Lílian colocou as mãos nos bolsos de sua capa, ouvindo o garoto falante ao seu lado.

Sua versão do quinto ano jamais, em nenhuma hipótese, pensou que teria uma ronda em que aproveitasse o monólogo interminável de James Potter. Perceber que ele não era burro como ela presumiu que ele fosse, a deixava nervosa, o que a impossibilitava de olhá-lo nos olhos. Notar o sorriso realmente bonito que ele tinha também a deixava com o estomago dando reviravoltas como se ela fosse ter um choque elétrico a qualquer momento.

“Meu Deus...”, pensou Lílian, mordendo seus lábios, realmente nervosa. “Droga, quando ele ficou tão bonito?”

— Desculpe, eu estou falando demais, como sempre... — desculpou-se, coçando a cabeça com a varinha ainda em Lumus, iluminando toda a bagunça que chamava de cabelo. — Quando eu falo demais, Remus me aperta aqui...

Ele tocou a nuca.

— Não sei como, eu só sei que apago. — Lílian o olhou horrorizada e James riu dando de ombros. — Eu preciso disso às vezes.

Ela assentiu, voltando a olhar o chão enquanto eles andavam pelo corredor do sétimo andar. No começo, quando ela descobriu que seu companheiro de monitoria seria ninguém menos que James, ela estava determinada a ignorá-lo, e o fez. Ela conseguia ficar duas horas inteiras fingindo que não tinha ninguém ao lado dela falando descontroladamente e assustando-se com o gato do Filch.

Após o recesso de Natal, ela fazia uma força quase descomunal para não rir das idiotices que ele falava. No começo do sexto ano, ela já se rendia a uma risadinha ou outra, mas mantinha a distância, só se comunicando com ele quando muito necessário. Só que era simplesmente impossível ignorar James Potter.

— Você ouviu isso? — James parou próximo de Lily. A versão dela do quinto ano teria dado vinte e cinco passos para trás, certa de que ele estava armando algo para cima dela. Porém, aquela Lily desenvolveu uma confiança no garoto. Observou os olhos castanhos do garoto, concentrado, tentando ouvir algo. Estavam próximos o suficiente para Lily sorrir para suas imperfeições, admirada com suas sobrancelhas grossas. Quando ele bateu seus olhos em Lily ela desviou, virando o rosto, fingindo estar concentrada no suposto barulho. — Isso tem cheiro de Sirius Black.

— O quê? — ele fez ‘sshhh’ para a garota e pegou em seu pulso.

Outra Lily teria se soltado e dado na cabeça dele com o punho fechado.

Mas essa Lily acreditou nele, sendo arrastada pelo corredor escuro em direção de um armário de vassouras.

“Ele vai tentar abusar de mim”, pensaria outra Lily “Vou amaldiçoa-lo aqui e digo que foi legitima defesa”.

“O que será dessa vez?”, pensou essa Lily “Vamos rir desse susto como rimos semana passada da Madame Nora?”

Ele sorriu para Lily antes de apagar a luz. Ela assistiu o garoto no escuro encostar a orelha na porta do armário e soltar o pulso de Lily. Ela sentiu uma leve decepção, como se ele tivesse terminado um namoro com ela. Ele aproximou-se do rosto de Lily tão rapidamente que ela sequer teve reação, James sorriu lentamente e colocou o dedo indicador na frente da boca, indicando silêncio. Em um segundo, sua varinha havia acendido novamente e James abrira a porta violentamente, com um barulhento “peguei!”.

— WOW! — berrou James, Lily o empurrou para ver o que era e também abriu a boca de horror. Marlene McKinnon estava em um lado da parede, congelada, e Sirius na outra, também paralisado.

— Oh meu Deus, Marlene! — exclamou Lily, chocada.

— Ok, o que vocês viram exatamente? — disse a loura lentamente, apenas de sutiã. James cobriu a boca, chocado com a visão.

— Línguas, mãos... Toques... Foi horrível! — disse James. — Vocês são meus batedores! Eu me sinto traído!

— Bem, ela me empurrou aqui dentro. — Sirius deu de ombros, tranquilo. Marlene o olhou, chocada.

— Você estava em cima de mim! — defendeu-se ela.

— Eu caí. — retrucou Sirius.

— Por uma hora??? — esganiçou Marlene.

— Como??? Vocês nem se falam! E McKinnon, eu pensei que você fosse um de nós! — James bateu o peito. — Pensei que você... Gostasse... Do que nós gostamos.

Os três olharam James de olhos semicerrados e ele soube que estava sendo julgado.

— Então vocês estão namorando? — indagou Lily.

Sirius gargalhou e Marlene retorceu o rosto em horror.

— Claro que não, você enlouqueceu? Ele é tipo dez centímetros mais baixo que eu! — disse a McKinnon, colocando sua camiseta.

— Olha, nós vamos indo. Não posso receber detenção porque tecnicamente já estou cumprindo uma então... — Sirius colocou uma mão no ombro de James e outra na de Lily. — É isso, boa noite.

— Vamos, amor. — Marlene e Sirius deram as mãos e sumiram no breu no corredor. James olhou para Lily e os dois ficaram alguns segundos em silêncio, tentando entender o que tinham acabado de ver. Então riram, de descrédito e nervosismo. Ela colocou um pouco de cabelo atrás da orelha, ainda rindo. Outra Lily teria simplesmente dado as costas, voltado para a ronda. Mas essa Lily queria que James se aproximasse. Ela não sabia muito bem para o que, mas não seria a Lily do quarto ano que quebrou seu nariz quando ele tentou lhe roubar um beijo.

Entretanto, James apenas apagou a luz do armário e fechou a porta, ainda com a varinha acesa, indicando que deveriam finalizar a ronda.

— Vamos, Miss Evans? — ela agradeceu aos deuses quando ele desviou a varinha, assim ele não veria as reações gritantes em seu rosto toda vez que ele a chamava de miss Evans. Todos os dias ela o conhecia melhor do que no dia anterior, um novo tique ela não tinha notado, alguma palavra que ele gostava de repetir... Doía em sua arrogância admitir que todos aqueles anos perdidos foram pura estupidez. Tudo que ela precisava era passar algum tempo com ele, porque realmente, era fácil detestar James Potter apenas ouvindo algumas frases soltas, do tipo “Como se escreve Experlliarmus, professora?”, “Como assim McKinnon tirou uma nota maior que a minha? Eu sou o melhor nessa matéria!”, “Eu mataria você se isso fosse me dar a chance de ficar com uma veela”.

“Como eu cheguei aqui, Deus...”, lamentou Lily, passando a mão no rosto reprimindo todos os seus sentimentos com todas as suas forças.

— Dá pra acreditar nisso? — riu James, virando-se apenas para dar uma conferida em Lily, que andava um pouco atrás dele. — Você pensa que conhece os amigos... Tinha que ser Sirius.

— É... — concordou ela.

“Se ele olhar meus olhos, ele vai ver... Todos vão ver... Está escrito na minha cara”, pensou ela, desesperada. Finalmente encontraram os monitores do 5º e 7º ano, trocando relatos. Eles entraram na Sala Comunal da Grifinória e Lily fingiu interessar-se pelo quadro de avisos, torcendo para que todos subissem logo e ela pudesse ficar sozinha com James.

Tom Waits — I Hope That I Don't Fall In Love With You

Olhou de canto de olho o garoto despedir-se de um colega do quinto ano, esparramando-se no sofá. Assim que os outros sumiram, Lily colocou uma mecha de cabelos atrás da orelha, nervosa. Não sabia o que falar, ele era tão diferente de tudo que conhecia... Não tinham muito em comum, e eles viviam em um monologo. Ela uniu as mãos na frente do corpo, procurando palavras enquanto garoto parecia procurar algo em seu bolso, com o óculos escorregando pelo nariz torto.

— Bem... Boa noite, então. — disse Lílian.

James sorriu para ela, assentindo.

— Boa noite, Miss Evans. Durma bem. — ela sorriu para seus pés e virou-se em direção do dormitório. Parou no primeiro degrau e virou-se, observando o cabelo bagunçado do garoto sentado no sofá, anotando algo em uma cardeneta. Quis aproximar-se dele. Sentar ao seu lado e pedir para que ele analisasse novamente a probabilidade de Dumbledore ser Merlin disfarçado. Ou que simplesmente falasse mais da vez em que ele viu a Lula Gigante com seus próprios olhos...

Outra Lily já estaria de pijamas, irritada por ter sido forçada a ficar no mesmo ambiente que James Potter.

Aquela Lily subiu as escadas quase a força, rezando para que ele passasse as duas horas do dia seguinte falando sem parar.

Notas finais
Lily, sinto te dizer, mas você ta in love sim. Espero que gostem!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!