Notas iniciais
Playlist do capítulo: 1. Manu Gavassi - talvezeunemteame (tantoassim) 2. Grupo Revelação - Deixa Acontecer 3. Skank - Te Ver 4. Camila Cabello - Never Be the Same

LAURA:

Laura e as amigas estavam sentadas esperando o sinal tocar para começarem a prova. As meninas debatiam o que tinham conseguido estudar e quais questões tinham conseguido resolver, além de comparar seus resumos. O de Natália, Laura observava, estava perfeito, sem nenhuma rasura, com marcações coloridas nas palavras-chave. Os de Giovana e Milena estavam iguais, como era esperado visto que estudaram juntas, menos elegantes que o de Natt, mas bem robustos e eficientes. Laura, envergonhada, não mostrou o seu, fininho e desorganizado, preenchido com sua letra horrorosa.

— Amiga, você conseguiu fazer a quinze? – Giovana perguntou pra Laura. – Nossa resposta deu diferente da resposta da Natt.

— Não. – Respondeu Laura, sem graça. – Eu achei bem difícil. – Na realidade, ela nem tinha chegado na questão nove. Porém, não se sentiu confortável em falar isso para as amigas.

Ao invés de manter o foco na conversa de seu grupo, Laura olhou para trás, procurando um certo garoto que a essa hora estaria com seus cabelos desgrenhados, porque acordou atrasado, e com um ouvido encaixado no fone e o outro atento aos macetes que seus amigos estariam lhes passando pra prova. Entretanto, Álvaro não estava lá. Apenas Bernardo, Cássio e Matheus estavam em seus lugares de costume. Matheus falava algo pra Cássio apontando para o seu caderno e Bernardo prestava atenção, tentando assimilar alguma coisa.

O que será que aconteceu? Laura se perguntou. O sinal vai tocar já já.

A garota tirou o celular do bolso e abriu o WhatsApp. O “visto por último” de Álvaro apontava 02:45 do dia anterior, ou seja, ele provavelmente nem tinha acordado. Laura começou a digitar uma mensagem pra ele, mas o sinal tocou antes que ela pudesse terminar, e o professor ordenou que todos guardassem o celular porque ele iria começar a distribuir as provas.

Após quebrar a cabeça com as questões e passar por um processo terrível de arrependimento por não ter estudado mais no dia anterior, Laura suportou algumas aulas de português e correu com as amigas para a cantina. Depois de cada uma comprar seus salgados preferidos, a conversa se desviou da prova. Graças a Deus.

— É sério. – Disse Natália olhando uma notificação no celular. – Esse menino é muito insistente. Que raiva.

— Raiva porque, amiga? – Milena respondeu. – Você tá precisando de uns beijos e ele quer dar, aproveita!

— Raiva porque ele é bonitinho. – Natt disse. – Se fosse feio, dava pra recusar sem peso na consciência.

— Ah qual é, se o garoto já é grudento assim e vocês nem ficaram ainda, imagina se você der uma chance pra ele? – Indagou Giovana fazendo Laura se mexer, desconfortável, em seu acento. – Melhor não dar falsas esperanças.

— Se pelo menos fosse o Bernardo que você adora... – Disse Milena.

— Pois é! – Respondeu Natt indignada. – Mas é um cara aleatório do segundo ano que achou meu insta. – Ela bloqueou o celular e procurou Bernardo pela cantina. – O que o Bernardo tem de fofo, ele tem de tímido, sério. Interagir com ele é difícil.

— É verdade! – Laura responde. – Ele fica vermelho só do professor perguntar alguma coisa pra ele, imagina se você desse em cima... acho que ele ia infartar. – Ela comentou olhando pro grupo dos meninos.

— Você devia falar com ele, Natt. – Giovana sugeriu. – Nunca se sabe... melhor do que ficar enrolando esse cara do direct.

— Todo mundo devia ser mais como você, Gi! – Milena comentou.

— Como assim? – Giovana disse desconfiada.

— Ah, sei lá! Você e o Caio são tão evoluídos, tipo... você não corre no intervalo pra ficar com ele. – A amiga explicou. – Você tem suas amizades, ele tem as dele e vocês parecem se dar super bem.

Laura não desviou os olhos do grupo dos meninos e tirou o celular do bolso, voltando sua atenção pra mensagem que não tinha terminado de escrever para Álvaro, perguntando o porquê de ele ter faltado. Tudo bem que ele não era o aluno mais brilhante da turma, mas ninguém perdia prova assim. Estava preocupada.

— Verdade. – Natt comentou. – Quem não conhece vocês ou não vê pelo insta nem sabe que vocês namoram.

— É porque a gente é super independente. – Giovana falou, despretensiosa. – Tipo, ele tem os treinos de futebol da escola e, às vezes, umas peladas aleatórias que ele joga com os amigos e não precisa me pedir permissão pra nada. Assim como eu tenho vocês e minhas outras atividades. Nem sempre a gente avisa o que tá fazendo, é algo muito natural, sabe? Não somos vigias um do outro. Somos duas pessoas que têm suas vidas e que se amam e são mais felizes juntos... mas ficar exigindo saber da pessoa de cinco em cinco minutos? Deus me livre.

Laura parou de digitar na hora, sentindo-se alfinetada. Obviamente Giovana não sabia da sua situação, pois ela ainda não tinha contado para as amigas que estava paquerando Álvaro, mas mesmo assim, a garota se sentiu exposta pela fala da amiga. Estaria exagerando? Francamente, precisavam se falar vinte e quatro horas por dia e dar satisfação um pro outro? Ela não sabia se precisavam, mas sabia que queria falar sempre com ele. Envergonhada, ela bloqueou o celular. Controle. Ela pensou. O que ele vai pensar se eu ficar mandando mensagem toda hora? Não estou desesperada.

Por volta das quatro da tarde, depois de ter fingido que estava estudando, Laura colocou música para tocar em seu computador e se deitou em sua cama, desbloqueando seu celular.

(Nem sei se eu tô triste ou tô incomodada, com mais uma história tão inacabada, sei lá... eu só não quero que você esqueça, só não admito que você me esqueça...)

Depois de passear pelo Instagram, ela não resistiu e acabou entrando no WhatsApp, checando a conversa com Álvaro. O garoto estava online a poucos minutos atrás. Mais uma vez, sem se conter, ela digitou e redigitou inúmeras vezes, tentando parecer o mais desinteressada possível, até que se contentou com um “Tudo bem?”. Entretanto, ele ficou online antes dela enviar. Puta que pariu, ela pensou, enquanto apagava a mensagem com receio de ele achar que ela estava à espreita, perdendo a tarde, esperando-o ficar online para mandar uma mensagem. Laura jogou o telefone de lado, chateada com a situação e com ela mesma.

(Eu quero que você me queira mais do que eu te quero, faz sentido? Talvez não, mas ajuda o meu ego...)

Uns segundos depois, seu telefone tocou, distraindo a garota de seus pensamentos. Ela pegou o aparelho com um frio na barriga. Será que é ele? Pensou por um segundo, se perguntando se talvez ele não estivesse fazendo o mesmo que ela do outro lado da conexão, se martirizando por querer mandar mensagem toda hora. Entretanto, na tela lia-se “Mãe”.

— Oi mãe... – Laura falou, decepcionada.

— Oi filha! – A mãe disse animada. – Advinha? Consegui aquele cargo que te falei hoje de manhã.

— Sério? – A menina fingiu surpresa. – Finalmente!

— Vamos comemorar! – A mãe falou. – Nada de cozinha hoje, vamos para um restaurante. Vou sair mais cedo, chego já em casa...

— Ok. – Laura respondeu. – Vou me arrumar.

— Ok. Beijos!

Suspirando fundo, a menina foi se arrumar. Agora, além de se sentir patética, por acreditar que Álvaro a ligaria, sentia-se culpada por não estar plenamente feliz pela conquista da mãe. Botou o celular para carregar e foi tomar banho, prometendo-se não olhar o smartphone a noite inteira, sendo 100% atenciosa com a mãe.

No carro, a caminho do restaurante, Laura tinha dado uma trégua e agora o rádio tocava não sua playlist, que sempre dominava o veículo, mas a da mãe, com músicas que ela ouvia nos seus vinte e poucos anos – as vezes parecia que a mãe nunca tinha superado aquele tempo.

Desde que tinham entrado no carro, Laura não falava muito, apenas respondia o que a mãe dizia com palavras monossilábicas. O silêncio era preenchido pela sua mãe que cantarolava os hits da sua época e batia os dedos no volante em sintonia com a batida. Depois de tocar hits de Claudinho e Bochecha e Marcelo D2, a playlist chegou em uma música que fez Laura ficar mais triste ainda.

(Deixa acontecer naturalmente, eu não quero ver você chorar... deixa que o amor encontre a gente, nosso caso vai eternizar...)

Por que tudo parecia uma indireta pra ela? Que saco, ela pensou. Já entendi, universo!

(Só que eu tenho muito medo de me apaixonar, esse filme já passou na minha vida...)

Enquanto ela refletia sua situação ao som da música e da voz da sua mãe cantando, seu celular começou a vibrar. Na tela, lia-se “Álvaro”. PUTA QUE PARIU, ela gritou mentalmente. E agora? Como atenderia na frente da mãe? Ainda bem que o celular estava no mudo. Apesar da mãe ainda não saber de Álvaro, ela não podia deixar a oportunidade passar, por isso atendeu o celular.

— Alô? – Disse tentando controlar o nervosismo na voz.

— Oi! – Álvaro disse com a voz um pouco anasalada. – Sentiu minha falta?

— Não... nem um pouco... – Laura mentiu, mantendo a voz calma.

— Quem é filha? – A mãe perguntou abaixando o volume do som. – É alguma das meninas? Vou desconectar meu celular pra você botar o seu no rádio.

— Não, mãe! – Laura exclamou. – Não precisa, é a Natt.

— Quem tá aí contigo? – Álvaro perguntou. – Meu nome é Natt agora?

— Sim, amiga... – Laura falou. – É só minha mãe.

— Minha sogrinha? – Ele falou do outro lado da linha. O estômago de Laura embrulhou. Sogra?— Manda um beijo pra ela.

— Vou mandar... – Ela disse nervosa. – Ela tá mandando um beijo. – Sussurrou pra mãe.

— Outro pra você Natt! – A mãe respondeu, gritando por cima da música.

— Isso de fundo é pagode? – Álvaro perguntou, rindo. – Você tá ouvindo pagode Laura?

— É sim... – Laura respondeu. – É o rádio do carro.

— Quem diria? – Álvaro respondeu. – Vivo me surpreendendo contigo. Estão indo pra onde?

— Vamos jantar. – Ela respondeu. – É uma ocasião especial.

— Entendi! – Álvaro comentou. – Aproveitem. A prova estava muito ruim hoje?

— Não, foi bem de boa. – Ela mentiu. – Só teve uma questão que eu fiquei mais pensativa, mas de resto estava normal. – Ela mentiu, novamente.

— Ah, sim... – Álvaro disse. – Não esperava menos de você. Sra. Física Cósmica do Universo e Além!

Laura abriu um sorriso, mas se conteve ou a mãe iria achar que ela estava ficando apaixonada pela Natt.

— Eu não tive o prazer de fazer a prova porque estou gripado, obviamente. – Ele falou.

— Acordou assim? – Laura perguntou.

— Eu estava pior de manhã. – O menino revelou. – Cheguei a ter um pouco de febre, mas já tomei remédio e tô aqui na minha cama morrendo de tédio.

Tinham várias coisas que Laura queria responder pra ele. Sei como acabar com o tédio, se quisesse ser mais instigante ou, senti sua falta hoje na escola, se quisesse ser mais romântica ou, até, típico de meninos ficarem gripados e passarem o dia todo na cama, se quisesse ser mais provocativa, mas falou apenas:

— Que coisa, né... – Olhando de relance pra mãe, que continuava tamborilando os dedos na direção.

— Escuta, bota na sua agenda que vamos sair sexta-feira de tarde! – Álvaro afirmou. – Já vou ter melhorado 100%, aí vamos ao parque municipal, fazer um piquenique.

— Piquenique? – Laura surpreendeu-se e segundos depois lembrou da mãe ao seu lado. – Claro, vai ser legal!

— Você vai se surpreender com meus dotes culinários. – Álvaro se gabou. – Sério, eu sou tão bom que o Rodrigo Hilbert me liga pedindo receitas.

Caraca, você é muito convencido cara! Ela respondeu mentalmente, mas na realidade, disse, rindo:

— Só quero ver...

— Tá marcado, então. – Álvaro bocejou do outro lado da linha. – Vou deixar você comemorar sua ocasião especial e vou dormir que eu estou com sono e preciso melhorar logo...

— Ok. – Laura falou um pouco triste por ele estar desligando e um pouco feliz por não ter mais que falar coisas neutras para a mãe não notar que estava falando com um garoto. – Boa noite, nos vemos depois...

— Te vejo depois! – Ele disse e desligou.

— Ouviu, né mãe? – Laura falou guardando o celular no bolso. – Sexta as meninas vão fazer um piquenique, posso ir?

— Claro! – A mãe respondeu, despreocupada. – Você vai ter que levar alguma coisa?

— Não... a Natt vai cozinhar... – Ela disse sorrindo.

Depois de minutos de conversa, a música já tinha mudado, e a que tocava no momento, deixou Laura mais eufórica ainda.

(É ver alguém feliz de fato sem alguém pra amar, é como procurar no mato estrela do mar... te ver e não te querer é improvável, é impossível...)

ÁLVARO:

Álvaro acordou com o corpo todo moído e um pouco quente. Ah não, pensou. Não era possível que tinha ficado gripado justo no dia da prova. Não que ele tivesse se preparado muito, mas era melhor tirar 3 do que faltar e tomar um zero, ou, pior ainda, arriscar ir pra recuperação no fim do semestre. Além disso, a escola só aceitava realizar segunda chamada caso o aluno apresentasse atestado e ele não ia ao médico só por causa de uma gripe.

O garoto tentou ignorar os sintomas e saiu da cama, direto para o chuveiro, tomou um banho gelado e então se direcionou a cozinha, depois de se vestir. Seu pai já tinha saído pro trabalho e levado seu irmão, sua mãe estava sentada, comendo.

— Levantei tarde? – Ele perguntou massageando a garganta inflamada.

— Mais ou menos. – A mãe falou. – Você tá bem? – Ela botou a mão na testa do garoto. – Você tá quente...

— Acho que estou com febre... que horas são?

— Não, você não vai hoje... – Sua mãe disse levando o menino de volta ao seu quarto. – Você vai ficar aí deitado descansando e vou pegar uns remédios e fazer seu café da manhã.

— Mãe, não... – Ele começou a protestar, mas desistiu. Já estava atrasado mesmo... que se foda, disse a si mesmo, enquanto voltava a se aninhar nos cobertores. Fazia tempo que alguém não cuidava dele.

Alguns minutos depois, a mãe voltou com um medicamento multigripal, vitamina C, um misto quente e uma xícara de café com leite. O garoto sorriu com gratidão e se sentou na cama para comer. Checou o celular e notou que tinha algumas mensagens no WhatsApp.

TIME BOM

Bernardo: gente, não consegui estudar td! @Matheus me ensinaa

Matheus: vc que lute, jovem... não estudou porque não quis kkkk

Cássio: eu te ajudo, @Beh, mas chega cedo né

Bernardo: te odeio @Teteu, obg lindooo @Cassio

Matheus: eu tava zuando po kkk ajudo vcs dois, é capaz do Cássio fazer você desaprender...

Cássio: hahahah mt engraçadão vc...

Meia hora depois os meninos se perguntaram onde estaria Álvaro, marcando-o incansavelmente em mensagens aleatórias.

TIME BOM

Cássio: deve estar dormindo, o safado...

Matheus: @Alvaro @Alvaro @Alvaro

Bernardo: ele foi é esperto, a gente saiu de casa pra tirar zero...

Matheus: fale por vc kkk

Álvaro não respondeu, os amigos estavam na prova e não iam poder ver a mensagem de qualquer forma. Além dessas, Bruna o havia enviado uma mensagem.

Bruna: poxa, visualizou minha msg há 2 dias e não respondeu...

Álvaro: desculpaa, é que eu tô doente, não pude ir aí...

O garoto decidiu mentir (parcialmente). De fato, ele estava doente, mas não foi por isso que ele não foi à casa de Bruna. Álvaro estava com medo de não conseguir fazer direito quando chegasse na hora, só tinha transado com uma garota em toda sua vida. Além disso, teria que sustentar a mentira de ser mais velho, o que o deixava nervoso – quando ele disse isso, foi mais por brincadeira do que por qualquer outra coisa... achava que nunca mais a veria. E, muito mais importante, não estava com tanta vontade assim de ficar com ela... não sentia aquele frio na barriga.

Com medo dela responder imediatamente e ele ter que manter uma conversa, o garoto bloqueou o celular e voltou a se deitar.

Depois de cochilar um pouco, zapear pela Netflix e ver o dia escurecer na sua janela, a mãe de Álvaro entrou no quarto trazendo um chá com algumas ervas e mel. Ela sentou-se na cama dele e passou-lhe a bebida.

— Tá bom? – Ela perguntou.

— Sim... – O menino respondeu depois de bebericar um pouco da bebida quente.

— Mãe... – O menino começou, mudando o tom da conversa. – Tá tudo bem entre você e o papai?

— Sim... – A mãe respondeu, olhando para os joelhos. – Faz tempo que não temos uma briga, acho que a terapia e os antidepressivos estão ajudando mesmo.

— Não faz tanto tempo assim... – Álvaro falou desanimado. – Às vezes parece que o papai é uma panela de pressão que vai explodir a qualquer minuto... só espero que o Rogério não esteja por perto quando isso acontecer...

— Ele nem vai lembrar disso quando crescer – Ela riu, tristemente. – Nem se preocupe...

— Ele vai sim... – Álvaro falou. – Eu lembro...

A mãe suspirou com tristeza.

— A minha relação com seu pai é complicada... – Ela disse. – Mas estamos consertando as coisas, você vai ver...

— Eu só não entendo o motivo de você não ter se separado dele... – Álvaro comentou com irritação. – Sério, eu fiquei com tanta raiva... não sei como você foi capaz de perdoar uma traição...

A mãe engoliu em seco. Apesar de já ter passado uns dois anos desde o ocorrido, o assunto estava morto e enterrado. Falar nele novamente só iria trazer à tona memórias ruins.

— Quando você tiver filhos... – A mãe explicou. – Vai notar que há coisas que fazemos... que nos submetemos a passar, porque nossa prioridade não é mais a gente, são nossos filhos...

— Isso é muito triste... – Álvaro rebateu. – Basicamente, a culpa da sua infelicidade somos eu e o Rogério?

— Não, não... – Ela se apressou para esclarecer. – Vocês não têm culpa de nada. Eu sou muito menos infeliz em saber que estou promovendo um lar completo pra vocês... se eu e seu pai tivéssemos optado pelo divórcio, você veria que seria bem pior.

Aquilo não fazia sentido na cabeça de Álvaro. Como assim seria pior se estivessem separados? Claro que estaria melhor. Pelo menos Álvaro e o irmão não viveriam numa casa que não parecia nem um pouco um lar, esperando, aflitos, todos os dias, o próximo conflito. A próxima violência verbal promovida pelos pais. Entretanto, não se sentiu confortável em refutar a mãe, que já parecia bem exposta em sua frente. Decidiu, ao contrário, se expor um pouco, para equilibrar as coisas:

— No meu caso com a Vanessa, foi melhor termos nos separado...

— Ah, mas vocês são muito jovens... – A mãe comentou, sorrindo. – Não têm nenhuma obrigação concreta de estarem juntos.

— Como assim? – O menino perguntou confuso.

— Os adolescentes ficam juntos porque gostam da companhia um do outro, porque querem extravasar ou beijar muito, não tem questões financeiras, nem filhos, ou coisas assim. – Ela explicou. – Podem namorar uma pessoa enquanto os momentos felizes são mais frequentes que os de tristeza ou raiva, e daí quando isso se inverte, podem terminar sem muitas explicações.

— Mas eu realmente gostava dela. – Ele comentou, chateado. – Doeu muito ter que terminar. – Ele desviou o olhar da figura da mãe, envergonhado de contar tanto assim da sua vida pessoal.

— Vocês jovens tendem a experienciar tudo como se fosse o fim do mundo. – A mãe riu, com bondade. – Relaxa, você ainda vai sentir dores piores, e tudo bem, o importante é sempre manter as opções abertas. Não se feche pra um amor, só porque o outro não deu certo.

— Mas parece que foi isso que você fez... – Álvaro disse baixinho. – Preferiu continuar com o papai por conveniência ao invés de se abrir pra outra possibilidade de amor. – Ele não conseguiu se conter. Com o coração batendo forte dentro do peito, ele não se atreveu a olhar para a mãe.

— É diferente. – Ela falou. – Quando você é adulto, casado e com filhos, você tem que fazer funcionar, mas, enquanto você for jovem, haverão muitos amores da sua vida.

O menino apenas assentiu com a cabeça. Talvez a mãe estivesse certa e ele estivesse impondo uma seriedade muito exagerada às suas relações. Talvez devesse parar de pensar demais sobre muita pouca coisa e apenas fazer o que sentia que era o certo. Talvez.

Depois que a mãe saiu do quarto, ele pegou o celular de impulso e ligou para quem tinha sentido falta de conversar o dia inteiro: Laura. Depois de algumas boas chamadas, a garota atendeu:

— Alô? – Ela disse com a voz um pouco trêmula.

— Oi! – Álvaro disse com a voz um pouco anasalada. – Sentiu minha falta?

Dois dias depois, Álvaro estava totalmente recuperado, conversando com os amigos no fim de um corredor do colégio. O amigo alternava sua atenção na conversa e no celular, onde pesquisava as melhores comidas para um piquenique. Seu celular apitou uma nova notificação de Bruna. Os dois haviam conversado mais desde o dia que o rapaz acordou doente e ela sabia que ele estava recuperado. Ele tentava não dar respostas concretas para as mensagens da garota, mas o plano não estava funcionando.

Bruna: a menina que divide o AP cmg vai passar a noite fora por causa de um congresso, se quiser vir pra cá...

Ele ignorou e continuou pesquisando receitas. Até que pela visão periférica viu um grupo de quatro meninas entrarem no início do corredor. Lá estava Laura, conversando com as amigas. Álvaro sorriu e entrou no WhatsApp, sem visualizar a mensagem de Bruna.

Álvaro: veio de casaco branco pra combinar cmg? :P

Álvaro: estou cada vez mais convencido q vc me stalkeia... inclusive acho q te vi hj no lado de fora da minha janela...

Laura: kkkkk cadê vc?

Álvaro: perto da 1C, aqui atrás...

A garota se virou e o viu, esboçando um sorriso de longe.

Laura: vc fica gato de branco

Álvaro: eu sei!

Laura: tá melhor?

Álvaro: depende, do que estamos falando?

Laura: da gripe, claro

Álvaro: sim, bem melhor...

Laura: e no que vc não estaria melhor? Nas matérias?

Álvaro: não... no coração ☹

Laura: o q houve?

Álvaro: nada demais, o de sempre... coração partido, solidão, blablabla

Laura: awn bebê, quem partiu seu coração? Vanessa? Kkkk

Álvaro: ela não partiu meu coração... eu que parti...

Laura fez um gesto com os braços de que não tinha entendido do outro lado do corredor e Álvaro respondeu fazendo um coração com as mãos e separando os pedaços, exagerando um beiço triste no rosto. Ela riu e suas amigas não notaram, mas os dele sim.

— Com quem você tá falando? – Cássio disse olhando do amigo pro corredor.

— Quê? – Matheus falou.

— O Álvaro já tá paquerando alguém desse corredor. – Cássio riu. – Chefe é chefe né pai, não perde tempo...

— Não tô falando com ninguém, po... – Álvaro mentiu.

Seu celular vibrou.

Laura: mal posso esperar pra sexta, não imaginava que vc era do tipo piquenique...

Álvaro: e de que tipo vc achava que eu era?

Laura: de motel kkkk sua reputação não é mt boa

Álvaro: :O que absurdo! Isso nem é possível, somos menores de idade...

Laura: se vc diz...

Álvaro: esse povo inventa cada coisa...

Laura: mas é bom vc ser imprevisível, assim me surpreendo!

Cássio tomou o celular da mãe de Álvaro.

— Com quem você tanto fala que fica com esse sorriso besta no rosto? – Ele disse olhando a conversa. – A Laura? Sério?

— Laura do grupo daquelas meninas inteligentes? – Matheus comentou. – Elas são bonitas! – Ele disse tomando o celular de Cássio e lendo a mensagem. – Como você conseguiu o número dela?

— Devolve aí pô! – Álvaro disse tentando pegar o aparelho de Matheus, que o passou para Bernardo.

— Elas são meio esquisitas... – Bernardo falou. – Quer dizer, sempre que eu olho aquela menina tá me olhando... a Natália. – Ele leu a conversa direito enquanto Matheus e Cássio seguravam Álvaro para ele não pegar o celular. – Piquenique? Que sonso! Quer dizer, que fofo... – Ele riu enquanto devolvia o celular.

— Awnnnn... – Cássio apertou as bochechas de Álvaro. – Ele tá apaixonadinho.

— Vai cozinhar pra amada e tudo! – Matheus provocou. – Quem era Álvaro!?

— Ah qual é... – Álvaro reclamou. – Vocês agem como se eu fosse um putão, mas sabem que eu só transei com uma menina na minha vida inteira... por isso que eu tenho essa fama errada por aí...

— Você que conquistou sua fama, cara... – Bernardo falou dando tapinha nas costas do amigo. – A Vanessa que teve a coragem de namorar contigo apesar disso. – Ele riu.

— Essa Laura deve ser braba mesmo, se fez você se apaixonar. – Matheus falou.

— Não estou apaixonado. – Álvaro disse, muito irritado. Sem explicações, ele saiu da rodinha de amigos e desceu das escadas, evitando passar por Laura e suas amigas. Num impulso de provar para os amigos e pra si mesmo que não ia repetir os mesmos erros de antes, ele mandou uma mensagem.

Álvaro: oi, tô livre hj a noite, manda a localização...

Bruna: ok!

Em casa, quando se aproximou das 18 horas, Álvaro disse ao pai que precisava ir a casa de Cássio para fazer um trabalho e pegou um Uber em direção ao endereço dado por Bruna. Passou o trajeto tentando ficar menos nervoso e limpando as mãos suadas na calça. Quando chegou ao apartamento, seu nervosismo podia ser ouvido no seu peito. Ele subiu para o andar da menina. Agora não tem volta. E, realmente, não teve.

Mesmo se sentindo despreparado e sem vontade, ele deixou Bruna guia-lo para seu quarto e apenas tentou se manter no momento, para evitar a culpa. Isso é necessário, disse a si mesmo enquanto tirava a roupa. Depois dos primeiros beijos, o sentimento ruim no peito se dissipou, e o garoto se deixou levar pelos seus instintos, mas quando voltou pra casa, tomou banho, se arrumou pra dormir e, até, quando acordou, a culpa ainda estava lá.

Na sexta-feira de tarde estava com um mau-humor terrível devido às péssimas decisões que havia tomado. Depois de ter dormido com Bruna, a garota não tinha mais mandado mensagem. Pelo menos com isso não devo mais me preocupar, pensou. Ou ela só queria sexo e agora que tinha conseguido tinha perdido o interesse, ou ele era ruim de cama. Escolheu a primeira opção. Ele estava esperando Laura para o encontro dos dois com as comidas e bebidas: tinha feito suco de laranja, sanduíches naturais e salada de frutas, além de ter comprado uns refrigerantes e um chocolate. Tinha feito tudo mecanicamente. Não sabia como iria se sentir ao olhar para Laura. O que estava fazendo? O embrulho no estômago se intensificou quando ele viu a garota atravessando o parque. Ele se levantou para recebê-la com um abraço.

— Oi! – Ele falou dando um beijo em sua bochecha. – Tudo bem?

— Aham... – Ela respondeu. – Tive que dar um perdido na minha mãe, ela queria dar oi para as meninas.

Os dois riram e se sentaram.

— Parece até que estamos fazendo algo ilegal. – Álvaro comentou. – Espero que você esteja com fome...

— Sempre! – A garota respondeu olhando as comidas que Álvaro havia levado. – Uau... – Ela exclamou com sarcasmo. – Refrigerante e chocolate. Rodrigo Hilbert que se cuide.

— Haha! Muito engraçado. – Ele disse pegando os sanduíches. – Eu cozinhei sim! Você vai pirar nesse sanduíche... sério, muito gostoso.

Ela riu e experimentou um pouco, atestando o gosto bom. Os dois seguiram, compartilhando fones de ouvido, enquanto comiam, bebiam e zoavam as pessoas que passavam pelo parque, alguns fazendo atividades físicas, outros passeando com o cachorro e, ainda, alguns casais.

— Olha aqueles ali. – Laura disse em um determinado momento. – Aposto que estão casados há 20 anos e não transam há 10.

— Quê? – Álvaro disse incrédulo. – Eles devem ter uns 50 anos só.

— Não é pela idade. – Ela falou bebendo um pouco de suco. – É pela linguagem corporal. Eles estão afastados um do outro, não estão de mãos dadas... na verdade, as mãos nem encostam quando estão andando lado a lado... – Ela disse. – Acredite, aqueles ali estão numa seca terrível.

— Quem é você, Holden Ford? – Álvaro disse rindo. – Analisando as pessoas assim... você julga muito...

— Não julgo não... – Laura retrucou. – Só acho que tem coisas que certos casais fazem quando não conseguem esconder o quanto estão a fim um do outro.

— Tipo o quê? – Álvaro perguntou.

— Tipo... a gente, por exemplo... – Laura falou olhando nos olhos dele. Um frio tomou a barriga do menino e ele fez um esforço mental para não corar. Seu desejo era de desviar os olhos, mas não conseguiu. – Estamos aqui, sentados na grama... nossas pernas estão se tocando e nossos braços também. Nem percebemos, mas nosso corpo fez isso automaticamente, porque estamos muito a fim um do outro.

— Nossa... – Álvaro comentou. – Então, se eu segurar sua mão... – Ele disse pegando na mão da garota. – Você consegue calcular há quanto tempo não transamos? – Ela riu dando um tapa de leve em seu rosto.

— Depois você reclama da sua fama!

— Se eu sou tão cafajeste como dizem por aí, você é o que por estar aqui comigo? – Álvaro provocou. – A iludida?

Laura riu e olhou pro céu:

— Não se engana não... eu sou difícil de me apegar. – Ele não sabia se ela falava sério ou não, mas não se atreveu a desmenti-la. – Talvez eu esteja iludindo você.

Talvez, ele pensou. Então toda a leveza do momento foi consumida pela lembrança do que tinha feito com Bruna. O garoto se deitou na toalha, mascarando o desconforto e Laura olhou de volta pra baixo, se deitando logo em seguida. Sem olhar um para o outro, eles conversaram.

— Se tivesse de noite, daria pra ver as estrelas que você tanto gosta... – Ele disse.

— Se tivesse de noite, poderíamos ser roubados. – Ela riu.

— Ei, tô tentando manter uma conversa séria aqui. – Ele a repreendeu, brincando. – Sério, porque você quer ir pra esse lado de astronomia? Todo mundo quer tipo direito, medicina, sei lá...

— Eu acho muito interessante... – Ela disse. – Simples assim... Você não acha? – Ela perguntou se virando para ele, apoiando a cabeça na mão, de modo cobrir parcialmente o sol, forçando o menino a olhá-la.

— Sei lá... – Ele disse sem palavras. Os pequenos raios solares envolviam a silhueta da menina como se ela própria estivesse causando um pequeno eclipse. A aura dourada contrastava com seus cabelos extremamente pretos e seu rosto branco, doce e convidativo.

— É absurdo que de todos os eventos que poderiam ter acontecido, os específicos aconteceram para que estivéssemos aqui agora. Tipo, a luz do nosso sol, que permitiu nossa vida, que permite que eu veja você... Tudo que está há milhões de anos luz de distância e que a gente acha que não nos afeta... Pensa comigo, se algo estivesse fora do lugar, talvez tudo fosse diferente. De todas as possibilidades, estamos nessa. Você nasceu, eu nasci, nossa Terra foi criada, esse parque foi construído...

— Não necessariamente nessa ordem... – Álvaro brincou sem graça.

— Sim... – A garota riu.

(Just like nicotine, heroin, morphine, suddenly I’m a fiend and you’re all I need…)

Álvaro não conseguiu conter a euforia que estava de volta em seu peito.

— Vamos honrar o universo então... – Ele disse baixinho, se aproximando do rosto da menina. – Já que ele trabalhou tanto pra nos proporcionar esse exato momento, aqui e agora...

Ele avançou seus lábios nos lábios de Laura. Primeiro, de uma forma doce e depois de uma forma profunda, criando na lentidão um jeito de guardar na memória o quão bem estava se sentindo ali. A magia que conectava os dois era eletrizante e lhe passava uma mensagem de pertencimento.

(It’s you babe, and I’m a sucker for the way that you move babe, and I could try to run but it would be useless… you’re to blame... just one hit of you, I knew I’ll never be the same...)

Notas finais
Gostaram??? Ai ai esse Álvaro... deixem comments galeraaa, vejo vocês próxima sexta!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.