Esquina

1 Capítulo único


Naquela esquina movimentada, ele fumava sob uma marquise de um prédio qualquer. Pensava ele em que faria depois de sair dali; daquela esquina molhada ele esperava de menos e da vida, demais.

A chuva daquela noite não impedia o movimento, ainda que reduzido, mas havia seu fluxo. O homem que ainda sem nome procurava para onde ir, observava o movimento. O cigarro nem mesmo terminou e ele puxou outro do bolso, automaticamente.

Aquela figura sinistra de preto na esquina não interessava a ninguém. E ele sabia isso, talvez até feliz por ser despercebido. Mas ele queria se lembrar de por que estava ali. A vaga lembrança que tinha era talvez um bar e talvez uma briga entre homens, mas apenas talvez; sem certeza, só a dúvida.

Bastava atravessar a rua para pegar o caminho para sua casa, mas ele não saberia dizer em que casa ele morava. Mesmo assim resolveu tentar, talvez ele se lembrasse ao ver a roseira da vizinha.

Enquanto ele esperava o sinal abrir, mil coisas passaram em sua cabeça. Talvez se ele fosse para casa ele colocaria um disco, talvez a sala parecesse maior do que é, já que ele sozinho seria pequeno demais.

Talvez os cigarros fossem demais, e ele não terminaria aquele acesso, deixaria ele se consumir no cinzeiro. Talvez ele chorasse como um bebê, e ligaria para alguém, mas como se ninguém atendesse ele sairia para a rua, e iria acabar em uma esquina qualquer. Talvez chovesse, e ele sentiria as gotas quando chegasse à rua parada, quieta, sem movimento. Dali ele poderia ver o movimento da esquina.

Na esquina então ele fumaria, quem sabe um atrás do outro, porque ele compraria mais ali no bar. E talvez ele não se incomodasse com o movimento, e ficara feliz por não ser notado pelas pessoas que passavam ali naquele movimento.

O sinal abriu.

Ele virou as costas para a rua e de frente para o caminho que levava para algum bar ele seguiu.

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