Espelho, Espelho Meu, O Meu Amor É Teu?
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Notas iniciais
Faz mais de uma hora que estou tentando dormir. Reviro-me na cama, procurando uma posição confortável e que faça meus pensamentos irem embora. Se amanhã não fosse sábado, com certeza estaria preocupada e já teria tomado algum chá calmante. Mas chá é só para casos extremos!
A frustração pela certeza da insônia que terei hoje me faz levantar. Decido ir até a cozinha, beber um pouco de água. Respiro fundo, sento-me à mesa, olho para o relógio que está logo à minha frente. Meia noite. Que horas eu vou acordar amanhã?
Sou do tipo que não gosta de acordar tarde ou sinto que perdi o dia. Por isso, nunca fui uma garota noturna, que dorme altas horas da madrugada. Ver os ponteiros do relógio caminhando para uma da manhã me deixa aflita. Levanto-me, decidida a dormir. É isso ou irei ler um livro qualquer, até pegar no sono. Caminho até o quarto, entro e fecho a porta atrás de mim. Então vejo a tela do meu celular piscando, ao lado do meu travesseiro. Mas quem diabos estaria me ligando a essa hora? Pego-o e vejo que não é ligação.
Ben: Oi, está acordada?
Respondo ou não? Respondo ou não? Encaro o aparelho por alguns minutos, certamente ele já me viu online e notou que li a mensagem. Dou de ombros.
Linda: Sim, não consigo dormir. E você? Possui hábitos noturnos?
Ben: É, sou acostumado a dormir tarde.
Linda: Deve ter algo realmente interessante para fazer... Hahaha’
Ben: Nada, fico apenas jogando ou assistindo séries.
Reviro os olhos e sorrio involuntariamente.
Linda: Cansou do jogo e está sem episódios novos?
Ben: Hmm... Não, só pensei em algo mais interessante para fazer!
Linda: Me acordar?
Ben: Tecnicamente eu não te acordei! Hahaha.
Linda: Engraçadinho. O que você quer?
Ben: Te dar boa noite, só isso.
Linda: Só isso?
Ben: Quer mais alguma coisa?
Paro. Oi? Que tipo de pergunta é essa? O que ele quis dizer com isso?
Ben: Eu sei que você tá aí...
Linda: Há-há-há. Boa noite, Benjamin.
Ben: Já? Está cedo!
Linda: Na verdade, não está. Não disse que queria apenas me dar boa noite?
Ben: Sim.
Linda: Então, boa noite, Benjamin. Até segunda-feira!
Ben: Gosto mais quando me chama apenas de Ben. É bem mais fácil de falar e de digitar também!
Sorrio.
Linda: Boa noite, Ben, até segunda.
Ben: Boa noite, Linda, dorme bem.
Deixo o telefone no chão e viro para o outro lado. Apago quase instantaneamente.
O sábado surge preguiçoso. O céu está nublado e poucos raios solares atravessam a minha cortina. Preciso me lembrar de mover a cama; toda manhã, o sol perfura meus olhos. Espreguiço-me e lembro da madrugada, das mensagens de Benjamin. Não faço ideia de que horas são e o silêncio na casa não me diz nada, já que hoje é um dia em que ninguém acorda cedo. Pego o celular e checo as horas. Bom, parece que ninguém acorda cedo, exceto eu.
Decido levantar, porque ficar na cama me deixa com dor de cabeça. Depois de fazer minha higiene pessoal, arrumar minha cama e resquícios da bagunça da noite anterior, saio do quarto em direção à cozinha. Pesco um pão, queijo e uma jarra de suco na geladeira. Um café da manhã simples. Mas tudo está silencioso demais e isso, em certas situações, não é bom.
Enquanto mordisco o pão, pego-me pensando sobre o comportamento de Ben. Num momento, ele me trata normalmente, como apenas um amigo. Em outro, já parece querer ser mais do que isso. Além disso, por que essas atitudes surtem efeito em mim? Não posso me permitir esse tipo de coisa. Preciso estar focada em meus planos. Nada de novos amores por agora, obrigada.
Amores?
Foco, Linda, foco.
Depois do café, volto ao quarto e fico zanzando de um lado para o outro. Uma ideia se forma em minha mente e sei que devo executá-la o quanto antes. Por isso me arrumo rápido e disparo porta afora.
— Bom dia, mon’amour. Aonde você vai? – A voz de Leo ainda está pastosa, por causa do sono e também pelo enorme pedaço de pão que mastiga. Pela sua cara amassada, ele acabou de levantar. Está vestido apenas com um daqueles shorts de dormir que os caras usam.
– Vou resolver uma coisa.
— Que coisa? Sem mim? – Ele faz um biquinho. – Me dá vinte minutos e já estou pronto!
— É coisa rápida, não precisa ir. Avisa à minha mãe que peguei o carro? Volto logo!
Saio antes que ele tenha tempo de protestar.
O trajeto é curto e o trânsito não é tão intenso a essa hora, então chego ao meu destino em quinze minutos. Estaciono logo em frente ao enorme prédio de portas de vidro e observo o letreiro rebuscado: Galeria de Arte Sier. Respiro fundo e tento me visualizar mentalmente. Calça preta, salto, blusa branca com gola em V sem detalhes, cabelo solto, bracelete prateado e bolsa. Confiro minha maquiagem no espelho retrovisor e solto todo ar que estava em meus pulmões.
Preciso mesmo fazer isso?
Digo a mim mesma que sim. Eu estarei matando dois coelhos com uma cajadada só. Ajudar dona Camila, mãe do Luís, seria uma jogada simples e de mestre.
Abro a porta do carro e saio.
Sabia que esse contato me serviria um dia.
— Bom dia, estou procurando o Renan – digo à recepcionista assim que entro no prédio, uma moça ruiva de enormes peitos que ela tentara disfarçar num vestido preto fechado.
— Um momento – responde e aí percebo porque ela fora contratada: sua voz era suave, amigável e sensual, ao mesmo tempo, sem ser vulgar, o que agradaria com certeza o público masculino e uma boa parte do feminino. Sorrio apenas.
Olho em volta. A galeria Sier é a mais famosa da região. Muita gente de outras cidades vem prestigiar os eventos daqui e há sempre compradores em busca de peças de arte de artistas desconhecidos e com potencial. Vários quadros belíssimos e cheios de significado estão dispostos nas paredes e esculturas pontuam diversos cantos. O prédio fora construído especialmente para esse empreendimento e tem os detalhes planejados pela família dona do local.
Renan, por um acaso, é o herdeiro de tudo. Tem um olhar incrível para obras de arte, o que deixa seus pais encantados e muito orgulhosos, claro. A sua educação é impecável e seus modos não negam isso. Mais de uma vez, tentou me contratar, porque, segundo ele, também tenho um bom olhar para arte. Porém sempre neguei; o interesse de Renan sempre fora mais do que profissional. Se eu não estivesse tão focada em meu plano, com certeza apostaria em Renan para esquecer tudo o que vem acontecendo.
— Linda?
Viro-me, sorrindo.
— Renan.
— Uau, você está ótima! – cumprimenta. Seu sorriso parece iluminar o ambiente e uma covinha aparece, sutil. Seu cabelo negro espetado está da mesma forma que me lembro e seus olhos claros tem aquele brilho que só pertence a ele. Renan é mais alto que eu, mas não magro, tem um bom porte. Hoje, veste uma camisa social azul clara, calça branca e sapatênis. – Quanto tempo, hein? Resolveu aceitar aquela minha oferta?
— Sabe que não tenho tempo para isso, Renan. Mas hoje eu quero te apresentar algumas obras. Tem tempo para ver?
— Algumas obras, é? Algum artista novo, suponho.
— Uma artista, na verdade. Lembra da dona Camila?
— Sua sogra? Lembro, claro. – Ele coloca as mãos nos bolsos.
— Ex sogra – corrijo e sua sobrancelha se arqueia em tom de questionamento. – É uma longa história, depois te explico. O fato é que ela é uma artista incrível e eu prometi ajudá-la.
— E por que ajudar sua ex sogra, senhorita Linda? – Seu tom inquisitivo faz com que eu tenha a sensação que ele conhece o meu plano.
— Porque eu prometi. Porque o que aquele filho da... O que o Luís fez comigo não desfaz o fato de a mãe dele ser uma boa pessoa. – Dou de ombros.
Renan cruza os braços e eu troco o peso do corpo para outra perna, ansiosa.
— Você vem?
— O que o Luís fez? – pergunta. Sua voz é dura.
— Ele basicamente me traiu na frente da universidade toda – digo, como se isso não fosse nada. Como se eu não tivesse passado uma semana chorando, em casa, de humilhação e tristeza.
— Me espera aqui – é tudo o que ele diz.
Decidimos ir com o carro dele, um Corolla do ano. Apesar de Renan não ser um cara ostentador e extravagante, não abre mão de bons carros. Este aqui é o xodó.
Em vinte minutos, estamos em frente à casa de Luís. Não percebo que estou tensa, até que Renan toca meu braço. Ele apenas me olha e eu sorrio. Acho que mais fiz uma careta, mas tudo bem.
Saímos do carro e paramos lado a lado, em frente à porta da casa. Respiro fundo e toco a campainha. Viro-me para Renan e ele se interessa pelo colar que eu havia escolhido para o dia. É justamente quando ele está mexendo na peça, que a porta se abre.
E quem está ali, emoldurado, é ninguém menos que Luís.
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