Esparros

2 Capítulo 2- Victor


Notas iniciais
Victor, ou Vic, é um garoto único, repleto de sonhos e sentimentos intensos que quer compartilhar com o mundo. E apesar de algumas inseguranças, vocês irão descobrir o quão fácil é amar o segundo membro do grupo.

Victor se deitou no quarto emprestado do seu primo. Lá fora, a chuva caia lenta e calmamente, como se pudesse durar mais dois ou três dias. Havia ido para Brasília, uma viajem muito tempo esperada, mas pouco planejada, o que fez com que ele comprasse a passagem de uma hora para outra e nem conseguisse se despedir pessoalmente de seus amigos.

Emocionalmente, Vic não estava bem. Achara que viajar sozinho seria sinônimo de aventura e liberdade, mas seu coração fora envolvido por uma dolorosa sensação de solidão. Sua prima havia lhe dito que Brasília era uma cidade muito preocupado com a estética e o fitness, o que o fizera se sentir pior com o seu corpo, acima do peso para um adolescente de dezesseis anos.

Além disso, estava passando por uma pequena crise interna, referente a algo que achava ter entendido, ou pelo menos aceitado: Sua homossexualidade. Estava encantado com a capital do país, principalmente com as pessoas, uma mistura divertida de nordestinos, sulistas, entre outros. Mineiros não eram um número muito grande, então achava que poderia ser o concorrido pão de queijo no tabuleiro de coxinhas.

Mas para sua surpresa, não roubara nenhum olhar ou sorriso e, consequentemente, sua autoestima havia diminuído. Inclusive captou alguns olhares hostis em sua direção, semelhantes aos lançados a ele no município que morava, ao lado de Belo Horizonte.

Sentiu saudades de seus amigos. Eles viam sua diferença como algo que o transformava em alguém ainda mais especial, e não incomum. Também havia lembrado de cada um, principalmente durante o período que permanecera no ônibus.

Helena era reconfortante. Podia defini-la como alguém racional, mas que conseguia expressar o que sente de forma fácil exclusivamente com ele, e isso o fazia sentir confiável. Laís era uma classic bitch, a mais velha do grupo, e podia imaginar o que ela diria se estivesse ai: "Vic, você não deve nada a ninguém. Agora vai procurar um homem pra você antes que eu pegue pra mim."

Em sua coxa direita havia um hematoma, roxo azulado. Não sabia ao certo como conseguira aquilo, mas, estranhamente, achava bonito. Sabia que não era uma pessoa fisicamente frágil, sendo até mais forte que grande parte dos meninos da sua sala, mas algumas vezes gostava de se ver como uma pessoa menos bruta e mais frágil.

Levantou-se, seguindo as risadinhas na sala. Sua prima, Gabi, estava com seu amigo na sala, chamado Guilherme. Ele era evangélico, membro de uma igreja que definiria como radical, e Vic imaginava o que Guilherme via quando olhava para ele: Se um garoto legal amigo de sua prima, ou um garoto legal fardado a ir pro inferno por não nascer querendo depositar a "sua semente no vaso correto".

De seus colegas, Hugo também era um pouco misterioso. Não parecia ser religioso ou algo do tipo, mas mesmo fazendo algumas brincadeiras, Victor achava que as vezes invadia o seu espaço pessoal e o deixava desconfortável. Diego, todavia, as vezes parecia ser mais gay do que ele próprio, mas ficava com algumas garotas de vez em quando. Talvez ele fosse um bissexual enrustido, vai saber?!

A parede da sala da tia é amarela, quase dourada. E uma cor com tanto brilho sempre o fazia lembrar dos cabelos de Lizzy, que pareciam ser tecidos em puro ouro, de tão loiros e vivos. Ela era, sem dúvidas uma garota linda e doce, e com certeza, deve possuir um coração repleto de sentimentos complexos -como o dele próprio-.

Samanta era incrível, e talvez a que Vic mais falasse besteiras. Morena, tinha um sotaque carioca gostoso. Usava óculos quadrados, o que moldurava seu rosto oval e o queixo perfeito, mas ela preferia acreditar que ficava melhor sem eles.

Victor olhou pela janela, o cinza claro tomado por neblina. Ele preferia dias assim, sem sol para deixa-lo suado. E sua vida já era repleta de brilho: Os olhos de Malu sempre estavam felizes e curiosos, o sorriso iluminado e os abraços extremamente aconchegantes. Vic não estava perto dos seus amigos, mas carregava um pedacinho de cada um consigo. Sentiu sua alma aquecer, e sorriu. Não estava mais sozinho.