Esquecer me lembra você
9 Armário125
Notas iniciais
Acordar de manhã já não parece tão desgastante, me levanto rapidamente assim que o despertador dá o seu primeiro toque.
Arrumo-me e desço, exatamente como faço normalmente, mas Laura não está me esperando na cozinha como sempre.
Um silêncio inquietante reina na casa enquanto bebo meu leite. Sinto a solidão murmurar na brisa fresca que entra pela janela. Não imaginei que sentiria tanto a falta de Laura, ela saiu para sua entrevista de emprego. David realmente cumpriu o que prometeu e falou com seu pai sobre minha irmã. E lá está ela nesse momento, animada com sua primeira entrevista de emprego que pode realmente valer a pena. Torço para que tudo der certo, pois sei o quanto nós duas necessitamos desse emprego. O dinheiro que nossos pais deixaram não vai durar mais do que esse mês, e com todos os custos do hospital nós provavelmente não teríamos nada na geladeira além de uma maçã e um pacote de biscoito meio comido. E é tudo culpa minha como sempre.
David é a minha carona para a escola, e passa a viajem toda tentando me acalmar dizendo que daria tudo certo. Para mim não passava de palavras vazias.
Na escola tudo parece normal, fofocas, jogadores que se acham melhores que todos, meninas populares que se acham melhores que os outros, qualquer babaca que se acha melhor que os outros e eu, perdida no meio de um mar de gente, me afogando cada vez mais.
CK ainda me encara quando passo ao seu lado ou nas aulas que temos juntos, porém eu não o encaro de volta mais. Agora apenas me controlo ao máximo e tento prestar atenção na aula.
David ainda me espera na porta ao final de cada aula, sou escoltada por ele a cada passo que dou entro da escola. Na hora do almoço nos sentamos juntos com “nossos” amigos, que é quando finjo rir de suas piadas.
No meio da última aula sou chamada a comparecer na sala do diretor. Sem entender o motivo minhas pernas tremem enquanto espero para entrar, mas lá dentro todo o nervosismo some.
–Bom dia senhorita Shane. –O diretor diz sorrindo. –Sente-se.
–Bom dia senhor...
– Harper. –Ele completa.
–Harper. –Eu respondo.
–Imagino que a senhorita não saiba o motivo de estar aqui. Andei estudando seu caso e tenho que admitir, você está em uma situação bem difícil. Imagino também que não se lembre da matéria dada até aqui, e pela proximidade das provas finais isso me preocupa muito. Assim cheguei a conclusão de que você devia entrar para o grupo de estudo da escola.
–Grupo de estudo? –Eu o interrompo.
–Sim. É uma reunião diária que acontece depois das aulas, onde alunos ajudam outros alunos. Penso eu que seria de grande ajuda no seu caso. –Ele continua, calmo e sereno.
–Eu acho que sim. Realmente isso poderia me ajudar.
–Ótimo! –Ele se anima. –Você pode começar hoje mesmo. Já avisei ao diretor do grupo. A reunião começa daqui a meia hora na sala 47, que fica ao lado da biblioteca.
–Eu estarei lá, muito obrigada. –Me despeço sorrindo e saio da sala.
Talvez agora eu tenha uma chance de não ser reprovada, afinal os professores não teriam peninha de mim por muito tempo.
Sigo para o meu armário, pego tudo o que preciso. Mas algo me detém, paro para olhas as fotos na porta do armário, me reconheço em todas. Elas mostram quase uma linha do tempo, eu pareço feliz, com meus amigos e com David e até com minha família. Mas uma foto me incomoda, sei que sou eu nela pelos longos cabelos ruivos alaranjados presos em um rabo de cavalo, pareço ter no máximo 10 anos e estou no que penso ser a beira de um lago. No entanto não é isso que me chama a atenção, mas sim o garoto que está comigo na foto. Ele sorri enquanto brinca comigo e seus olhos azuis saltam da foto como se tentasse me dizer algo, algo que eu não faço a mínima ideia do que seja.
Tento me esquivar desses pensamentos fechando o armário, porém sou fuzilada por outros olhos mais perturbadores ainda. Ali está ele me encarando mais uma vez, a uma distância de apenas três armários CK me fita taciturno. Tento não me importar seguindo meu caminho até a sala do grupo de estudo, mas sinto que um pedaço de mim foi roubado por aquele olhar. Sinto a incrível necessidade de voltar para buscar esse padeço, mas não faço isso, apenas sigo meu caminho a passos largos e trêmulos.
No mesmo momento que entro na sala do grupo de estudo me arrependo e tento voltar, mas já é tarde demais. Encontro Beatrice esperando na sala, seus olhos azuis parecem confusos por um estante, porém isso não dura muito.
Sem dizer uma palavra me sento bem a sua frente, coloco minhas coisas em cima da mesa e a encaro por um segundo.
–O que faz aqui? –Crio coragem para perguntar.
–Eu faço parte do grupo. –Ela responde com sua voz de veludo.
–Eu pensei que você fosse uma boa aluna?
–Eu sou. –Ouço quase em um sussurro.
–Então o que faz aqui? –Pergunto já curiosa.
–Gosto de estudar, nunca é demais. –Ela responde em um tom normal, mas não sinto mais confiança.
–Onde está o diretor do grupo?
–Simon já vai chegar. –Pela expressão de seu rosto sinto que foi uma resposta para ela mesma.
Passamos algum tempo em silêncio, até que a porta se abre e entra um garoto por ela, um garoto realmente bonito. Ele é alto e magro, com cabelos de um louro bem claro e olhos incrivelmente verdes, deduzo que tenha a minha idade.
–Eu sou Simon Jenson, o diretor do grupo. –Ele se apresenta sorridente.
–Delly, é um prazer te conhecer. –Olho para Beatrice e ela parece brilhar, instantaneamente entendo o motivo de ela estar aqui.
Simon é realmente muito atencioso comigo, me explicando mil vezes tudo que eu não entendia. Bea também se mostrou prestativa, a não ser quando estava babando por Simon. Mesmo com sua paciência muitas coisas não conseguiam entrar na minha cabeça e estávamos apenas em uma matéria. Nesse momento todas as minhas esperanças foram por água a baixo. Como eu poderia aprender em tão pouco tempo o que todos levaram a vida toda para assimilar?
Depois de algumas horas decidimos que já estava de bom tamanho para um único dia.
Acabei indo para casa a pé na companhia de Beatrice, a garota doce de 15 anos que por tamanha inteligência estava adiantada na encola e que era perdidamente apaixonada pelo diretor do grupo de estudo no qual não precisava participar.
–Você é apaixonada por ele. –Afirmo no meio de nossos passos calmos.
–O que? –Bea pergunta parecendo nervosa.
–Você é apaixonada por Simon. É por isso que frequenta o grupo. –Reafirmo com segurança.
–É tão obvio assim?- Ela pergunta enquanto fita o chão envergonhada.
–Sim. –Solto um riso abafado.
–Podemos não falar disso?
–Só se me fizer um favor. –Eu digo e ela levanta a cabeça.
–Qual?
–Me diz tudo o que você sabe sobre o CK.
***
–Por onde você quer que eu comesse? –Ela pergunta, estamos sentadas em um dos bancos da praça no centro da cidade.
–Pelo início.
–Eu não sei tanta coisa.
–Apenas diga tudo que sabe.
–Ele estuda na escola dês de quando eu me lembro, não tem nenhum amigo e sempre se mantem recluso de todos. Ele não atrapalha, mas também não é um aluno prestativo. No entanto os professores não costumam pegar no seu pé, eu particularmente acho que eles têm um trato ao algo parecido.
–Porque você acha isso? –Pergunto intrigada.
–CK é o hacker da escola, e todo mundo sabe disso. Até mesmo o diretor, mas ele nunca foi chamado ou castigado por isso.
–Hacker?
–Sim, ele faz vários serviços para os alunos, é claro que pelo preço certo. –Bea afirma virando os olhos.
–Que serviços? –A história me intriga cada vez mais.
–Gabarito das provas, mudança de boletim, invasão do site da escola, e muitas outras coisas ilegais e absurdas.
Então ele é um solitário e misterioso que me deixa mais curiosa a cada informação nova que consigo.
Uma onda de euforia percorre meu corpo, agora mais que tudo eu preciso saber mais sobre esse tal rapaz. Talvez ele possa me ajudar a resolver grande parte dos meus problemas atuais, ou talvez ele me traga mais problemas. O que também não seria nada mal dada às circunstâncias.
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