Espelho Meu
1 Capítulo 1
ESPELHO MEU
Capitulo 1
(Alemanha, uma era esquecida. É outono, as folhas caem enfeitando o vilarejo, as pessoas estão alegres e vivem em festa. Não há fome, não há tristeza. É tempo de celebração, um grande festejo em homenagem ao rei e a rainha que governaram o reino com bondade e justiça por mais de vinte anos. Carruagens abrem passagem por todos os lados, umas finas e outras populares. A senhora baronesa caminha com a criada, está falida mas não se deixa descer o nível por orgulho. Avista-se o palácio Neuschwanstein, é bonito, é rico, é charmoso. Perpetuava-se por entre grandes árvores e pinheiros que nesta altura do ano fazia-se fantasioso pelas cores do desfolhamento. As árvores punham-se coloridas, umas verdes, outras castanhas, outras amarelas. Era fantástico. Da torre mais alta avista-se uma rainha, uma famosa rainha. Tinha cabelos negros como a noite, lábios vermelhos como a rosa e pele branca como a neve. Era muito conhecida por ter sobrevivido à ira de uma rainha perversa que invejava-lhe a beleza. Ganhou o título de donzela mais bela de todas, e as pessoas vinham de longe só para contemplar a sua formosura, vinham para ver a Branca de Neve. Mas esse não era de facto o seu nome. Ela chamava-se Maria Victoria Bolena, filha da rainha Ana Bolena que fora decapitada por trair o rei com o próprio irmão. Ao contrário da maioria dos casamentos reais, ela e o seu rei casaram-se jurando amor eterno pois rezava a lenda que ele salvara-lhe da morte com um único beijo enquanto ela já estava repousada num caixão feito de cristal azul guardado por sete homenzinhos e alguns animais da floresta. A bela rainha despoja-se de um fabuloso vestido vermelho com lapela alta e rendas. As criadas rodeavam-na para deixá-la ainda mais bela do que já era. Entra o rei D. Frederico e observa-a abismado).
Frederico (sorri e pega-lhe a mão) – Como está a minha doce rainha, dona do meu coração?
Victoria (abraça-o) – Feliz por vê-lo, meu rei, dono da minha alma, homem que amo.
Frederico – Criadas, retirem-se. (As criadas saem a curvarem-se. Ele acaricia-lhe o rosto) Pronta para mais um dia de festejo?
Victoria – Ansiosa, na verdade. (Caminha até um espelho) Meu senhor, o povo é mesmo grato.
Frederico (abraça-a por trás) – Grato sou eu por tê-la ao meu lado, minha senhora.
Elizabeth (entra) – Que rica visão tenho de vós, meu pai e minha mãe adorada.
Victoria – Já estás pronta Liza? (Vai até ela) O laço fica para cima, minha filha.
Frederico (rir-se) – Minhas flores do campo brilham mais que os raios do sol.
Criado (Entra e curva-se) — Vossas Majestades, já está tudo pronto para dar início ao festejo.
(Ouvir – Medieval Music. Os músicos tocam e os dançarinos encantam fazendo uma dança em tributo ao rei e a rainha. Estavam todos no jardim do grande palácio. Todas as pessoas do reino foram convidadas. Nobres e plebeus, todos dançavam e bebiam juntos. A realeza observava do alto enquanto aplaudiam as apresentações. Dançarinas e ciganas faziam truques de mágica e balé. Um engolidor de espadas em chamas deixa o público enfeitiçado com as suas facetas. O rei passa a celebração agarrado a mão da sua rainha. Havia amor e muita felicidade. Uma formosa cantora grega faz o povo tremer diante da sua ópera tão bem entoada. Vários presentes são dados ao rei e a rainha. Um pintor muito caprichoso traz um retrato da rainha Victoria em gratidão a sua bondade. Era um formoso retrato onde ela usava um deslumbrante vestido branco com detalhes em vermelho e joias de ouro. A festa estende-se até o por do sol e por ai encerra-se. Era uma quarta-feira e por ordem do clero, o rei e a rainha deveriam cumprir a função naquele dia. Ouvir: Mina — Questa Canzone. Vestem a rainha e o rei camisas compridas, que pelo chão arrastam, a do rei somente a fímbria bordada a da rainha bom meio palmo mais, para que nem a ponta dos pés se veja, o dedo grande ou um dos outros, das impudicícias conhecidas talvez seja esta a mais ousada. D. Frederico conduz D. Maria Victoria ao leito, leva-a pela mão como no baile o cavaleiro à dama, e antes de subirem os degrauzinhos, cada um do seu lado, ajoelham-se e dizem as orações acautelantes necessárias, para que não morram no momento carnal, sem confissão. Já se deitam. Esta é a cama que venho da França quando a rainha foi a Escócia, mandada fazer de propósito pelo rei, a cama, a quem custou setenta e cinco mil réis que na Alemanha não há artífices de tanto primor, e, se os houvesse, sem dúvida ganhariam menos. A desprevenido olhar nem se sabe se é de madeira o magnifico móvel, coberto como está pela armação preciosa, tecida e bordada de florões e revelos de ouro, isto não falando do dossel que poderia servir para cobrir o papa. D. Frederico põe-se sobre ela sem lhe ver o corpo desnudo coberto por aquele manto de camisola. Tira o membro para fora das vestes e toma a rainha para si em movimentos contínuos que fazia-a ter os calores do prazer. Gemidos e sussurros ecoavam-se por entre as paredes dos aposentos. D. Frederico tinha a respiração cansada e D. Maria Victoria punha-se a suar. Não havia muito o que se fazer debaixo daqueles lençóis, só o que era permitido pelo clero. A mesma posição de sempre deixava o ato sem entusiasmo mas ainda assim eles o desfrutavam a balançar as madeiras e a mexer os lençóis. Palavras e sussurros de amor são ditos enquanto ele lhe deita o líquido para fora. D. Maria Victoria estende ao rei a mãozinha suada e fria, que mesmo tendo aquecido debaixo do cobertor logo arrefece ao ar gélido do quarto, e el-rei, que já cumpriu o seu dever, e tudo espera de convencimento e criativo esforço com o que cumpriu, beija-lha como a rainha e mulher, se não presumiu demasiado o seu olhar de prazer. É D. Maria Victoria quem puxa a sineta, entram de um lado os camaristas do rei, do outro as damas. Pairam cheiros diversos na atmosfera pesada. Um deles que facilmente identifica-se. Retira-se el-rei e fica-se a rainha, vestida pelas damas, ela adormece no leito. Amanhece o dia, e D. Maria Victoria está aflita pelos corredores. Encontra D. Frederico no salão e atira-se aos seus braços a tremer e a chorar).
Victoria – Não vás, meu senhor! Não me deixes aqui sozinha, amor meu. Não me deixes!
Frederico (abraçando-a forte) – Volto nuns dias, minha doce rainha. É necessário partir nesta viagem. Os comerciantes tiveram problemas com as encomendas trazidas de Inglaterra.
Victoria – Então manda os criados, mas não vás, meu rei. Sinto um presságio maligno… sinto que quando partires deixarás de ser meu, deixaremos de nos amar.
Frederico (pega-lhe o queixo) – Tolice, minha flor. Jamais deixarei de amar-te. Jamais.
(Toma-a nos braços e beija-a com vontades. Parecia de facto o último beijo. D. Maria Victoria está aterrada e abraça-o com força. Aqueles temores que tanto lhe davam tormento eram como uns pesadelos ou uma visão de mal. Os guardas fazem o sinal de prontidão).
Victoria – Promete-me que voltarás para mim e para a nossa filha! Promete-me, meu amor!
Frederico – Não só prometo, eu juro-te por este coração que bate as tuas ordens. (Tira um anel de um dos dedos. Era de ouro com uma enorme pedra de rubi. Feito para se usar no dedo maior). Este anel de pedra escarlate é o sangue que nos terá unidos, minha vida.
Victoria (beija-o outra vez) – Leva-me junto a ti no coração, meu doce homem. Amo-te.
(Partem em viagem deixando a rainha a olhar do portão com as lágrimas a escorrer. O rei não olha para outro lado se não para ela. Ali havia um amor tão forte quanto as rochas que mantêm palácio no alto das montanhas. Mas mesmo as rochas mais fortes podem se partir as vezes. Victoria torna para dentro do palácio e vem a filha Elizabeth consola-la).
Elizabeth – Não te preocupes, minha senhora mãe, que o meu pai há de voltar para nós.
Victoria – Espero que tenhas razão, minha filha… não consigo imaginar a minha vida sem o teu pai. (Solta-se dela) Vou para o jardim por em dia a leitura dos meus poemas. Sugiro que vás imediatamente ter com o teu professor de violino… para seres boa prenda a marido.
Elizabeth (encolhe os ombros e obedece sem vontade) – Sim, minha senhora mãe. (Retira-se).
(No caminho vai a cavalaria e o rei. Há uma única carruagem que leva D. Frederico e uma carroceria que leva algumas coisas para ele e para os seus homens. De repente, o primeiro cavaleiro dá sinal de paragem. O rei sai para fora sem compreender o que se passava).
Frederico – O que houve, cavaleiro? Porquê mandaste parar a viagem?
Cavaleiro (curva-se e diz sem olhar nos olhos) – Há uma criatura caída no caminho, majestade.
Cocheiro – Vejam! É uma donzela. Majestade, majestade, é uma donzela adormecida.
Frederico (corre para ver) – Deus do céu, é verdade! Vamos coloca-la na carruagem e levá-la para o vilarejo mais próximo. Lá deve haver um médico e hospedagem para esta criatura.
(Aproximam-se para pegar a mulher mas ao ver o seu rosto, os cavaleiros fogem de medo).
Cavaleiro – Majestade, não chegue perto. Deve ser uma bruxa ou um demónio.
Frederico – Ora, mas que mariquices são estas? O que tem esta mulher de tão horrível na cara para que vocês se aterrem desta maneira? (Aproxima-se e ao ver o seu rosto, fica espantado). Mas… mas ela é… meu Deus! É igualzinha a D. Maria Victoria.
Cocheiro – A não ser pelos cabelos dourados, majestade, são exatamente iguais.
Frederico – Mas quem será esta mulher de face roubada? Porquê é tão parecida a rainha?
Cavaleiro – É como eu digo, meu rei: esta mulher deve ser alguma criatura de feitiçaria.
Cocheiro – Deixemo-la ai que algum animal selvagem encarregar-se-á do seu corpo.
Frederico – Animais são vocês que ainda cogitam abandonar uma mulher inocente aos lobos.
Cavaleiro – Inocente? Isto é bruxedo, majestade. Quiçá uma cilada para vós. Vamos embora, por vossa segurança, meu rei. Que males hão de esconder-se por trás deste rosto de anjo?!
Frederico – Basta! Nós a levaremos connosco para o meu reino e lá iremos cuidá-la.
Cocheiro – Mas… ora, majestade, não íamos apenas levá-la para um vilarejo?
Frederico – Sim, mas este rosto desperta-me curiosidades. Se estiver enfeitiçada, se for vitima, não há medico que tenha cura. Levem-na para a carruagem, é uma ordem!
(Assim dada a ordem, a cavalaria torna ao reino levando um dia de atraso. El-rei estava encantado com aquela beleza extraordinária. Questionava-se sobre a sua admiração diante daquela imagem de santa. Chegam ao reino e já se comenta. A donzela adormecida é notícia pelo castelo. Quem era ela ou de onde venho, ninguém sabia, era um mistério).
Criada (entra nos aposentos em pânico) — Minha rainha, minha senhora, o rei retornou.
Victoria (levanta-se assustada) – Mas já? Porquê tão rápido? Aconteceu-lhe algo?
Criada – Bem… se aconteceu, não se sabe, mas… mas trouxe consigo uma mulher.
Victoria (aterra-se) – Uma mulher? Oh, não! Não me digas que ele arranjou uma concubina?
Criada – Se é concubina também não se sabe, só sabe-se que é loura e que está enfeitiçada.
Victoria (sem compreender) — Enfeitiçada? Ora, mas enfeitiçada de que jeito?
Criada – Vem adormecida, majestade. Eu não cheguei a vê-la, mas quem viu está aterrado.
Victoria – E onde está el-rei que ainda não me veio ver? Leva-me até esta mulher.
(Guiada pela criada, Victoria vai até os aposentos onde repousava a mulher adormecida. Na porta, havia muitas pessoas e todos esgueiravam-se para ver o rosto da donzela. Estavam curiosos com os boatos que corriam as paredes de pedra do castelo. Victoria abre alas e entra).
Frederico (corre e abraça-a) – Minha senhora, és colírio para os meus olhos.
Victoria – Quem é a mulher que trouxeste e porquê trouxestes uma mulher para nosso lar?
Frederico – Oh, não estejas aborrecida, minha linda. Eu só trouxe para ajudá-la. Não sabes que ela está sobre uma espécie de feitiço que não lhe deixa despertar? E também… há outro motivo que me convenceu a trazê-la. Olha, vê com os teus próprios olhos o seu rosto.
(Victoria aproxima-se do leito onde ela repousava e quase descai ao ver-lhe o rosto. Como poderia existir alguém que tivesse a face igual a sua?).
FIM (CAPITULO 1)
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