Esquecer me lembra você
6 Reflexos
Notas iniciais
Acordo assustada, mas não sei realmente o por quê. Acho que tive um sonho ruim o estranho é que eu não consigo me lembrar dele. Nossa como isso de não se lembrar de nada já esta ficando repetitivo. Esse pensamento me faz sorrir por um instante.
Como tenho a certeza que não vou conseguir voltar a dormir tão cedo resolvo me levantar. Sento-me na cama e com os pés procuro as pantufas de pelo falso rosa. Encaro o despertador por alguns segundos até me acostumar com a pouca luz. São exatamente 6 horas e 23 minutos. Não é tão cedo como imaginava, mas ainda falta muito tempo para o despertador tocar.
Finalmente acho as pantufas, calço-as e me levanto indo direto para a cozinha no andar de baixo. Abro a geladeira e fico longos minutos apenas vendo o que tem dentro, até que finalmente decido pegar apenas um pouco de suco de laranja. Me sirvo em um copo grande de vidro e volto para o quarto ainda bebendo o suco.
No quarto, acendo as luzes e abro as cortinas. Observando o céu percebo que já está amanhecendo. Vejo o sol surgindo por traz de muitas nuvens cinza, deixando o céu com um lindo tom rosado.
Deixo o copo, agora vazio, sobre a mesinha ao lado da cama. E sentada nela reparo no enorme espelho entre as duas portas. Me aproximo dele me vendo ali refletida. A camisola azul contrastando com minha pele clara e pálida por ficar meses sem sol, meus cabelos ruivos curtos, os olhos azuis, os traços delicados do rosto, tudo é tão sereno e doce. Mas me sinto perdida em mim mesma, eu não me conheço, não me sinto familiar a nada que eu agora comtemplo no espelho. Apenas a fina e clara cicatriz me lembra do por que disso tudo. Ela está ali presente em tudo, pequena linha alguns tons mais claros que minha pele, bem abaixo da minha boca e corre até o queixo. Suavemente passo meus dedos sobre ela, sua textura não é tão diferente do resto do meu rosto.
Fico mais algum tempo me vendo no espelho, até que uma voz calma e doce me desperta.
–Não se preocupe, essa cicatriz sumirá com o tempo, foi o que o médico disse. –Laura se aproxima de mim junto ao espelho. Por ele consigo ver também o seu reflexo.
–Ela não me incomoda. – Digo ajeitando meus fios ruivos desgrenhados com os dedos. Laura repara nisso e logo prende sua visão em algo ao lado, acompanho seu olha procurando pelo que ela tanto fita e logo encontro uma foto na cabeceira de minha cama. Lá está quatro largos sorrisos, eu, Laura e nossos pais. Percebo que Laura se parece com eles, os cabelos castanhos da nossa mãe e os olhos verdes de nosso pai. Somente eu não pareço com ninguém.
–De quem eu peguei o cabelo ruivo? –Pergunto quando Laura volta a me olhar.
–Da nossa bisavó por parte de pai. Você é a primeira ruiva da família dês dela.
–Busquei bem longe esse gene em?
–Você sempre gostou do jeito mais difícil!
***
–Porque acordou tão cedo hoje Laura? –Pergunto enquanto tomamos o café.
–Tenho que procurar um emprego. –Ela responde enquanto lê o jornal. –Essa casa não se mantem sozinha.
–E como eu posso ajudar?
–Sendo uma boa garota enquanto eu estou fora. –Laura se levanta colocando seu prato na pia. –Eu volto para o almoço.
Dizendo isso ela sai apressada. Lavo a louça e vou para a sala. Dentre a pilha de filmes que Laura separou para que eu veja escolho “As Patricinhas de Beverly Hills” um ótimo filme em sua opinião. Assisto mais três filmes esperando Laura voltar, “Meninas Malvadas”, “Tudo o que uma Garota Quer” e “A Mentira”. Laura acha que eles são o que preciso para voltar ao colegial. Fico com medo de que na escola só tenha garotas metidas e caras que se acham o máximo, mas Laura disse que na vida real é bem pior, então estou tranquila. E pelas minhas pesquisas recentes em filmes eu acordei com um baita humor negro hoje.
Laura volta antes do almoço como prometido.
–Conseguiu alguma coisa? –Pergunta assim que ela entra em casa.
–Só o nosso almoço! –Ela levanta a sacola que carrega sorrindo.
–Amanhã nós vamos ao médico, tudo bem? –Laura diz enquanto comemos macarronada com molho de tomate.
–Por mim tudo bem. –Digo dando de ombros enrolando o macarrão no garfo. Na realidade tenho medo de voltar ao hospital novamente, ficou marcado como um lugar assustador na minha mente. Mas não quero disser isso a minha irmã, não quero que ela fique triste ou preocupada com isso.
Termino e comer no automático, ainda pensando em estar de volta ao lugar branco e deprimido. Observo Laura arrumar a louça em silencio.
–Por que você está tão quieta? –Ela pergunta sentando ao meu lado na bancada.
–Apenas pensando. –Laura percebe que não quero falar então apenas me acompanha no silencio. Mas isso dura pouco.
–Que tal assistirmos um filme? –Ela me questiona animada. Afirmo com a cabeça. – Eu faço pipoca
Ela pula da cadeira e começa a preparar as coisas. Com a pipoca pronta lá vamos nós rumo à sala.
–Que filme vamos assistir?- Pergunto me jogando no sofá.
–“De repente 30”. Esse filme me ensinou coisas para a vida toda, você vai gostar.
E assim passamos a tarde. Com muita pipoca, filmes, risadas e conversas. E com Laura finalmente me sinto parte de algo, sinto que sou importante para alguém. Não sei muito sobre o assunto de irmãos, mas tenho certeza que Laura é a descrição perfeita de uma irmã maravilhosa. Pois estar com ela me faz esquecer as tristezas e preocupações e me divertir apesar de tudo.
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