Notas iniciais
Ah. Meu. Deus. Meu dia não podia ter ficado melhor.

— Linda? – Luís está claramente confuso em me ver ali. Não sei se serei capaz de formular alguma frase coerente sem xingá-lo de todos os nomes ofensivos possíveis, então apenas olho para Renan. Ele entende meu recado visual.

— Bom dia. Dona Camila está?

Luís analisa Renan de cima a baixo e fala com arrogância, segurando a porta:

— Quem gostaria? E o que quer com ela?

— Desculpe, mas este é um assunto particular – Renan responde, polido.

— É a minha mãe e se você quiser falar com...

Perco a paciência.

— Ah, por favor! – digo, com raiva, empurrando Luís que não resiste por causa da surpresa, e vou entrando na casa, gritando: – Dona Camila? Dona Camila, eu trouxe aquela pessoa!

Não demora muito e dona Camila surge à minha esquerda, vindo da cozinha, secando as mãos num pano de prato. Um avental vermelho está amarrado à sua cintura e seu cabelo está preso num coque apertado. Seu sorriso se alarga assim que me vê.

— Linda! Senti tanta saudade de você! – Ela me puxa para um abraço. Retribuo.

— Falei que viria aqui! – digo, ainda abraçando-a. Então sussurro em seu ouvido: – A senhora não falou ao Luís que estive aqui antes, não foi?

Ela se desvencilha, sorrindo e balançando a cabeça em tom negativo. O alívio toma conta do meu corpo e eu seguro sua mão, trazendo-a para perto de Renan, que ao que parece, também empurrou Luís para entrar. O canalha está com cara de quem chupou um limão bem azedo, de braços cruzados perto da porta agora fechada.

— Dona Camila, este é o Renan, dono da galeria Sier.

— Quase dono – me corrige, sorrindo e estendendo a mão para dona Camila. – Meus pais são os donos, na verdade. Conheço a Linda há anos e ela me falou muito bem das suas pinturas. Muito prazer!

— Pinturas? Que pinturas? Aquelas porcarias? – Luís se intromete na conversa. Nós apenas o olhamos, ninguém se dando o trabalho de responder. Pela expressão de dona Camila, ela não está nada contente com o comportamento atual de seu filho.

— Falei a Renan o quão incríveis suas telas são, dona Camila. Ele desejou ver assim que o encontrei. Nós podemos dar uma olhada? Estou ansiosa para vê-las desde que nos encontramos aquele dia e a senhora disse que havia feito outras. – Pisco para ela.

— Ah, minha filha, você é um doce de menina! Tão diferente de umas e outras... – Neste ponto, ela lança um olhar gelado a Luís. – Responsável, cabeça no lugar e gentil. O homem que você escolher e souber reconhecer seu valor será muito sortudo.

Renan me dá uma cotovelada e sorri, o que não passou despercebido aos outros presentes na sala. O safado do Luís parecia que ia por um ovo.

— Ninguém vai entrar para ver nada. Não tem nada de profissional ali. É só um monte de tela e tinta, nem dá para entender. Além disso, eu...

— Agora escuta aqui, seu... – explodo, mas a voz de dona Camila é mais alta e soa mais gélida que a minha.

— Escute aqui, seu moleque. Esta é a minha casa e eu recebo quem eu quiser. Já tenho tolerado suas irresponsabilidades e falta de compromisso ultimamente, porque você é meu filho e eu o amo, mas se quiser continuar sob este teto, irá respeitar o meu trabalho, os meus convidados e a mim. E está proibido de trazer aquela vadia aqui!

Eu e Renan arregalamos os olhos, em choque. Luís parece ter sido pregado no chão, incapaz de articular uma frase de resposta. Certamente ele esperaria qualquer coisa, menos uma resposta dessa da mãe.

— Agora, venham, meninos. Os quadros estão aqui na sala mesmo – chama dona Camila. Sua voz volta ao tom doce ao se dirigir a nós, mas lança um olhar afiado ao filho. – E, Luís, traga o bolo e o suco que estão em cima da mesa. Eu tenho visitas.

Um prazer perverso se espalha por mim ao ver Luís servindo a mim e a Renan. De propósito, sento-me próxima ao meu amigo, nós dois de frente à dona Camila, que escolhera uma poltrona.

— Dona Camila, estou embasbacado com suas obras. São cheias de sentimentos, de emoções... – diz Renan.

— Babaca você sempre foi – ouço Luís resmungar baixinho. Tenho certeza que Renan pode ouvir também, mas sua educação impecável o impede de dar uma resposta à altura.

— Obrigada, meu querido – responde a senhora. – Sempre fiquei radiante com os elogios da Linda, mas vindo de você...

Dona Camila parece exultante, um brilho no olhar e um sorriso que não lhe cabe no rosto. Sorrio de volta para ela. Apesar de Luís ser um canalha, sua mãe é uma pessoa maravilhosa.

— A Linda tem olhos muito bons mesmo – Renan concorda.

— Não só olhos, não é? – Camila sorri e dá uma piscadela para o homem ao meu lado, que ri brevemente, assentindo com a cabeça.

— Então, a senhora tem interesse em expor na galeria? Podemos lhe pagar adiantado uma parte e, claro, o valor das obras. Vamos ajustá-lo para colocar o percentual da galeria, mas acredito que todos serão vendidos.

A pequena senhora na minha frente nos encara, as mãos segurando a xícara de café sobre o colo, o sorriso mostrando todos os dentes.

— Meu Deus, nunca pensei viver isso um dia! – suspira. – Claro, claro que tenho interesse! É meu sonho de infância!

Lanço um breve olhar para Luís, apenas para notar que ele observa atentamente o meu envolvimento com Renan. Toco a mão do meu amigo e sorrio para ele:

— Acho que está na hora de ir. Temos alguns compromissos, está lembrado?

Renan age naturalmente, porém há uma franca surpresa em seus olhos. No entanto, ele apenas concorda com a cabeça e se levanta, estendendo à mão para Dona Camila.

— Será que a senhora poderia passar na galeria por volta das nove da manhã, amanhã? O contrato estará pronto. Se preferir, pode levar um advogado de sua confiança.

— Eu vou – Luís se intromete.

— Não, não vai – Camila o corta. Volta-se para mim e Renan: – Pode deixar, estarei lá no horário marcado.

— Ótimo – sorrio e abraço. – Muito obrigada por tudo, dona Camila.

— Ah, minha filha, eu que tenho que agradecer a você!

Dou-lhe um beijo no rosto e aguardo enquanto Renan se despede. Saímos da casa a passos largos, não sem antes eu poder ouvir a voz de dona Camila dizendo ao filho:

— Igual a essa, você não encontra nunca mais.

— Uau – comenta Renan, assobiando baixinho quando entramos no carro. – A coisa está tensa, hein?

Dou de ombros e me prendo no cinto. Não planejo contar a ele sobre os meus planos de vingança. Se bem o conheço, Renan jamais aprovaria este tipo de história.

— O que ele fez exatamente a você, afinal?

— Já te falei. Ele ficou com uma loira peituda numa festa na universidade e eu apareci bem na hora. Não reagi por um tempo, mas acho que depois fiquei fora de mim, porque tudo o que lembro é de ter voado em cima dos dois e alguns pares de mãos me puxando. Depois passei uma semana chorando horrores e agora larguei o foda-se e decidi curtir – digo tudo de uma vez, numa só respiração.

Meu amigo fica em silêncio por alguns segundos, mas quando finalmente abre a boca, solta essa pérola:

— Ela é gostosa?

— Renan! – grito.

— Que foi? – ele se espanta. – Qual é, Linda, para trocar você, ela tem que ser tipo uma deusa grega. Sinceramente, se eu estivesse no lugar dele, eu nunca...

E como quando se fala no diabo, ele mostra o rabo, a loira peituda passa por nós mexendo distraidamente no celular, caminhando em direção a casa da qual acabamos de sair.

— Olha ela ali – falo, apontando.

Renan a observa e comenta:

— Se isso te conforta, você é muito mais gata que ela. Aqueles peitos com certeza não são naturais. E o cabelo claramente também não. E os seus olhos são muito mais bonitos. E o seu sorriso...

Mas ele para de falar e olha atentamente a loira, desacelerando o carro.

— Você não pode estar falando sério – diz.

— É ela. Eu nunca a confundiria.

— Não acredito nisso. – Os nós dos seus dedos estão brancos por causa da força com que aperta o volante.

— Que foi?

— Eu não acredito que essa vadia está fazendo isso. – Respira fundo e vira-se para mim. – Essa é a namorada do meu irmão.

Ah. Meu. Deus.

Meu dia não podia ter ficado melhor.

Notas finais
Oi, vingativos, como estão? Como foi o natal? Presente atrasado para vocês, mas ainda está valendo, não é? Espero que gostem! E um feliz 2017 a todos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.