Esquema - Primeira Temporada
1 Não sou esse tipo de garota
Notas iniciais
ÁLVARO:
Em seus sonhos turbulentos, Álvaro escutava de longe um barulho incessante. Seriam seus pais brigando outra vez? Cedo assim? Não. Era outra coisa. O som agoniante o fazia se enlaçar em preocupação até que seus olhos se abriram. Um quarto escuro e abafado. Seu quarto escuro e abafado. Puxou o celular que estava nas cobertas e desligou o despertador. As batidas na porta denunciavam o que ele já havia percebido: Estava atrasado para a aula.
— Acorda logo, porra! – Gritava seu pai do outro lado da porta. – Você que vai levar o Rogério para a escola hoje.
Mesmo de olhos fechados, Álvaro conseguiu revirá-los e saiu da cama em um pulo. Correu do quarto ao banheiro, passando pelo corredor apertado e escutando certa movimentação na cozinha do apartamento. Tirou um tempo para olhar-se no espelho e pensou que, mesmo tendo quinze anos, parecia velho. As olheiras denunciavam as três horas diárias de sono, os cabelos longos e irregulares eram reflexo do relaxamento que o jovem tinha tomado para com sua aparência nos últimos meses. Tirou o pijama e olhou para os protótipos de pelos que surgiam no rosto e no peito, bem como os já existentes lá embaixo. Tudo bem, pensou, agora que ninguém vai me ver sem roupa mesmo. Colocou sua playlist matinal para tocar no celular e entrou no banho.
(Eis o melhor e o pior de mim, no meu termômetro, o meu quilate...)
Ouviu as passadas pesadas no corredor, sabia que isso iria acontecer. Involuntariamente sorriu.
— Já falei para não levar o celular pro banheiro! – Seu pai esbravejou batendo na porta. – Desliga isso e sai logo daí.
Como forma de provocação, o garoto começou a cantar alto, acompanhando a música.
(Eu sou daqui, eu não sou de marte...)
Depois de finalizar seu banho, se trocou, colocando o uniforme da escola e pegou sua mochila. Ao entrar na cozinha, já sentiu o clima pesado que perdurava na casa. Seu pai terminava de tomar café, enquanto digitava furiosamente no celular – algum problema do trabalho. Sua mãe tentava comer um pão de forma, arrancando cada pedacinho com os dedos sinuosos e trêmulos. O irmão caçula, de 8 anos, o olhava com cara de reprovação.
— Que demora! – O pequeno falou. – Agora posso escovar os dentes. – Disse saindo do recinto.
Álvaro pegou na mão de sua mãe:
— Por que levantou tão cedo?
— Tenho uma consulta hoje. – A mãe sorriu sem vontade.
O pai guardou o celular no bolso do paletó e levantou-se da mesa.
— Vou levar sua mãe no psiquiatra antes de ir pro trabalho, por isso não vou poder levar o Rogério pra escola hoje. – Disse.
A mãe levantou, deixando seu pão pela metade.
— Ok. – Respondeu Álvaro com um suspiro.
Os pais saíram sem se despedir e Álvaro colocou café na sua xícara e engoliu o mais rápido possível. Certificou-se que o irmão estava com a mochila e a lancheira e saiu.
A escola de Rogério não ficava tão longe assim do prédio onde a família morava, então Álvaro o deixou lá a pé e seguiu para o ponto de ônibus mais próximo. Esperou alguns minutos até que o veículo chegasse. Subiu e sentou-se num dos últimos acentos vazios. Agora estava atrasado provavelmente uns bons minutos. Para afastar os pensamentos, colocou os fones e abriu o WhatsApp.
TIME BOM
Matheus: Mano, cadê você? @Alvaro
Cássio: Nosso grupo era o primeiro a apresentar o trabalho hoje, o prof tá pistola aqui kkk
Bernardo: Vou pedir pra outro grupo ir primeiro, ainda não decorei todas as minhas falas mesmo
Puta que pariu, pensou. O trabalho de biologia. Começou a digitar.
(Monday left me broken, Tuesday I was through with hoping…)
TIME BOM
Álvaro: glr foi mal, tive que deixar meu irmão na escola hoje, tô chegando
Matheus: muito irresponsável vc
Álvaro: eu também te amo, Matheus
Matheus: haha
Bernardo: o prof deixou a gente ser o último grupoooo
Cássio: saiam do celular @Beh @Teteu, que desrespeito com a aula kkkk
(…Wednesday my empty arms were open, Thursday waiting for love, waiting for love…)
Álvaro percebeu uma garota ao seu lado, em pé – o ônibus tinha começado a lotar. Ele se ofereceu para segurar a bolsa dela e com um sorriso ela aceitou.
— Você estuda onde? – Ele perguntou tirando um dos fones.
— Eu acabei de entrar na faculdade. – A garota respondeu, simpática.
— Mentira! – Ele retrucou. – Você parece ser da minha idade. Quantos anos você tem?
— Dezenove. – Ela riu. – E você?
— Dezessete. – Ele mentiu. – Escuta, eu tô no último ano do ensino médio e tenho umas dúvidas sobre a faculdade e tal. Já que você acabou de entrar, podia me ajudar, né?
A garota revirou os olhos e abriu um sorriso:
— É assim que você chega nas meninas?
— Por quê? Tá funcionando?
O que que tá acontecendo? Álvaro pensou, abobado. Ele era cara de pau, mas havia um tempo que não paquerava ninguém. O simples fato de conseguir manter aquela conversa de forma tão tranquila estava surpreendendo-o. Finalmente estava voltando a ser quem era.
— Depende... Qual o seu nome? – A garota perguntou.
— Álvaro e o seu?
— Bruna. – Ela pegou o celular da mão do rapaz. – Tá aqui meu Whats... manda suas dúvidas lá.
Álvaro sorriu.
(…Thank the stars is Friday, I’m burning like a fire gone wild on Saturday…)
Quando pegou de volta o smartphone, Álvaro viu na lista de notificações uma que havia deixado passar mais cedo: “lauraalbuquerque está seguindo você”.
(…Guess I won’t be coming to church on Sunday… I’ll be waiting for love, waiting for love to come around)
Depois de apresentarem o trabalho meio que sabendo, meio que improvisando, e cochilarem nas aulas de matemática que sucederam a de biologia, os meninos se reuniram no intervalo. Em uma das mesas da cantina, os quatro conversavam. Cássio comia sua coxinha e Matheus resmungava sobre a irmã mais velha.
— Dá pra acreditar que ela tá noiva? – O menino indagava, indignado. – Que absurdo, ela só é 6 anos mais velha que eu. Nem terminou a faculdade ainda.
— Algumas pessoas se apaixonam, Teteu. – Provocou Bernardo. – Ninguém tem culpa de você ser capado.
Cássio riu.
— Eu não sou capado. – Matheus respondeu. – Você que é viado.
— Ei, nada de homofobia. – Disse Álvaro, depois de tomar um gole do seu suco. – Aqui só permitimos cristofobia.
Bernardo riu e Matheus revirou os olhos.
— Você sabe que a gente só tá brincando contigo. – Disse Cássio tocando nos ombros de Matheus. – A gente te aceita, mesmo você sendo católico. E você devia parar de encher o saco da sua irmã, e dai que ela tem 21 anos e vai casar? Ela é livre pô...
— Bla bla, desde quando você é feminista? – Retrucou Matheus.
— Desde que meu pai deixou a gente e minha mãe teve que cuidar da família sozinha... – Cássio disse. – Você devia agradecer que sua irmã achou alguém que vale a pena casar... só tem cara escroto por aí...
— E eu não sei? Olha nosso amigo Álvaro por exemplo. – Matheus falou olhando pra Álvaro que respondeu com o dedo do meio.
— Eu não sou escroto. – Respondeu Álvaro.
— Não é o que a Vanessa diz... – Respondeu Bernardo. – Viu que ela finalmente apagou as fotos de vocês do Insta dela?
— Quando você vai voltar pro jogo, cara? – Disse Cássio. – Agora que o término é real oficial, você já pode se abrir pro amor de novo.
— Eu passo. – Respondeu Álvaro.
O olhar do rapaz cruzou a cantina e encontrou o de uma garota. Tinha os cabelos pretos, longos, cobertos pelo capuz do casaco e estava sentada com outras meninas. Olhava para ele, para elas, e pro celular. Elas riam. Algo nela o fez se mexer no banco, desconfortável. Estava nervoso. Ao contrário da leveza que havia sentido paquerando Bruna mais cedo, ele estava sentindo um calor crescente que percorriam suas veias, chegando às suas bochechas e eventualmente até as pontas das orelhas.
— Por que você tá vermelho? – Matheus perguntou.
Álvaro desviou os olhos dos da menina e se voltou ao amigo.
— Tô com calor. – O garoto mentiu. – E preciso mijar. Vejo vocês na sala. – Disse levantando-se.
Ao entrar no banheiro, ele abriu o Instagram e foi no perfil da Laura, que o havia seguindo mais cedo. Era ela, a mesma menina da cantina. Ela era muito linda. De cara, já achou várias fotos com as outras três meninas, clicou na mais recente e viu as marcações: “natt_ferreira”, “giovana.jpg” e “araujo.milena”. Voltou à tela principal e clicou em “seguir de volta”.
LAURA:
O celular de Laura despertou e em seus primeiros toques a menina acordou. Sentiu o cheiro agradável de suas cobertas e se aninhou um pouco na cama antes de se levantar. Olhou-se no espelho do quarto: os cabelos recém-pintados de preto estavam tão amassados quanto o pijama de planetas que vestia. A garota suspirou e saiu do quarto.
O cheiro do café incensava a casa enquanto sua mãe cantarolava na cozinha. Assim chegou no aposento a mãe abriu um sorriso.
— Bom dia, minha linda! – Disse colocando o café na mesa.
— Bom dia mãe. – Respondeu a menina, sentando-se. – Dia cheio?
— Sim! – Respondeu a mulher. – Hoje fico no hospital até tarde, então você vai ter que esquentar sua janta viu? Já deixei separada.
— Ok. – A garota respondeu.
Sentiu seu celular vibrar na mesa e o olhou, o grupo das amigas estava acordando.
BRITNEY 2007 VIBES
Mimi: viram que a Vanessa excluiu as fotos com o Álvaro? É a sua chance @Laura
Giovana: é agora que você dá uns pegas nele, amiga kkk
Natt: todo mundo decorou as falas do trabalho?
Natt: bom dia hehe
Laura: tá na ponta da língua Natt! Não se preocupe não vamos envergonhar você!
Natt: não faça promessas que não pode cumprir!
Mimi: alôô, foda-se biologia... incentivem a Laura a dar em cima do Álvaro por favor, se não ela nunca vai pegar ninguém...
Giovana: @Laura se quiser dar uns beijos nele, beleza... mas não se apega, soube que ele é cafa...
Mimi: melhor ainda, isso aumenta as chances dela!
Laura: que mentira, @Giovana! Ele só namorou uma menina em toda a vida...
Natt: mas pegou váriaaaaas, dizem até que foi por isso que terminou o namoro.
Giovana: ele traiu a Vanessa?
Milena: surpresa seria ele não ter traído, menina chata da porra...
Laura: você não era feminista? @Mimi
Milena: foi uma piada po, não precisa me cancelar
Natt: @Giovana não sei se traiu ou não, é só um boato que corre por aí...
Giovana: meninas, estamos saíndo de casa, bjsss
A menina bloqueou o telefone e voltou sua atenção à comida. Assim que terminou foi tomar banho e trocar de roupa. As amigas ainda não tinham visto o cabelo pintado, precisava estar magnífico.
No horário de costume o carro parou na frente da casa de Laura. A garota se despediu da mãe e saiu para encontrar as meninas. Giovana estava no banco da frente ao lado do seu irmão mais velho Vinícius, que sempre dava carona às meninas antes de partir para a faculdade. No banco de trás já se encontravam Milena e Natália.
— Oi garota! – Disse Gi, abaixando o vidro do carro. – Arrasou no cabelo. Belíssima caralho!
Ela entrou e se sentou ao lado de Milena.
— Eu achei que não ia mudar muito. – Disse Natália. – Mas você ficou mais gata assim.
Milena fez uma careta:
— Amor, o castanho claro era tão bonito em você. – Ela pegou uma mecha do cabelo de Laura. – Agora tá meio artificial, sei lá... Não ornou não, amiga.
Laura sorriu sem graça e discretamente colocou o capuz do casaco na sobre a cabeça.
— Então o Álvaro apagou as fotos com a ex? – Ela comentou, tentando mudar de assunto.
— Não, po. – Respondeu Giovana. – A Vanessa que apagou as fotos.
— Ele não tinha nenhuma foto dos dois no Insta... – Natt falou. – Acho que era pra não prejudicar os contatinhos online.
— Ei, você disse que não sabia se ele traiu ou não ela. – Laura retrucou, desbloqueando o celular e entrando no Instagram, para checar o perfil de Álvaro. Não havia nenhuma foto dele e de Vanessa, apenas algumas selfies, umas fotos com os amigos e algumas com o irmão mais novo.
— E eu não sei. – Natália se defendeu. – Mas que é estranho namorar alguém, postar várias fotos e nenhuma ser com a pessoa, é...
— Ai gente, o que importa é que ele tá oficialmente solteiro! — Disse Milena sem paciência. – E você vai ficar até quando stalkeando ele sem partir pra cima?
Laura corou.
— Século 21, girl! – Gi falou do banco da frente. – A gente que lute! Se formos depender dos boys chegarem na gente, fudeu. Como vocês sabem, quem pediu o Caio em namoro fui eu.
Laura continuava observando o perfil de Álvaro até que Milena tomou o celular de sua mão.
— Ah, fala sério. – Disse a garota clicando para Laura seguir Álvaro. — Sinceramente, o que seria de você sem mim?
— Milena! — Laura tentou tomar o celular. – Você é um capeta, sabia?
— Não sou um capeta. – Ela devolveu o celular. – Sou um cupido. Nem pense em parar de seguir... ele já deve estar acordado e provavelmente já viu a notificação. Se você tirar, vai ficar mais estranho ainda. Deixa rolar.
Durante a primeira aula, as meninas sentaram eu seus lugares de costume e esperaram o professor entrar na sala. Depois de uma longa introdução sobre o tema dos trabalhos, o professor se virou pro primeiro grupo, perguntando se eles tinham trazido um pen-drive com os slides.
— Sim, professor! – Respondeu um garoto meio franzino de cabelos cacheados — Matheus. – Mas um membro da nossa equipe ainda não chegou.
— Ok, Matheus. – Disse o professor. – Vamos esperar mais cinco minutinhos. Enquanto isso, podemos falar de...
Laura notou Matheus falando baixinho com os amigos e digitando algo no celular. Cássio, um menino mais encorpado e de pele morena, com cabelo curto, não compartilhava da preocupação dos amigos, apenas ria. Laura sabia quem era o membro que faltava na equipe: Álvaro. Era melhor amigo dos meninos. Quando notou que os olhava demais, a garota desviou o olhar para o seu próprio grupo:
— Será que rolou alguma coisa? – Cochichou.
— Sei lá... – Respondeu Natt. – Acho que ele só tá atrasado... – Ela foi interrompida por um toque em seu ombro, que a fez virar. O outro amigo de Álvaro, Bernardo, se aproximou. O rosto vermelho que contrastava com seus cabelos loiros denunciou a timidez do rapaz.
— Oi. – Ele disse baixinho. – Vou pedir pro professor deixar nosso grupo por último, o Álvaro ainda vai demorar um pouquinho. Vocês se importam de ir primeiro?
— Não. – Respondeu Natt, simpática. – Sem problemas. – A amiga se virou para Laura sorrindo.
Giovana a encarou e disse:
— Honestamente, dá pra você babar menos?
— Ah, qual é? – Disse Natt. – Ele é muito fofinho.
— Que patético. – Respondeu Milena. – Ele tem carinha de bebê...
— É porque vocês não viram quando ele levantou a camisa na aula de educação física. – Disse Natt se aproximando das amigas. – Só o rosto é de bebê.
— Eu shippo. – Disse Laura. – Vocês dois fariam um belo casal, café com leite.
— A melhor mistura! — Concordou Natt enquanto observava Bernardo conversando com o professor, na frente da sala.
— Vocês podem apresentar primeiro meninas? – Perguntou o professor olhando para elas.
— Aham! – Respondeu Natt tirando o pen-drive da bolsa.
Durante o intervalo, as meninas se juntaram para tomar um suco. Milena explicava algum tipo de dieta que envolvia trocar o almoço por um shake da Herbalife, enquanto Laura alternava seu olhar entre Álvaro, do outro lado da cantina, as amigas e o celular. Já fazia algumas horas desde que tinha o seguido, será que ele não iria seguir de volta? Sou uma idiota, pensou. Muito patética e carente. Ela colocou o celular no bolso e voltou sua atenção às amigas.
— Pois é... – Comentava Giovana. – Ele conseguiu organizar tudo do intercâmbio, vai agora no meio do ano, depois que o semestre acabar.
— Mas eu não entendi. – Disse Milena. – Ele vai sair no meio do segundo ano e já vai entrar no último ano lá?
— Aham, vai ficar lá até o meio do ano que vem. – Respondeu Gi. – É assim que funciona nos Estados Unidos, parece...
— E vocês vão ficar como? –Indagou Natt. – Ele vai passar um ano fora né...
— Normal, ué. – Disse Giovana mexendo o suco. – Nosso relacionamento é muito maduro. Vamos manter o namoro à distância.
— Coragem. – Respondeu Milena. – Homem é homem, abre teu olho.
— O Caio é diferente amiga. – Giovana constatou. – Por isso eu o escolhi.
— Ele ainda não te seguiu, amiga? – Natt perguntou à Laura, mudando de assunto.
— Não... – Disse Laura, sem conseguir esconder a frustração. – Será que eu devia curtir algumas fotos?
— Amiga, calma. – Milena falou. – Você não pode parecer desesperada. Você já deu o primeiro passo, que foi seguir. Agora você espera. Se você curtir todas as fotos dele, ele vai notar que você é uma carente. Meninos perdem o interesse assim que notam que você tá muito interessada. Eles gostam do desafio.
— Talvez ele esteja ficando com alguém... – Sugeriu Natt.
— Mas não tem nenhum story, nem nada. – Disse Laura. – Acho que ele tá solteiro.
— Ele não postava foto nem com a namorada, imagina com uma ficante? – Disse Natt.
— Se tivesse um jeito de saber... – Suspirou Laura. – Talvez ele não tenha retribuído o follow por causa disso, né?
— Você quer que eu descubra? – Perguntou Milena. – Sou mais cara de pau que você... posso mandar um direct perguntando.
— Não! – Respondeu Laura, corando. Ela não queria que as amigas interferissem tanto. Se fosse rolar, queria que fosse entre ela e Álvaro. – Não precisa. – Ela continuou. – Além disso é só um menino estúpido. Não quero ser a menina que fica dependendo de um cara pra ficar feliz. Um follow é só um follow, foda-se. Não sou esse tipo de garota.
— Arrasou, amiga! – Disse Gi, dando um high five em Laura. – É isso ai, girl power.
— All the women, who are independent, throw your hands up at me! – Cantarolou Natt. As meninas sorriram.
Laura sentiu o celular vibrar no bolso e olhou-o. Uma notificação dizia que Álvaro a estava seguindo. Uma onda de felicidade percorreu seu corpo, mas ela se conteve. Não queria fazer alarde. Se mostrasse que tinha ficado feliz só com isso as amigas iriam achar que ela era muito carente, muito dependente. Então, sem anunciar que o que estava esperando a manhã toda finalmente aconteceu, ela colocou o celular de volta no bolso e olhou para o outro lado da cantina, mas Álvaro não estava mais lá. Apenas seus outros três amigos.
Na saída, as amigas comentavam sobre a festa que Rodrigo, do terceiro ano, iria promover.
— “Cadê meus ovos?” – Leu Natt no celular. – Sério?
— É temática da páscoa, ué! – Milena disse animada. – Ele até disse que ia conseguir umas bebidas e levar. Vai ser incrível. Vamos dar um tempo de ver esses meninos mixurucas do primeiro ano e ficar com homens de verdade.
— Eles são só dois anos mais velhos. – Respondeu Natt em protesto.
— Mas a maturidade é outro nível. – Disse Milena. – Né, Giovana?
— Bom, o Caio é do segundo ano, mas é bem maduro... – Giovana respondeu.
— Então, nós vamos! – Milena falou, feliz.
— Vou perguntar a minha mãe se eu posso. – Laura falou. – É que horas?
— Diz aqui que começa as oito. – Natt respondeu olhando para o celular.
— Se forem, rachamos um Uber. – Giovana falou.
— Mas se nós quatro formos, não tem lugar pro Caio. – Milena observou.
— Ele vai com o grupinho dele. – Gi respondeu. – Nos encontraremos só lá na festa.
— Ui, que casal moderno. – Milena respondeu.
— Não nascemos grudados, ué. – Giovana falou. – Cada um tem seus amigos.
Laura desviou o olhar da amiga, envergonhada. As vezes queria ser como Giovana: a amiga era linda, com seu corpo nem tão reto, nem tão cheio de curvas, seus cabelos loiros e sua língua afiada. Muito além disso, era independente, parecia sempre estar bem. E, claro, seu feminismo não a impedia de compartilhar a felicidade com seu namorado, Caio. Eles eram perfeitos. Ela é perfeita, pensou.
À noite, a menina mandou mensagem para a mãe, perguntando que horas ela chegaria, mas a mãe não respondeu de imediato. Devia estar muito ocupada. A garota ignorou a janta deixada para que ela esquentasse e fez pipoca. Sentou-se no sofá da sala, ignorando as mensagens que bombardeavam o grupo das meninas e abrindo o Instagram. Desceu nas fotos de Álvaro. O padrão se repetia: selfies com os fones de ouvido, ele com os amigos, jogando futebol ou video games. Algumas fotos com o irmãozinho e uma selfie fazendo careta. Ela estranhou e entrou na foto. Na legenda, lia-se: “Quero que a @netflix pague minhas despesas médicas depois de fritar meu cérebro com essa temporada de @Dark”. Ela riu. Fofo, pensou.
Ligou a Netflix e pesquisou por Dark. Já tinha ouvido falar na série, mas nunca tinha tido vontade de assistir. Antes que pudesse botar o primeiro episódio, seu celular tocou.
— Amiga, você morreu? – Milena dizia do outro lado da linha. – Lê o grupo!
— Foi mal, tava fazendo a janta. – Laura mentiu. – Que foi?
— Você vai pra “Cadê meus ovos?” – Milena perguntou. – Já estamos todas prontas.
— Não, minha mãe não deixou. – A garota mentiu, novamente. – Mas boa festa pra vocês. – Mesmo sem poder ver Milena, Laura conseguiu sentir a amiga revirando os olhos do outro lado da linha.
— Ok, amiga. – Milena falou. – Mas você fica devendo um rolê pra gente!
— Tá certo. – Laura riu. – Tchau amiga.
— Tchau. – Milena desligou o celular e Laura deu o play no primeiro episódio.
Durante a abertura, a menina pegou seu celular e fez um story para postar no Insta. Sabia exatamente o que esperava com aquilo. Pôs o celular de lado e se concentrou em ver a série. Sério que é em alemão?
Depois que já tinha acabado com três pipocas e a mãe já tinha chegado e ido para seu quarto. A menina pausou o quarto episódio e olhou para o celular, pois ele tinha acendido com uma nova notificação: “alvaro_lp respondeu seu story”.
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