Alguns dizem que pequenas cidades estão ligadas ao sossego. Uma forma de escapar dos dias atribulados das metrópoles. Alguns poucos discordam, atribuindo um efeito quase que sobrenatural a certas lendas por aqui e por ali. Em Almas um silêncio sombrio se perpetuou após uma cadeia de acontecimentos, seu mistério era tão abstrato quanto o número de pessoas afetadas.

O céu acinzentado ao cair da tarde contrastava com os morros esverdeados por gramíneas e arvores isoladas por toda a extensão. A estrada trazia uma paz inquietadora, lá fora o som abafado dos veículos que cortavam em sentindo contrário não fazia diferença. Francis tão pouco ligava para o próprio barulho do rádio, distraidamente desligou o que já não vinha escutando a muitas horas. As marcas do rosto apresentavam alguém saindo da casa dos trinta, mas ele possuía um pouco menos da metade, somente os anos não foram generosos com ele.

Nem a vida.

A rotina de Francis engolfou a pouca juventude que lhe restava. Trabalhava em um jornal local a muitas milhas dali, ser repórter investigativo consumia o tempo que ele nunca teve. Entrevistar um psicopata não era a vida que tinha em mente, mas era o que gostava de fazer. Ser repórter era apenas uma fachada, um meio, mas nunca seria um fim. Pretendia ao final da carreira publicar um livro com todas as entrevistas que havia conseguido, não importando o que isso pudesse causar.

O veículo deslizava sobre o asfalto com velocidade mediana, Francis abriu e fechou os dedos que estavam agarrados ao volante, uma expressão de dor deformou o seu semblante quando um pequeno choque partiu da mão direita, sinalizando o cérebro de que havia algo errado. A dor o acompanhava há pouco mais de dois anos, fora diagnosticada por muitos médicos e fisioterapeutas como tendinite, um mal comum a aqueles que trilham a senda da escrita. Mas Francis negava qualquer laudo e contrariando as recomendações que lhe foram feitas, nunca tratou de seu problema.

Ao longe uma simples barraca surgia no cenário desértico de asfalto e verde. O estômago cobrava de seu dono algo para ingerir de maneira agressiva, já passava da hora de ser educado. Reduziu a velocidade de modo automático, os faróis iluminaram a frente revelando o vendedor da quitanda. Um senhor idoso com profundas marcas de expressão e pele queimada pelo sol, repousava em uma cadeira velha.

Francis notou algumas frutas frescas, biscoitos artesanais e doces caseiros. Mas estranhamente o senhor não se levantou, mantinha os olhos fixados a frente apresentando uma coloração leitosa. Francis entendeu, mas o que um vendedor cego ganharia sem ajuda em um local como esse?

Não soube dizer.

O click do porta luvas revelou uma carteira de couro estufada, algumas notas saltaram para fora assim que ele as escorregou.

“Isso deve dar” — pensou.

Se aproximou a passos lentos do senhor que ainda não demonstrava reação.

– Boa noite senhor, gostaria de levar algumas coisas – a voz grave pareceu acordar o velho homem.

– Apenas escolha e deixe o dinheiro meu rapaz – sorriu mostrando apenas os três dentes que lhe restavam.

Tudo possuía placa indicando o valor separado de cada produto, ao lado um pote levava todas as notas depositadas. Francis pegou o que queria, deixou a nota cair nos potes correspondentes, mas após três passos em retorno ao carro ele parou.

– Como o senhor sabe que não foi roubado? – indagou enquanto voltava-se para o homem.

– Do mesmo jeito que o jovem rapaz não sabe se o que come é o que realmente está vendo.

– Quer dizer que está me engano, seu velho? – alterou o tom subindo a voz.

– E o senhor? Quer dizer que está me roubando?

Naquele momento Francis não conseguiu mais responder, não sabia se estava confuso ou desarmado com a resposta do velho homem. Voltou ao veículo mordendo a maçã na esperança de que aquela fruta iluminasse seus pensamentos.

Mas isso nunca aconteceu.