Espíritos Ancestrais
2 2 — A PRIMAVERA TENTA REINAR
Notas iniciais
2 — A PRIMAVERA TENTA REINAR
Com a chegada da primavera tornava-se cada vez mais difícil caminhar sobre o gelo fino, este que derretia gradativamente, tornando-se orvalhos matinais e poças pela tarde. A relva úmida e a fina camada de sol tornavam os dias preguiçosos na aldeia, de modo que seus habitantes limitavam-se a sair ao quintal de suas casas ou se reunirem no Grande Salão, a fim de conversar, contar histórias e preparar-se para as colheitas da primavera.
Sobre o rio ainda pré-congelado, Polaarinen andava calmamente. Não temia o gelo, nem o frio, na verdade, acreditava que nascera dele. O sol tirava-lhe visão, o gelo a fortalecia. A garota caminhava em pulinhos curtos — e perigosos —, e logo atrás dela vinha Kenai, o urso polar. Costumavam dizer que a filha do chefe e seu misterioso urso nasceram juntos, há alguns invernos atrás, um dos mais rigorosos. Após seu nascimento, o inverno passou a durar mais em todo continente. Era uma lenda, claro.
Kenai, o urso polar, estava distraído prestando atenção na fina camada de gelo sob as patas, parecia preocupado. O bafo quente que lhe saia das narinas pareciam chaminés em meio ao gelo, as patas fofas e grandes pisavam com calma, receosas. O pelo branco como a neve o protegia do frio, mas não protegia Polaarinen.
Garota e urso eram como dois em um, não havia Polaarinen se não houvesse Kenai. Ele a protegia, fora assim desde sempre. Era um elo forte que os ligava, maior do que qualquer um poderia explicar, logo, sem explicação, inventavam histórias. Ursos Polares não eram conhecidos por sua gentileza, não eram conhecidos por serem gentis... Eram criaturas selvagens, com um passado sombrio. Todos conheciam as histórias antigas sobre feras que habitavam o continente antes dos Homens, e poucos gostavam delas. Eram feras sem alma, sem consciência.
Mas não Kenai.
O urso protegia a aldeia de ataques e outras feras, era o único lugar no continente a possuir tal tipo de proteção. Por coincidência a bandeira do Clã tinha estampado no azul celeste um urso polar, e como coisas assim eram transformadas em história, logo o Clã de Além da Várzea fora conhecido como o Clã dos Ursos. Kenai era um mistério até mesmo para o pai de Polaarinen, que preferia esconder o motivo pelo qual a filha mais nova era tão ligada ao urso.
Diziam que ambos conseguiam se comunicar, como se o animal falasse e tivesse consciência e alma, como ninguém nunca vira tal coisa acontecer, ficavam apenas na imaginação.
Polaarinen andava ligeiro, ansiosa para chegar à margem do outro lado do lago congelado.
— Vamos, Kenai! Vamos! Há frutinhas do outro lado, lembra? — instigou a em empolgação, passando a usar as pernas curtas para correr livremente sobre o gelo.
Kenai bufou, revirando os olhos.
“— Estou indo, espere-me, Polar!” — disse o urso. E a garota riu ao ouvir a voz macia e protetor do urso polar em sua mente.
[...]
No Grande Salão, no centro da aldeia, o chefe do clã estava reunido com alguns de seus homens. Planejavam proteção. Eram tempos difíceis para os cinco clãs do continente, pois o Rei não seguia mais as tradições, e o povo temia a ira dos Antigos Espíritos.
Mercadores chegavam à aldeia em barcos robustos, com escudos nas laterais e velas vermelhas. Contavam que figuras sobrenaturais foram vistas nas florestas, vagando sem rumo, deixando para trás um rastro negro e sem vida. As árvores começavam a adoecer ao Sul, alquimistas não sabiam o que prever, pois algo assim jamais viera a acontecer. Não neste século.
Começou então a circular boatos, boatos que diziam que os deuses estavam punindo-os, pois as antigas tradições foram esquecidas, insultando-os. De certa forma, estavam certos.
Do trono humilde no centro do Grande Salão, Rodulf, chefe do clã, ergueu-se. A barba lhe descia da pele do rosto bronzeado até metade do tronco robusto, cujos ombros largos e fortes davam ao Jarl um ar de imponência. Na cintura, a espada pendia de um lado, do outro se via um machado de dois lados preso ao cinto. Um broche de urso brilhava sob a luz da fogueira, no lado direito do peito, simbolizando a fera daquele clã. Rodulf possuía um semblante gentil, mas naquele dia, seu rosto demonstrava preocupação e medo. Afinal, não se deve brincar com tradições antigas.
— Amigos! Guerreiros! — a voz reverberou pelo salão.
O silêncio se fez de imediato, deixando só o crepitar da fogueira falar junto ao Jarl. As inúmeras pessoas ali voltaram sua atenção à ele, desde escravas até senhoras de casa com seus filhos, assim como guerreiros e fazendeiros. O ar frio adentrou o salão como se varresse o espaço, e isso fez a fogueira diminuir seu brilho, deixando o medo predominar sobre as sombras formadas.
O chefe, de pé, segurando a caneca proporcional ao seu tamanho frente ao corpo, molhou a boca com hidromel envelhecido antes de prosseguir.
— Todos devem ter escutado os boatos... E temo em afirmar que todos são verdadeiros. — um leve murmurinho levantou-se junto ao povo, mas com um acalentar aceno de Rodulf, o som se dissipou. — O Clã dos Ursos sempre manteve as tradições sujeitas ao nosso povo, sempre honramos nossos deuses, e tradições. No entanto, isso não elimina nossos riscos, pois o continente é um só, logo, a ameaça nos atingirá em algum momento. Não nos prolongaremos mais, os navios já estão sendo construídos e homens reunidos para buscar informação e alianças, peço que não temam à verdade. — elevando a voz, a autoridade acrescentou. — Temam apenas aos deuses, e honrem seus Ancestrais. Fazendo isso, não há porque não ter paz.
Dizendo isso, sentou-se. Em menos de um minuto, a atenção do povo foi desviada, voltando aos seus afazeres diários.
Mas não Rodulf. Este permaneceu no trono, distante. Sabia que aquele dia iria chegar, mas não sabia que seria tão prontamente. Olhando através da entrada do Grande Salão, para as campinas a descongelar, perguntava-se onde esta sua filha e o urso, e se valia a pena envolve-los no assunto. Afinal, ambos faziam parte dele.
[...]
— O que acha que houve aqui, Kenai? — a voz infantil questionou.
Parada à frente de um enorme Carvalho, Polaarinen observava o tronco. Estava podre, exalando um cheiro fétido pelo ambiente. Haviam chegado à outra margem, mas não gostaram do que encontraram.
A árvore parecia doente, parecia pedir socorro. O frio ali habitava, mesmo com os poucos raios de sol. Kenai farejou os rastros negros no chão, mas não associou o cheiro a nada que pudesse conhecer. Sempre iam ali, sempre visitavam a floresta até o ponto demarcado pelo chefe, e nunca antes viram algo tão cruel com a natureza.
“— Eu não sei, criança. Mas... Não deveríamos estar aqui. Não hoje.” — o urso, com as orelhas erguidas e o focinho a farejar, parecia desconfiado. A pelagem branca estava eriçada. O animal não se atreveu sair de perto da garota.
Um estalo, próximo e repentino chamou bruscamente a atenção de ambos, fazendo-os se virarem num salto. Polaarinen, como por extinto, segurou-se ao pelo fofo do animal ao seu lado. Vasculhando o cenário com atenção, nem Kenai conseguiu visualizar nada, nenhum vulto, nenhuma figura conhecida ou desconhecida. Mas por pressentimento, ambos sabiam que havia alguém ali. Sentiam alguém ali.
“— Vamos embora...” — sussurrou o urso na mente da garota, que pela primeira vez o obedeceu sem pestanejar.
Ele abaixou-se e, como de costume, Polaarinen montou em suas costas. Ela abraçou o urso que, num saltou, afastou da floresta o mais rápido que pode, voltando pelo lago congelado, atravessando-o. Quando a garota olhou para trás, tudo que viu à margem foi uma figura escura, sem rosto, sem vida e forma. Tudo que viu fora escuridão materializada, escuridão esta que se propagou, afetando outras árvores à volta. Fora tão rápido e repentino, que mais tarde naquele dia Polaarinen chegou a pensar que o medo à fez ver o que queria, e não o que existia.
Kenai não. O urso sabia o que poderia ser, e sabia que a hora que mais temia estava chegando. O momento em que as verdades seriam expostas tão rapidamente quando o gelo que se derretia sob a campina, e sentia medo por isso.
O destino poderia mudar todo o rumo daquele povo. Para o bem ou para o mal, dependeria apenas da fé de cada um enfincada em suas almas. Dependeria apenas deles.
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