Essência
11 Sóbrio, sim. Sensato, nunca.
Notas iniciais
A voz distante de Lia ecoava em cada gota de água enquanto a cabeça de Dinho era afogada. Tentava voltar à superfície, afogando-se com o golpe de um braço que não o deixava fugir. Odiava a sobriedade como odiava todos a sua volta. Outro golpe quando estava quase conseguindo. A superfície parecia inalcançável, não sentia mais o ar em seus pulmões. Com um último golpe da mão hostil, que puxou sua cabeça pelos cachos violentamente, sentiu o ar atmosférico em seu rosto.
Estava a salvo. Respirou fundo, secando o rosto com o braço. Estava no banheiro da suíte de Orelha, cercado pelo nerd, por Pilha e por Fera, que enterravam sua cabeça em uma banheira cheia, tentando interromper o efeito do álcool. Encharcado, vestindo apenas uma calça de pijama listrada, sentou-se contra a banheira, sobre a poça que se formara sob seus joelhos. Estava acabado, destruído. Não sabia o que doía mais: a lembrança de sua visita a Lia, a dor de cabeça ou a falta de ar resultante das ações dos amigos.
– Chega. Chega, por favor. — Dinho implorou ofegante ao notar que Fera e Orelha o jogariam contra a água novamente.
– A gente só quer o seu bem, irmão. — Orelha comentou.
– É, Dinho, nada a ver você naquele estado. — Fera completou.
Levou a mão à cabeça, sem conseguir se lembrar de muita coisa.
– A gente tinha combinado que você ia parar, lembra? Que você iria ficar sóbrio e arrumado pra Lia, e o que acontece? Você vai até ela com o que mais parecia um pijama e bêbado até o cu. — Orelha lembrou. — Assim você não vai conseguir nada!
– Que horas são? — Adriano perguntou com a voz fraca.
– Sete da manhã. A gente tem que ir pra aula. Você pode ficar aí pensando na merda que fez. — O nerd anunciou, sendo seguido por seus amigos em seguida para fora do banheiro.
Deixaram Dinho onde estava, no chão frio e encharcado do banheiro, jogado contra a banheira. Com raiva, Adriano desferiu socos contra o chão e a bancada, jogando-se para dentro da banheira em seguida. A água que cobria seu rosto, entretanto, não era a mesma que encharcava seu corpo. Chorava como um bebê, decepcionado consigo. Havia estragado tudo. De novo.
Nada parecia haver mudado no colégio Quadrante, embora a atmosfera fosse outra. Lia ainda estava com Vitor, embora olhasse para o nada, sentindo-se vazia. Ju e Gil seguiam acompanhando o casal, ainda que ambos os observassem preocupados. Os grupos continuavam os mesmos, porém a roqueira esquisita parecia prestar mais atenção às conversas de Orelha com seus amigos. Certos professores estranharam o ar sombrio que circundava pelo menos dois alunos em especial: Lia Martins e Álvaro Gabriel.
– Orelha! — A roqueira chamou ao final da aula.
O nerd parou onde estava, surpreso, enquanto Vitor observava um pouco mais à frente com Ju e Gil.
– Como ele tá? — A loira perguntou sem jeito.
– Depende do que você falou pra ele.
– É sério, ele tava muito mal ontem. Ele chegou bem em casa? O Severino teve que arrastar o Dinho pro taxi com a ajuda do Nando e tudo.
– Ele chegou em casa. — Foi só o que Orelha respondeu, remando seu skate para voltar para casa.
Insatisfeita, Lia correu atrás do nerd.
– Orelha! Espera aí!
Nada aconteceu. Álvaro Gabriel já havia se afastado. Ignorando a surpresa nos rostos de seus amigos e namorado, Lia parou o primeiro táxi que viu na rua. Ao chegar em casa, o nerd a encontrou a sua espera.
– Desde quando você se importa?
– Desde que ele começou a beber feito um louco. Foi a segunda vez em dois dias que eu vi ele podre de bêbado. O que tá acontecendo? Você pode me levar até ele, por favor?
– Essa é a minha casa e eu exijo privacidade. Pode ir embora.
Lia não acatou, empurrando-o rapidamente e correndo prédio adentro. Subiu até o andar que lembrava ser do apartamento do nerd, batendo a porta fervorosamente. A empregada doméstica a atendeu, assustada.
– Oi, dona Neusa.
– Lia? Eu não te vejo aqui desde o ano passado! O seu namorado tá no quarto do Alvinho.
Sem jeito, a roqueira preferiu não desmentir, seguindo para o quarto antes que Orelha a alcançasse. Para sua surpresa, encontrou um dormitório vazio. Percebeu a porta do banheiro aberta com um estreito fio de água chegando ao encontro do carpete. Preocupada com o silêncio, aproximou-se calmamente dos azulejos. O pequeno rio a levou até um Dinho estirado como só havia visto ao encontrá-lo dormindo na calçada duas noites antes.
Sem saber o que fazer, segurou o corpo desacordado e encharcado de Dinho em seus braços. Dos cachos do garoto corriam água e sangue. Não sabia o que havia acontecido, nem por que Orelha o deixaria naquele estado, apenas o abraçou. Adriano seguiu imóvel. Afastou os cachos molhados de seu rosto, acariciando sua face inconscientemente.
– Dinho... O que você fez? — Lia perguntou para ninguém.
Uma lágrima percorreu o perfil de seu rosto. Orelha havia enfim chegado a sua suíte, onde encontrou a roqueira com o corpo desacordado de Adriano no colo. Estava chorando, aparentemente, sussurrando palavras inaudíveis para o ouvido surdo de um Dinho nem sóbrio, nem bêbado. Viu o garoto abrir um olho lentamente, fechando e abrindo novamente, incomodado pela luz. Lia tentou secar as lágrimas antes que Adriano as percebesse. Tantas coisas haviam passado por sua cabeça ao não saber se o ex despertaria... Jamais admitiria. Seu sorriso, no entanto, a entregava. Sua coordenação também. Sem perceber, Lia levou a mão novamente ao rosto de Dinho, contornando sua face carinhosamente. Adriano segurou a mão macia contra seu rosto. A única alegria de estar sóbrio.
– Ei.
– Ei. — A roqueira lhe respondeu com a voz fraca.
– Se cada vez que eu cair eu for recebido assim, vou cair mais vezes.
– Cala a boca e não estraga. Vem, você precisa sair desse chão. — Lia tentou puxá-lo. Sem sucesso, caiu sobre Adriano.
– Isso é sangue no seu rosto, cara? — Orelha questionou da porta.
Dinho levou a mão à testa. Viu o líquido vermelho em seus dedos e acenou com a cabeça. Não fazia ideia de como havia acontecido.
– Não é melhor chamar um médico, não? — Lia sugeriu de cima do ex, tentando se levantar.
– Não precisa, marrentinha, eu tô ótimo. — Respondeu segurando a roqueira nos braços e se erguendo de onde estava com a ex no colo.
Levou-a até a cama de Orelha, sob protestos do dono do quarto e da loira.
– Me bota no chão!
– Você não confia em mim?
– Não!
Dinho riu, deitando a roqueira sobre os lençóis do amigo.
– Ei! Dinho! Nem pense em se jogar na minha cama encharcado desse jeito!
Tarde demais. O aventureiro já estava deitado sobre Lia, beijando-a inadvertidamente.
– Me solta! — Lia protestou contra os lábios insistentes de Adriano. — Me larga, Dinho! Canalha!
Ao abrir a boca para gritar, sentiu a língua do ex-namorado calá-la. Tentou mordê-lo, sem sucesso. Adriano sabia o que fazia, principalmente em matéria de beijar Lia Martins. Orelha rapidamente pescou seu celular, não deixaria o momento passar sem registros. Dinho sem camisa, vestindo apenas uma calça de pijama encharcada como seus cachos, encoxando a ex-namorada contra a gigantesca cama do nerd e beijando-a como se não houvesse passado, nem presente. Como se Vitor e Valentina nunca tivessem existido. Lia correspondia, para sua surpresa, puxando os cachos úmidos do garoto com força, com raiva. Orelha não sabia se a roqueira tentava se vingar puxando o cabelo de Adriano ou se o empurrava contra si para aprofundar o beijo.
Com habiliadade, Dinho separou o beijo imobilizando a ex. Beijou seu pescoço e sussurrou em seu ouvido:
– Mais calma?
Lia cuspiu em seu rosto, furiosa. Dinho secou com o braço, sorrindo maliciosamente.
– Foi mal, eu precisava terminar o que fui fazer ontem.
– Bêbado você tem mais respeito.
Dinho riu, erguendo-se do corpo da ex e se equilibrando com um joelho de cada lado do corpo da garota. Puxou-a pelo braço, fazendo-a encará-lo. Lia recolheu as pernas e se ajoelhou em frente ao aventureiro, confusa.
– Viu como eu tô bem? Não me desequilibrei, nem nada. — Dinho apontou.
– Beijar a sua ex que te odeia é a sua forma de me provar que você não bateu a cabeça e que tá sóbrio? — Lia ironizou.
– Não. Essa é a minha forma de provar pra você, enquanto sóbrio, pra garantir que vi certo, que você ainda sente algo por mim. — Dinho piscou, sorrindo.
– Seu idiota! — Lia o empurrou, descendo da cama. — Você pode apagar essa merda? Ai de você se postar essa bosta na TV Orelha! Eu quebro o seu computador com a minha guitarra e eu não tô brincando! — Lia ameaçou.
– É, rapaz, você sabe como tirar uma garota do sério! — Orelha zombou, dando um tapa na mão estendida do melhor amigo.
Riram juntos enquanto Lia ia embora.
– Agora, falando sério, ela tem razão pra se preocupar. O que aconteceu com a sua cabeça? Será que é grave?
– Eu devo ter batido quando tentei sair da banheira, só isso.
– Que eu saiba, quando você bate a cabeça e desmaia tem que ver se tá tudo bem. Vem, eu te acompanho pro médico.
– E o vídeo?
– Do jeito que a marrentinha é doida, eu não sou louco de postar essa relíquia, mas apagar? Nunca! — Orelha riu, pegando roupas secas para o amigo.
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