Espadas de Prata

3 Capítulo 3 Samus, o Anjo Caído


Notas iniciais
[1] Anjos corrompidos, que passam para o lado dos Demonios.
[2] Castas de Anjos, cada um com sua função. Virtudes são responsáveis por humanos na Terra, proteger e manter em silencio os magos e demonios que andam fora da linha. Dominações são os Anjos que atuam em emergencias, sempre prontos para luta, rebeldes e independentes. São bastante fortes.
Naquela noite chovia muito, tinha começado a tarde e continuava até tarde da noite. Eram quase 2 horas da manhã quando eu entrei no apartamento de Zeziel. Estava com pressa e precisava avisa-lo do que acontecia. O procurei por toda casa, mas não achei. Meu cabelo grudava em meu rosto por estar encharcado. Tinha deixado pegadas molhadas por toda casa. Quando estava saindo, tentando contata-lo mentalmente, ele apareceu. Entrou pela janela, recolhendo as asas brancas.

- Onde, por Deus, voce estava!? — perguntei nervoso.

Ele não respondeu. Estava estranho. Só caminhou até a mesa e tirou a camisa, agora furada nas costas. Mais uma.

- Não sei o que aconteceu com voce, não sei o que lhe incomoda, mas tenho ordens de Rafael.

Agora sim, ele estava prestando atenção em mim.

- Samus? — ele perguntou.

Sorri, mesmo que sem querer, ele era imprevisível. Mesmo convivendo muitos anos juntos, e acredite muitos mesmo, ele ainda conseguia me suspreender.

- Sim. Samus está tentando passar do Limbo para a Terra por uma passagem mística. Está recebendo ajuda de um Anjo, e Rafael acha que é um Virtude.

Ele me olhava com atenção, e quando terminei, desviou o olhar virando de costas para mim. Amarrou as longas e negras mechas de cabelo em um rabo-de-cavalo alto.

- Vamos então.

Eu concordei com a cabeça e saimos, os dois, pela janela do apartamento dele.

Chovia bastante ainda, raios ao longe iluminavam parte da cidade. Trovões e ventos fortes. Eu já estava desconfiado que aquela chuva viraria uma tempestade. E se virasse, significaria que teríamos ajudas, muito especiais, contra os Demonios.

Voamos, com um tanto de dificuldade, até o local onde outros Virtudes e Dominações [2] já se encontravam, atracando-se com Demonios e Anjos Caídos [1]. Era um cemitério, muito antigo, do séc. XVII.

Desci lentamete até o chão, ficando atrás de uma lápide e senti Zeziel do meu lado.

- Escute — ele disse — Fique longe do confronto direto, não vá para mais perto da passagem e cuide dos que não conseguirem mais lutar.

Eu balancei a cabeça impaciente. Na verdade estava com medo. Anjos também sentem medo. Medo de perder as pessoas queridas. E Zeziel era uma delas para mim.

Senti que ele se afastava, e procurei, no escuro e debaixo dos grossos pingos de chuva, amigos feridos.

Aquela parte do cemitério estava um caos. Demonios de toda espécie e tipo de atracavam com Anjos. Os Anjos Caídos, com suas asas negras ou avermelhadas lutavam em pé de igualdade com os Dominações. Vários Virtudes usavam-se do seu poder de transformar suas asas em afiadas asas metálicas, e retalhavam Demonios alados. Haviam outros Anjos de outras Castas também, lutando com suas espadas de prata. E no meio de toda essa bagunça, eu e os outros Querubins cuidavam dos que caíam. Muitas vezes, sem ter o que fazer, pois já estavam mortos. Seus corpos sendo pisados por outros Anjos enquanto lutavam.

Ouvia gritos de raiva, e urros vindo dos demonios que me deixavam arrepiado. Gritos de agonia e dor também podiam ser ouvidos. Eu estava a pelo menos 5 metros da passagem, já estava perto demais. Dois Querubins já tinham sido mortos, decapitados por pequenos, mas letais e ageis demonios.

Eu estava curando, pelo menos tentando, um Arcanjo ferido, quando olhei para cima e vi Zeziel. Fiquei sem ação, olhando para o alto, no meio de toda aquela batalha.

Zeziel abriu as asas e subiu ao ar, indo de frente com Samus, o Anjo Caído líder. Os dois se chocaram e começaram a lutar. Muitos dos que lutavam no chão pararam para olhar. Algo surreal. Zeziel carregava sua espada e golpeava Samus frenetica e violentamente. Samus apenas defendia, um sorriso cínico no rosto.

Percebi que Zeziel estava ficando cansado. Golpeava e golpeava, e não o acertava. Samus era rápido e agil. Desviava dos golpes com facilidade, batendo as asas negras no ar. Eu estava achando muito estranho, ele desviava mas não atacava. Estava tentando ganhar tempo, enquanto a passagem se abria mais, e quanto mais aberta, mais Demonios saíam dela, deixando desigual para com o numero de Anjos. Se não derrotassemos Samus rapido, logo o cemitério estaria tomado por seus Demonios e Anjos traidores.

Desviei o olhar por um segundo para o Arcanjo que antes eu curava. Depois de ajuda-lo, ameacei avançar para o lugar onde estavam Zeziel e Samus, para tentar ajudar. Mas antes que eu pudesse me afastar, ouvi um alto farfalhar de asas. Olhei para trás e vi Redael, um Principado de 3 pares de asas — das quais, em uma batalha contra os Templários a alguns séculos, ele perdeu uma — que vinha voando baixo, quase tocando a cabeça dos que lutavam no chão. E logo atrás dele vinha Juliel, um Nimbus, dilacerando membros e esmigalhando ossos inimigos com sua espada de prata.

Voltei a olhar para o alto, na direção de Zeziel, quando ouvi seu grito de agonia. Samus, que tinha o poder de transformar seus braços ou pernas em laminas de aço afiadíssimas, usou-se desse poder e cortou a asa direita de Zeziel, separando-a do corpo. Gritei seu nome, enquanto ele perdia o equilíbrio, abraçando o próprio corpo, tavez numa tentativa de amenizar a dor, e caiu, de costas, sobre uma lápide de mármore.

Samus sorria, como se vitorioso, enquanto Zeziel agonizava e tentava se levantar. A asa branca, no chão, se desfalecia em um brilho prateado e sumia aos poucos. Olhei para Zeziel e abri minhas pequenas, mas ageis, asas.

Tudo aconteceu simultaneamente, e em segundos.

Enquanto eu avançava na direção de Zeziel, este se levantava, suas costas sangrando muito e abrindo a asa esquerda sobre o corpo, em forma de escudo. Samus, num só impulso, avançava em sua direção com os braços em laminas e pronto para acerta-lo. E Redael passou sobre minha cabeça. Tudo muito rápido. Redael estendeu e abriu suas 5 asas, entre Samus e Zeziel. Samus parou em pleno voo quando as 5 asas se fecharam e golpearam o ar.

Não sei dizer se ele, por conta própria, se afastou ou se foi a força do movimento das asas de Redael que o empurrou para trás, longe.

- Redael! — gritou ele, no alto, numa expressão de espanto, mas que logo mudou para raiva — Sempre intrometendo-se no que não é de sua conta!

Redael baixou as asas, mas as manteve abertas. Zeziel, recolheu sua asa esquerda e enquanto segurava o ferimento com a mão esquerda, apoiou-se na lápide coma direita. Voltei minha atenção a ele, e cheguei perto. Redael discutia com Samus, um no chão e outro no ar. Os outros Anjos e Arcanjos terminavam de matar os ultimos Demonios. A passagem entre os dois Planos agora vazia. Nada mais saía dela.

- Continue segurando o ferimento — toquei seu ombro frio e molhado — Consegue se levantar?

Ele não me respondeu. Não prestava atenção no que eu dizia. Estava distraído, como antes de sairmos de seu apartamento, como quando voavamos até o cemitério e como quando lutava contra Samus. E o resultado desta distração fora uma asa perdida. Uma asa, para um Anjo, é como um membro para um humano. Perde-las, ou mesmo uma delas, vai muito além da dor carnal, também tem a sentimental.

Zeziel se levantou, segurando sua espada com a mão direita. Passou por mim e ficou ao lado de Redael.

Perto do Principado de cabelos curtos e castanhos claro, alto e forte com aquelas 5 asas em suas costas largas, Zeziel parecia pequeno e frágil.

Mas mesmo assim, mesmo com as costas vermelhas do próprio sangue e sem uma asa, ele segurava sua espada, seu olhar era firme e desafiador e estava de pé. E eu sabia que ele lutaria até o seu ultimo segundo de força e vida.

Com os Demonios e Anjos Caídos mortos, só restava Samus, que agora no chão, desafiava Redael.

- Qual será seu premio ao me deter, Redael? Um lugarzinho mais privilegiado ao lado daquele que chamas de Deus? — sorriu sarcástico — Aquele falso e invejoso Deus?

Vários dos que estavam atrás de mim se agitaram com aquelas palavras. Até mesmo Juliel, que apertava com força o cabo de sua espada.

Mas Redael continuou impassivel, ainda parado entre Zeziel e Juliel, ouvindo em silencio.

- Claro! — Samus continuou, erguendo os braços, ainda com seu sorriso — Ele, que trata seus favoritos como filhos e deixa o resto, sim! o resto! — apontou para os outros Anjos/Arcanjos, correndo o dedo por todos até parar em Zeziel — O resto como eu! Como voce, Zeziel! Como nós!

Zeziel o olhava com raiva, mas eu sabia que no fundo de seu peito, a dor de ver e ouvir aquilo, ardia e o queimava por dentro como o próprio fogo do inferno.

E percebi que Zeziel, apesar de tudo, ainda o amava.

Samus desfez o sorriso, ficando sério.

- Um dia eu fui como voce, Zeziel. Doce e obediente Àquele que um dia chamei de Meu Pai — abriu suas asas negras — Deveria abrir os olhos, como eu fiz.

Juliei não conseguiu se conter, e partiu para cima dele, ignorando completamente as ordens de Redael para que parasse.

Antes que ele pudesse chegar até Samus, este agachou-se e bateu suas asas, tomando impulso e indo alto. Sumindo.

Redael apenas olhou e recolheu as próprias asas, voltando-se para Zeziel, colocando a mão em seu ombro.

- Se ainda o ama — dizia tão baixo, mais baixo que um sussurro — Deveria destruí-lo. — os dois se encararam por um momento — Ou ele irá acabar destruindo a tu, irmão.

Ele se afastou, seguido de Juliel.

Enquanto os outros, que estavam bem e sem ferimentos graves, recolhiam os corpos dos mortos e feridos, os Dominações cuidavam da bagunça. Peguei na mão de Zeziel, que me olhou.

- Vamos para casa...

Eu sorri e apertei sua mão. Meu irmão.

- Sim...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.