Capitulo 3

(Três dias após a partida do Gran Duque à Alemanha, ele finalmente chega ao reino com o mensageiro real. A carruagem passava pelo povo e todos comentavam a chegada de um homem estranho. Primeiro uma mulher e agora um homem… o que se estava a passar? Victoria e Frederico, sentados nos respetivos tronos, aguardavam ansiosos pela chegada do Gran Duque com o delfim. Abrem-se as portas do salão e entram os dois homens, altivos, olham para o vazio. Ao aproximarem-se, eles se curvam diante das majestades sem olhar-lhes as caras. Erguem-se finalmente e então Cesar depara-se com os ricos olhos da rainha. Ouvir: Paolo – Malafemmena. Cesar fica encantado com aquela mulher que olhava-o com pouco interesse. Observa-lhe as mãos e a postura elegante, hipnotiza-se pelos seus cabelos negros como ébano, esfomeia-se com os seus lábios vermelhos como o sangue e ludibria-se com a sua pele branca como a neve que ainda havia de cair. Cesar nunca antes vira uma rainha de cabelos negros, ou uma mulher de cabelos tão negros. Deixa-se escapar um suspiro por aqueles olhos verdes como duas esmeraldas… sim, Victoria era-lhe toda uma joia, um tesouro inalcançável para um simples mensageiro, ainda que muito importante fosse o seu cargo, Cesar jamais seria rei, Cesar jamais seria digno de merecer se quer tocar-lhe o rosto macio e pouco corado. Sente queimar na alma um fogo estranho, um desejo insano de tê-la para si. Naquele momento, Cesar sentiu-se capaz de matar para obter um olhar de alento que fosse, daquela deusa. Sentiu-se escravo dos seus olhos e servo dos seus lábios… ah, e a curiosidade que tinha de conhecer-lhe os segredos mais obscuros e até as curvas daquele corpo escondido. Cesar contém-se e retoma a postura de criado que levava uma mensagem lembrando-se que ainda era ser humano, lembrando-se que ainda vivia, pois só a presença daquela mulher fazia-o deixar a Terra e a vida vivendo apenas para beijar-lhe o chão e com sorte, os pés. Naquele encanto ledo e cego, Cesar não notou a semelhança que havia entre as duas rainhas, talvez porque para ele, não existia outra como esta divina fêmea).

Frederico – Então, Gran Duque… onde está o delfim da França, que não o vejo?

Gran Duque – Milorde, não trago o rei, mas trago o seu mensageiro para contar-lhe as novas.

Victoria (com desprezo) – Um mensageiro? Um reles mensageiro? Ordenamos pelo delfim e não pelo seu… (olha-o de cima a baixo)… mensageiro. Onde está o rei da França?

Cesar (sentiu o corpo vibrar ao ouvir aquela voz grave e autoritária… relutou em responder com medo de perder o dom das palavras) – Minha rainha, o delfim não veio porque… fora encontrado morto. Descia o rio já inchado e mal cheiroso. Uma tragédia, majestade.

Frederico (levanta-se impressionado) — Morto? Pobre do homem… mas e a delfim, o que lhe aconteceu para estar adormecida? Encontrei-a desfalecida pela estrada e ainda não acordou.

Cesar – Se me permitir, meu rei, eu poderia vê-la? Para saber se de facto é a delfim.

Frederico (levanta-se erguendo-lhe a mão à Victoria) – Claro, meu bom homem. Acompanha-nos e verás a mulher adormecida. Esperamos que seja mesmo a vossa delfim.

(Frederico, Victoria, o Gran Duque e Cesar, dirigem-se aos aposentos da mulher adormecida).

Victoria (com desprezo na voz) – Ai está. Diz-nos de uma vez… é ou não a delfim da França?

Cesar (sorri e aproxima-se dela) – Dona Maria Paula… sois vós e ainda vive… sim vive.

Frederico (vai até ela) – Então… Maria Paula é o seu nome, mensageiro?

Cesar – Oui, Majesté. Ceci est la reine. Esta é a delfim da França, D. Maria Paula Josefa Joana de Habsburgo-Lorena, nossa rainha. Mas… porquê dorme, milady, porquê?

Victoria – Isto, mensageiro, é o que nós também queremos saber. Ela por acaso é feiticeira?

Cesar (rir-se) – Tolice, sua altesa! Um delfim jamais poderia mexer com bruxedo.

Victoria (exalta-se) – Como ousas chamar-me tola, medíocre servo?

Cesar (levanta-se assustado) – Perdão, majestade, não foi a minha intenção ofendê-la… eu…

Victoria – Basta! Não me apetece ouvi-lo mais do que já me obriguei. (Põe-se apreensiva e agoniada) Meu Deus! Se o delfim morreu, quem vai acordá-la? (Para e volta-se para Cesar) Se morreu ou se não morreu não interessa mais. Vieste em nome da França para buscar a delfim e vais levá-la embora. (Para o rei) Meu senhor, por fim livrar-nos-emos desta responsabilidade.

Frederico (por um momento, sente-se mal por saber que já não teria a loura senhora debaixo dos seus cuidados, mas não queria contrariar a mulher que ainda sentia amar) – Podes levá-la.

Gran Duque (aflige-se) – Não, majestade. (Recua) Digo… ele não pode levá-la.

Victoria (indigna-se) — O quê? Mas… porquê não, Gran Duque?

Cesar – Se me permitir, majestade, eu explico. Se eu levar D. Maria Paula à França ela… ela será morta. Meu senhor, o conde que assumiu o trono na ausência do rei é suspeito de tê-lo assassinado e não duvidamos nenhum pouco que este também queira matar a rainha. Se ela estivesse lucida, poderia subir ao trono e trancá-lo nas masmorras, mas… mas não pode. Se o seu filho, D. Sebastião, arranjasse esposa, seria rei e também assim resolvia-se o problema, entretanto, o conde não o deixa conhecer candidatas justamente para impedi-lo de casar.

Frederico (intrigado) – Mas quem esse homem pensa ser? Ora… com que autoridade faz tantos crimes e sai impune? Não há ninguém acima dele?

Cesar – O príncipe, mas como eu disse, o menino vive como prisioneiro, meu senhor.

Victoria (aflita) – Perfeito. Agora teremos de ficar com esta mulher aqui por mais tempo.

Frederico (abraça-a) — Acalma-te, minha rainha, que as coisas vão se arranjar.

Victoria (chora) – Mas quando, Frederico? Até quando seremos obrigados a viver com esta mulher? (Para o mensageiro) Bem, quem me garante que não estás a mentir, mensageiro? Talvez tudo isto faça parte de um plano diabólico que tens com ela.

Gran Duque – Madame, eu posso garantir que as coisas não são como a senhora julga.

Cesar – Eu juro que digo a verdade, altesa. Se ela voltar para França, estaremos perdidos.

Frederico – Então está decidido… ela ficará connosco até acordar deste sono de morte.

Victoria (alterada) – Eu não admito isso! Não pretendo aceitar esta humilhação, Frederico. (Para Cesar) A mim não me interessa o que vai acontecer a esta mulher. Leve-a daqui!

Frederico (agarra-a pelo braço) — Já basta, Victoria. Eu sou o rei e eu dito as ordens.

Victoria (solta-se dele com raiva) – Ah sim? Pois muito bem. Por garantia, o mensageiro também ficará. (Aproxima-se dele castigando-o com os olhos) Se algo de mal acontecer, tu serás inteiramente responsabilizado. (Victoria sai imediatamente do quarto enfurecida).

Cesar (seduzido com aquela mulher altaneira, quase esquece de tudo. Volta-se para o rei ao desatinar) – Milorde, não o desapontarei e me comprometo inteiramente com esta situação.

Frederico – Está bem, mensageiro. Gran Duque, peço-lhe que cuide da residência deste homem. (Frederico olha Paula uma ultima vez e sorri, feliz, por ela não ir embora. Retira-se).

(Ouvir: Mozart – Lacrimosa. Enquanto isso, Victoria corria desesperada pelos confins do palácio, fugindo para lugares onde jamais ousara pisar. Só a ideia de ter aquela mulher ameaçando-lhe os pensamentos, o seu coração apertava-se. Chorava pelos gritos do homem que lhe fez juras de amor e agora defende uma bela desconhecida. Victoria sentia um mau agouro terrível. Estava angustiada e enciumada por ter aquela presença feminina tão bela debaixo do seu teto. Adentra mais e mais o castelo e sem perceber acaba num corredor longo e esquecido. Era escuro e frio, possuía retratos seguidos nas paredes, cujos olhos pareciam observá-la com obsessão. De repente, sentiu o mesmo medo do dia que foi obrigada a afugentar-se na floresta negra. A tapeçaria escurecida pelo tempo escondia aranhas; o longo tapete roxo estava velho e surrado; no teto, pinturas que pareciam contar histórias de bruxas e feiticeiras desnudas e satânicas. Victoria acalma os passos e caminha encolhida pelo corredor ainda curiosa, já esquecia-se das tristezas. No final do macabro passeio, há uma porta de madeira escura com um arco decorado por rostos tristes em mármore. Victoria hesita e vira-se para ir embora, mas… algo faz-lhe mudar de ideia e retornar. Uma voz sedutora de brisa pareceu-lhe dizer o nome como se a convidasse a entrar. Victoria empurra a maçaneta mas a porta está trancada. Ela procura pelos cantos um lugar onde talvez estivesse pendurada uma chave, mas não tem sucesso. Então, num súbito de magia, numa charmosa mesinha de canto ela avista um frasco de bebida avermelhada que dizia “beba-me”. Apesar de achar demasiado estranho, a sua curiosidade era maior que o seu receio, então ela entorna o frasco que a faz aumentar de tamanho inusitadamente. Ao alcançar o teto, assustada, ela nota um buraco e ali encontra uma chave feita de ouro maciço. Pega-a e ao fazê-lo percebe que agora na mesinha está uma caixa de biscoitos a dizer “coma-me”. Victoria acreditou que se a bebida a fez crescer, os biscoitos fariam com que diminuísse e assim ela os come voltando ao seu tamanho original. Excitada com toda aquela aventura, ela destranca a porta e entra num enorme salão cheio de espelhos. Cada um a sua forma, dezenas deles. Molduras em ouro, em prata, em rubis e até esmeraldas. A medida que ela entrava mais e mais no grande salão, os espelhos pareciam emitir uma luz saída de dentro deles que iluminavam os seus caminhos. Estava espantada com tantos espelhos e o facto de nenhum deles conseguir refletir a sua imagem, eles pareciam ter a única função de iluminar o espaço sob presença. Então, Victoria encontra um enorme espelho, o único que refletia-lhe a face e o corpo. Este não parecia ser feito de vidro ou de prata… o lugar de reflexo parecia ser pura água cristalina, a moldura do espelho era feita de ossos de cervo, o mesmo tipo de animal que o caçador teve de matar para apresentar um coração à rainha. Num púlpito de cristal, havia um livro velho e empoeirado, com palavras escritas em sangue. Victoria aproxima-se e põe-se a recitar as palavras).

Victoria – Servo que vives no espelho, tem do teu lar distante, através do vento e da escuridão eu te convoco, fala! Deixa-me ver o teu semblante! (Espantosamente uma chama incandescente salta da agua como se pegasse fogo. Victoria aterra-se , atira o livro ao chão e corre mas antes que pudesse sair ela ouve uma voz grave e sombria que fez-lhe arrepiar dos pés à cabeça: “que quereis vós, senhora minha?”. Ela vira-se e vê um rosto no espelho, um rosto que não era o seu. Era como uma máscara branca e mal-humorada) Quem… quem és tu?

Espelho – Vede, majestade, sou o seu servo eterno. Eu sou aquele que nunca lhe mentirá, eu sou os vossos olhos para o mundo, minha rainha. Eu sou o espelho da verdade.

Victoria (amedrontada) – Então… então era a ti que a minha madrasta indagava a beleza?

Espelho (admirado) – Ora, ora, vejam que rica sois agora, Branca de Neve. Aproximai-vos!

Victoria (receosa mas curiosa, ela atende) – O que queres de mim, espelho?

Espelho (rir-se) – Na verdade, minha nova ama, sois vós que tem questões a colocar.

Victoria – Eu? Eu não tenho nada para perguntar-te, espelho. Não preciso de ti.

Espelho – Sua altesa mente… que feio, majestade, que feio! Pergunte o que quer saber.

Victoria (está tentada a perguntar) – Espelho, espelho meu… ah… eu…

(O que Victoria terá de curioso para saber do espelho? Será ela a sua nova dona?)

FIM (CAPITULO 3)