Espiral de Fogo

2 I. Notícias mortais


Notas iniciais
Então galera, finalmente apareci para atualizar a fic. Eu não pude postar antes devido a uns bugs do Nyah, mas agora já está tudo resolvido. Espero que gostem :3

Térreo, Biblioteca Vítrea, Monte Olimpo, século XIV.

A luz solar penetrava pelas paredes de vidro que constituíam o edifício onde a biblioteca estava instalada e iluminava duas figuras distintas, sentadas a sombra de uma das enormes estantes. Dois irmãos, diferentes tanto na aparência quanto na personalidade.

Zeus se parecia com um veterano de guerra. Alto e musculoso, possuía cabelos loiros rentes e olhos azuis como eletricidade, fulgentes em um rosto cinquentenário profanado por uma cicatriz que se iniciava na testa e descia transversalmente até a mandíbula. Hades era seu oposto. De pele morena e corpo franzino, usufruía de cabelos negros e olhos dourados e serenos, que em nada condiziam com seu caráter.

— E nunca o teria chamado se o assunto não fosse sério, irmão. — foi o Senhor dos Raios quem iniciou a conversa.

— Diga logo o que quer, Zeus. — disse Hades, visivelmente irritado com a luminosidade do local.

— Uma desgraça nos acometeu. Um evento grave que poderá repercutir no fim do mundo.

Hades revirou os olhos. Havia ouvido aquela mesma frase inúmeras vezes.

— Quem é a mãe de seu filho?

— Um filho? Quem dera. Pelo menos eu poderia exterminá-lo com um estalar de dedos, como tenho feito desde que o conselho olimpiano atingiu o décimo segundo membro. Infelizmente a nossa questão não é tão simplória assim... Foi ontem. Em Asgard...

— Asgard? — interrompeu Hades. — Os assuntos nórdicos não nos dizem respeito. Se Odin não consegue cuidar do próprio reino, não é problema nosso.

—Agora a questão engloba todos os reinos. O dele, o nosso, não interessa. Ambos estamos ameaçados pois a Morte, meu irmão, libertou-se.

Hades apenas encarou-o, estático, por longos segundos. Não sabia o que pensar. Hell fazia parte de um passado que ele gostaria de esquecer.

— O quê?! — foi tudo que sua surpresa lhe permitiu dizer.

— Você me ouviu. Hell libertou-se. A portadora da Morte está solta no mundo como uma folha desprendida do galho, ávida para nos matar.

— Nós mantivemo-la encarcerada por 17 mil anos. Podemos muito bem encarcerá-la novamente.

— Hell nunca esteve presa de fato, ela nos fez de bobos durante todo esse tempo. A Morte possuía a chave do Helgrid durante todo esse tempo e os selos nunca passaram de um mero cisco para ela, algo que ela sempre pode desfazer com um suspiro. Nenhum de nós jamais viu algo semelhante.

— Até a descendência de Loki é traiçoeira. — disse Hades, ainda surpreso. — Provavelmente estava maquinando alguma perfídia. Eu poderia facilmente pressupor os planos dela, mas quando se trata de Hell as aparências são a coisa mais enganosa em que se pode acreditar.

— Você sabe disso melhor do que ninguém, não é irmão? — o leve sorriso de Zeus desandou quando este percebeu a expressão anuviada no rosto do irmão. — Hell deixou marcas no passado de todos nós. Eu sequer me lembro dela e creio que Perséfone ajudou-o a esquecer. Nosso único problema é Poseidon. A tortura, tratamento de choque e o sofrimento induzido e o casamento contratual com Anfitrite não o ajudou a esquecer a deusa do Inferno. Ele buscará pela verdadeira amada na primeira oportunidade.

— Será que ela ainda o ama? Hell possui o coração dele, não somente de forma metafórica. Nosso irmão arrancou seu órgão vitalício do peito e o entregou a Morte, tornando-se assim manipulável. Talvez ela queira apenas o apoio militar que Poseidon tem a lhe oferecer, talvez não. Se ela ainda nutrir sentimentos por ele, estamos perdidos.

—Nós já estamos perdidos, Hades. — disse Zeus. — Porém eu e Odin tomamos algumas precauções em conjunto. Ele mantém Idum como refém, como meio de atrair Hell para uma armadilha. Muitos homens morrerão, mas precisamos deter a Morte mesmo que por alguns segundos. Há uma patrulha revistando Atlântida nesse exato momento. Talvez capturem Poseidon.

— Por quê?

— Porque o desgraçado está aqui nesse exato minuto, nos espiando.

— O quê?

— Não pergunte. Apenas abaixe.

Zeus rebentou em raios antes mesmo que Hades pudesse chegar ao chão. A eletricidade coriscava mortalmente por todos os lados e mesmo em sua forma amorfa conseguiu agarrar um pescoço vaporífero com as mãos elétricas.

Pousaram no chão com intensidade suficiente para rachar o vidro. As mãos de Zeus fechavam violentamente ao redor do pescoço do irmão, o ódio cintilando em seus olhos enquanto nos olhos do outro só havia a dor da asfixia.

— He... He... He...— o deus dos mares murmurava.

— Desista, se chamar o nome dela é o que você pretende. Ela não o ouvirá. Ela não virá. Ela não se importa com você. — Zeus apertava mais o pescoço do irmão a cada nova palavra proferida.

Hades, já de pé, observava a cena com desprezo. Ele estaria no lugar de Poseidon se não tivesse se livrado daquele destino. Ao redor dos deuses, os livros ardiam em um incêndio causado pelos raios de Zeus. A fumaça enchia cada vez mais o ar, mas nada disso importava.

Zeus lançou um último olhar ao deus dos mares. O rosto estava roxo devido à asfixia e os olhos cheios de água, a boca aberta clamava pela menor quantidade de ar que fosse. Uma espada trevosa cresceu nas mãos de Hades e ele a desembainhou com um único e rápido movimento, fazendo a lâmina negra cintilar sinistramente a luz do fogo.

O deus dos mortos elevou a arma acima de sua cabeça e baixou-a em direção a cabeça do irmão estrangulado. O movimento teria sido fatal se Poseidon não tivesse se dissipado em vapor no último segundo, deixando apenas o vidro para ser atingido em lugar. Hades puxou a espada com tanta força que fez as rachaduras se espalharem ainda mais rapidamente.

— Apareça, covarde!— gritou Zeus, indignado. — Prodóti! Você trocou a sua família por uma meretriz qualquer! Você pagará! Vou te enviar para o quinto dos infernos e espero que aquela sanguessuga devore todo seu ectoplasma!

— Zeus! Canalha! — a voz de Poseidon ressonou amplificada — Você nos separou uma vez, não o fará novamente!

— Você é um traidor, Poseidon! — Hades gritou em resposta — Você trocou a sua família por uma meretriz qualquer!

— Meretriz é a sua esposa! — Poseidon gritou com fúria —Você só consegue sentir inveja. Hell me escolheu ao invés de você, Hell me deu o amor que não deu a você. Hell nunca te deu o poder que você queria, mas ela o poupou! E como você retribuiu? Contou onde estava Kiton!

Hades se viu deitado, com a bochecha de encontro ao chão e uma espada lhe fazendo pressão na nuca, pronta para mutilar sua carne. O calor no ambiente se tornava a cada momento mais insuportável enquanto toda história humana até o seguinte momento era consumida, porém a única coisa que importava para os Três Grandes era o embate que se travara entre eles.

Zeus saltou sobre Poseidon como um felino, lançando-o contra o chão rachado e fazendo sua espada rodopiar para longe. O Senhor dos Raios tentou em vão apertar novamente o pescoço do irmão, mas Poseidon, precavido, chutou o estômago do irmão, arremessando-o aos ares e rolando para os ares.

Hades tentou novamente golpear o Deus dos Mares com sua espada negra, mas Poseidon fora rápido o suficiente para paralisar o golpe com sua lâmina azul. Fagulhas voaram e se misturaram ao fogo no mesmo instante que a espada prateada de Zeus crescia em sua mão.

A partir daí o duelo se transformou em uma dança mortífera. Poseidon tinha que repartir seus golpes para duas espadas e provavelmente teria morrido na primeira investida conjunta de seus irmãos se não fosse um ótimo esgrimista. Havia duelado sozinho contra os dois durante toda sua vida, tinha prática suficiente para decapitar ambos.

O deus dos mares desviou de uma estoca de Hades e saltou para trás, tão alto quanto poderia. Fechou a mão direita em punho e precipitou em direção ao chão vítreo, estilhaçando-o com um urro potente. As paredes estouraram devido ao impacto e o calor e os três deuses saíram caindo pelos andares inferiores, estraçalhando pisos e paredes, trazendo consigo uma chuva de destroços de vidro e chamas.

Poseidon pôs-se de pé com a espada ainda estava bem segura em sua mão direita. Observou enquanto os destroços ao seu redor se incendiarem. Girou o corpo bem a tempo de receber uma nova investida de Zeus. Desviou o golpe do irmão, mas mesmo assim foi ferido no ombro.

Pulou para trás e atacou-o com sua espada, mas Zeus afastou a lâmina com as costas da mão.

— Olhe só para si mesmo, Poseidon. — caçoou — O amor lhe enfraquece.

Ele avançou novamente com um golpe na altura do estômago do deus dos mares, mas Poseidon conseguiu se defender e devolver uma estocada. Zeus desviou-se facilmente para trás.

O corte no ombro de Poseidon doía, mas ele não poderia se render. Quando Zeus investiu novamente, Poseidon saltou para trás e transformou o braço esquerdo em um jato de água que explodiu contra Zeus com força descomunal.

A força da água arremessou o deus para longe, fazendo-o tossir água em seus pulmões. Mas, antes que Poseidon pudesse novamente agir o Senhor dos Raios rolou para o lado e pôs-se de pé.

Poseidon atacou e fez um corte diagonal no peito do Zeus, mas a cor de seu próprio icor não pareceu intimidar o Senhor do Olimpo. Zeus encolheu os ombros e abriu os braços, dissipando-se em raios que acertaram em cheio o Senhor dos Mares.

Poseidon foi arremessado para o outro lado do cômodo destruído e caiu imóvel aos pés de Hades. O deus dos mortos estivera ali o tempo todo, apenas esperando para ver qual de seus irmãos mataria o outro primeiro.

Zeus avultou-se diante deles, em uma coluna de eletricidade. Estava ferido em todas as partes de seu corpo, mas seus ferimentos eram compostos basicamente por escoriações. Agachou-se e agarrou o pescoço de Poseidon. O Senhor dos Mares ainda estava vivo, apenas fraco demais para se mover. Voltou seus olhos cor de mar para o rosto do rei dos deuses, mas neles não havia nenhuma centelha de súplica.

— Estou cansando de sua ousadia, Poseidon. — Zeus disse.

Ergueu o irmão pelo pescoço e correu tão rápido quanto um leopardo para o outro lado do Olimpo, até uma das beiradas da colossal montanha.

— Oi nekroí katavróchthise . — Zeus disse, afinal. E arremessou o irmão, em direção as nuvens, como se o irmão fosse um saco de batatas.

Poseidon rompeu as nuvens rapidamente, e a escuridão o engoliu, com o vento gritando em seus ouvidos.

Notas finais
Então, isso é tudo :3 Deixem as opiniões de vocês, ela é super importante. :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.