Espírito de Revolução
9 Uma Viagem para Boston
Notas iniciais

Após prender os cavalos à sua velha carruagem, Achilles tomou as rédeas, sentado no assento do cocheiro. Para a ocasião, ele havia se barbeado e juntado as mechas de seu cabelo em um rabo-de-cavalo. Entregou para mim um conjunto de roupas comuns entre os colonos. Disse que vestir-me como um colono britânico iria reduzir o estranhamento causado pela minha cor de pele. Para completar o traje, prendi meu cabelo em um rabo e pus um chapéu tricorne em minha cabeça. Levei comigo apenas minha adaga, que, segundo Achilles, poderia ser necessária caso eu me metesse em encrenca. Ele parecia certo de que eu o faria, e, pensando em retrospecto, hoje não posso culpá-lo por isso.
Sentei-me ao seu lado na frente do carro, e após algumas horas passando por longas veredas em meio aos bosques, chegamos à península em que Boston havia sido construída. Fomos recepcionados por uma grande muralha fortificada de pedra. Aquilo em si já era impressionante para mim, que nunca havia estado em uma base militar. Antes de passar pelos portões da cidade, fomos abordados por um par de soldados britânicos que nos olhavam desconfiados, vestidos com os típicos casacos vermelhos. Achilles lhes contou que estávamos na cidade por motivos de comércio, e, após examinar brevemente o interior vazio da carruagem, o soldado nos deixou entrar, mesmo que ainda nos dirigisse um olhar torto.
A carruagem prosseguiu pelo campo militar, onde soldados treinavam e monitoravam os armamentos. Achilles havia me dito que o Exército Britânico havia ocupado a cidade toda pouco mais de um ano antes, depois que algumas revoltas em protesto contra impostos foram organizadas. Após passar por uma ponte, uma segunda muralha, conhecida como Boston Neck, se levantava antes da cidade. Depois disso, a paisagem da cidade começou a aumentar. A carruagem andava em frente a pequenas fazendas modestas, por onde cidadãos trabalhavam e passeavam.
Mas logo a cidade se provou bem maior do que eu imaginava: prédios altos de pedra se erguiam do chão, um ao lado do outro. As ruas amplas demarcavam quarteirões inteiros. Eu ouvia diversas vozes, de pessoas rindo, gritando, anunciando ou discutindo. Tudo me deixava embasbacado. As casas eram grandes, as ruas eram largas, as igrejas tinham torres altas, o número de pessoas era imenso... Tudo era superlativo naquela cidade gigante, que, apesar da fria neve de Março, recebia calorosamente a todos, quer viessem a cavalo ou a navio.
O sol estava se pondo quando Achilles parou a carruagem numa praça movimentada, em volta de um prédio marrom de três pisos com uma torre branca em seu topo e não muito longe dos portos da cidade. No meio daquela praça, pude observar a população: em uma viela, crianças brincavam e construíam bonecos de neve. Em uma esquina, um rapaz flertava com uma moça de vestido. Em frente ao prédio, três homens levavam caixotes para abastecer uma carruagem. Dois homens dividiam uma garrafa de cerveja na entrada de uma taverna, de onde se podia ouvir uma música alegre. Duas mulheres carregando sombrinhas passaram por perto de mim, conversando.
— Não fique encarando — disse-me Achilles, rude, enquanto tocava o meu ombro com sua bengala. — E tente não chamar atenção. Um garoto nativo e um velho negro andando por uma cidade de brancos costumam atrair olhares desconfiados rapidamente. Agora venha.
Ele começou a andar em direção ao prédio, e eu o segui. Continuei fascinado pela vivacidade daquele lugar.
— Esta cidade é incrível! — Eu disse empolgado. — As pessoas. Os sons e os cheiros. Eu poderia andar por essas ruas durante dias, e ainda assim não teria conhecido metade de suas maravilhas.
— Ah, houve uma época em que eu pensava o mesmo, garoto. Hoje em dia eu prefiro muito mais o silêncio do interior.
— Mas.. há tanta vida aqui! Tantas oportunidades!
— Para poucos, meu rapaz. Para poucos... Preste mais atenção à sua volta. — Ele apontou para um casal de brancos que andava alguns metros à frente, na direção oposta à nossa, com olhares focados no porto à frente. — Vê aqueles dois ali?
— Sim.
— O que consegue perceber neles?
Fitei o casal discretamente. O homem segurava o braço da mulher, como se quisesse deixá-la próxima de si. Ele mantinha a outra mão em seu bolso e andava com uma certa velocidade.
— Eles parecem estar com pressa. — Eu disse.
— Oh, claro... — Achilles riu baixinho — Espere que eles passem por nós e veja se continua achando isso.
Andamos alguns metros à frente e o casal continuou seu curso, ultrapassando a nós. Após alguns segundos, pude perceber o homem virando o rosto para eu e Achilles. Quando nossos olhares se encontraram, ele virou-se para sua frente novamente, soltando os braços.
— Enquanto você estava distraído apenas um minuto atrás... — Achilles começou a falar — ...os dois estavam tranquilos e rindo. No entanto, quando eles viram a nós dois, ficaram tensos. Ele segurou sua companheira para mais perto de si e apressou seu passo para nos evitar. Entocou sua mão em um dos bolsos, que, a julgar pelo volume, era onde ele guardava a carteira. Porém, assim que passou por nós, voltou ao seu caminho despreocupado.
Fiquei confuso ao testemunhar pela primeira vez aquela situação tão cotidiana.
— Por quê? — perguntei. — Estavam com medo de nós?
— Decerto uma pergunta intrigante, garoto.
Paramos de andar logo na fachada do prédio marrom.
— Certo, garoto. Este é o Faneuil Hall, o maior mercado público de Boston. Todos os tipos de comerciantes se estabelecem aqui. Dê uma andada por ele e providencie os itens nesta lista. E, claro, tome o dinheiro para fazê-lo. — Ele me deu uma folha de papel e uma bolsa de dinheiro. — Ter dinheiro consigo é o único modo que você tem se quiser obter algum tipo de respeito nesta cidade. Depois que comprar os produtos, leve os vendedores até nossa carruagem e eles encherão o vagão. Enquanto isso, vou falar com alguns contatos meus. Entendido?
Eu fiquei confuso por um instante, mas, obediente, assenti:
— Sim.
— Bom. Agora, quantos anos mesmo você tem?
— Treze. Quatorze no próximo mês.
— Jovem demais. Se alguém perguntar, diga que tem dezesseis. Além disso, você precisará de um novo nome. A sua pele é clara o suficiente para se passar por alguém de sangue espanhol ou italiano. É melhor ser considerado espanhol do que indígena; e com certeza ambos são melhores do que a minha condição.
— Isso não é verdade.
— A verdade e a realidade são coisas diferentes, garoto. Acostume-se.
— Hm. Então como me chamarei?
O velho olhou para cima e pensou por um momento, como se estivesse obtendo uma resposta iluminada.
— Connor. Sim. Esse será seu nome. Agora vá.
Ele seguiu em direção ao norte, e eu permaneci no mercado. Eu andava pelos estandes da feira enquanto mentalizava: “Meu nome é Connor e tenho dezesseis anos”. “Meu nome é Connor e tenho dezesseis anos”. Enquanto eu prestava atenção no discurso dos comerciantes para ver se algum vendia itens de construção, pude ouvir um homem incrivelmente zangado ao lado de uma barraca de peixes. Ele fazia um discurso inflamado contra a Coroa britânica, enquanto dois homens e uma mulher o assistiam. Resolvi ouvir um pouco.
— Já estou de saco cheio disso! Parece que todo dia tem um novo imposto surgindo: uma nova regra, instituída sem nosso consentimento! A Lei da Receita. A Lei da Indenização. Oh, o chanceler Townshend simplesmente documentou esses assaltos e os fez leis! E ainda deve ter pensado “Por Deus, como sou esperto”. Aos diabos! A Constituição diz que temos o direito de recusar! E diz que não haverá tributação sem representação! Agora, digam-me: quem nos representou no Parlamento? Quem falou em nosso nome? Vocês sabem quem nos representou? Claro que não, porque ninguém o fez!
O homem continuou se exaltando enquanto eu analisava os vendedores. Falei com um homem no segundo piso que anunciava vender ferramentas para construções diversas. Me percebi com uma certa timidez ao falar com ele. Ele me olhava de um modo desconfiado e indisposto, mas, tal como Achilles dissera, se tornou bem mais convidativo quando lhe mostrei a sacola de dinheiro. Após uma breve negociação, ele me confirmou que tinha as ferramentas e materiais necessários da lista, mas que a madeira estava em falta. Chamou dois funcionários, e eu os levei até a carruagem de Achilles. No caminho, vi novamente o homem zangado, cujo discurso atraíra mais pessoas, que o apoiavam com mais argumentos, gestos e incentivos.
— Quem está no Parlamento por Boston? Nova York? Virginia? Ninguém! Mas Old Sarum tem representantes. E Newport, Newtown, Seaford, Saltash... Todos boroughs apodrecidos! O que aconteceu com os direitos do povo britânico? O reino britânico está presente dos dois lados do oceano, mas apenas um lado ganha representação. A população de Massachusetts Bay não deveria ser submissa à Grã-Bretanha, e sim parte dela! Então como é que não conseguimos nenhuma cadeira naquela merda que o rei George insiste em chamar de parlamento?
Trinta minutos depois, os ajudantes do vendedor já haviam descarregado tudo no vagão da carruagem. Paguei o preço devido e os dispensei. Falei com outros vendedores, sendo que um deles tinha algumas ferramentas a mais, mas a madeira era escassa para todos, pois aparentemente todos tinham o mesmo fornecedor. Apenas um deles pôde me vender madeira, embora em uma quantidade bem menor do que a necessária. Mas, a essa hora, o discurso enfurecido que eu havia visto antes não era a única confusão nas ruas. Havia sinos tocando, e dúzias de pessoas corriam enquanto gritos podiam ser ouvidos ao longe. Dois rapazes passaram por mim, correndo. Parei-os para perguntar:
— O que está acontecendo?
— Não sabemos. Parece que tem uma confusão acontecendo lá no prédio da prefeitura. A gente tava indo verificar agora!
Um mau pressentimento me alertava. Certifiquei-me de que minha adaga continuava na minha cintura e a postos, e fui correndo para a tal prefeitura, seguindo a multidão pela alameda em direção sul. No caminho, vi homens discutindo com guardas britânicos. A rua que eu havia pegado terminava em uma rua mais larga, cuja extremidade oeste era marcada por um prédio marrom de três pisos, com uma varanda ornamentada em seu centro e um relógio em seu topo. À frente do prédio estava a multidão, composta por sessenta pessoas gritando e protestando para oito ou nove guardas armados com mosquetes, montados em frente ao prédio da prefeitura. Me aproximando do alvoroço, pude sentir a presença de Achilles, e, com a vantagem do “sentido aquilino” de que ele falara, logo encontrei o seu rosto familiar quinze metros atrás da multidão. Ele havia acabado de chegar, e estava claramente tão confuso quanto eu.
— Achilles!
— Connor! — Ele exclamou. — Que balbúrdia é essa?
— Não sei.
— Então vamos descobrir.
Nós dois começamos a nos aproximar do prédio. Um dos guardas falava à multidão, mas nitidamente com medo dela:
— Eu repito: dispersar! Se reunir dessa maneira é proibido.
Os cidadãos logo respondiam.
— Não vamos a lugar algum, maldito!
— Isso! Por que vocês soldados não voltam pra Inglaterra, hein? Estão há dois anos metendo o bedelho na nossa cidade.
O oficial não se deu por vencido e prosseguiu:
— Nada de bom pode sair deste caos! Retornem para seus lares e tudo será perdoado!
Mas novamente vieram respostas:
— Nunca!
— Não até vocês responderem por seus crimes!
Um homem negro de cerca de quarenta anos brandia uma clava e se destacava na frente do protesto. Ele contava com o apoio dos homens à sua volta conforme gritava:
— Vocês todos são putos covardes, apontando mosquetes para gente indefesa! Mas saibam que nós não temos medo de vocês!
A confusão prosseguiu enquanto os furiosos provocavam os guardas. Gritavam-lhes ordens de “Fogo!” e jogavam-lhes bolas de neve. Um homem branco alto e imponente carregando um porrete abriu seu caminho para perto dos guardas para perguntar ao líder:
— Capitão Preston, em nome de Deus, me responda: as armas dos seus soldados estão carregadas? Vocês vão atirar nesses cidadãos?
— Estão sim, Sr. Palmes. — O capitão respondeu em voz alta, embora apreensivo. — Mas não se preocupe, eles só irão atirar se eu ordenar, o que não pretendo fazer!
— Ah, não pretende? — o homem rebateu, irritado — Então você quer dizer que...
— Eu quero dizer que se a ordem não for restaurada, atiraremos se for necessário. Não quero chegar a esse ponto, tanto quanto você. — Dirigiu sua voz aos manifestantes: — Por isso eu clamo a todos: cessem a rebelião!
Ao que uma bola de neve acertou o rosto do capitão, Achilles cutucou meu braço e cochichou:
— Veja.
O velho apontou para o outro canto da praça. Não muito longe dos soldados, dois homens conversavam. Um deles segurava um mosquete, vestia roupas comuns e um chapéu tricorne e tinha um sorriso ameaçador. O outro era austero e portava vestes elegantes de cor azul-marinho. Percebi uma forte semelhança com um dos homens nos quadros do porão da Mansão Davenport: o líder Templário, Haytham Kenway.
— Aquele é... o Grão-Mestre Templário?
— Isso mesmo.
Achilles fitou atentamente o inimigo com um certo ódio, mas também com uma certa surpresa misturada a medo. Em seguida ele me olhou preocupado, como se algo o intrigasse. Levou os olhos de um ao outro mais uma vez e então prosseguiu:
— Se ele está aqui, temos problemas adiante. O capanga ao lado dele também é um Templário. Aproxime-se deles e descubra o que os dois estão tramando. Afinal, esta multidão é um barril de pólvora, e a Ordem é conhecida por acender o pavio de massas como essa.
— Certo. Eu irei escutá-los — completei, lembrando-me de como os Assassinos de antigamente usavam e abusavam dessa tática de espionagem.
— Sim. Vá e não deixe que desconfiem de você.
Andei para a lateral da rua e abaixei meu chapéu. Mantive a cabeça baixa enquanto andava para perto dos Templários, simulando um olhar amedrontado — que não era de todo fingido, visto a fúria do grupo em protesto. Em pouco tempo, eu estava não muito atrás da dupla. Havia um grupo de rapazes conversando sobre a situação, então fiquei perto deles, para não levantar suspeitas. Atentei meu ouvido à conversa dos dois Templários. O homem com o mosquete cochichou ao Grão-Mestre:
— Eu atiro no Preston, então?
— Está louco? — Haytham questionou, obviamente se irritando. — Você não vai matar um oficial britânico em praça pública, Thomas!
— Ótimo, então atiro em quem, chefe?
— Em ninguém! Você vai atirar no ar. Não queremos sangue em nossas mãos; se algum for derramado, estará na responsabilidade de Preston.
— Ah, sim. — Thomas respondeu, com um tom meio zombeteiro. — E quando ele for julgado, colocamos um dos nossos no lugar dele.
— É uma possibilidade. Este tumulto inesperado pode virar a maré a favor dos nossos objetivos, se soubermos manipulá-lo. Então trate de não fazer besteiras.
— Jesus, eu saquei. — Thomas rebateu, meio birrento. — Não precisa ficar estressado.
— Então vá logo! — Haytham sussurrou entre dentes.
Thomas fez um sinal de assentimento enquanto se retirava em direção à alameda logo ao lado. Embora grupos de pessoas estivessem de pé pelo caminho, assistindo às tensões na praça da prefeitura, o Templário ia calmamente no sentido contrário. Haytham podia estar ainda parado no mesmo lugar, mas eu nada poderia fazer quanto a ele. Minha prioridade era cuidar do homem armado. Esperei alguns segundos até seguí-lo com a cabeça baixa.
Thomas caminhou por um minuto para então virar em um beco à esquerda, aparentemente vazio. Eu deveria tomar cuidado: os civis na rua me ocultavam da visão dele, mas no beco nada o impedia de me ver. Essa noção era fruto de meu treinamento com Achilles. Não fosse por isso, eu com certeza teria ido corrido até o Templário, para então quem sabe ser baleado por ele. Eu preferia não morrer, portanto tomei distância e o segui silenciosamente. Assim que ele virou no beco, esperei alguns segundos para me esconder atrás de um caixote e continuar a observá-lo.
Logo ele começou a subir por uma escada de madeira encostada em uma construção na lateral do beco. Ele escalava a escada com uma mão ao mesmo tempo em que segurava o mosquete com a outra. Após subir, manteve-se de pé sob o telhado anguloso comumente encontrado na arquitetura da América Britânica. Thomas pôs-se a andar, para ficar em frente à multidão na prefeitura. Ele já estava quase saindo do meu campo de visão, mas pude notar que estava se agachando para carregar a arma.
Não hesitei e logo comecei a subir a escada também. Chegando ao telhado, comecei a me esgueirar silenciosamente, com cuidado para não escorregar na neve fina. Inclinei-me detrás de uma chaminé e olhei para o Templário. Ele estava ajoelhado nas telhas, com o mosquete ao lado de suas pernas apontado para cima. A multidão aos seus pés agora contava centenas, ainda furiosa, com os soldados ainda em tentativa de acalmá-los. Seus olhos iam ao outro lado da rua, como se estivesse esperando o melhor momento.
Quando eu vi que Thomas estava prestes a disparar, andei calmamente até ele, com a adaga empunhada. Quando estava perto o suficiente, quebrei o silêncio:
— Senhor?
O Templário se virou para mim com um susto logo antes de eu agarrá-lo e imobilizá-lo. Com minha mão esquerda segurei o mosquete e o tirei de sua mão, enquanto me jogava para cima de Thomas, o colocando de costas em cima das telhas. Ele tentou revidar, mas logo em seguida levei minha adaga à sua garganta ao mesmo tempo em que segurava a sua gola, puxando-o contra mim.
— Suas tramoias acabaram. — Eu falei.
Ele me fitou, riu e respondeu:
— Você que pensa, moleque.
Então ouvi um tiro. Ou melhor, todos ouviram. Um dos guardas que protegiam a prefeitura, e não era o Capitão Preston, logo gritou:
— Maldição, fogo!
E os guardas retaliaram na multidão.
Oito balas disparadas, três corpos caídos na mesma hora. O caos se instaurou enquanto os civis começavam a atacar os soldados. Mas quem disparara o primeiro tiro, se eu havia impedido Thomas? E então eu vi. Nos telhados do outro lado da rua, um outro homem segurava uma pistola recém-disparada. É claro: os Templários não iriam querer arriscar, e com dois atiradores, a chance de sucesso era duas vezes maior.
Thomas agora gargalhava com um sorriso entre dentes. Com raiva, joguei-o do telhado para a praça, onde ele caiu em um monte de neve fofa. Observei o conflito que acontecia, mas meus sentidos levaram meu olhar para captar outra coisa: num canto, Haytham estava reunido com um homem uniformizado, e apontando diretamente para mim. Apenas então percebi que eu ainda segurava o mosquete de Thomas em minha mão. Será que Haytham sabia que eu estava com Achilles, ou apenas tinha visto em mim o bode expiatório perfeito?
De qualquer modo, o uniformizado deu ordens para um homem de roupa vermelha, que agora apontava uma arma de fogo para mim, enquanto mais guardas chegavam. Os soldados à frente do prédio ainda atiravam contra a multidão em pânico. Não hesitei, dei meia-volta e desci pela escada o mais rápido que pude. Eu deveria encontrar Achilles, mas ele e a carruagem ainda estavam no meio da confusão, e eu precisaria despistar os guardas antes de voltar para lá. Comecei, então, a correr na direção oposta. Depois de atravessar uma rua completa, virei à direita, em uma avenida relativamente vazia (as pessoas ainda se dirigiam ao prédio da prefeitura, e os tiros aleatórios de guardas desorganizados ainda podiam ser ouvidos) e parei um pouco para tentar recuperar o fôlego. No entanto, apenas um minuto havia se passado até eu ouvir um grito:
— Lá está ele! O selvagem que disparou a primeira bala!
Quem disse aquilo era um homem de casaco vermelho que acabara de sair de uma avenida a oeste, junto a outro soldado e ao mesmo homem que estava falando com Haytham, que parecia ser algum capitão ou oficial de alta patente. Com certeza eram parte de uma patrulha em busca de mim. Comecei a andar com pressa no sentido oposto, mas os soldados aceleravam o passo junto comigo. Pude ouvir um deles exclamar:
— Rapaz, venha conosco ou teremos que atacar!
Virei numa rua à esquerda e, não vendo lugar para me esconder, preparei-me para enfrentá-los. Assim que eles se aproximaram de mim, saquei minha adaga para me defender dos ataques que inevitavelmente viriam. Assumi posição defensiva e, ao perceber isso, um dos soldados avançou em mim com a coronha de um mosquete em riste. Usei a lâmina para desviar seu golpe, e meu pé para fazê-lo tropeçar. Ao que eu finalizava o movimento, o outro já estava prestes a me atingir com a baioneta de sua arma. Com um salto para a esquerda, seu mosquete perfurou apenas o ar, e aproveitei isso para tomar a arma para mim e dar uma coronhada no rosto do homem.
Quando vi, o capitão estava logo à minha frente, brandindo ameaçadoramente uma espada, mas sem perceber que suas pernas estavam abertas e que meu pé iria logo chutar sua virilha. Enquanto ele, atordoado, levava as mãos aos testículos para acalmar a dor, eu ajoelhei seu nariz e o joguei com força para trás. No entanto, eu não soube se ele havia desmaiado ou não, pois saí correndo para me esconder por entre os becos, correndo de volta ao Faneuil Hall.
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