Esperar
2 Capítulo 2 - O que são amigos?
Notas iniciais
No dia seguinte, acordei cedo para a escola como todos os dias e quase me esqueci da presença de Juliet no quarto do fim do corredor. Fui até lá e ela estava dormindo como uma criança pequena. Após me arrumar, saí de casa pra passar mais uma manhã entediante na escola. Minhas notas eram boas, mas eu não era o que se podia chamar de aluno exemplar. A preguiça e a falta de motivação não deixavam.
Quando o sinal de fim de aula finalmente tocou, Masumi, uma garota descendente de japoneses que estuda na minha sala (e pela qual eu estava a fim) e participa do meu grupo de amigos veio falar comigo.
- Vai fazer o que hoje à tarde, Nathan-kun? – perguntou docemente, com seu sotaque meio engraçado.
- Não sei bem, por que?
- Eu e o pessoal da turma marcamos de ir à sorveteria mais tarde, vai também.
- Vou sim – fiz uma pausa e lembrei – Ah, droga! Temos visita lá em casa. Não posso sair assim.
- Visita? Que tipo de visita?
- Uma garota quase da nossa idade, não posso deixar ela sozinha.
- Leva ela junto então, seu bobo – riu ela, de um jeito que me fez ficar envergonhado – 15:00h no lugar que a gente sempre se encontra, ok? – e saiu, feliz.
- Ahn, claro... – murmurei, já sozinho na sala agora vazia.
Faltando só dez minutos para a hora marcada, fui avisar Julie de que teríamos um passeio. Ela ficou toda exaltada. Enfiou um dos vestidos de sua mala pela cabeça, pôs um enfeite de cabelo (mulheres...) e me puxou porta à fora como tivesse esperado por aquele momento a vida toda. Minha casa era razoavelmente longe do lugar marcado, então tínhamos que andar depressa e ela ofegava para me acompanhar.
- Sorveteria é o lugar onde vende sorvete, né Nathan?
- Capitã Óbvio... – falei, avistando os outros.
Eles me cumprimentaram e logo perceberam a garota a meu lado.
- Oi, qual seu nome? – perguntou Thalia, sociável como sempre.
Julie estreitou os olhos, pensando. Pensou e...
- Érika – disse, por fim. Pelo amor. Érika era o nome de uma antiga vizinha minha, que brincava comigo às vezes. A mãe dela tinha um gato chamado Biju, e a droga do gato vivia subindo nas paredes lá de casa (não me perguntem como lembrei disso).
- Érika? E não era Julieta? – falei, um pouco assustado
- Juliet. – corrigiu ela
- Viu? Você lembra mais do que eu, como falou Érika?
- Não sei.
Thalia sorriu.
- Deixa ela, Nathan. As pessoas tem vários nomes ao longo da vida! É um prazer conhecer a Julie, Érika, Julieta, Romeu, seja lá qual for o nome dela.
- Você viaja demais... – murmurei.
- É sua namorada, Nathan? – Lincoln perguntou, tão ele como sempre.
- Claro que não. É uma amiga.
- Amiga... é... sei...
- Cara, que droga, pára!
Ele fez biquinho. – Viu, Julie, como esse cara é chato?
- Nossa... – ela disse, encarando-o por um momento... – O que é isso na sua orelha? – perguntou, encantada com o alargador dele.
- É um alargador. Tem 6mm! – dava pra ouvir o orgulho na voz dele.
- Que maneiro! – ela respondeu, feliz.
- Ownt, que fofa. – e virando pra mim, deu um sorriso maldoso – Tem certeza que ela não é sua namorada?
- Vai se...
- Ok então, mas sem encanação se eu beijar ela no rosto?
- Problema seu. – respondi, com essa historia começando a me incomodar.
- Quantos anos você tem fofa? – perguntou ele, se dirigindo à ela.
- Doze. E meio.
- Dois anos e meio de diferença só, sem problema... – falou, abaixando um pouco e dando-lhe um beijo na bochecha. Ela enrubesceu e riu, logo depois bagunçando ainda mais o cabelo dele que já era naturalmente bagunçado. Ele riu também.
Duas sensações cresceram dentro de mim: a cena havia sido carinhosa e pura, eu havia achado fofo o jeito como ela riu. Eu não sabia o que era. Outra, que reconheci logo: ciúmes. Não um ciúme como o que eu sentia quando outros garotos se aproximavam de Masumi, mas um ciúme como se Juliet fizesse parte de mim, mesmo eu sabendo que não tínhamos ligação nenhuma.
Vinicius e Danielle também falaram com Julie, e começamos todos a conversar sobre assuntos sem importância. Percebi que Masumi ainda não tinha chegado. Normalmente seria a primeira coisa que eu notaria, mas com toda aquela bajulação pra cima de Juliet, acabei me esquecendo.
- E a Masumi? – perguntei, quase automaticamente.
- Serve esta? – perguntou Vinicius ironicamente, fazendo um sinal para que eu olhasse para trás. Masumi vinha correndo.
- Demorei? Resolvi me arrumar um pouco mais hoje e acabei perdendo a hora. – explicou.
- Demorou, sim. Mas você está linda. – E estava mesmo, falei, rindo de nervoso.
- Ha, obrigada – respondeu, e se não me engano acho que ela corou um pouco – Vou ser mais rápida da próxima vez – e fechou os olhos pra me dar um beijo no rosto. Fiquei um pouco enciumado quando ela fez o mesmo com Vinicius, mas eles são amigos há bem mais tempo então resolvi apenas aproveitar o que tinha recebido.
- Então, vamos logo ou ta difícil? – perguntou Danielle.
Começamos a andar, conversando e rindo. Num momento em que fiquei meio excluído da conversa (isso sempre acontecia, já que eu tinha que ajudar meu pai e meu tio em seus trabalhos e saía muito pouco para estar sempre entrosado nos assuntos recentes). Olhei para Julie e reparei que ela estava muito quieta desde que Masumi havia chegado. De repente lembrei de que naquela hora, Juliet havia me lançado um olhar de “Eu também sou linda” e cheguei a me perguntar se ela tinha sentido o mesmo que eu senti quando Lincoln brincou com ela.
- Nathan, a garota de olho puxado é a sua namorada? – perguntou.
- Não, mas que... Todo mundo resolveu me fazer a mesma pergunta de ontem pra hoje! É uma conspiração? Eu não tenho namorada, só amigos!
- Amigos? O que são amigos, mesmo?
- Não me diga que você não sabe o que são amigos.
- Só sei que são pessoas. – respondeu, com inocência – Que você gosta e se dá bem.
Parte de minha mente buscou uma definição pré-fabricada para o que eram amigos, enquanto a outra tentava imaginar que tipo de vida aquela menina levava.
- Amigos não são só pessoas que você gosta, mas que também conversa, confia, conta segredos... faz coisas... como irmãos, por exemplo.
- Eles são seus amigos, né Nathan?
- Acho que sim.
- E eu, também sou sua amiga, Nathan?
- É meio cedo pra dizer. Nos encontramos ainda ontem.
- Mas Juliet quer muito ser amiga de Nathan.
Respirei fundo. Era muito, muito irritante o modo como ela ficava repetindo meu nome toda hora, mas também era bom de certa forma. Me lembrava algo.
- Conspiração eu sei o que é – falou ela, do nada.
- É mesmo? Que bom.
- Passa muito na televisão – continuou.
- Você vê muita televisão?
- Via mais quando era pequena.
Para meu alívio, logo fui incluído novamente na conversa principal e chegamos à sorveteria. Na hora de escolher os sabores, Julie foi a que mais se empolgou, e a que pegou o maior sorvete, também. Escolhi o meu de chocolate suíço com calda de caramelo e um biscoitinho e me sentei com o pessoal. Depois de alguns minutos, Julie levantou o olhar se suas várias porções de diversas cores de sorvete e colocou-os no meu.
- É de que? – perguntou.
- Chocolate.
- Esse chocolate é diferente. – disse ela.
- Não é não.
- É sim.
- É chocolate suíço. Fez diferença pra você?
- Fez. Agora eu quero provar.
- Você já ta cheia de sorvete aí, se queria deste, por que não comprou? – falei, meio rudemente.
- Por que eu não tinha visto desse.
“Negar comida (e água) é pecado”, minha mãe sempre dizia.
- Dá essa colher aí, — falei, pegando a colher de sua mão e enchendo-a com um pouco do meu sorvete e entregando a ela, que enfiou a colher na boca. Um brilho passou por seus olhos.
- Obrigada, Nathan – e pegando minha colher, encheu-a com vários sabores dos dela e enfiou na minha boca.
Assenti com a cabeça e voltei ao meu sorvete.
- Ne, Nathan-kun, têm farelo de biscoito na sua boca – avistou Masumi, pegando um guardanapo e limpando acima do meu lábio. Isso me deixou um pouco nervoso.
- Valeu. E você ta com bigode de calda de morango – falei rindo, e limpando o canto da boca dela com o dedo mesmo. Ela ficou corada de um jeito que me fez ter quase certeza de que ela retribuía meus sentimentos. Pelo menos, era o que viviam dizendo.
- Cambada, agora é só pagar e meter o pé – avisou Thalia, levantando com a delicadeza de um mamute.
A sorveteria era do tipo em que se servia, tinha a conta anotada num papel e pagava depois. Na fila, percebi que Julie se enrolava um pouco ao contar as moedas, cujo o valor era exatamente o do preço, até que Lincoln meteu-se à sua frente.
- Deixa. Eu pago, já que é a primeira vez que você anda com a gente.
Ela sorriu, tímida. Pelo jeito ela havia gostado dele e talvez vice-versa.
- Alguém tem alguma idéia de onde vamos agora? – perguntou Vinicius.
- A gente podia dar uma volta. Ta calor hoje, mesmo. – sugeri.
- Então, vamos! – Thalia concordou, animada.
Começamos a andar e a dar voltas pela cidade, fazendo perguntas idiotas uns aos outros e fazendo até a bestice de conversar sobre o que cataríamos nas lojas se tivéssemos o direito de escolhermos (ou invadir e roubar). Paramos para sentar numa praça e de repente Lincoln e Vinicius se olharam de um jeito estranho. Segundos depois, estavam me erguendo pelos braços e pelas pernas e me jogando no chafariz. A princípio, fiquei sério, xingando a mãe dos infelizes ao ver minhas roupas encharcadas. Mas ao ver a expressão de todo mundo tentando não rir, acabei caindo na risada. Eles começaram a rir também. Logo, estávamos gargalhando feito um bando de bocós e jogando água uns no outros, até que umas pessoas ficaram olhando estranho e resolvemos parar. Mas antes disso, joguei água na parte do meio da bermuda de Lincoln.
- Agora vai parecer que você mijou nas calças, mané.
Por um momento, ele me fuzilou com o olhar, mas depois teve a ideia de entrar na água até a cintura e sair de lá balançando as pernas. Agora não parecia mais. Julie estava adorando o momento com os colegas novos. Lincoln percebeu a alegria dela e falou, pra fechar o passeio:
- Hoje. De noite. Nós sete. Na rua. Para “brincar” – fez aspas com os dedos.
Eu, ele, Thalia, Masumi, Vinicius e Danielle nos entreolhamos. Julie, que não sabia de nada, esperou o que ia acontecer.
Fale com o autor