Espelho, Espelho Meu, O Meu Amor É Teu?
2 Convite
Notas iniciais
— Tudo bem, qual é o plano? O que se passa nessa sua cabecinha maléfica? – Leo surge atrás de mim, cochichando em meu ouvido, assim que saio da sala.
— Quê? – Estou tão irritada com o novo aluno, que não consigo pensar em mais nada.
— Como assim “quê?” O nosso plano para acabar com aquela doninha do Luís! – Meu melhor amigo me olha como se eu fosse louca.
— Ah...! Não consegui pensar em nada – respondo, sentindo raiva de mim mesma. – Estive distraída a aula toda!
— Hummm, e o que poderia distrair a femme fatale mais cobiçada deste campus?
E, como para responder a pergunta, eis que surge o meu inferno pessoal.
— Oi, Linda – cumprimenta Benjamin. – Ótima aula, o professor consegue interagir bem. Quando vamos nos reunir para o trabalho?
Olho para Leo com cara de quem quer morrer, mas ele apenas mede Benjamin de cima a baixo, fazendo caras e bocas.
— Não precisamos nos reunir. Cada um faz a sua parte e depois juntamos os pontos – replico.
— Não acho que isso vá dar muito certo.
— Bom, e eu tenho certeza que não vou à sua casa e nem convidá-lo para a minha, então fim de história.
É o Leo que está prestes a morrer agora. Ele me encara com os olhos arregalados, e eu sei exatamente o que ele quer dizer: como você vai dispensar um cara desse?
— É, mas sempre tem o campus. Podemos marcar na biblioteca.
— Nã...
— Ela vai. Amanhã, às 15h – Leo me interrompe, justo quando estava prestes a explicar que eu não queria estar perto dele!
— Tá bom, até mais tarde, então – ele se despede, e eu fuzilo meu melhor amigo com o olhar.
— Como você pode fazer uma coisa dessas comigo? – reclamo, pela nona vez, enquanto voltamos para casa à noite. – Aquele cara é um armário idiota, estúpido, imbecil, sem noção, metido à besta!
Leo apenas observa o próprio reflexo em um espelho que encontrou na minha bolsa. Parece se divertir com meu estresse e eu estou furiosa.
— Agora já sei o que te distraiu durante a aula, hoje de manhã. – Ri.
— Não tem graça! Eu esbarrei nele quando fui à secretaria, e aí a megera o mandou me acompanhar até a sala.
— Bom, mon’amour, para começar, pessoas que cursam Medicina não são imbecis, tem que estudar pra cacete. Em segundo lugar, ele não é um armário. Não me pareceu tão mal assim. – Pausa, enquanto ele admira um cara do outro lado da rua. – Na verdade, ele não tinha nada de mal, se é que você me entende.
— Leo!
Então nós dois começamos a rir.
Claro, Benjamin é bonito. Muito bonito. Tá bom, ele é terrivelmente bonito. Alto, olhos e cabelos escuros, o físico normal, sem ser um daqueles brutamontes. E deu para notar uma tatuagem escondida no ombro esquerdo. Mas, apesar de todos esses atributos, ele não é exibido. É apenas um cara normal.
— O que será que é aquela tatuagem? – pego-me pensando. Só não percebi que pensei alto demais.
— Hmmmm, então ele tem tatuagem também? Minha santa Beyoncé, me segura! Aquele cara é um pedaço de mal caminho! Não tenho problema nenhum em me perder nele! – Ele finge que está se abanando.
— Leonardo! – grito, e ambos rimos até chegarmos em casa.
Eu divido a casa com o Leo, mas a minha mãe está passando uns dias conosco e o Leo dormiu na casa do namorado, noite passada. Quando ambos passamos para a mesma universidade, nossos pais concordaram que alugar uma casa e dividir as despesas seria bem melhor. Fora que teríamos um ao outro e não ficaríamos sozinhos num local desconhecido.
O sonho de Leo era fazer Fisioterapia. Ele dizia que é para tirar uma casquinha dos jogadores de futebol, mas a verdade é que ele realmente tem o dom para a coisa. Nas duas vezes em que fraturei o pé, ele me acompanhou em todas as sessões de readaptação e me ajudou e auxiliou em todos os exercícios. Durante as últimas sessões, os fisioterapeutas até passaram a entregar para ele a lista de atividades do dia e confiavam que ele me guiasse.
O Leo é o tipo de melhor amigo “estou-aqui-para-tudo”, tudo mesmo! Ele descobriu que é homossexual aos dezesseis e, graças a Deus, os pais dele foram compreensivos – claro que houve um certo estranhamento, no início – e o aceitaram sem o julgar, apesar de serem bem religiosos. Os meus pais, que já desconfiavam sobre isso e confiavam a Leo a minha vida, não se surpreenderam muito. Os nossos pais se conheceram na época do colégio e são amigos até hoje.
Já o meu sonho era estudar Biotecnologia. Eu até já tinha minha vaga garantida em outra universidade; fiz o vestibular para Medicina só por diversão e passei, para minha surpresa. E, bom, claro que o meu sonho é estudar Biotecnologia, mas sou nova, posso fazer as duas coisas. Cancelei minha matrícula em Biotec e me inscrevi em Medicina. Qual é, cara? Medicina é Medicina! Assim era como eu pensava antes de começar.
No primeiro semestre, eu conheci o filho da puta – quero dizer, o Luís. Começamos a paquerar e ficamos na primeira festa. Aí começamos a namorar. Até o dia em que o peguei enfiando a língua na garganta da loira peituda. Agora aqui estou eu.
— Crianças, o jantar está pronto! – Ah, é, e aqui está minha mãe.
Chego à cozinha praticamente flutuando com o aroma da comida da minha mãe. Sinceramente, não tem nada melhor que comida com sabor de lar. Se você acha que morar sozinho é um sonho, não se engane! Está mais para pia cheia de pratos, comida ruim e você tem que comer, porque não tem outra coisa, e matéria acumulada. Sabe aquela ilusão de ficar no sofá o dia inteiro, ou só tendo que estudar? Não, não é assim! Ou você vai preparar seu almoço ou fica com fome! E eu nem vou falar da bagunça, porque, olha, parece que aquele negócio tem vida própria!
— Com fome? – Minha mãe pergunta.
Ela é do tipo prática e econômica. Não gosta de cozinhar e, muito menos, de arrumar a casa, mas experimenta deixar qualquer coisa bagunçada ou suja para você ver! Vai escutar o dia inteiro! Como uma boa virginiana, minha mãe é perfeccionista e quer tudo do jeito dela. Quando ela está aqui, tento não contrariar. Fisicamente, dizem que somos muito parecidas, mas ela é muito vaidosa, e seu cabelo está sempre com luzes retocadas. Nem me pergunte como anda o meu!
— Dona Tatiana, que cheiro maravilhoso! Vou comer tudo sozinho! – Leo surge do corredor, trajando uma bermuda preta, uma camiseta vermelha e allstar. Ele olha para mim. – Dá licença, vadia, nem encoste nessas panelas!
— Vai sonhando! Vai sair, é? – pergunto, enquanto pego meu prato.
— Vamos. Eu, você, meu boymagia e o seu boymagia.
— Como assim o meu boymagia, Leonardo?
— O Ben. Eu o chamei para ir na nova sorveteria. Ele só se interessou depois que eu disse que te arrastaria também.
— VOCÊ O QUÊ? Como você conseguiu o contato dele, Leonardo? Você mal o conhece! Só trocaram, o quê? Três palavras? Você enlouqueceu?
— Apenas coma e se arrume. Você vai gostar. E eu sempre tenho um plano.
Eu não acredito que estou dirigindo este carro. Não acredito que aceitei isso. Eu devia estar trancada no meu quarto! Eu não acredito que a minha mãe compactuou com isso e me mandou pegar o carro dela! Ela devia ficar do meu lado!
Não demora muito para chegarmos à tal sorveteria. Apostei num visual simples. Calça jeans, camiseta branca semitransparente e um salto. Apesar de ser uma sorveteria, tem de tudo aqui – até pizza! Não me pergunte. Saímos do carro e logo vemos os meninos nos esperando na porta. Leo sai correndo para abraçar seu namorado, Alec. Benjamin vem me cumprimentar:
— Oi. Você está linda.
— Obrigada. Quanto ele te pagou para fazer você aceitar isso?
— Ele me prometeu alguns favores sexuais – dá de ombros.
Eu o encaro, me perguntando de onde veio isso. A expressão dele está séria, mas quando nossos olhares se encontram, ambos começamos a rir. Ok, por esta eu não esperava. Leo e Alec nos observam.
— Vamos entrar, casal? – meu melhor amigo alfineta.
— Não somos um... – começo a protestar, mas Benjamin me interrompe.
— Vamos – responde Ben. E então complementa para mim: — Não o contrarie, pelo amor de Deus. Ele é capaz de fazer tudo.
— Então ele realmente te ameaçou! – Começo a rir novamente.
— Algo assim.
Acho que esta noite não será tão ruim assim.
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