Essência de Veneno
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu deveria estar dizendo alguma coisa, agradecendo a quem está lendo, implorando por comentários ou algo do tipo, mas eu não estou, afinal sou mal humorado de qualquer jeito, nada genial.
Queria apenas dizer que eu amo bolo e alguém um dia me prometeu um beijo e um bolo, a promessa nunca foi cumprida.
É meu aniversário.
Dessa vez ela não está ali, dizendo que estou ficando mais velho.
Dessa vez ela não está animada me desejando feliz aniversário de cinco em cinco segundos.
Dessa vez ela não está escrevendo nosso nome na areia da praia, dizendo para eu desejar alguma coisa.
Dessa vez não está me fazendo promessas, enquanto eu coloco os dedos em sua bochecha e chamo-a de pirralha.
Dessa vez ela não está dizendo que me ama.
Dessa vez ela não está aqui.
Eu ignoro as velas acesas, mas com os constantes pedidos resolvo soprar, o desejo foi feito, porém, é inútil, ela nunca vai voltar. Talvez devesse tornar isso mais interessante, ir até lá e urinar na caixa de correio dela, contudo, eu estou aqui.
O bolo tem pedaços amargos, algumas poucas pessoas sorriem, de fato eu resolvi não chamar amigos, a única amiga que eu chamei foi Melinda, ela prometeu transformar meu aniversário em algo divertido, não é todo dia que faço quinze anos. A única coisa que ela faz é comer, mas nunca duvido dela quando o assunto é diversão, ela faz de tudo pra arrancar boas risadas, um dia apontou uma arma para mim e disse que era o que tinha que ser feito, eu fiquei imóvel sem reação, ela disse que era brincadeira, pegou um pote de sorvete em meu congelador e se serviu, me explicou que as balas eram de festim, a única coisa que eu fiz foi paralisar novamente enquanto falava: “Se atirasse daquela curta distância podia me matar”, sem emoção nenhuma, ela deu uma colherada naquela massa gelada e disse: “Ah, ainda bem que não atirei como planejava”. Melinda faz qualquer coisa por diversão, quando eu disse que queria algo novo no meu aniversário ela garantiu que faria, talvez dessa vez ela aponte uma nova arma pra minha cabeça, talvez dessa vez ela atire, talvez dessa vez não sejam apenas balas de festim.
- Ei Daniel, sua festa não começa aqui! – Ela disse colocando o dedão em minha testa.
- Começa onde então?
- Você vai ver quando eu acabar com esse pedaço de bolo...
Era bolo de ninho, ela comia apreciando o sabor. Os olhos dela eram grandes, sempre pareciam que iam sair fora de órbita, seus cabelos ruivos pintados propositalmente espalhados, enquanto em seu meio estava uma bandana, seu sorriso fraco e aparente parecia me hipnotizar, seu corpo magro a fazia parecer frágil e delicada, contudo, era o tipo que te derrubaria com um soco caso tentasse lhe provocar. Não provoque ela, experiência própria.
- Minha vida é uma porcaria, no que um dia de diversão vai mudar? – Eu a questionava.
- Um minuto pode mudar o mundo, um dia pode mudar toda a sua vida!
- Minha vida é uma porcaria nada emocionante...
- Cale a boca, senhor das moscas! – Ela me chamava assim por brincadeira, desde que me pegaram lendo um livro sobre Belzebu na igreja, sim, eles queimaram meu livro. – Sua vida é recheada de emoções, já apontaram uma arma pra sua cabeça, colocou fogo em uma casa e nem me lembre de quando você caiu em um buraco fundo e conseguiu sair sozinho.
- Primeiramente, você que apontou uma arma pra minha cabeça e que me empurrou no buraco, eu pedi ajuda, mas você foi tomar sorvete e me deixou lá, cai cinco vezes antes de fugir, colocar fogo em uma casa abandonada por deixar cair uma vela não é uma grande emoção, ninguém pode saber que fomos nós.
- Eu ainda tenho o vídeo. – Ela disse rindo e deslizando o dedo em meu pescoço, me forçando a encolher.
- Melhor apagar, de certo modo, desde que Alicia me deixou a vida tem sido uma porcaria!
- É uma porcaria por um motivo, você fica se lembrando daquela... Daquela... – A repreendi com o olhar. – Dama, aquela dama, mas esqueceu como a vida pode ser divertida, íamos a casas abandonadas, ficávamos até tarde no lugar que chamávamos de Pouso dos Pássaros e você subíamos até o telhado de casas para ficar lendo enquanto aproveitávamos a vista.
- Então o que vamos fazer?
Ela engoliu o último pedaço de bolo, me puxou do sofá e disse para minha mãe que logo voltaríamos, puxando-me pelo braço, fomos para a rua.
A longa caminhada se tornava exaustiva quando reconheci onde estávamos, longe da civilização caminhávamos pelo meio do mato, em direção aquela casinha que costumávamos chamar de Pouso dos Pássaros. Ela tirou uma chave do bolso e abriu a porta, era pequena, dois colchões jogados no chão, o que cabia atrás era um armário, onde ainda estavam guardados livros, chocolates, salgadinhos (também carregávamos refrigerantes em isopor com gelo, quando costumávamos mentir para nosso pais e passávamos a noite lá), jogos de tabuleiro e muitos itens inúteis. Melinda retirou as tábuas da janela, deixando a luz entrar, no teto estavam cinco lanternas que iluminavam a noite, como lâmpadas, costumávamos trocar as pilhas de dois em dois meses, a últimas vez que fui lá faz três semanas, ficamos apenas eu e Melinda, seus olhos se centravam em um livro de psicologia enquanto os meus em uma ficção com robôs.
De fato, eu, Melinda, Felipe, Lucas e Vitória fundamos o lugar, descoberto por Melinda que era uma boa exploradora, achou a casa pequena e abandonada, logo conseguiu um cadeado e virou nosso grupo, o nome vêm dos pássaros que costumam ficar pela região e criar seus ninhos, limpamos toda a segunda, impedindo o pó.
- Vamos esperar eles, sua festa vai ser aqui, vamos passar a noite.
- Mas minha mãe espera que eu volte pra casa... Eu não dei nenhuma desculpa... Eu...
- Relaxa, eu disse que você dormiria lá em casa, todos fizeram isso, menos eu, disse que dormiria na casa de Vitória. Lucas vai trazer o refrigerante, temos que esperar anoitecer, lá você terá sua surpresa.
Peguei uma revista em quadrinhos de heróis, apenas para me distrair. Era um fato que eu gostava de passar a noite lá, ficávamos todos juntos dormindo espalhados nos colchões ou chão, sem se importar, sempre éramos apenas bons amigos dividindo uma casa sem problemas, uma vez levaram pimenta e colocaram em minha boca enquanto dormia, eu não acordei. Sempre passávamos a noite contando histórias de terror ou explorando, contudo, e tinha certeza que não era isso que íamos fazer, ela me prometeu um aniversário diferente.
Quando eles chegaram, os dois garotos carregavam um isopor cheio de gelo e latas de refrigerante, Vitória carregava duas sacolas cheias de salgadinhos, mesmo tendo um estoque no nosso grupo. Comemos e lemos os livros uns pros outros até anoitecer, menos Felipe, ele jogava xadrez contra si próprio.
- Está pronto para sua surpresa? – Perguntou Melinda.
Imediatamente Vitória me deu a mão e fazendo com que eu me levantasse, logo saímos da casa de um cômodo só, Lucas fechou o cadeado logo atrás de mim. Andamos pelo mato, até chegar à cidade, estava se tornando cansativo andar, quando ficamos em uma área com a rua deserta.
- Chegamos. – Lucas anunciou.
- Descobrimos algo realmente interessante. – Felipe disse animado.
Não entendi o que estávamos fazendo realmente, mas Melinda abriu uma porta de uma das casas, não era abandonada, mas também não estava trancada. Assim que entrei pela porta vi sentada em uma cadeira, amarrada com cordas, Alicia, seus cabelos negros estavam escorridos sobre o rosto, vendas nos olhos e fita na boca, estava muito confuso e assustada, não entendi o que a garota que eu amei e me deixou estava fazendo ali. Então eu disse:
- Vocês que fizeram isso?
- Feliz aniversário! – Melinda disse me abraçando, enquanto eu continuava paralisado.
Notas finais
Ou talvez eu devesse parar? Dizer que é só isso seria uma boa ideia, levar como um conto, sou tão preguiçoso que não dei nem um nome pro capítulo, talvez devesse elaborar um nome, colocar uma palavra ou frase da história, o nome de um personagem ou colocar: Prólogo, assim colocar o capítulo 2 como capítulo 1, capítulo 3 como 2, vendo alguém sofrer uma crise de nervos...
São tão cabeça dura que estou mal humorado sem motivos...
Ainda irei escrever uma história chamada: A revolução das batatas. Talvez não.
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