Espelhos D'água
1 Capítulo 1
Neste banco, sob o sol de uma tarde nublada, via algumas pessoas que esqueciam momentaneamente suas dores, contemplando os espelhos d'agua, que adornam o pátio interno do Hospital D. Pedro. E eu pensava em você, em nós dois, nossas dores particulares, nossas cores, nossos amores. Éramos assim, eu e os demais através dos espelhos, seres condoídos. Nos reconhecíamos como semelhantes, ainda que estrangeiros.Vez por outra vinha um pássaro bibicar a água, perturbando a pureza dos reflexos. Quando isto acontecia, uma criança, uma menina, desprendia-se do zelo de sua mãe, tentando alcançá-lo. De braços abertos, a pequena acalentava acordada o sonho visceral, ancestral e engenhoso que nossa espécie bípede e tacanha alimenta para além dos limites filogenéticos. A minha fantasia e a dela brincavam juntas, imaginando se ela estaria pairando sobre nossas cabeças e lá de cima, acenaria tchauzinhos para os pais e toda gente. Sem pensar na cirurgia, nas alfinetadas, no gosto horrível, na bruta invasão. Sem pensar no espectro que veria refletido nas águas, amarelo e patético. Sem pensar no choro e nos gemidos que se escondem por detrás das largas colunas.O suor escorre por baixo da camisa. O devaneio aterrisa no sorriso de um pai que acolhe. Esperança. E os espelhos tão inertes quanto vivos, pedem licença para investir no céu, um olhar mais alagado, de quem sabe os tempos do patológico. O tempo psicológico do sofrimento daqueles que respiram, gritam, se agarram a coisas invisíveis e se reconhecem mutuamente. Os espelhos não acreditam, no entanto, que sua finitude seja menos sublime. Em realidades alternativas, noutro limbo das angústias, seriam eles mesmos a caçar nos reflexos um rastro de qualquer substância de identidade.A esta altura, caminho por entre jalecos e noites mal dormidas, desfazendo nossos dilemas no meu próprio ritmo monótono. Agora é quase certo que isto retorne com Morpheus em uma de nossas parábolas, enquanto permaneço espartano, suprimindo e guerreando, seguindo com esta peleja que chamamos relógio. Suas pontas, suas regras, seu compasso, nosso disperdício, meu oráculo cego, minha estrela de doze pontas, minha teia, meu espelho, minha prisão.
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