Notas iniciais
Feliz Halloween Boa leitura...

— Senhor Cullen, a senhora pediu para avisar que já virá recebê-lo. – uma mulher de meia idade, com olhos ávidos como uma águia a espreita, avisou. Seu nome era Zafrina, ela havia se apresentado no momento em que chegamos.

Apenas maneei a cabeça em agradecimento e ela se foi tão silenciosamente quanto veio.

Eu estava irritado e frustrado. Ainda não havia entendido por que Carlisle havia insistido tanto em me trazer até aqui. Olhei para ele que parecia distraído demais mexendo em seu celular.

Mudo de posição bufando. Não faço a menor questão de esconder meu descontentamento.

— Só um pouco mais de paciência Edward. – Carlisle diz compenetrado demais em seu celular.

Ele nem gostava de mexer nesses aparelhos eletrônicos, eu bem sabia disso. Ele fazia um tanto de esforço demais para parecer distraído para notar meu desagrado.

— Você sabe bem o quanto eu não gosto de sair nessa data em particular. – disse aborrecido.

— Sim. E em seus quase trezentos anos nunca conseguiu descobrir o porquê disso. – ele parecia satisfeito demais em me dar aquela resposta.

— Eu não sei explicar e você sabe disso. – acusei irritado.

— Sim, eu sei. E é exatamente por isso que estamos aqui. – ele dizia como se isso explicasse alguma coisa.

— Eu nem sei aonde o “aqui “significa. E por que havia de ser justamente hoje?

— Madame Alice é uma bruxa muito experiente. Foi Garret quem me recomendou. E quando finalmente vim vê-la alguns meses atrás e expliquei o seu caso ela disse que poderia lhe ajudar. Mas isso só poderia ocorrer hoje.

— Uma bruxa que só atende no dia das bruxas? Que conveniente. – debochei desacreditado.

— Deixe de ser cético Edward. Nós existimos, por que o restante não poderia existir também? – Carlisle agora me olhava duramente, o celular esquecido ao seu lado. Ele já não tentava esconder suas intenções.

— O que? Vai querer me convencer que o pé grande também é real? – perguntei sarcástico.

Antes que Carlisle pudesse responder uma voz suave como tilintar de sinos nos alcançou.

— O pé grande não, mas tem um lobisomem vivendo no próximo quarteirão, isso lhe serve?

Olhei na direção da voz e vi uma senhora de idade entrar na sala.

Ela aparentava já ter seus oitenta anos. Muito elegante, vestia um vestido longo de seda negra. Seus cabelos grisalhos caiam em uma cascata prata por seus ombros e costas. Em seu rosto um sorriso acolhedor, emoldurado por um rosto enrugado, mas que não deixava duvidas que anos antes com certeza havia sido deslumbrante, pois sua beleza ainda ecoava. Mas era em seus olhos que se via sua verdadeira natureza. Aqueles olhos gritavam poder.

— Madame Alice, por favor, me permita agradecer pela honra de nos receber nessa noite. – Carlisle disse atravessando a sala e pegando a mão da senhora, deixando um breve beijo sobre o dorso da mão enrugada.

— É um prazer Carlisle. Como lhe disse uma vez, qualquer amigo de Garret é meu amigo. – Ela dizia animadamente.

— De onde conhece Garret? – perguntei desconfiado.

Carlisle me olhou não escondendo sua desaprovação por meu tom insolente.

— Ora querido, Garret ajudou a me manter nas sombras nesse mundo por algumas vezes nessa minha existência. Tenho uma eterna gratidão para com ele.

Não dei muita importância a isso, então apenas desviei o olhar não tentando ocultar o quanto aquele assunto não me interessava.

— Sabe meu jovem, você também deveria ter essa gratidão para com ele, é somente por ele que você esta em minha casa essa noite.

— Bom, eu demonstraria esta gratidão se ao menos fosse da minha vontade estar aqui essa noite. Além disso, por que seria tão difícil assim estar aqui hoje? Imagino que já que conversou com Carlisle deva saber que dinheiro não é problema para mim. De seu valor que ainda assim eu garanto que posso pagar o triplo.

— Edward! – Carlisle disse horrorizado.

— Criança insolente! – ela silvou em minha direção.

— Criança? Tem certeza de que Carlisle lhe contou a história certa? Não se deixe levar pela minha aparecia. – disse divertido.

— Você tem trezentos e eu três mil e duzentos anos. Sim, você é a criança aqui. – ela disse me olhando com queixo erguido. – Vim a essa vida quando os deuses do Olimpo ainda eram adorados e se importavam para conceder bênçãos e maldições aos homens.

Não me atrevi a responder nada, mas mantive meu olhar curioso sobre ela, nunca havia conhecido alguém tão antigo quanto ela. O mais velho que havia conhecido era justamente o vampiro que Carlisle mencionou, Garret, e mesmo ele tinha apenas novecentos anos.

— O que uma bruxa tão antiga e poderosa, como você se diz ser, pode querer comigo então? – digo desconfiado.

— Meu caro, não sou eu quem preciso de você e sim o contrário. – ela dizia com um sorriso arrogante em minha direção.

— Como é?

— Edward – Carlisle disse tomando a frente da conversa – Por favor, converse com Madame Alice. Eu a procurei e pedi por esse favor especial , então comporte-se sim?

— Desculpe, mas eu não estou entendendo do que se trata tudo isso. O que eu estou fazendo aqui afinal?

Carlisle abriu a boca para responder, mas a idosa deu gentilmente tapinhas em sua mão, como se ele fosse realmente uma criança e ela estivesse chamando suavemente sua atenção. Se calando imediatamente, ele apenas fez um gesto indicando que ela tomasse a frente do assunto. Sorrindo agradecida em sua direção madame Alice deu alguns passos a frente, se apoiando em uma bengala, que apenas agora havia percebido que ela usava. Era uma bengala, embora linda, de aparência muito antiga. Negra, tal qual seu vestido, mas com a parte de apoio para a mão de vidro. A idosa parecia fazer um enorme esforço em cada passo que dava e ao fazer isso seu corpo inteiro tremia e com isso seu vestido parecia ganhar vida em seu corpo, pois ele se movia como se estivesse dançando. E foi em um desses movimentos que o vestido fez que eu finalmente percebi que a idosa estava descalça, pois seus pés apareceram por debaixo do vestido.

Quando finalmente ela ficou de frente para mim no meio da sala ela começou a falar.

— Me diga meu jovem, por que você não gosta desse dia? – ela perguntou gentilmente.

— Eu não sei. Apenas não gosto. – disse impaciente.

— Há de convir comigo que isso não é uma resposta. Tudo tem um por que. Pense sim? Por favor, pense e me diga, por que você não gosta do dia das bruxas?

Permiti que minha mente pensasse sobre isso por alguns instantes antes de voltar a responder.

— Eu realmente não sei. – disse sinceramente dessa vez. – Eu apenas não gosto desse dia. Me torno mal humorado, mas do que normalmente sou, fico irritado, não sei explicar. Só não gosto desse dia.

Ela escutava atentamente.

— Teria sido esse o dia da sua morte? – ela perguntou parecendo curiosa.

— Não. – Carlisle e eu respondemos juntos.

— Eu morri no verão de 1709. Foi Carlisle quem me encontrou e me transformou. – completei.

— Foi sua escolha? – ela parecia muito inocente ao fazer as perguntas. Mas algo me dizia que não havia nada de inocente nela e que aquelas respostas ela já sabia muito bem.

— Não. Mas acho que a senhora já sabe disso. Eu sofri um acidente e estava praticamente morto quando Carlisle me encontrou e decidiu me transformar.

— Ah sim. – ela disse como se só agora se lembrasse do fato. Mentira, eu sabia. – E sua vida humana, como era? – nesse momento eu podia jurar que seus olhos brilharam brevemente.

Trinquei os dentes para evitar rosnar. Eu odiava falar sobre isso. Esse assunto sempre me perturbava. Carlisle sabia disso, talvez por isso ele me olhava como se implorasse por algo enquanto estava atrás de madame Alice.

— Eu não lembro de nada da minha vida humana.

— Ah, não?

— Não. Toda minha memória começa no momento que despertei para essa vida. Nem da dor da transformação eu me lembro, embora já tenham me garantido que essa dor é impossível de ser esquecida. – disse de má vontade.

A idosa pareceu pensativa por alguns instantes antes de voltar a falar.

— Bom, se você não sabe o por que de não gostar do dia das bruxas e também não tem memórias da sua vida humana, logo, podemos imaginar que esse motivo está na sua vida humana, concorda?

Franzi o cenho ao pensar nisso.

— É algo que nunca cogitei para ser sincero.

— Mas é uma possibilidade, você não acha? – ela parecia decidida a provar aquele ponto.

— Existe uma certa lógica, eu admito. Mas o que isso tem haver com o fato de eu estar aqui? – perguntei agora não tão cético e sim mais curioso.

— Veja bem meu rapaz, Carlisle me procurou alguns meses atrás, após saber do meu paradeiro. Ele veio pedir que eu lhe ajudasse.

Abri os olhos surpreso com aquela informação.

— Ele acha que você não está completo nessa sua vida imortal. Ele sente que falta algo em você e nem ele mesmo sabe o que pode ser. Ele também comentou sobre essa sua.... estranha aversão ao dia das bruxas.Bom, normalmente quando as pessoas me procuram com suas questões que acham ser muito difíceis, acabam por ser fáceis para mim. Corriqueiras. Mas não era você quem estava na minha frente, então eu precisei pedir uma foto sua. Eu precisava de algo para chegar a você e ver o que havia. Consegue entender? – ela parecia em duvida de que eu estivesse acompanhando o seu raciocínio.

Bom, eu não estava mesmo. Nunca em minha existência falei com uma bruxa antes, mas em todo caso queria logo que ela chegasse ao fator X da questão, então apenas sinalizei que ela continuasse.

— Quando seu amigo me mostrou uma foto sua, logo percebi que sua alma não estava completa. Realmente falta algo em você.

— Ok. Agora eu sei que isso não é sério. Vampiros não tem alma. – disse rolando os olhos.

— Mas logo se vê que é mesmo uma criança. E uma tola por sinal. Não sabe de nada. Todos os seres, humanos ou místicos, todos tem uma alma.

— Sinto informá-la que apenas os humanos possuem uma alma vivente. – disse como se revelasse um segredo muito obscuro.

— E eu sinto informá-lo que isso é um mito difundido pelos lideres da igreja católica por volta do ano de 330. Querendo se impor como a única verdade absoluta e ter assim o controle do povo e vamos lembra que isso na época significava também ter o controle de reis e impérios. Então para isso eles divulgaram a informação de que apenas o humano era limpo e puro e todo o resto eram seres das trevas, condenados a um inferno que , caso esteja curioso em saber, nem ao menos existe. – foi a vez dela se inclinar e sussurrar como se contasse algo muito sigiloso.

Eu olhava abismado para aquela criatura minúscula no meio da sala. Mas que ao compartilhar seu conhecimento, parecia quase dobrar de tamanho.

— Todos os seres possuem uma alma meu jovem. O que você faz com a sua existência é que faz com que ela continue brilhante ou se torne escura e densa. Mas a alma em si, todos nós temos. E é impossível para qualquer um de nós estarmos bem em uma vida com a nossa alma incompleta.

— E como pode uma alma estar incompleta? – perguntei confuso.

— Bom. Existem algumas possibilidades. São bem poucas é verdade, mas existem.

— E o que precisamos fazer para saber?

— Você precisa se lembrar da sua vida humana para isso. – ela disse com total convicção.

— Bom, então voltamos ao inicio de tudo. Eu não lembro de nada e não sei como lembrar. Já usei todos os métodos conhecidos para isso.

— Correção, você usou todos os métodos que você conhece. Ainda bem que em sua frente esta uma feiticeira que sabe segredos e feitiços que até mesmo os deuses se interessavam. – ela parecia muito satisfeita consigo mesma ao dizer isso.

— E que feitiço a senhora irá fazer?

— Eu já fiz. Mas seguir com ele dever ser de escolha unicamente sua.

— Como assim?

— Eu vou explicar e preciso que vocês dois ouçam atentamente a tudo que eu vou dizer.

Carlisle e eu acenamos ao mesmo tempo em concordância.

— Em aproximadamente uma hora – ela disse olhando para um relógio de pendulo que estava atrás de mim, colocado em uma prateleira em cima da lareira. – Exatamente a meia noite, um portal se abrirá. Todos os anos, a meia noite desse dia um portal se abre entre os dois mundos. Tornando assim possível se interagir o místico com o real.

— O que acontecerá quando esse portal se abrir?

— Algo acontecerá naquele espelho. Algo que apenas você poderá ver. – ela disse apontando para um espelho que estava colocado de frente para a poltrona em que Carlisle estava sentado minutos antes. – O que você verá nele lhe ajudará a deixar sua alma completa novamente.

— Apenas isso? Simples assim? – perguntei cético.

— Não tem nada de simples nisso. Não se engane, seres muito mais poderosos que você já perderam a razão ao se contemplar com esse espelho nesse dia.

— Madame, a senhora não havia me dito que havia um risco. – Carlisle disse preocupado.

— Na magia sempre existem riscos. Sempre existe um preço.

— O que preciso fazer para não enlouquecer?

— Você precisará entender o que o espelho lhe mostrará. Precisara entender e resolver antes que o feitiço acabe.

— E quanto tempo dura o feitiço?

— O tempo é relativo meu jovem. Ele também é inexistente nessa sala . Podem ser minutos ou horas. É impossível de se calcular.

— Então para ter minha alma completa eu preciso ficar de frente para um espelho e resolver um enigma, isso sem saber como e em um prazo que não sei qual é? Esqueci de algo? – perguntei sarcasticamente.

— Esqueceu que enlouquecerá se não conseguir. – falou olhando para os dedos, como se contasse cada etapa e perigo.

— Obrigada, mas eu gentilmente declino da generosa oferta. – digo fazendo uma reverencia teatral e andando em direção a porta da sala, onde estava Carlisle.

Desvio da idosa que ainda estava no meio da sala. Mas ao passar por ela, antes de chegar até Carlisle, sua voz soa mais alto.

— Se conseguir, lhe garanto que se sentirá uma plenitude jamais experimentada por você antes. Algo que lhe trará paz. Conforto.... e felicidade.

Paro de andar no mesmo momento fechando as mãos em punho. Felicidade. Uma palavra cruel que nunca teve um significado para mim. Algo que nunca conheci na minha vida imortal, por mais que tenha buscado.

— É o que você anseia secretamente... não é? –disse sem me olhar, ainda de costas para mim.

Fecho meus olhos tentando conter minha frustração.

-E se eu não conseguir?

— Mas e se conseguir? – ela desafiou

Eu não estava de frente para ela, mas era capaz de apostar cada fibra do meu ser que ela estava sorrindo e se divertindo ao dizer aquilo.

— Isso é insano Edward. Não pode se arriscar a fazer isso. – Carlisle disse andando até mim.

— Quieto. – madame Alice bradou e então se virou para nós. – Foi você quem me procurou Carlisle, não esqueça disso.

— Mas eu não sabia do risco.

— Mas sabia o que pedia! Por que todos vocês são sempre tão tolos para nunca imaginar que o preço a se pagar aqui vale tanto quanto o que vieram buscar? – ela dizia irritada.

Ao meu lado, Carlisle respondeu alguma coisa, mas eu não ouvia direito o que. Minha mente estava no fato de que, de alguma maneira, mesmo eu reconhecendo que não sabia como, minha existência poderia mudar completamente, se eu tivesse coragem de enfrentar aquele desafio. Bom, coragem nunca havia sido um problema para mim até hoje.

— Se eu aceitar, como isso funcionaria exatamente?

— Edward, não!

Ignorando o pedido de Carlisle madame Alice respondeu.

— Uma vez que você aceitar, não terá como voltar atrás. Precisará ficar aqui, em frente ao espelho até o final, não importe o que ele mostre a você. Até que você descubra o que precisa fazer, ou até que seja tarde demais.

Eu estava realmente inclinado a aceitar.

— Se apresse. Embora ainda falte um tempo para meia noite, você precisa estar calmo e essa sala precisa estar com a energia tranqüila para que o portal possa se abrir. – ela parecia ansiosa.

— Não pode estar cogitando isso Edward. É loucura. – Carlisle estava aflito.

— Talvez seja minha única chance. Você mesmo disse que ela é poderosa.

— Mas eu não sabia dos riscos. Pense bem, se não funcionar..... um vampiro louco? Provavelmente os Volturi terão que matar você.

— Eu já estou morto a trezentos anos. – disse sem emoção o olhando.

— Você é meu melhor amigo. Minha família. – ele me implorava com o olhar.

— Então não me condene a ser assim por toda a imortalidade. Precisa existir algo mais e eu prefiro morrer procurando do que saber que passarei mais trezentos ou mil anos assim.

Olhando dentro dos meus olhos ele deve ter visto algo, pois no segundo seguinte ele soltou meu braço dando um suspiro derrotado.

— Tudo bem. – ele disse dando um passo para trás. – E o que eu preciso fazer? – ele perguntou se virando na direção da idosa que agora estava de frente para nós.

— Você meu caro, me fará companhia no segundo andar. Quando sairmos daqui, você não poderá voltar aqui nessa sala não importa o que aconteça ou o que você ouça. Se você o interromper enquanto o portal estiver aberto, os dois enlouquecerão.

— Ele estará sozinho? – Carlisle perguntou ainda me olhando parecendo torturado.

— Eu lhe garanto que não. Ele estará acompanhado da magia. Além disso, – ela disse se virando sorrindo para mim. – Eu virei aqui algumas vezes para ver como ele estará.

Antes que Carlisle ou eu perguntássemos algo ela respondeu.

— Sim, eu posso. Eu sou um ser mágico. Minha presença não perturbará o equilíbrio do portal.

Seu olhar se voltou novamente para o relógio e então sua voz soou enérgica.

— Se decida, o tempo está acabando.

— Eu vou fazer. – falei a encarando firmemente.

— Bom. – ela parecia satisfeita. – Tive um bom pressentimento sobre você. – então se virando para Carlisle. – Vamos meu caro. Um bom chá com biscoitos nos aguarda no segundo andar. – então como se tivesse cometido uma gafe ela continuou. – Oh, mil perdões, eu também tenho alguns pombos se eles forem atrativos para você.

Tive que segurar a risada ao ver Carlisle rolando os olhos para a sugestão de lanche de madame Alice, enquanto ele oferecia o braço a ela e a ajudava a sair da sala.

— Como vou saber que começou? – perguntei antes que ela saísse.

— Acredite, você saberá. – ela respondeu sem me olhar. Mas então, ao chegar na porta ela parou brevemente se virando para mim lentamente. – Não se esqueça do tempo. – ela disse agitando a mão para mim.

— Como vou saber o tempo se você não soube me disser quanto tempo eu tenho?

Então, como se eu não houvesse dito nada ela repetiu.

— Não se esqueça do tempo.

Eu ainda a olhava sem entender quando ela se virou e finalmente saiu da sala.

Bufei frustrado me dando conta de que estava sozinho em uma sala que havia sido enfeitiçada por uma bruxa que se dizia com três mil anos de idade e claramente já dava sinais de demência.

Ando pelo cômodo parecendo prestar atenção verdadeiramente nele pela primeira vez. Era uma sala comum.

Tudo bem, não necessariamente comum. Era uma sala ampla, com provavelmente uns vinte metros quadrados. Ela era decorada quase como se pertencesse ao século passado, o que dado a idade da bruxa, eu não duvidaria nada. Poltronas de veludo vinho compunham a sala. Estantes com livros do chão ao teto, nas quatro paredes do davam um ar austero aquele cômodo. Algumas mesas espalhadas pela sala com vasos ornamentais ou outros elementos de decoração davam um charme especial ao lugar. Até mesmo uma ampulheta com cerca de cinqüenta centímetros havia ali. Ela estava em uma mesa atrás de uma das poltronas. Mas havia algo de errado com ela. Me aproximando percebo finalmente que a areia ali não se movia. Quase como se estivesse quebrada ou algo assim.

Lembro então que a idosa disse que o tempo ali não existia. Seria isso?

Olho então na direção do relógio e vejo que ao contrario da ampulheta ele funciona normalmente.

Ansioso demais eu apenas deixo aquele objeto de lado e vou em direção ao espelho. Ele não tinha nada de especial aparentemente. Um espelho de corpo inteiro, com moldura de madeira. Ele deveria ter uns dois metros de altura por sessenta de largura. Não haviam inscrições nele ou entalhes. Apenas a moldura e os pés que eram igualmente de madeira. Olhando para o reflexo, vejo que ele mostra apenas a sala em que eu estou e a mim quando fico de frente para ele.

Nervoso, me afasto do espelho e vou até o canto da sala onde haviam algumas garrafas de Whisky em uma cristaleira, além de alguns copos. Como eu gostaria de ser capaz de beber. Com certeza isso me ajudaria a controlar essa ansiedade.

Me afasto novamente e olho em direção ao relógio. Faltam apenas cinco minutos para meia noite.

Vou em direção a poltrona que fica ao lado da lareira, exatamente de frente para o espelho como a bruxa dissera e me sento ali, esperando. Pelo que eu não sei.

Os minutos se arrastam e impaciente eu me inclino para a frente. Antebraços apoiados nas pernas, olhos concentrados no espelho. Nada, nem mesmo um único tremor ou reflexo na imagem.

Bufando, volto a me recostar na cadeira no exato momento em que o relógio badala avisando que são meia noite.

Imediatamente volto meu olhar para o espelho e vejo o momento exato em que uma névoa branca começa a tomar conta do reflexo no objeto.

Olho em volta apreensivo e vejo que nada mudou na sala, mas ao voltar meu olhar para o espelho quase não consigo enxergar mais nenhum reflexo ali. A nevoa havia tomado conta de tudo. Em menos de um minuto só havia a fumaça branca refletida. Nada conseguia se ver além disso. Então, da mesma forma como começou, a névoa começou a se dissipar. E conforme a fumaça branca sumia, eu percebia que a sala refletida não era mais a mesma.

Agora em vez de uma sala do século passado, a sala refletida era uma sala muito mais moderna. Com uma longa parede de vidro do chão ao teto, coberta apenas por uma cortina branca de um tecido grosso que bloqueava quase toda a luz externa, passando claridade apenas pela pequena abertura deixada. A outra parede que aparecia no reflexo era pintada em um tom de bege acetinado. Um tapete vermelho cobria todo o chão do lugar e no centro do cômodo havia um enorme piano de cauda Kayserburg. E não me refiro a um dos modernos que poderiam ser comprados por alguns milhares de dólares. Não. Esse era um Kayserburg modelo antigo. Clássico. Dificilmente visto em uma sala comum. Ele era negro, com teclas brancas como a neve. Detalhes em dourado davam vida aos seus pés e em seu tampo, deixando em evidencia ainda mais a sua imponência.

Aquela era uma sala de música.

Tentando entender o que estou vendo, vejo de repente uma mulher muito bonita se sentar nele e começar a dedilhar em suas teclas. Não era exatamente uma melodia. Ao menos não uma que eu conheça, mas novamente, eu conheço todas. Não, aquelas eram notas aleatórias.... o que era aquilo?

Então nesse momento uma porta se abre e uma menininha entra correndo no cômodo.

Ela era uma coisinha minúscula, deveria ter uns 4 ou 5 anos. Ela sorria como se fosse manhã de natal e usava um vestido rodado cor de rosa e em sua cabeça um arco com flores. Seu cabelo era loiro e ele estava preso nas costas em uma trança elaborada.

Esta na hora da minha aula mamãe? – a menina perguntou e sua voz era de uma melodia única. Quase como se cantasse em vez de falar.

- Sim meu amor, venha, sente-se comigo.

Então calmamente a mulher começou a tocar as notas aleatoriamente de novo.

Agora eu entendi. Era uma lição de piano. As notas aleatórias nada mais eram do que um exercício para se aprender a disposição das teclas, cada uma com sua nota musical.

Os dedinho pequenos e rechonchudos da menina mal conseguiam tocar três teclas consecutivas, mas ela não parecia querer desistir. Ao contrário, parecia muito concentrada em sua aula.

Estranhando tudo aquilo, me levanto e vou em direção ao espelho. Paro em frente a ele olhando seu reflexo. Olho mais uma vez em volta, me certificando de que ainda estou parado no mesmo lugar e não estou ficando louco.

Nada! Eu ainda estou na sala da bruxa louca, ou não tão louca assim pelo visto. Dou a volta no espelho quase como se esperasse encontrar ali algum tipo de truque dos que se vê nos shows de mágica em Las Vegas.

Novamente nada.

Desistindo de tentar encontrar algo que explicasse aquilo, volto para meu lugar na poltrona observando o espelho. A criança continua em sua aula de piano. Ainda errando as mesmas notas. Sua mãe no entanto, parece encantada com a aula, mesmo com a filha errando constantemente.

- Você vai ser uma grande pianista um dia. – a mulher encorajava.

A menina se virou para a mãe sorrindo. E nesse momento eu sorri, vendo que faltava um dente em sua fileira branquinha de dentes de leite.

- Eu sonhei com ele de novo hoje mamãe. – a menina disse depois de um tempo ainda olhando para as teclas tentando acertar.

— Com o seu anjo da guarda? – a mulher perguntou parecendo interessada.

— Humhum. – a criança respondeu sem tirar os olhos do piano.

— E o que ele disse?

A criança apenas deu de ombros.

— Ele não disse nada. Ele nunca fala. Ele apenas fica lá me olhando.

Franzo o cenho ao ouvir aquilo. Do que elas estão falando?

— Bom, eu tenho certeza de que é seu anjo da guarda. Vamos acender uma vela para ele quando acabarmos aqui, o que acha?

— Sim. – ela disse parecendo muito animada com isso.

Então, finalmente a menina acertou a sequência de teclas.

— Eu consegui mamãe, eu consegui.

Foi impossível para mim não me alegrar com a cena a minha frente.

— Eu sabia que conseguiria Bella. Você nasceu para isso.

Bella? Então o nome da menininha era Bella.

Então novamente a nevoa branca veio e dessa vez tomando conta do espelho rapidamente.

Não entendo o que esta acontecendo. Volto a me reclinar na poltrona esperando. Então, novamente, do mesmo jeito que veio a nevoa sumiu. Mas ao contrário da primeira vez, a sala no reflexo ainda era a mesma. Eu tinha certeza disso. Era o mesmo lugar e o mesmo piano. A única diferença é que agora estava mais escuro. Eu quase poderia jurar, pelo tom alaranjado nas paredes, que agora era o entardecer.

Como da primeira vez, a porta se abre e por ela uma menininha passa correndo e se senta ao piano.

Não uma menina qualquer, é a mesma. Eu sei que é. Mas dessa vez ela parece mais velha. Talvez uns 8 anos. Ela usa novamente um vestido, dessa vez não rosa, um lilás. Seu cabelo esta preso em uma trança como da primeira vez, mas agora sem o arco infantil. Apenas algumas presilhas na frente para segurar sua franja. O dourado de seus cabelos parece reluzir com a luz do fim de tarde que entra pela abertura da cortina.

Então a mulher entra novamente sorrindo. Ela sempre sorri em direção a menina. E se senta ao lado dela.

Dessa vez, as duas tocam juntas uma musica.

Não posso me impedir de rir ao reconhecer a melodia. É brilha brilha estrelinha.

Elas passam por essa musica algumas vezes. A menina ainda errava algumas vezes. Ela ficava bastante chateada quando errava e sempre fazia questão de recomeçar do inicio.

— Ele voltou no meu sonho de novo mamãe. – a menina disse concentrada em dedilhar as teclas certas.

— Tem certeza de que não o conhece de algum lugar meu amor? Talvez um dos amigos do papai? – a mulher parecia intrigada.

A criança apenas sacudiu a cabeça negando.

— Não. Ele existe apenas nos meus sonhos.

Intrigado demais com a cena, me inclino para frente, quase como se quisesse ouvir melhor aquela conversa.

E é nesse exato momento em que um reflexo ao fundo da sala me chama a atenção. Desviando o olhar da criança e de sua mãe a minha frente eu olho um objeto que esta sobre uma mesa no fundo da sala.

Não pode ser.

Me levanto, como se quisesse observar mais de perto.

Ao me aproximar, confirmo o que minha visão perfeita já sabia. É uma ampulheta. Uma ampulheta exatamente igual a que eu havia visto aqui, na sala onde estou.

Então eu me viro de costas para o espelho e olho a mesma ampulheta ainda no mesmo lugar. Apoiada na mesa no canto da sala. Olho de volta para o espelho e confirmo que não é um reflexo. A ampulheta da sala do reflexo esta em outra posição e altura. Não tem como ser a mesma. Então, novamente algo me chama a atenção. Aquela ampulheta do reflexo está funcionando perfeitamente. A areia esta caindo, marcando a passagem de tempo, exatamente como deveria ser.

Então novamente me viro para a ampulheta que esta na sala comigo e com assombro vejo que a ampulheta do meu lado do espelho também começou a funcionar.

Ambas têm o mesmo tamanho e a mesma quantidade de areia em seu interior. O reflexo do espelho e esse lado da sala estavam em perfeita sincronia.

Novamente a névoa vem, tornando assim impossível enxergar qualquer coisa, para em apenas alguns segundos se dissipar completamente.

Dessa vez, mãe e filha já estavam sentadas no piano.

A mulher começava a mostrar sinais da passagem do tempo em seu rosto. Algumas rugas de expressão surgiam em seu rosto, mas em nada diminuíam a sua beleza. Ao lado dela, a criança também havia mudado. Ela agora aparentava ter talvez uns doze anos. Seus pés ainda não alcançavam o chão quando sentava na banqueta do piano, mas seus braços agora eram mais longos e seu rosto começava a deixar os traços infantis para trás. Seu cabelo, que antes era dourado, agora começava a escurecer, ficando em algum tipo de tom de mel, com algumas mechas que se aproximavam muito do castanho. Dessa vez seu cabelo não estava preso em uma trança e sim solto, porém mais curto, terminando na altura dos seus ombros. O vestido dessa vez era branco com detalhes em azul céu e não era rodado. Era um vestido singelo de algum tecido leve e terminava um pouco abaixo dos seus joelhos. Seus olhos estavam mais expressivos e pela primeira vez o tom de azul deles pareceu resplandecer enquanto ela tocava.

A mulher agora não tocava junto com a filha, mas ainda estava ao seu lado a observando encantada.

A menina agora tocava sozinha, com as duas mãos. A melodia que havia reconhecido imediatamente era uma das valsas de Bethovem. E ela tocava muito bem. Agora já não errava as notas. Seus pés, embora ainda não alcançassem os pedais do piano, faziam o movimento como se estivesse treinando para quando finalmente conseguissem alcançar, saber exatamente como o fazer em perfeição.

— Esta quieta hoje. – a mãe a olhava atentamente.

— Faz uns dias que não o vejo. Acho que estou com saudades. – ela disse parecendo triste de repente.

— O homem do seu sonho?

— Sim.

— Querida, é apenas um sonho. Em algum momento sabe que ele não aparecerá mais. – ela parecia empenhada em explicar aquilo a menina.

— Mas a senhora disse que era o meu anjo da guarda. – ela falou arriscando afastar os olhos das teclas, olhando brevemente a mãe.

— Meu amor, quando crescemos, os anjos que nos rodeiam começam a não se deixar ver mais. É assim que sabemos que estamos passando de crianças para a vida adulta. – ela falou afagando o cabelo da menina.

— Eu não quero crescer se isso significar que não vou vê-lo mais. – ela parecia amuada ao dizer aquilo.

Sua mãe apenas riu ao seu lado.

— Vamos, deixemos isso para depois, sim. Agora toque a quinta sinfonia.

Então com um suspiro a menina parou de tocar recomeçando em seguida com o pedido da sua mãe. Ao mesmo tempo em que a névoa encobria o espelho de novo.

Eu estava confuso e intrigado. Quem eram elas? O que essas imagens significavam? E algo que parecia inquietante em mim, quem era o tal homem com quem a menina sonhava?

Ansioso, olhava atentamente para o espelho resistindo ao impulso de apenas andar até ele e tentar me livrar da neblina para tentar enxergar do outro lado. Eu sabia que eram apenas segundos, mas para mim, pareciam momentos intermináveis, quase como se fossem horas.

Quando por fim a densa neblina se dissipou a imagem a minha frente me pegou desprevenido. Eu não esperava por aquilo.

Sentada ao piano havia agora não uma criança e sim uma jovem. Uma jovem lindíssima de uns quinze anos talvez. Seus cabelos agora eram de um tom castanho com apenas algumas mechas em um tom um pouco mais claro. Ele era longo e ela o usava solto e ele caia em cascatas por suas costas. Ela parecia ter abandonado os vestidos infantis. Agora em seu corpo havia uma calça jeans que parecia abraçar suas pernas e uma blusa fininha e de alças na cor azul. Seus pés descalços agora apertavam os pedais no mesmo ritmo que suas mãos tocavam as teclas. Para meu espanto ela havia deixado de lado os clássicos. Os acordes que ela tocava com tanta habilidade era de Guardian, uma musica de uma cantora chamada Alanis Morissette. Algo na forma como ela dedilhava aquelas teclas pareciam que queriam transmitir alguma coisa e se eu pudesse arriscar, diria que era rebeldia.

A menina havia crescido afinal.

Ela tocava a musica com paixão, isso estava evidente. Seus olhos fechados indicavam o quanto ela estava envolvida pela melodia.

Me surpreendi ao perceber que todo meu corpo estava inclinado em direção ao espelho. Eu estava concentrado na imagem a minha frente, tentado a tocar na imagem, como se desejasse a tocar, apenas deslizar meus dedos no cabelo daquela jovem.

Estava tão compenetrado no reflexo do espelho que não percebi que não estava mais só.

— Apreciando a vista meu jovem?

Olhei sobressaltado para a porta da sala e ali de pé havia uma jovem mulher me olhando.

— Quem é você? Não pode entrar aqui. – falei me pondo de pé.

— Eu? Eu sou o que sou e eu vou aonde eu quero. E você? Acaso já sabe quem é?

Olhei novamente para aquela mulher. Ela era lindíssima, disso não havia duvidas. Seus cabelos negros como a noite caiam por suas costas e se perdiam no seu vestido que era tão negro quanto seus cabelos. Algo nela me intrigava. Foi então que olhei novamente em seus olhos e a reconheci.

— Madame Alice?

O sorriso que se abriu em seus lábios mostrava o quanto ela gostava de ser reconhecida.

— Eu sabia que tinha apostado no cavalo certo. Você é perspicaz. – sua voz tilintava.

— Mas ... como? – eu ainda a olhava espantado. – Você era uma idosa instantes atrás.

— Ora, eu lhe disse, hoje, com o portal aberto, o tempo não existe nessa sala senhor Cullen.

— Então você é jovem novamente?

— Por um tempo.... sim. Mas quando o portal se fechar.... provavelmente voltarei a ser a doce idosa que conheceu mais cedo.

— Isso é... – eu a olhava não encontrando as palavras.

— Mágico? – ela perguntou sorrindo.

— Intrigante. E perturbador.

Dessa vez foi ela a rolar os olhos antes de entrar de vez na sala.

— O senhor tem a mente um tanto limitada para um vampiro, alguém já lhe disse isso?

Dei de ombros voltando a olhar para o espelho. A jovem ainda tocava.

— Talvez seja por que nunca apreciei o que sou.

Foi a vez dela me olhar parecendo intrigada.

— A maioria das pessoas adora a ideia de ser um vampiro. Na verdade algumas dão tudo que tem para serem transformadas.

— Não eu. Não foi minha escolha. E se eu pudesse escolher, não teria me tornado um.

Eu não a olhava, mas sabia que ela ainda me olhava.

— Peculiar.

Não a respondi. A cena a minha frente era cativante de mais para me dar a esse trabalho.

— Algum progresso?

Contra minha vontade desviei os olhos da imagem a minha frente olhando de volta para ela.

— Não.

— Ao menos sabe o que esta vendo ali? – ela perguntou apontando para o espelho.

— Acho... creio que estou acompanhando a vida de uma jovem. Mas não sei o por que.

Um sorriso singelo surgiu em seu rosto.

— Apenas não se esqueça do tempo senhor Cullen. Tudo depende do tempo.

Eu ainda a olhava quando ela virou as costas e andou silenciosamente até a porta.

— Eu volto daqui a pouco para ver se fez algum progresso.

Então ela se foi e eu voltei a ficar sozinho com o espelho. A jovem agora já estava nos acordes finais da musica quando a porta se abriu e sua mãe entrou. Os anos começavam a passar para ela.

— Alanis de novo Bella. Sério? – pelo tom da mãe eu diria que ela não gostava da escolha da filha.

Mas Bella apenas continuou tocando de olhos fechados. Dando de ombros para sua mãe tudo que ela disse foi.

— Eu gosto. Fala sobre o que eu sinto e penso.

Sua mãe estava de costas para mim na imagem, então tudo que ouvi foi o seu suspiro.

— Você tem um talento raro querida. Por que o desperdiçar assim?

Suas mãos pararam de tocar e quase senti meu peito afundar com a perda do som. Era quase como se eu precisasse que ela continuasse tocando. O que era.... estranho. Para dizer o mínimo.

— Eu não quero isso. Eu amo tocar mamãe, mas eu não sou ela! — Ela? A quem Bella se referia? — Não quero ser uma musicista. Quero tocar apenas por que eu amo. Quero tocar para os que eu amo, não ser obrigada a me apresentar em concertos eternamente.

— Querida...

— Podemos não falar disso? – ela disse irritada desviando os olhos de volta para as teclas.

Sua mãe ficou em silencio por um tempo e então se sentou ao seu lado na banqueta.

— O que houve? Parece particularmente irritada hoje. – ela sempre mantinha um olhar doce para a filha.

— Não quero falar sobre isso também. – falou voltando a dedilhar as teclas.... apenas algumas notas da musica que ela tocava perfeitamente instantes atrás.

— Bella, nós sempre conversamos sobre tudo. O que foi?

— Mike Newton. Ele me chamou para o baile de primavera. – ela disse de má vontade.

Irritação. Raiva. Sim, era isso que eu sentia. Uma raiva sem explicação. Continuei ouvindo, mas minhas mãos estavam fechadas em punho e eu não sabia o porquê.

— Querida isso é ótimo. Mike é um ótimo rapaz.

— Eu não quero. – então Bella se virou de frente para a mãe deixando o piano de lado. – Por que você e papai insistem em me jogar para cima dele?

— Querida, nós apenas incentivamos essa aproximação. Mike é filho do melhor amigo do seu pai. É um garoto extraordinário. Nós achamos que ele é perfeito para você.

— Bom, eu não acho. – ela disse desviando o olhar para o chão.

— Querida...

— Eu não vou a esse baile com ele. Prefiro ficar em casa.

Então ela apenas saiu da sala deixando sua mãe para trás. E novamente a neblina se aproximou me impedindo de ver qualquer coisa.

Enquanto eu esperava aquela neblina se dissipar eu absorvia e tentava entender meus sentimentos. Ao mesmo tempo em que uma raiva confusa parecia borbulhar dentro de mim o tom de voz na recusa de Bella parecia me acalmar. Quase como um balsamo sobre uma ferida. O que estava acontecendo comigo afinal?

A neblina já se dissipava.

Novamente Bella já estava sentada ao piano. Era bom poder finalmente associar um nome a imagem. Novamente ela parecia um pouco mais velha. Não muito, apenas alguns traços mais delicados e femininos. Seu corpo passava por transformações, isso era visível.

Dessa vez ela vestia um short, deixando de fora suas pernas bem torneadas totalmente expostas. Uma camiseta vermelha, que parecia grande demais para ela por sinal, deixando seu ombro nu. Ela estava belíssima e parecia não se dar conta disso. Seus cabelos estavam soltos e seus olhos fechados como da outra vez. Ela também tocava Alanis como da outra vez, mas nessa a música escolhida foi Head Over Feet. Seus lábios balbuciavam suavemente a letra da musica.

Nesse momento tudo que eu conseguia pensar é no quanto eu gostaria de estar do outro lado desse espelho. Como eu queria estar realmente ali, de pé, a vendo tocar.

Com esse pensamento em mente, caminho lentamente até o espelho e levanto minha mão suavemente em direção ao espelho. Estou tão nervoso e não faço ideia do por que. Se fosse humano, com certeza minhas mãos estariam tremendo. Finalmente alcanço seu reflexo e, como venho desejando a um tempo, toco em seus cabelos. Mas em vez da maciez que imagino sentir, tudo que sinto é frio do espelho. Retiro minha mão frustrado e volto para o sofá me sentando em seguida.

Irritado abro meu paletó. Sinto como se estivesse precisando de ar, o que chega a ser cômico uma vez que não preciso respirar. Frustrado decido por tirar o paletó e o jogo no outro sofá. Abro os botões da gola da minha camisa azul e também os punhos os enrolando até a altura do cotovelo. Me sinto preso e faço tudo que posso para diminuir aquela sensação irritante.

Bella toca com uma emoção diferente hoje. Não é rebeldia... não. Hoje ela está diferente. Parece mais como um tipo de entrega.

— Bella?

Sua mãe entra na sala sobressaltando Bella e a mim mesmo. Nenhum de nós percebeu sua chegada.

— Querida, o que faz de pé tão cedo? São seis da manhã.

— Perdi o sono. – ela disse sorrindo. Suas mãos nunca deixando o piano.

— Bom, vejo que esta de bom humor. – ela disse andando até a filha e como se sempre se sentando ao seu lado.

Bella mordeu levemente os lábios ficando ruborizada e novamente minhas mãos coçaram com o ímpeto de tocá-la. Era quase como uma necessidade.

— Sim. – foi tudo que ela respondeu.

— Hum, esse bom humor tem haver com o fato você estar fazendo dezesseis amanhã?

Ela tinha dezesseis? O tempo estava passando tão rápido.

O tempo.

Então uma estranha sensação me atravessou. Levantei num impulso e vou em direção a ampulheta. Ela estava pela metade. Seja o que for que eu precisasse fazer ou descobrir, metade do tempo já havia passado.Voltei a olhar para o espelho e lá estava a ampulheta. No mesmo lugar que antes, em uma mesa atrás do piano no fundo da sala. Ele estava exatamente igual a ampulheta do meu lado da sala. Pela metade.

O som da sua risada suave me trouxe de volta ao dialogo dela com sua mãe.

— Não é por isso. – ela parecia envergonhada.

— Então? – a mãe perguntou mas Bella apenas continuou tocando, em seu rosto um sorriso delicado e um lindo rubor em seu rosto. – Bella! Compartilhe. – sua mãe disse rindo.

Então ela mordeu o lábio inferior, quase como se o mastigasse e então se virou para a mãe, parando de tocar.

— Ele me beijou.

Minhas mãos fecharam em punho e um rosnado saiu sem que eu percebesse por meus lábios.

— Quem? – sua mãe parecia tão afetada como a filha agora.

— O homem dos meus sonhos. – ela disse passando os dedos suavemente por seus lábios, quase como se estivesse revivendo o momento.

— Bella... – a mãe parecia que iria dizer algo, mas a filha apenas pegou em sua mão e a olhou com uma suplica nos olhos.

— Foi tão real mamãe. – ela parecia tão feliz e isso só fazia piorar minha raiva. – Foi o meu primeiro beijo.

— Bom... ele ao menos falou algo dessa vez? – claramente a mãe queria dizer outra coisa.

— Sim, foi a primeira vez que eu ouvi a voz dele. É a voz mais linda do mundo.

— E o que ele disse? – sua mãe agora havia deixado suas preocupações de lado e parecia quase tão agitada quanto sua filha. – Afinal em anos ele não disse uma única palavra.

Um sorriso quase envergonhado surgiu em seu rosto e ela se possível ficou ainda mais vermelha.

— Ele me desejou um feliz aniversário e me beijou. Quando ele se virou para ir embora eu perguntei o nome dele. Falei que esse seria o meu presente. Então ele sorriu para mim e mamãe, ele é o homem mais lindo do mundo.

— Bom, e ele disse o nome? – sua mãe agora mais parecia uma colegial do que uma mulher de meia idade.

— Sim. Ele disse que o nome dele é Edward.

Sinto como se um raio atravessasse meu corpo. Não consigo sentir minhas pernas e caio ajoelhado no chão.

O que estava acontecendo? O que isso significava?

A neblina já tão conhecida por mim preenche o espelho me impedindo de continuar a vendo.

— Isso não é possível. – sussurro para o nada.

Sinto meu coração galopando em meu peito, mesmo sabendo que o único coração que havia ali não batia a quase trezentos anos.

Respiro fundo tentando clarear a minha mente. Eu precisava encontrar uma explicação para tudo aquilo. Nada disso poderia ser real?

Com dificuldade, encontro forças para me levantar ao mesmo tempo que a neblina se dissipa e outra imagem começa.

É noite. Está tudo escuro e a única iluminação na sala vem do luar que entra pela janela de vidro que agora esta totalmente livre das cortinas.

A porta se abre e Isabella entra na sala. Ela veste um tipo de camisa que cobre seu corpo até a metade de suas coxas. Percebo que é assim que ela gosta de dormir, com camisas folgadas e grandes. Ela não se preocupa em ligar as luzes ou qualquer outra coisa. Ela apenas vai direto para o piano e se senta ali. Ela não toca nada, apenas fica parada, olhando para as teclas.

O tempo passa e Isabela continua parada na mesma posição.

Um suspiro tremulo escapa de seus lábios.

Instintivamente andei até o espelho e toquei em seu rosto.

— O que aconteceu Bella? – pergunto para seu reflexo no espelho desejando poder perguntar isso olhando em seus olhos.

Então ela se vira sentando corretamente e começa a tomar uma musica. Eu conhecia aquela melodia. Era uma composição de Debussy. Clair de lune.

Ela tocava com maestria. Era uma pianista incrível, mas já havia muito tempo que eu sabia disso. Mas hoje, hoje havia uma tensão em seus ombros que eu nunca vira antes. Quase como se ela carregasse um peso.

Então a porta se abre novamente e sua mãe entra. Ela veste uma camisola longa e anda apressadamente até onde Bella esta.

— O que houve meu amor? Estamos no meio da noite.

Seu rosto se contraiu e sua expressão se tornou fechada. Quase como se ela lutasse para não chorar. Algo em meu peito se aperta com essa visão e eu sei que nesse momento sou capaz de fazer qualquer coisa apenas para tirar aquela tristeza dela.

— Eu... tive um pesadelo.

— Oh. Quer compartilhar?

Vi a jovem engolir em seco antes de responder.

— Ele.... ele morreu no meu sonho. Na minha frente. – ao dizer isso suas mãos tremeram e ela errou uma nota.

— Oh meu amor. O homem dos seus sonhos?

Bella apenas conseguiu balançar a cabeça afirmando e então desabou.

Então a mulher puxou a jovem para seus braços e a mesma começou a chorar abraçada a mãe.

— Foi horrível mamãe.

— Foi apenas um pesadelo querida. – ela dizia embalando sua filha.

— Foi tão real. Em um minuto ele sorria para mim e no outro o carro apenas capotava e ele caia no chão.... morto.

Ao ouvir aquilo me afasto do espelho. Não era possível. Aquilo era apenas coincidência certo?

Esse era o único fato que eu sabia da minha vida humana. O único que Carlisle soube me dizer. Eu sofri um acidente de carro e fui achado em um estado tão grave por ele que a única forma de salvar foi me transformar. Mas... aquilo era loucura. Era impossível... não era?

— Querida, eu vou fazer um chá para você. Foi um sonho ruim, vai passar. – ela dizia já se afastando da filha.

— Não vai passar, você não entende? – ela disse se afastando da mãe.

Ao olhar aqueles olhos de um azul profundo avermelhados por conta do choro foi quase como se eu conseguisse chorar novamente.

— Esta doendo aqui dentro. – ela dizia apontando para o coração. – Eu sinto como se não conseguisse respirar.

— Meu amor, acho que temos que começar a pensar em procurar um tipo de ajuda para você. Não é normal isso querida. Você sonha com esse homem a mais de doze anos.

Ao ouvir a mãe falando assim Bella se assusta e passa as mãos por seus olhos se forçando a parar de chorar.

— Não, eu... eu vou ficar bem. Só estou assustada, foi um pesadelo muito ruim.

A nevoa chega novamente e eu volto a me sentar na poltrona.

Eu preciso de ar. Sinto como se pudesse correr por dias sem parar apenas para conseguir respirar. Meu primeiro instinto é de sair porta afora e começar a correr sem saber exatamente para onde. Mas desisto desse pensamento sem nem dar outra chance a ele. Sei muito bem que não posso sair dessa sala. Lembro bem do aviso de madame Alice. Além disso, não é exatamente como se eu conseguisse realmente sair. Não consigo imaginar me afastar desse espelho. Não consigo pensar em sair de perto de Bella.

Olho angustiado para o espelho. Preciso vê-la. Mas para minha irritação a neblina ainda estava lá.

— Vejo que começou a compreender. – o tilintar da sua voz anuncia sua chegada.

— Quem é ela? Como ela pode sonhar comigo se eu nunca a conheci? Ela é claramente uma humana, não pode ter me conhecido.

A jovem bruxa cruzou na sala e se sentou em outra poltrona, ao meu lado, mas do outro lado do espelho. Calmamente ela cruzou as pernas elegantemente e me olhou sorrindo.

— Vocês são sempre tão limitados.

Passei as mãos por meu cabelo. Eu estava frustrado.

— Eu não entendo. Como... ok, vamos esquecer o como. Eu entendi, você é uma bruxa poderosa. Mas aquilo esta mesmo acontecendo? Ela me vê em seus sonhos? É comigo que ela sonha?

— Sim. – ela respondeu ainda sorrindo.

— E essa passagem de tempo? É real? Eu estou vendo a vida dela?

— Sim. – seu sorriso se alargou. – Você esta vendo a passagem da vida dela em tempo real.

— Mas...

— Lembre-se – ela disse me interrompendo. – O tempo não existe nessa sala. As regras dele não valem de nada aqui hoje. Então não tente se prender ao que você acha que conhece sobre o tempo. Aliás, você tem problemas bem maiores do que esse para resolver não acha? – seu sorriso havia ido embora. Ela me olhava muito séria.

— E o que tudo isso significa?

Alice me olhava ainda seriamente, mas não fez menção de responder coisa alguma.

— Responda!

— Não posso. – disse simplesmente.

Me levantei irritado e comecei a andar pela sala. No espelho a neblina ainda cobria tudo.

— Diga alguma coisa! – exigi.

— Tudo que posso fazer é dizer quando está indo na direção certa. No resto você esta sozinho.

Eu andava de um lado a outro da sala, inquieto e ansioso.

— Ok. Eu estou na vida dela certo? De alguma maneira, através dos sonhos, eu estou na vida dela?

— Sim. – o sorriso havia voltado.

— Então, — eu forçava minha mente a trabalhar em possibilidades. Não era fácil. Eu nunca fui o tipo de pessoa que pensava muito sobre o sobrenatural. – Se eu estou na vida dela, quer dizer que, de alguma forma, ela também esta na minha?

— Sim.

— Mas eu nunca cruzei com ela. Eu saberia se houvesse cruzado.

Silencio.

— Inferno!

Silencio.

Seus olhos negros apenas me olhavam sem emoção.

Então um pensamento passou por minha cabeça e me virei para ela.

— Eu a conheci quando era humano?

— Sim. – novamente o sorriso surgia.

— Mas como é possível? Você disse que essa é a vida dela em tempo real e eu morri a trezentos anos. Como posso tê-la conhecido?

— Você continua preso no que acha que sabe sobre o tempo senhor Cullen.

— E o que isso significa?

Um suspiro impaciente.

— O senhor esta ficando repetitivo.

Olhei para o espelho e a neblina começava a se dissipar. Olhei em direção a ampulheta e era possível vê que mais da metade da areia já estava na parte inferior da ampulheta.

— O tempo esta acabando? – perguntei apontando para a ampulheta.

— Sim. – sem sorriso dessa vez, em vez disso sua boca estava em uma linha reta. Quase como uma careta de desgosto.

— O tempo passa, mas não significa nada. Ela está aqui, mas eu já morri a trezentos anos. Como vou achar a resposta para isso?

Silêncio.

Voltei a andar de um lado para o outro.

No espelho, a sala estava vazia. Apenas o piano no meio da sala. Não havia sinal de Bella. Eu precisava tanto vê-la. Meu coração se apertava ao saber que havia pouco tempo para vê-la. Eu não podia nem pensar na hipótese de o tempo acabar e eu não a ver mais. Eu..... enlouqueceria.

Então me virando para Alice eu digo.

— Eu a amo.

— Sim. – o sorriso surgia.

— É por isso. É por isso que vou enlouquecer se não resolver o enigma não é? Por que o feitiço vai acabar e eu não vou mais vê-la?

— Sim.

Voltei a andar de um lado para o outro. No espelho Isabella ainda não estava em lugar nenhum.

— Onde ela esta? – bradei para a bruxa.

— Quem sabe? – respondeu dando de ombros.

— O tempo ainda não acabou. Não tem o direito de me tirar ela ainda! – rugi de raiva.

— Então é melhor se apressar não é. – ela dizia calmamente como se minha reação e angustia não a afetasse em nada.

— Por que me mostrou isso? Eu estava bem sem saber da existência dela! – gritei apontando o dedo em direção a bruxa.

— Estava mesmo? Pensei que houvesse dito que sempre faltou algo em sua existência. – aqueles olhos negros brilhavam friamente ao me dizer isso.

Tive ganas de esganar seu pescoço. Mas antes que desse um passo uma ideia se formou em minha mente.

— É ela? É por isso que me sinto incompleto, infeliz. Por que sinto falta de Bella em minha vida. – dessa vez não foi uma pergunta, eu tinha certeza absoluta disso.

Mesmo assim madame Alice respondeu.

— O cavalo certo. Exatamente como eu havia previsto.– seu sorriso era irritante. Mas resolvi ignorar isso por hora. – Muito bem meu jovem.

Então ela se levantou e veio em minha direção.

— Parabéns, você entendeu. Agora só precisa resolver o problema.

— Mas como vou conseguir chegar até ela?

— Mas esse é o problema que precisa resolver. – então olhando para o outro lado da sala acrescentou. – E você não tem muito tempo.

— Existe um meio de saber onde ela esta?

— Mesmo que existisse, ela estaria morta antes que você chegasse até ela. Lembre-se, as regras do tempo não valem apenas nessa sala.

Irado, chuto uma cadeira na sala a lançando contra a parede. Imediatamente centenas de gravetos caem espalhados pela sala.

Um suspiro me faz olhar de volta para a bruxa.

— Era uma cadeira da era Vitoriana sabia disso? Uma verdadeira relíquia.- ela dizia com pesar. – Acho que não pensei direito quando escolhi essa sala. – ela parecia realmente triste ao olhar para os restos da cadeira espalhados no chão. — Ok. Você entendeu o significado, então acho que isso não será contra as regras. De toda forma, não posso apenas deixar você quebrar minha mobília. – ela parecia impaciente demais. — Preste atenção. Você e Isabella são almas gêmeas. Mas quando você foi transformado, você não morreu realmente. Então sua alma não pode reencarnar, mas a de Isabella sim. Ela vive sem você em todas as encarnações que teve nesses trezentos anos. Isso perturba o equilíbrio da vida. Essa é a ultima chance de vocês. Se nessa vida, Isabella e você não ficarem juntos, vocês nunca mais irão se reencontrar. Isso causa sofrimento não apenas em você, mas nela também. Ela continua esperando a cada vida por algo que nunca vem, e esse algo é você. O universo não pode permitir isso. Então, se nessa vida ela morrer sem encontrar você, ela nunca mais irá reencarnar, sua alma irá então, finalmente descansar.

— Isso não é descansar. Isso é ser condenado ao exílio eterno. Isso é sofrer para sempre.

— Você não sabe. – ela disse dando de ombros.

— Eu sei!

— Bom, de toda forma, isso é o que vai acontecer. Aos dois. A menos que você consiga achar uma maneira de chegar até ela. Isso claro, antes do feitiço acabar.

Então ela simplesmente se foi me deixando com meu tormento.

Como eu iria chegar até ela? Isso era loucura. Não havia uma maneira de fazer isso. Tinha que haver uma maneira, mas .... eu não fazia a menor ideia de qual seria.

Olhei de volta para o espelho e vi que Isabella ainda não estava ali e essa constatação me desesperou. Onde diabos ela estava?

Então a porta se abriu e ela entrou. Parecia um pouco mais velha. Seus cabelos agora eram castanho escuros. Ainda compridos. Acho que ela gostava dele assim e isso me fez sorrir. Também amava seu cabelo assim. Ela não havia crescido muito. No máximo ela chegaria a altura dos meus ombros.

Esse pensamento me fez ter a certeza de que ela ficaria perfeita com meus braços em volta dela. Novamente, eu gostava de pensar assim.

Mas meu alivio por finalmente a ver não durou muito. Ela não estava sozinha. Atrás dela, vinha um rapaz que parecia ter a mesma idade que ela. Ele um pouco mais alto que ela, não muita coisa, uns dois ou três centímetros talvez. Seus cabelos eram de um loiro sem graça. Me lembravam de areia. Seus olhos eram azuis como os dela, mas em vez de brilhar pareciam ser apagados. Eu não gostava dele e saber que ele estava ali com ela estava me irritando mais do que eu poderia explicar. Aquele lugar era um momento nosso. O que ele fazia ali?

— Essa é a sala de musica que você queria conhecer Mike. – ela disse sem muita animação.

Mike? Como Mike Newton? O rapaz que a havia convidado para ir ao baile anos atrás?

Um rosnado escapou por meus lábios.

— Ual, esse piano é bem legal. Não parece com o da minha mãe.

Vi Isabella revirar os olhos e não pude conter meu alivio ao ver que ela não queria estar ali. Eu concordava com ela. Ele era um idiota que não conseguia reconhecer a relíquia que era aquele piano.

— Ele é um Kaiserburg de cauda de 1707. Um piano alemão para pianistas profissionais.

— Ual. – o idiota só sabia falar isso? – Seus pais compraram ele por que querem que você seja pianista?

Isabella tocou o piano como se tocasse algo muito precioso.

— Não, ele pertenceu a tia de algo como a tataravó da minha mãe. Uma pianista famosa chamada Isabella. Foi daí que tiraram meu nome.

Algo em mim se revirou ao ouvir aquele nome.

— Então te deram o nome dela e o piano?

— Algo assim. – disse dando de ombros. – Ela foi muito famosa e quando morreu a família guardou o piano. Sempre se recusaram a vender. Minha família inteira toca, mas nunca ninguém teve o mesmo dom de Isabella. Então não o usavam. Ele era da minha avó. Mas quando eu nasci e mamãe resolveu me dar esse nome em homenagem a ela, minha avó me deu o piano de presente. Eu toco nele desde os meus quatro anos.

Ela parecia perdida em pensamentos enquanto acariciava o piano distraidamente.

— O que aconteceu? Você sabe, com a sua tatá- alguma coisa?

A expressão de Bella se tornou triste.

— Ela faleceu em outubro de 2001.

— Alguma doença?

— Ninguém sabe exatamente. Dizem que foi mais por um tipo de tristeza. Depressão. Parece que ela iria se casar no ano anterior, no dia trinta e um de outubro. Mas uma semana antes do casamento o noivo dela morreu em um acidente de carro. Parece que ela nunca se recuperou e acabou morrendo um ano depois.

— Isso é.... – o rapaz parecia sem saber o que dizer.

— Muito triste. – Isabella completou por ela, ainda acariciando o piano.

Eu ainda estava perturbado por tudo que tinha ouvido.

— Bella... você.. – Mike deu um passo em direção a Bella com determinação no olhar, mas antes que ele dissesse algo ela deu um passo para trás.

— Acho melhor voltarmos. Mamãe não tem se sentido bem, preciso ver como ela está.

Então ela saiu rapidamente da sala e o rapaz a seguiu parecendo desolado.

Como se soubesse que eu precisava de um tempo para entender tudo, a nevoa veio e encobriu o espelho.

Então foi isso que aconteceu? Eu tinha uma vida com Isabella. Uma vida que eu apostava minha alma, deveria ser perfeita e feliz. Mas eu morri e com isso a condenei a morte uma vez que ela nunca superou a perda.

Como um flash algo ficou claro para mim. Era por isso que eu não gostava do dia das bruxas. Era o dia que deveria ter acontecido nosso casamento. Era por isso que esse dia sempre era pior que todos os outros. Mais insuportável de se passar.

Por isso Bella era tão ligada aquele piano. Porque ela e Isabella eram uma só. Por isso ela sonhava comigo. De alguma forma ela tinha flashes da sua antiga vida, ao contrário de mim que nunca consegui me lembrar de nada.

A nevoa se foi e novamente Isabella aparecia sentada ao piano tocando.

Me sentei para observar melhor. Eu amava a ver tocar. Seria capaz de passar o resto da eternidade assim.

Era noite, mas dessa vez havia luzes acesas. Mas novamente ela vestia apenas um tipo de camisa como camisola. Me pego pensando se ela gostaria de dormir com minhas camisas? Com certeza elas ficariam gigantes nela e percebo que esse pensamento me agrada demais. Eu queria vê-la usando algo meu. Queria minhas camisas em seu corpo. Queria tocá-la. Beijá-la.

A melodia que ela tocava era suave, seus dedos pareciam voar pelas teclas. Uma valsa de Strauss. Seus olhos estavam fechados, um sinal de que estava muito familiarizada com a melodia. Mas havia algo errado, eu sabia. Seu semblante não era sereno ou feliz. Havia uma tristeza e preocupação em sua face.

Eu olhava preocupado a cena a minha frente quando a porta da sala se abriu. Por ela passou um homem de meia idade. A semelhança entre ambos era nítida, aquele era o pai dela.

Ele andou até estar atrás dela, suas mãos tocaram seus ombros, repousando ali. Seu corpo tencionou por um segundo antes de relaxar e ela abrir os olhos.

Não houve falas. Ele apenas permaneceu ali enquanto ela terminava de tocar. Quando as ultimas notas desapareceram no ar ela finalmente falou.

— Ela esta melhor?

Seu pai suspirou audivelmente e se inclinou deixando um beijo em seus cabelos.

— Toque mais um pouco. Isso parece ajudar.

Então depois de alguns instantes ele saiu novamente da sala a deixando sozinha.

Seus olhos voltaram a se fechar e uma lágrima deslizou por seu rosto antes dela voltar a tocar.

Novamente a neblina tomou conta do espelho.

O que estaria acontecendo? O que estava causando seu sofrimento? O que haveria de errado com sua mãe?

Esperei por mais algum tempo até que novamente, pouco a pouco a neblina foi dando lugar a uma imagem distorcida. Demorou um pouco dessa vez para a imagem entrar em foco. Ou era eu quem não conseguia entender a imagem a minha frente? Eu não saberia dizer.

Novamente ela parecia mais velha. Seus traços agora eram mais fortes. A inocência da adolescência havia ficado para trás. Vinte anos talvez? Sim, algo assim, definitivamente.

Isabela dedilhava novamente o piano. Não havia uma melodia definida, ela apenas tocava algumas notas aleatoriamente. Mais uma vez ela estava sozinha na sala e seu rosto estava banhado em lágrimas.

Angustiado por saber que algo a machucava, me vi mais uma vez indo em direção ao espelho. Percebi então que ela vestia um vestido negro, pesado, de mangas longas. O que havia acontecido?

Um soluço escapa por seus lábios e então em um ato de desespero ela soca as teclas do piano causando um pequeno estrondo.

A porta da sala se abre e o som de passos faz com que ela levante a cabeça e perceba que não esta só naquela sala.

— Papai. – ela balbucia ao ver o homem de meia idade parado ao lado do piano a olhando.

Como ela, ele vestia uma calça e camisa sociais. Ambos negros como a noite.

— Não deveria descansar um pouco? Foi um longo dia. – ele parecia tão desolado quanto a filha. Mal tinha forças para falar. Era visível.

— Ela nunca mais vai me ouvir tocar. Ela...... – então Bella apenas se entregou ao choro.

Compreensão me tomou naquele instante. Ela havia perdido a mãe. Eles estavam vindo do funeral.

Seu pai se aproximou dela lentamente , sua mão afagou seus cabelos gentilmente.

— Ela ouvirá querida. Tenho certeza de que onde quer que ela esteja ela sempre virá lhe ouvir tocar.

Ela chorou nos braços do pai por um tempo.

Eu daria qualquer coisa para estar ao lado dela nesse momento. Daria tudo para tirar sua dor ou ao menos poder confortá-la.

Quando por fim ela pareceu melhor seu pai se afastou.

— Bom, eu vou descansar. Gostaria que fizesse o mesmo.

— Eu já vou papai. – ela disse tentando sorrir para o pai.

Em silencio ele saiu da sala e ela voltou a dedilhar as teclas.

Levei minha mão ao reflexo do seu rosto e a toquei, como gostaria de fazer na realidade. Toquei seu rosto e seus cabelos como se a conforta-se.

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— Estou aqui Bella. – sussurrei para o espelho.

— Você não existe. – ela respondeu em um sussurro.

Assustado retiro a mão e me afasto para olhá-la melhor. Ela havia me respondido?

— Bella?

— Você não existe! – ela disse mais alto dessa vez. – Se existisse estaria ao meu lado agora. – ela parecia desesperada ao falar aquilo. – Eu nunca precisei tanto de você como hoje e onde você está? Onde diabos você está?

— Eu estou aqui meu amor. – respondi desesperado.

Ela apenas negava com a cabeça.

— Eu não quero mais sonhar com você. Chega. Para mim chega!

Então ela apenas se levantou e saiu da sala correndo.

A nevoa voltou a encobrir o espelho e no desespero eu o soquei.

— Eu estou aqui Bella!

Por um segundo temi que teria quebrado o espelho com a minha força, mas para meu espanto, não havia nem mesmo um arranhão ali.

A neblina já havia encoberto tudo e mais uma vez eu fui obrigado a apenas esperar.

Eu me recusava a me afastar do espelho. Eu precisava vê-la. Precisava dizer de algum modo que eu estava aqui. Que eu estaria com ela se eu pudesse.

— Como diabos eu faço isso? – gritei para o espelho vazio a minha frente.

A neblina se dissipou e novamente eu estava em frente a sala de piano. Novamente Isabella tocava.

O tempo havia passado, eu sabia disso.... sentia isso.

Ela não estava diferente, talvez seu cabelo um pouco mais comprido, mas apenas isso. Mas o motivo de eu saber que o tempo havia passado era seu olhos. Eles não estavam mais tomados pela tristeza.

Ela agora tocava uma melodia de alguma banda moderna. Eu não tinha certeza qual, não conseguia me concentrar nisso. Pois ao lado dela, de pé encostado ao piano tinha um homem a olhando com um sorriso no rosto. Um homem jovem, apenas um pouco mais velho que ela.

Ele era alto, bem apessoado. Cabelos castanhos, olhos verdes. O sorriso em seu rosto deixava claro que ele estava encantado por vê-la tocar e tudo que eu queria fazer era matá-lo por se atrever a olhar para ela.

A música se encerrou quando ela se virou para ele sorrindo.

— E então? – ela parecia apreensiva.

— Perfeita. Nunca ouvi nada assim. – ela dizia parecendo assombrado.

— Emmet, pare com isso. – ela dizia sem graça.

— Estou sendo sincero Bella, você é perfeita tocando.

Então ele andou até ela e se sentou ao seu lado.

— Toca de novo?

— De novo? – ela parecia se divertir com ele.

— Por favor. – ele suplicou.

— Só mais uma – ela disse sorrindo e então voltou a tocar.

Dessa vez reconheci imediatamente a melodia de Bethoven.

Ele se levantou e se pôs atrás dela. Segurou seus ombros enquanto ela tocava, fazendo um leve carinho ali.

— Ela é minha! – rugi de raiva.

Em um ato de desespero soquei mais uma vez o espelho na esperança que ele se quebrasse e ali fosse uma porta para a vida de Bella, mas novamente nem ao menos um arranhão apareceu.

Eu sentia como se não conseguisse respirar.

Olhei em volta na sala e avistei mais uma cadeira como a que eu havia chutado mais cedo. A pegando desesperado, olho de relance para a ampulheta apenas para ver que ela estava agora quase vazia. Apenas um punhado de areia restava ali.

Desesperado, lanço a cadeira em direção ao espelho.

A cadeira se parte em mil pedaços, mas o espelho se mantém intacto. Ele nem ao menos balança com o impacto, era quase como se estivesse fincado ao chão.

— Bella, eu estou aqui! – grito para o espelho, mas não encontro reação alguma nela.

Descontrolado, eu atiro vasos ou qualquer objeto que esteja ao alcance da minha mão no espelho na esperança de que algo ali seja capaz de quebrar o objeto, mas isso não acontece. Como se zombasse da minha dor, os olhos de Bella se viram para o homem que a segurava e ela sorri para ele. Eu podia jurar que era como se o espelho zombasse de mim. Que risse da minha dor e do meu desespero.

A neblina vem surgindo enquanto eu ainda desesperado, tentava quebrar o maldito espelho. Lentamente ela toma todo o reflexo deixando para encobrir por último o reflexo da ampulheta.

Ali, refletido na imagem eu via o mesmo que sabia acontecer atrás de mim. O tempo estava se esgotando, agora aparentemente cada vez mais rápido.

— Não faça isso Bella! Eu estou aqui. Por favor... – eu gritava para o espelho coberto pela neblina em minha frente.

A neblina começou a se dissipar enquanto eu ainda estava de pé diante do espelho. Novamente o tempo havia passado. Seus cabelos agora estavam abaixo de sua cintura, sua aparência era de uma jovem mulher. Vinte dois anos talvez. Mas havia algo diferente dessa vez.

Na imagem a minha frente Bella se olhava em um espelho. Eu via apenas o rosto dela. Ela sorria, mas de alguma forma o sorriso não chegava a seus olhos.

Aos poucos a imagem foi se afastando. Ao principio eu fiquei confuso. Minha mente se recusando a processar a imagem que aos poucos se centralizava no espelho.

Ali, de pé de frente para o espelho para onde eu olhava estava Isabella... vestida de noiva.

— Não! – sussurrei tocando o espelho.

Ela estava de frente para mim. Estiquei o braço como se por milagre minhas mãos fossem entrar no espelho e a puxar para mim.Mas tudo que senti foi a superfície dura e gelada a minha frente.

Eu reconhecia aquela sala. Ela estava se arrumando na sua casa, na sala de música.

— Querida. – a porta se abriu e seu pai entrou parando abruptamente, ainda com a mão na maçaneta. – Está linda querida.

— Obrigada papai. – seu sorriso foi mais intenso ao falar com o pai, mas logo em seguida ele sumiu de seu rosto enquanto ela se virava para a frente e voltava a se olhar no espelho. – Acha mesmo que estou fazendo a coisa certa? Não estamos sendo precipitados? Só faz um ano que nos conhecemos.

— Querida – seu pai finalmente entrou na sala e a pegou pela mão a girando de frente para ele, me deixando ver pela primeira vez o vestido por completo.

Ela estava lindíssima. Parecia uma rainha.

— Eu conhecia sua mãe a apenas 4 meses quando nos casamos. Sabe disso. O tempo não significa nada quando se está com a pessoa certa.

Discretamente Bella desviou o olhar do seu pai e soltou de sua mão, voltando-se para o espelho novamente.

— Bella? Ele é a pessoa certa? – dessa vez todo vestígio de felicidade havia sumido do rosto de seu pai e no lugar apenas a preocupação permanecia.

— Eu... eu...

— 15 Minutos ! – alguém gritou do outro lado da porta.

— Claro que ele é papai. Eu só estou nervosa, só isso. – e lá estava ela novamente com o sorriso falso que não alcançava seus olhos.

— Querida, não é tarde demais. Você pode mudar de ideia.

Então ela se virou e andou até seu pai ajeitando algum problema imaginário em sua gravata.

— Está tudo perfeito papai. Emmet é maravilhoso e eu tenho muita sorte em tê-lo. Ande, vá para seu lugar. Eu vou apenas retocar o batom e já vou.

Ele ainda olhou desconfiado para a filha, mas por fim suspirou e deixou um beijo em seus cabelos.

— Tudo bem meu amor.

Ao sair da sala ele fechou a porta atras de si e ela voltou a se virar de frente para o espelho.

Nesse momento, meu coração que já havia parado de bater a séculos atras eu podia jurar que estava galopando em meu peito. Minha respiração arquejante como se eu houvesse corrido por dias e uma dor esmagadora parecia querer rasgar meu peito.

— Por favor, por favor, não faz isso. – eu implorei como se orasse a qualquer divindade que pudesse me escutar.

— Emmet é a pessoa certa. Ao menos ele existe. – ela disse olhando para si mesma com raiva. – Pare de esperar pelo que não vai acontecer. Você não é mais uma menina boba! – gritou a ultima parte socando o espelho.

Incrivelmente eu esperei que fosse ela a conseguir quebrar o espelho. Mas para minha decepção, como das vezes em que eu fiz isso, nada aconteceu.

Então como se gritasse chamando por mim, meus olhos voaram para a ampulheta refletida no espelho.

Como se chamasse por Bella, ela olhou para a ampulheta em sua sala ao mesmo tempo que eu.

— Meu tempo está acabando, eu preciso ir. – disse para si mesma.

Mas para meu desespero o tempo estava mesmo acabando. Agora poucos grãos restavam na ampulheta.

Desesperado corrido até onde estava a ampulheta do meu lado da sala. A peguei em minhas mãos como se de alguma forma eu pudesse impedir aqueles grãos de caírem.

“-Não se esqueça do tempo” a voz de madame Alice soou em minha cabeça e de alguma forma eu sabia que era realmente ela falando comigo.

Olho de volta para o espelho e vejo Isabella virando de costas e andando em direção a porta.

— Nãoooooooo! – grito desesperado ao mesmo tempo em que jogo a ampulheta no chão.

Como se fosse mágica o espelho a minha frente se estilhaça em mil partes, seus pedaços voando para longe, quase como se alguém o houvesse explodido.

Dentro daquela sala era como se realmente uma explosão houvesse acontecido. Ao mesmo tempo em que o espelho se partia e seus pedaços voavam para longe uma ventania desconhecida varria a sala sacudindo as cortinas e balando os quadros na parede ao mesmo tempo que um som estridente soava tão alto fazendo ser quase impossível pensar . Por instinto cobri meu rosto com os braços e quando finalmente toda aquela tormenta passou ergui minha cabeça vendo que onde antes havia um espelho agora havia uma portal. Um portal aberto no meio da sala.

Eu não estava entendendo absolutamente nada, mas movido pela pura necessidade de encontrar Isabella eu me vi andando em direção ao portal e o atravessando sem dar um segundo pensamento sobre isso.

Ao passar pelo portal era como ser sugado pela escuridão e no segundo seguinte me vejo no meio de uma sala clara. Tão clara que meus olhos se fecham instintivamente tentando se adaptar.

Quando por fim consigo focar eu finalmente entendo onde estou. De alguma forma eu vim parar dentro da sala de musica.... eu estava na casa de Isabella.

Lembro então das palavras de madame Alice, onde ela dizia que o tempo não existia naquela sala. Quanto tempo havia passado?“Bella já havia se casado?”

Eu precisava saber. Não, eu precisava achá-la. Dane-se se ela houvesse se casado. Eu a pegaria para mim. Ela me reconheceria certo? Ela também me queria.

Movido por essa certeza e necessidade eu me vi andando pela casa. Casa essa que nunca vi, mas que agora eu andava como se houvesse morado aqui por toda minha existência. Eu sabia exatamente onde estava e para onde precisava ir. Em meu coração... não, em minha alma ... eu sabia que ainda havia tempo.

Me movo apressadamente, mas na velocidade humana. Eu até tentei, mas não conseguia usar minha velocidade aqui. Angustiado, mas esperançoso eu praticamente corro em direção aos fundos da casa e ao sair por uma porta eu vejo o imenso espaço aberto, todo decorado com flores diversas. Rosas, orquídeas, lírios e copos de leite, todos na cor branca e tendas marfins espalhadas pelo lugar. Era fim de tarde, o céu alaranjado salpicado com tons de azul celeste deixava claro que a noite estava chegando.

Haviam dezenas de pessoas sentadas em cadeiras. Todos de costas para mim e de frente para um sacerdote que estava de pé diante de um casal ajoelhado em um pequeno gazebo.

Ali eu vi uma linda mulher ajoelhada de costas para mim. Seus cabelos estavam soltos e caiam em cascata por suas costas.

Ela estava lindíssima, mas eu sabia que estava tudo errado. Não era aquele vestido, não era aquele lugar. Como em flashes aparecendo em minha mente, eu sabia exatamente como deveria ser o casamento daquela linda mulher. Em uma manhã ensolarada, em uma praia com apenas familiares e amigos íntimos. O vestido que ela usava hoje, embora fosse lindo, não era o que ela realmente gostava. Ela queria um vestido simples de cetim branco, corte reto indo até os seus pés, onde ela caminharia até o noivo descalça, sentindo a areia em seus pés. E o noivo ali de pé, seria eu.

Aquele era o casamento idealizado e organizado por nós dois.

Quando aquelas cenas cessam em minha mente eu me vejo em outro lugar, perdendo o controle do carro e captando diversas vezes seguidas e em minha mente tudo que existe é o pensamento da incerteza se veria Isabella novamente. Se teria mais uma chance de tocar seu rosto enquanto jurava meu amor eterno por ela.

Tonto pelas lembranças repentinas me vejo obrigado a me apoiar no batente da porta.

Movido pela certeza de que não perderia nenhuma chance de tê-la novamente me obrigo a deixar de lado as lembranças recém adquiridas e caminho entre os convidados tentando não chamar atenção para mim.

Eu estava quase chegando ao gazebo quando a frase dita pelo sacerdote pareceu uma carícia aos meus ouvidos.

— Se existem alguém dentre nós que se oponha a esse casamento, que fale agora ou se cale para sempre.

A minha volta todos permaneceram quietos e olhando para frente. Essa era uma frase dita apenas pela tradição. Não se esperava que realmente alguém levantasse interrompendo casamentos. Bom... hoje haveria.

— Eu tenho! – disse com a voz firme.

Na mesma hora um burburinho surgiu a minha volta e o noivo, que agora via ser o mesmo que vi ao lado de Isabella enquanto ela tocava piano se levantava olhando em minha direção parecendo confuso e irritado.

Mas quem eu mais queria que me olhasse permanecia ajoelhada e imóvel e ainda de costas para mim. Quase como se não houvesse me ouvido, ou como se não acreditasse no que ouvia.

Rompendo o burburinho o padre andou até os degraus do gazebo.

— E qual o seu motivo para interromper essa união meu jovem?

Mas ignorando o noivo e o sacerdote eu permanecia olhando para ela, esperando.... desejando que ela se virasse e me visse aqui.

Quando por fim aqueles segundos me pareceram uma eternidade torturante eu tentei novamente.

— Isabella?

Lentamente ela se virou me olhando e quando seus olhos se encontraram com os meus ela ofegou se levantando.

— Impossível. Você não existe. – ela balbuciou quase inaudível. Eu jamais teria ouvido se não fosse um vampiro.

Ando lentamente até ela, não quero assustá-la mais do que ela já parece assustada.

— Eu existo e estou aqui.

O noivo olha de mim para Isabella com nítida raiva enquanto o padre parece tão confuso quanto os convidados. Eu ignoro a todos, minha atenção presa unicamente nela.

Bella negava quase para ela mesma, balançando a cabeça de um lado para o outro.

— Impossível. – ela ainda parecia acreditar ver uma miragem.

Dei os últimos passos ficando de frente para o gazebo.

— Não é. Eu estou aqui. Me desculpe por ter demorado tanto. Se eu ao menos imaginasse que você existia, que era você o que minha alma sempre procurou, eu teria encontrado um jeito de chegar até você há muito tempo.

— Edward? – ela testou, claramente com medo de que estivesse errada.

Abro o mais largo sorriso que sou capaz.

— Sim meu amor.

— Que palhaçada é essa? Bella, quem é ele? – ele perguntou segurando o braço dela e a puxando para ele.

— Solte-a! – eu meio gritei meio rosnei fazendo com que ele desse um passo para trás assustado.

Incrivelmente ela não se assustou.

— Não me precisa ter medo de mim. – disse a ela, mesmo vendo que ela não parecia assustada.

— Eu não tenho. Em meus sonhos.... – então ela maneou a cabeça como se tentando entender o que acontecia. – Você é exatamente como eu me lembro.

— Vem comigo, por favor? – peço esperançoso, minha mão esticada em sua direção. Eu imploraria se precisasse, mas desejava ardentemente que ela ainda me quisesse da mesma forma como eu a queria.

Temerosa, quase como se achasse que eu sumiria diante dos seus olhos, ela estica a mão em minha direção. Seus dedos roçam a palma da minha mão brevemente antes de meus dedos se fecharem em torno de sua mão e puxando suavemente para mim.

Ela praticamente se joga em meus braços olhando dentro de meus olhos.

— Você está aqui. – ela diz sorrindo para mim.

— Estou. Não acredito que finalmente encontrei você.

Vozes cada vez mais alteradas surgiam a nossa volta, mas incrivelmente ela parecia tão alheia a aquilo tudo como eu.

— Você me procurou?

— Pelo que pareceu uma eternidade. – digo deixando todo meu tormento transparecer em minhas palavras. – Eu te amo Isabella.

O mais lindo e largo sorriso aparece em seu rosto.

— Eu também te amo Edward.

— Vem comigo? – digo já a puxando pelo mesmo caminho por onde vim.

— Claro. – ela diz já andando comigo.

Olho para ela antes de cruzar a porta e puxando para um beijo.

Tocar em seus lábios faz eu ter a certeza de que de alguma forma eu estava vivo. Pois apenas estando vivo eu seria capaz de sentir tudo que estava sentindo, isso inclui meu coração batendo.

Isabella parece tão afetada quanto eu, se é que isso era possível e quando nos separamos seus olhos brilhavam mais do que as estrelas do céu.

— Para onde vamos? – ela perguntou olhando incerta para a porta.

— Confia em mim? – perguntei puxando sua mão e a beijando suavemente olhando o tempo todo em seus olhos.

— Sempre. – disse ficando na ponta dos pés e me beijando.

— Então vamos. – Disse dando um breve beijo em seus lábios e segurando em sua mão já nos guiando para a porta. – A eternidade é nossa Bella e nunca mais iremos nos seperar.

FIM ♥.


Notas finais
Espero que tenham gostado. Talvez ela continue.... vamos ter que esperar até o ano que vem para saber ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.