Espelhos fragmentos de um ser.
1 Fragmentos de um corpo
Numa tarde cinzenta, o sol esconde-se para dar lugar às lágrimas suplicantes da chuva. Em um ponto qualquer da cidade encontra-se um homem procurando abrigar-se embaixo de uma marquise, olhando insistentemente para o céu e para o relógio tudo que consegue pensar é que está atrasado para o trabalho.
Olha insistentemente para o céu com a esperança que a chuva cesse, afinal há um bom tempo está ali parado, o celular em seu bolso começa a vibrar intensamente, com cuidado retira-o do bolso e ao olhar no display confirma o que já imaginava, as ligações eram do escritório. Ao perceber que a chuva não cessaria tão cedo, ele resolve enfrentar aquele temporal, ao sair debaixo da marquise e receber os primeiros pingos de chuva, sentiu-se pesado, era uma sensação que jamais sentira antes, o homem tentou acelerar o passo,mas, foi em vão. Quanto mais corria, maior era a intensidade dos pingos que o acertavam e mais profunda a agonia que sentia.
Em determinado momento estafado e encharcado enfia-se debaixo da marquise de uma loja, estava agora tentando retornar as dezenas de ligações perdidas enquanto olhava os produtos de uma vitrine quando fora surpreendido com um encontrão que o faz deslocar-se para frente. Ele irritado então grita quase como um urro:
— Presta atenção por onde anda, imbecil.
—- Venha me fazer prestar atenção então, babaca. Respondeu uma voz, que soou-lhe familiar, imaginei ser de diversas pessoas menos uma, que jamais haveria imaginado. Virou-se a fim de tomar satisfações com aquele que o atropelara, ao virar-se tamanho foi o espanto que este procurou tatear o espaço para equilibrar-se.
Após alguns segundos conseguiu recobrar o equilíbrio e viu que o sujeito que esbarrara nele era identico a ele. Meio sem acreditar começou a movimentar-se como se estivesse diante de um espelho. E o outro reproduzia os movimentos como se estivesse divertindo-se em fazer o rapaz de idiota. Ele olhando o outro divertir-se com a sua cara diz:
— Eu creio que esteja divertindo-se bastante com a situação, mas, eu estou constrangido em ver alguém totalmente identico a mim.
— Não subestime sua racionalidade, imbecil. Não somos identicos, somos a mesma pessoa.Disse o outro.
Ele ficando um tempo tentando processar a informação,afinal, aquilo era algo mais que impossível. Mas pensando calmamente ele resolveu aproveitar-se do fato, já que eram espelhos como o outro dissera, então,ele saberia tudo que o outro sabia e decidiu testar perguntando-lhe:
— Se somos a mesma pessoa então é evidente que saiba tudo sobre mim correto?
— Sim correto, somos representações de uma mesma identidade. O outro respondeu.
Então o homem teve a ideia de fazer o outro ir para o trabalho em seu lugar e assim o fizeram. O “espelho” chegou ao escritório e ao chegar já ouviu reclamações de sua chefe:
— Vinicius onde estava? Não vê a hora? E não atendeu as chamadas por quê?
Ele então olhando calmamente para ela responde:
— Desculpe-me Laura, mas, no intento de chegar aqui não pude retornar as chamadas. Prometo que não irá mais repetir-se tal inconveniente, como prova de minha sinceridade aceite essa rosa.
Laura aceitou a rosa estranhando a atitude de Vinicius, já que ele sempre é tão distante e omisso com tudo a sua volta. Mas, depois afastou a ideia. E retribuiu-lhe com um sorriso.
Passaram-se dias com o Outro vivendo a rotina de Vinícius, todos notavam que havia ocorrido algo com ele,porém, ninguém ousava mencionar e deixar que o novo Vinícius desse lugar ao antigo, este era totalmente o oposto, era imponente, eloquente, vívido, receptivo. Ele passou a ser convidado para rodas de conversas, passeios e muitos outros eventos. Vinícius já estava incomodado e então falou com o Outro para ficar uns dias em casa. Ao chegar no dia seguinte ao escritório todos notaram que havia algo estranho com ele. Ficaram preocupados e perguntando tentando acontecer o que estava acontecendo,já que Vinícius andava com um comportamento diferente.
Vinícius sem saber o que fazer, sentindo-se sem chão decide ir para casa, lá chegando dá de cara com o Outro saindo de casa com Laura. Então ele pensou consigo mesmo o que aquela coisa estava fazendo além de roubar sua existência? Ele encaminhou-se em direção dele e gritou:
— Vá embora, já não se divertiu demais as minhas custas? Já não acabou com tudo o que eu tinha?
— Eu acabar com o que tinha? Você nunca teve nada. Sempre fez questão de ser nada mais que uma sombra, vivendo vagando na sociedade, sendo apenas mais um na multidão? Você sempre foi idiota o suficiente para trancar-se em si mesmo enquanto há um mundo inteiro a ser explorado,você com seu medo ridículo de não ser correspondido perdeu durante todo esse tempo a oportunidade de estar com Laura. Vá! Suma, se esconda isso é o que você sempre fez de melhor. Vá! Viva das migalhas.... O outro falava enquanto ria.
Enquanto ouvia aquilo tudo Vinícius partiu em direção do Outro enquanto este ria, e ao aproximar-se ambos começaram a desferir golpes um ao outro e Laura assistia a tudo atônita, estava vendo dois Vinícius que vestiam-se da mesma forma, como se estivesse vendo-o de forma dobrada. Laura permanecia atônita até ver um dos dois com um canivete desferi vários golpes no outro, ela sai à procura de socorro e quando retorna não encontra nada além de cacos de vidro e Vinícius sentado nos degraus da entrada com alguns hematomas e alguns cortes superficiais, ela olhando-o pergunta o que tinha sido aquilo tudo e ele por sua vez responde:
— Não sei explicar Laura, sei apenas que aconteceu, um dia estava indo trabalhar e alguém esbarrou em mim e quando olho lá estava ele.
Passaram-se alguns dias depois do ocorrido presenciado por Laura, lá estava Vinícius vivendo como se nada tivesse acontecido, ninguém sabia como,mas, este havia mudado não era mais o mesmo de antes, não era mais um mero espelho,não era mais apenas um no meio da multidão, era aquilo que viam, aquilo que manifestava-se. Laura sabia intimamente que havia algo diferente, pois, aquele Vinícius não era o mesmo que ela conhecera e muito menos aquele por quem se apaixonara.......
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