Esperar
1 Capítulo Único
Ele chegou cedo, talvez uns dez ou doze minutos antes. Sentou-se nas escadas e aguardou. Estava quente como era próprio do horário. A luz do Sol atingia o chão com força total, e pouco demorou até ele começar a suar. Limpou a testa e as têmporas com as costas das mãos. E aguardou.
Ele dizia para si mesmo para não se importar com o horário. Para deixar o tempo passar. Ela chegaria quando teria que chegar, e imaginar-se tentando apressar isso era inútil. Mas a ansiedade era grande, e isso pouco adiantava. Acabou olhando para o relógio mesmo assim. Faltava cinco minutos agora.Um trem chegou. Uma leva de pessoas saiu, todas passando ao lado dele para sair. Alguns instantes depois o trem do outro lado da estação chegou. Mais pessoas saíram, dessa vez para a outra saída. Bisbilhotou o relógio de novo. Quase lá.Tentou manter a aparência de calmo. Limpou o suor de novo. Fitou os pés, as paredes, a ponta dos dedos. Tinha se esquecido de cortar as unhas, merda. Mas não faria diferença. Deus, rezava para que não. Brincou um pouco com o cadarço, parando imediatamente quando outro trem chegou.Ele tentou parecer despreocupado. Viu as pessoas saírem sem tentar demonstrar apreesão. Mas ela não apareceu, e o disfarce se desfez mais rápido do que ele gostaria.Olhou o relógio. Estava atrasada alguns minutos, mas isso não era um problema. Ela chegaria no próximo trem, ou no que viria depois.Ele tentou repetir o pequeno teatro. Um segurança o olhava de esgueira, tentando disfarçar a curiosidade. Tudo bem, não fazia diferença. Repetiu o pequeno ato mais uma vez quando outro trem chegou, mas a ausência dela entre as pessoas que saíram foi como um balde de água fria. De repente, ele não conseguia mais disfarçar mais nada.Pegou o celular. Ela estava mesmo atrasada. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Ligaria? Não, não queria parecer desesperado e nem chato. Mas também... Eles tinham marcado para se encontrarem ali, não tinham? Tudo bem ela demorar, mas... Isso já era um pouco demais.Ele limpou o suor. Tentou, pelo menos. Suas mãos já estavam encharcadas, e isso fez apenas com que o suor se espalhasse ainda mais. Pensou em limpar com a camisa, mas... Não.Esperou. Um trem, dois trens. O segurança tinha mudado de olhar, e o fitava agora com uma expressão de pena. Talvez tivesse entendido o que se passava. Ninguém fica uma hora sentado do lado de fora de uma estação, ainda mais com um calor desses, se não para esperar alguém.Olhou o relógio. Pegou o celular. Nada, nada, nada. Não parecia mais nem mesmo um grande atraso. Ela não viria.Ele esperou mais um trem chegar. Demorou mais que os outros, e quando as portas se abriram, ele não pôde deixar de sentir o coração bater mais forte. Muita gente saiu... E nenhum daqueles rostos era o que ele esperava.Ele olhou pra baixo. Pros cadarços, pras unhas que tinha esquecido de cortar, pro chão que estava ficando encharcado com o suor que pingava do rosto dele. Um gosto amargo começava a se formar na sua boca. Parecia bile, mas lembrava uma outra coisa. Um pouco mais profunda, um pouco mais interior.Ela não viria.Levantou-se. O guarda olhou para o outro lado, mas seus olhos continuavam nele. Por um momento, o rapaz só queria que ele parasse de olhá-lo. Não conseguiria suportar isso por muito mais tempo. Precisava sair dali.Foi embora sob o Sol forte. O suor descia de seu rosto e chegava até o queixo, quente, descendo rápido demais. Ele limpou o rosto com a camisa mais uma vez. Seus olhos ardiam, e o suor não parava de escorrer.No meio do caminho, ele foi acometido por duas sensações bem distintas. Uma era a do gosto ruim, que fazia ele querer cuspir no chão. A outra era um estranho alívio; uma sensação parecida com aquela de quando tiramos algo que incomoda, como uma pedra dentro do sapato ou uma farpa do dedo. Era o alívio da certeza, que de alguma forma deixava o mundo mais leve. E com isso, talvez ele conseguisse fazer algo de diferente. Com isso, talvez ele pudesse mudar seu caminho.Mas não antes de limpar o suor dos olhos, que não parava de escorrer.
Notas finais
O primeiro bolo a gente nunca esquece, não é mesmo?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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