Esquecer me lembra você
10 Encruzilhada
Notas iniciais
–Você está pronta? –Laura pergunta preocupada e eu afirmo com a cabeça.
Minha mão treme da maçaneta da porta, eu estou surtando de tão nervosa. Laura olha para mim com as sobrancelhas levantadas, ela também está nervosa. Então ela segura minha mão e eu a aperto com força. Ainda estou com medo, mas junto minha única gota de coragem e abro a porta. Nós duas entramos na sala e nos sentamos em silêncio, sinto a tensão no ar aumentar.
O médico a nossa frente solta um longo suspiro. E é nesse momento que um flash dos últimos dias passa na minha cabeça.
Tudo tem se tornado monótono. David e sua redobrada atenção em mim a cada segundo, como se eu pudesse quebrar a qualquer momento. Depois das aulas eu vou até a reunião do grupo de estudo, onde Simon e Bea tentam me ajudar com as matérias e quando eles cansam de tentar me ensinar alguma coisa volto pra casa com Bea. E foram as conversas que nós temos no caminho que fez com que nos aproximássemos cada vez mais até se tornarmos amigas. Laura conseguiu o emprego no escritório do pai de David, ela está muito animada, mas isso me faz ficar sozinha em casa a maior parte do dia. Ainda continuo sem coragem de ler o diário e isso anda me consumindo ultimamente, estou dividida entre o medo e a curiosidade. A minha investigação em cima do misterioso CK ainda não rendeu muito, o que me faz perguntar a mim mesma todo dia o porquê disso, mas eu simplesmente não sei a resposta. Apenas me sinto perdida no meio de tudo e não consigo ver a distante luz de um farol para me guiar.
–Muito bem. — Dr. Topher quebra o silêncio estranho que se formou no consultório.
–Eu estou com os resultados de todos os exames. –Ele dá uma longa pausa, e eu aperto forte a mão de Laura.
O médico respira bem fundo e continua.
–Eu vou tentar explicar tudo da forma mais simples que eu consigo. Pelos exames nós vimos que não se formou nenhum dano no cérebro. –Ao meu lado vejo Laura soltar o ar pela boca aliviada. –Não conseguimos ver nada que indicasse o motivo dessa perda de memória. Mas achamos uma explicação para isso... Nosso cérebro faz novas ligações a todo o momento, os neurônios formam uma cadeia de conexões que basicamente contém tudo. Mas com o acidente, o coma e tudo mais o seu cérebro desfez algumas dessas conexões. Como uma forma de te proteger o seu cérebro ele cortou a linha com a maioria de suas memórias.
–Mas por quê? –Eu pergunto e o rosto do médico se transfigura em uma triste.
–Nós não sabemos. –Ele responde duro.
Desta vez é Laura quem aperta minha mão, olho para o seu rosto e vejo lágrimas escorrendo por ele, é então que percebo que no meu elas também existem.
–Mas não há um jeito de resolver isso? –Questiono.
–Talvez. Com a estimulação correta a uma chance que as memórias voltem aos poucos. –Diz ele pausadamente.
–Em quanto tempo de tratamento? –Ouço Laura pergunta.
–Não sabemos ao certo, talvez meses ou anos.
–E qual são as chances de dar certo? –Forço a minha foz falha a perguntar.
–Mínimas eu sinto em dizer. –De uma fez ele acaba com todas as minhas minúsculas esperanças.
Sinto as lágrimas correrem com força no meu rosto. Então apenas me levanto e corro para fora do hospital, com todas as minhas forças, sem ouvir nada atrás de mim. Corro sem rumo pelas ruas da cidade, até que me encontro em um parque. O mesmo parque que tantas vezes parei com Bea para tomar sorvete ou conversar. Transtornada me jogo em um dos bancos e me permito chorar, chorar com todas as minhas forças, por tudo o que tanto tempo ficou aprisionado para fora, chorar enquanto vejo tudo o que ainda restava ser destruído e ver eu mesma destruída. Chorar é tudo o que me resta.
Quando já não há mais lágrimas para serem choradas apenas seco o meu rosto e me permito olha para cima. A praça não está cheia, mas também não esta vazia. O carrinho de pipoca ainda está no seu lugar de costume, o vento sopra fresco como sempre, as crianças brincam e correm pelo playground, casais de namorados se beijam no meio de juras de amor, amigas fofocam sobre garotos, pessoas correm tentando manter a forma. Tudo parece calmo, o mesmo de outros dias. Mas algo fora do lugar me chama a atenção.
Do outro lado do centro do parque uma menina sentada sozinha em um dos bancos, ela parece ser apenas um pouco mais velha que eu, seus cabelos curtos de um tom castanho bem escuro dançam com a brisa fresca. Ela parece devagar, fitando o nada pensativa e triste. Algo a perturba. E eu não sei o que é, mas posso deduzir um milhão de coisas. Um coração parido, a saudade de alguém querido, a morte de um amigo, a falta de algo que nem ela mesma sabe o que é, uma doença incurável, um amor não compartilhado, a culpa por algo horrível que fez, o peso da vida sofrida que sempre teve, a despedida, a insegurança pelo caminho que escolheu, a falta de um significado para a vida, a morte eminente talvez. Todas essas possibilidades são possíveis e seja lá o que for ela sente essa dor, sente como se não houvesse mais nada no mundo, como se aquele sentimento terrível fosse a única coisa que sobrou e como se ele fosse permanecer ali para sempre. Eu não sei exatamente pelo que ela está passando, nem o que ela esta sentindo. Mas eu sei que mesmo sendo completamente diferentes, somos iguais.
Cada um tem sua dor, tem seu peso nos ombros. E nenhum sente o peso do outro ou pode comparar tamanho da dor. Porque assim como cada pessoa é única, cada dor também, cada sentimento, cada momento, cada lembrança. Ela está sofrendo pelas memórias que tem de algo doloroso e eu sofro pela falta das minhas. Tantos problemas poderiam ser resolvidos se as pessoas pudessem apenas esquecer o motivo da dor. No entanto eu choro porque quero lembrar de todas as tristezas que tive, das frustrações, angustias, apreensões, medos, traumas. Talvez em vez de chorar eu devesse agradecer por não lembram essas coisas. O problema é que com as coisas ruins, as boas também se perderam, o sorriso dos meus pais, o carinho, amor, alegria, amizade, companheirismo, irmandade. Mas eu preciso aceitar isso, aceitar o que aconteceu e viver minha vida. Eu posso fazer novas memórias, posso viver aventuras e amores, posso ter novos sonhos e medos, posso apenas seguir em frente com tudo de bom e ruim que ainda me resta. Eu só tenho que aceitar, me aceitar desse jeito mesmo e continuar. Só dar um passo atrás do outro como todo mundo. Levantar-me e sorrir.
Olho mais uma vez para a menina, mas ela não está mais lá triste em seu banco, ela se levantou e foi viver mesmo com toda sua angustia.
E é exatamente isso que eu vou fazer, vou viver. Sem tentar ser a Delly que todos esperam que eu seja, apenas vou seguir meu coração e ser quem eu realmente sou. Sem expectativas alheias ou opiniões que não interessam, vou viver como eu sinto que devo. Sem tentar ser ninguém além de mim mesma. E vou começar isso lendo aquele diário idiota.
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