Esparros
7 Capítulo 7- Nicolas
Notas iniciais
Havia muita coisa no que pensar naquele momento. Ele ainda não sabia o que sentia em relação à Lizzy desde que se beijaram em uma festa alguns meses atrás, mas não tinha como alimentar nenhum sentimento por ela. Iria se mudar para São Paulo e esse tão temido dia havia chegado.
Não estava muito animado; não era bom em começar de novo, e achava um saco os filmes nos quais adolescentes se mudavam para outras cidades e tinham que se habituar com um estilo de vida diferente, mas agora, o que ele via como clichê, estava prestes a fazer parte de sua vida. Ainda estava na cama, esperando o momento em que teria que deixar a capital mineira para trás e, com ela, sua escola, seus amigos...
O celular começou a tocar, e Nick sabia que Diego provavelmente havia mandado uma centena de mensagens explicando a importância de passar parte de suas últimas 24 horas na cidade com os colegas. A imagem alta, esguia e inconveniente do amigo passou pela sua cabeça, e Nícolas não conseguiu rejeitar a ideia de um cinema como um programa legal para dizer adeus.
Marcaram as 14 horas, no shopping perto do colégio, e quando todos os amigos se encontraram, Nícolas teve o súbito desejo de abraçar cada um deles. Para ser sincero, o filme era o de menos, ele só queria sentir a energia e personalidade de cada um de seus colegas antes de se despedir: A maturidade de Helena, o aconchego de Malu, o afeto de Vic, o senso de humor sexualmente pervertido de Diego...
Olívia, junto com Laís e Samanta, foram comprar pipoca, ele e Liz ficaram responsáveis pelos ingressos enquanto os outros se ocuparam com refrigerantes, doces ou por pegar lugares na fila de entrada para a sala da sessão. Nick e Lizzy entraram na fila, com umas seis ou sete pessoas na frente. Ele olhou para ela, cujos cabelos dourados estavam arranjados parte em um coque alto e parte soltos sobre o ombro, e se sentiu um idiota.
Algumas semanas antes, durante um jogo tradicional com os amigos de verdade ou consequência, ele disse algo parecido como "Fiquei com Liz porque estava bêbado" e, bem, isso não era nada legal. De fato, isso não era verdade e deveria ter sido entendido como brincadeira, mas acabou soando rude. Ele se arrependia daquilo.
Agora, apenas cinco pessoas os separavam da bilheteria, e ele não sabia se poderia falar com Liz novamente a sós. Ele tentou iniciar o diálogo, com esperança de que ela fosse receptiva e desse continuidade, mas isso não aconteceu. Então, com constrangimento, pediu desculpas, sinceras, pelo ocorrido. Enquanto falava, percebeu a expressão surpresa de Liz, provavelmente confusa com o jorro de palavras, mas ele era assim: Para Nícolas, era fácil magoar alguém, mesmo que sem querer, e extremamente difícil se desculpar.
No fim, quando terminou o que tinha de dizer, estava um pouco sem ar. Liz o olhou, intrigado e curiosa, e o tocou de leve no ombro. Dessa vez, em seu rosto claro havia um sorriso, e ele percebeu que ela aceitara suas desculpas. Estava tudo bem. Ela, por outro lado, era boa em perdoar.
Quando tudo estava pronto (ou seja, toda a comida comprada, ingressos em mãos e copos de refrigerantes em seus devidos lugares ao lado das poltronas), as luzes da sala do filme se apagou e o telão logo se iluminou. O filme, cujo nome Nick não conseguia se lembrar, era exagerado, com casais melosos e explosões desnecessárias! Se divertiu muito, não pelo enredo da história, mas sim, pelos comentários que Diego, Laís, Hugo e Samanta faziam. Quase derramou refrigerante em Olívia e Malu quando Victor teve uma crise de risos no meio da sessão e uma onde de "SHHH!" se seguiu das pessoas que estavam nas poltronas da frente. Até fez guerrinha de pipocas com Pedro, que estava na última poltrona e, acidentalmente, acertou um casal que estava se beijando.
Com seus amigos as coisas eram assim: Diversão, risos e bons momentos. Após a sessão, desceram para a sorveteria, juntaram 3 mesas e pediram alguma coisa com muita calda de chocolate, açúcar e demais carboidratos. Nícolas iria definitivamente sentir falta desses momentos e é por isso que já estava lotando a memória de seu celular com fotos e vídeos.
O tempo passou mais rápido que Nícolas queria, e se surpreendeu quando viu que seu relógio já marcava sete e meia da noite. Já estava na hora de começar a dar tchau aos seus amigos. Normalmente, ainda estaria cedo para ir embora, mas ele ainda tinha malas para arrumar, documentos para organizar e, provavelmente, teria que cochilar um pouco antes de ir para o aeroporto e pegar o avião. Ele começou a se despedir, mas antes de terminar, já estava ali, envolvido em um abraço conjunto de treze pessoas no corredor de um shopping center.
Eles todos caminharam bem lentamente em direção ao ponto de taxi, na parte externa do shopping, como se estivessem cientes de que por um bom tempo não estariam todos reunidos novamente. Nícolas e seus amigos haviam amadurecido juntos, se aproximado, crescido... Por uma última vez, se despediu, abraçando e beijando cada um de uma vez. Prestou atenção na altura, no cheiro e na voz para manter na memória a imagem de seus amigos o mais real possível. Entrou no táxi, acenou pela janela meio azulada e voltou para casa.
Ele ainda não entendia o porquê, mas as vezes era necessário dizer adeus as pessoas que se ama, por mais difícil que fosse. E foi com esse pensamente que, no dia seguinte, entrou no avião e deixou a BH desaparecer no horizonte.
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