque, ignorando o “casal” ao lado ou, ao menos, tentando. Mas seu sangue estava fervendo e seus olhos teimosamente dançava sobre eles e o copo.
Shaka estava começando a sentir falta de ar com a proximidade do corpo do editor. Tentava empurrar o amigo, mas Aiolia não ouvia os seus apelos e o apertava cada vez com mais força. E o que o loiro mais temia aconteceu: no segundo seguinte, ele roçou os lábios nos seus, em um toque leve e gentil, mas que fez com que o mundo ao redor do escritor girasse unicamente pelo asco que ele sentia ao ser beijado. Odiava ser tocado, odiava ser beijado! Sentia-se sujo, imundo... Foi assim a vida toda e por isso nunca conseguiu se manter num relacionamento, embora tivesse feito algumas tentativas.
O pânico do indiano só aumentou quando ele sentiu a língua do grego forçando passagem para dentro da sua boca. Tudo escureceu ao seu redor e seu cérebro entrou em “modus desespero”, não pensou, simplesmente acertou uma generosa e violenta joelhada na parte mais sensível do corpo do seu editor que caiu ao chão gemendo de dor.
-Fique longe de mim! — exclamou furioso enquanto passava a mão na boca com cara de nojo. Precisava se limpar... Urgentemente! — Estou sujo... Eu preciso... — e saiu em disparada para o banheiro deixando Aiolia se contorcendo de dor.
Ikki se virou ao ouvir o baque do homem caindo ao chão e o grito do vizinho antes de ele sair correndo. Ficou um tempo com cara de paisagem antes de pensar em ter alguma reação. Quando a teve, ajudou o pobre rapaz a se sentar no banco e pediu uma garrafa de água mineral para ele.
– Vocêestá bem? – perguntou entregando a água a Aiolia que gemia muito, o que tornava a pergunta meio estúpida – Tem água aqui, mas acho que você precisa mesmo é de uma bolsa de gelo em outras partes – controlou-se para não ri dos gemidos do tal amigo. Fez um aceno, chamando Seiya e pediu ao barman que ajudasse Aiolia e o levasse a uma sala mais apropriada para que ele cuidasse das suas partes baixas.
Depois que os dois saíram, Aiolia mancando e gemendo, olhou em direção aos banheiros e estreitou os olhos, saindo de onde estava e indo atrás do vizinho. Tombou com alguns homens que saiam conversando animadamente. Entrou e encontrou o loiro lavando mãos e rosto de forma frenética. Trancou a porta e quando o vizinho escutou o som da tranca, se virou com olhos arregalados.
"Sujo, sujo, sujo...!", era a única coisa que a mente de Shaka processava enquanto ele tentava, em vão, se limpar. Precisava ir para casa e tomar uma ducha. Só assim conseguiria se sentir limpo. Não teve reação quando o moreno se aproximou o segurando pelos braços, o arrastando até suas costas baterem contra uma parede.
– Qual o seu problema? Por que para você é tão importante se achar melhor que as pessoas? Você deveria se envergonhar de ser tão arrogante! – bradou Ikki revoltando e quando viu que Shaka repetiria o mesmo golpe dado em Aiolia, se antecipou e o prensou contra a parede, pondo uma perna entre as dele, de forma que ele ficou totalmente imobilizado – Eu não sou aquele idiota apaixonado lá fora! – Advertiu – Saiba que eu tenho tanto nojo de você quanto você tem de mim, seu fresquinho de merda! Mas já estou cansado de vê-lo tratar as pessoas assim! Acha que não enxergo que você tem nojo até das crianças do prédio? Por que diabos pensa que é melhor que alguém? Antes eu achava que era cisma minha, mas hoje você me confirmou o que é: um arrogante, metido de merda!
À medida que o moreno falava, a raiva de Shaka aumentava a níveis estratosféricos. Precisava se limpar, e aquele idiota ficava falando aquele monte de bobagens! Tentou acertá-lo tal como fez com o editor, mas o moreno o imobilizou totalmente. Aquilo conseguiu enfurecê-lo de vez.
-Tem nojo de mim? — Shaka disse com um sorriso irônico. — Eu duvido! Você está é doido para fazer o que o Aiolia ousou fazer! Mas fique sabendo, eu não o beijaria nem por um milhão de dólares! Eu o odeio! Você diz que é melhor do que eu, mas fica galinhando por aí e usa as garotas como se elas fossem objetos!
Ikki soltou uma gargalhada irônica com as palavras do loiro e apertou ainda mais a força em seus pulsos. Seus olhos faiscavam.
– Eu louco para fazer o que aquele idiota fez? Isso deve fazer parte dos seus fetiches, mas lhe asseguro que não! Eu não sou veado se você quer saber! E mesmo se fosse, eu não me interessaria por um magricela sem sal como você! E eu não disse que sou melhor que você! Mesmo porque acredito que ninguém é melhor que ninguém, ao contrário de você que é a arrogância e senso errôneo de superioridade em pessoa! E só pra constar, eu não uso aquelas garotas mais do que elas me usam, ‘tá legal? E você não é ninguém para me julgar com o comportamento que tem!
- Se você não está nem aí para mim então por que não me deixa em paz? E daí que eu me ache melhor que as outras pessoas? Isso é problema meu! Ninguém está o obrigado a conviver comigo! — Shaka forçava o corpo para frente tentando se libertar, mas Ikki era infinitamente mais forte. — Brutamontes! — resmungou irritado — Eu estou sujo! Preciso me limpar! Me largue! — Exclamou desesperado.
- Espere um pouquinho, mocinho! – Ikki se irritou – Eu juro que adoraria que você terminasse sua vidinha miserável sozinho dentro do seu apartamento que com certeza é um mausoléu! Mas infelizmente, você é meu vizinho e nos últimos tempos tem se esforçado em me incomodar, então nada mais justo que eu o incomode também. Outra coisa, você não está sujo seu idiota! O que essa sua mente perturbada está pensando hein? – Respirou fundo tentando recuperar a calma e examinando os olhos furiosos do loiro – Deuses, eu gostaria mesmo de saber o que te faz assim tão doentiamente insuportável! Será que nunca teve uma boa noite de sexo é isso? – Riu provocador.
Shaka ficou pálido ao imaginar-se após uma noite de sexo. Se ele já estava sujo por causa de um beijo...Ficou mais angustiado ainda. Estava imundo! Como Ikki não conseguir ver isso?
-Não é da sua conta! — exclamou furioso. — E se eu o incomodo é porque estou no meu direito! Você fica urrando como um bicho no cio. Quantas camas já quebrou?
Ikki franziu as sobrancelhas com aquela pergunta. Talvez ele se sentisse tão incomodado com aquilo exatamente por nunca ter tido um orgasmo. Sorriu perverso e resolveu provocar, aproximou os lábios da orelha do loiro, roçando-os levemente e soprando em seu ouvido.
– Eu nunca quebrei uma cama, loirinho, mas se sexo o incomoda tanto, talvez devesse ir ao meu apartamento ficar só assistindo, quem saiba não aprende alguma coisa e esquece toda essa frescura de não me toque? Quem sabe não passe até a gostar e vai aprender a se divertir com seus amiguinhos?
- Você é um pervertido, idiota, ogro! — Shaka exclamou enquanto virava o rosto — Eu não acho que é preciso de sexo para ser feliz! Eu, por exemplo, fico feliz quando estou escrevendo, mas ultimamente isso tem sido impossível, já que você não tem me deixado me concentrar — fez uma careta de nojo com a proximidade e sacudiu o corpo em mais uma tentativa frustrada de se libertar — Para você se enfiar entre as pernas de qualquer uma é felicidade! Mas eu realmente não entendo qual a graça nisso... Só serve para fazer sujeira... — e lá ia ele falando outra vez da sua bendita mania de limpeza! Irritou-se com as próprias palavras.
- Fazer sujeira? Você é mais louco do que eu pensei, cara! – disse Ikki e afrouxou a pressão que fazia nos pulsos do loiro. – Olha, se eu gostasse de homens eu lhe ensinaria que sexo não serve apenas para fazer sujeira, mas infelizmente eu não gosto! – falou e num tranco rápido puxou Shaka pela nuca afundando as mãos em seus cabelos – Mesmo assim, isso fica como uma cortesia!
Shaka arregalou os olhos e gemeu de dor quando Ikki o puxou pelos cabelos. Foi tudo tão rápido que ele não teve nem tempo de processar o que acontecia. Em segundos a boca do moreno estava contra a sua lhe obrigando a devolver um beijo urgente e rude.
Ikki tomou-lhe os lábios com violência num beijo forte e dominador, não dando muita opção ao loiro além de abrir a boca e deixar que ele domasse sua língua de forma insana. O vizinho se debateu, mas não conseguiu afastá-lo; foi um beijo indelicado, forte e possessivo que tirou o ar de ambos. Ficaram nessa batalha até que Ikki se afastou por vontade própria e mirou o rosto ruborizado, ofegante e horrorizado do loiro.
– Agora você pode se lavar a vontade. – Soltou-o e caminhou em direção a porta se sentindo meio tonto com aquele rompante, tonto e confuso.
Shaka tentava processar o que havia acontecido ali. Em um minuto a boca do moreno estava contra a sua, no minuto seguinte, Ikki já caminhava para fora do banheiro, o deixando sozinho, ofegante, confuso e assustado. A sensação de pânico e de estar sujo não surgiu de imediato. O escritor não soube se foi pelo susto ou por qualquer outra emoção. Ele apenas deslizou até o chão após ser largado daquela forma brusca e abraçou os próprios joelhos.
Pela primeira vez na vida, não sentiu a necessidade urgente de ir se lavar e realmente não entendia porque isso estava acontecendo. A verdade latejava em sua mente, peito e... em um formigamento estranho em seu baixo ventre; e a verdade era... Que ele queria Mais...
Continua...
Notas finais
Tá, o loiro fez por onde com essa 'mania' dele.
Eu e Sion agradecemos muito os comentários!
Muitos beijos e abraços para: Lothus, Shunzinhaah, Kao-san, Reiko, Litha_chan, Chakal_Maldito, MysticShaka, ceres, Pandora Hiei, virgo nyah, Julia_Leao, Matsumoto-chan.
Até a próxima!
Hannah e Sion.
Fale com o autor