Espada Mortal
2 1. Algumas semanas após a visita de Dafar

–Lechana, corre! — gritou alguém.
Meu primeiro instinto foi reclamar, mas ao olhar para trás vi que estava certo e corri. Corri com todas as minhas forças, até os músculos da minha perna gritarem de dor, minha respiração ficar presa e a minha garganta seca. Não aguentaria por mais muito tempo.
Nunca pensei em morrer, mas seria uma ótima forma de morrer: lutando por uma causa. Pela sua causa.
Mas hoje não é o meu dia de morrer.
Nos vimos presos dentro de um círculo composto por mais de duas dezenas de soldados ansiando por nos matar.
–Suba ali e atire, tem mais vindo a Oeste. Rápido Lechana, deixe de ser mole.- gritou Aloys, meu irmão do meio.
Escalei uma casa e subi no telhado, após me instalar lá, peguei meu arco e flecha e comecei a atirar.
Um;
Dois;
Três;
Vinte soldados caídos no chão. Eu contei.
–Precisamos sair logo daqui! — eu gritei. Enquanto via o gêmeo de Aloys, Blazh caído no chão.
–Faça-os recuar Lechana, preciso pegar Blazh. — gritou Aloys.
–Minhas flechas acabaram.
–Então desça daí e use sua maldita espada.
Me joguei do telhado, e saquei minha espada.
–Olá senhores. — eu disse sorrindo.
Eles deram um passo para trás e eu pude ver o medo em seus olhos. O que me ajudou a seguir em frente e atacá-los.
–--------
Ela estava dançando com eles. Eu nunca vi alguém lutar assim. Ela é incrível, linda e...
–Ela é rápida! — disse Caio.
–É. Ela é. — eu disse, não conseguindo tirar os olhos da menina de olhos roxos.
–Ela é uma de nós. Você acha que ela é a garota?
–Acho que sim, eu consigo sentir sua magia daqui, precisamos agir rápido, antes que Dafar descubra.
–Como vamos nos infiltrar para manter contato com ela?
–Vamos? Se bem me lembro você foi obrigado a vir.
–Não sou uma marionete igual a você.
–Não sou uma marionete, só sou inteligente o suficiente para saber quais são as batalhas pela qual vale a pena lutar, e uma batalha contra Hankin é impossível de ganhar, logo, eu sou inteligente e você é burro.
–Eu vou com você.
–Tanto faz, só não estrague as coisas.
–Jamais estragaria as coisas, irmão. E então, o que será?
–Seremos soldados!
–Você está louco?
–Você não se garante?
–Claro que sim, mas.. Nós — ele disse apontando para mim e ele — não 'existimos' lembra? — disse fazendo aspas com o dedo, como um idiota.
–Sem mais Caio. Olha, ela já acabou, vamos segui-los.
–--------
Eu estava enxercada de sangue.
–Ótimo, sujei minha blusa nova. — eu disse, esticando minha blusa, para que vissem.
–Eu estou morrendo e você está reclamando sua blusa? — disse Blazh.
–Deixa de ser molenga.
–Seu nome é o pior erro de todos sabia, irmão? Quer dizer, você não tem nada de adorável.
(Blazh significa: doce, agradável, abençoado)
–Ora, calem a boca, os dois!! — gritou Sans, um dos irmãos mais novos.
E claro que virou um caos, imagine se os mais velhos iam deixar um irmão mais novo gritar com eles... Parei de prestar atenção assim que percebi que havia alguém nos seguindo.
–Só perdemos tempo. Não conseguimos informação alguma.
–É só uma questão de tempo, logo descobriremos quem está nos traindo e contando para o Dafar sobre os camponeses que estão abrigando seres mágicos.
–Você não acha estranho nunca termos visto um?
–Eles só deixam você ver o que eles querem.
–Isso parece meio louco, Lechana.
–Mas não é! Faz todo sentido para mim.
A essa altura já estávamos no meio da floresta.
–Andem logo, vamos trocar nossos vestes — disse Aloys.
Trocamos de roupa e logo após fomos a um lago, para lavar nossos rostos. Sim, deveríamos ter feito isso antes de trocar de roupa, mas enfim...
–O que diabos você está fazendo aqui?- falou uma voz.
Meu coração acelerou ferozmente e eu caí no chão.
–Eu es..estou caçando.
–Lechana, você odeia caçar -falou Zenon.
–E daí? Tudo muda.
–O que isso sig...
–Eu tenho que ir, adeus.- disse e comecei a andar, antes que ele me fizesse mais perguntas.
Ninguém sabe o que eu faço, além dos meus irmãos, e é claro do meu treinador Aleksandrus. Fui treinada da mesma forma que um cavaleiro é treinado. Comecei aos oito anos e me tornei uma guerreira oficialmente aos dezessete.
Só houveram duas exceções perante a mim:
Eu me oficializei três anos antes do permitido;
E é claro: sou uma garota.
Foi em uma madrugada de outono, eu não esperava ser oficializada por Aleksandrus nesse ano, já que eu tinha dezessete, mas lá estava eu: dormindo em meus aposentos, quando sou acordada bruscamente por ele. Ele pediu que eu vestisse meus trajes de batalha e o encontrasse no estábulo.
Estava segurando uma espada, a espada que eu sempre sonhei em ter.
–Hoje é a sua oficialização — disse tentando parecer tedioso.
–O que?- eu sorri.
–Não sorria, se não valer a pena eu paro de te treinar.
Engoli o sorriso imediatamente.
–Ajoelhe-se.
Após me ajoelhar ele levantou a espada e começou a falar em tom formal:
–Eu Aleksandrus, permito que Lechana se torne oficialmente um cavaleiro..- colocou a espada em minha cabeça — agora vou te falar as regras mais uma vez. Não faça essa cara para mim!
–Proteger mulheres e fracos;
–Espera, proteger mulheres e fracos, como assim mulheres? As mulheres podem muito bem se defender sozinhas, todas são capazes de se defender, exceto as que não treinam, mas essa regra está...
–Lechana! — ele disse sem paciência.
Eu encolhi os ombros.
–Defender a justiça contra a injustiça e o mal...- apoiou a espada no meu ombro direito.
–Que tipo de justiça você está falando? Porque eu não vou de maneira nenhuma lutar pela justiça de alguns reis, já que a justiça deles são exatamente a injustiça e o mal.. — Ele olhou para mim e eu me calei.
Apoiou a espada no meu ombro esquerdo ao dizer: — Amar sua terra natal... Se você disser mais alguma coisa eu vou enfiar essa espada no seu coração.
Vendo que eu não falaria mais nada, continuou:
– Pronto, acabou. Toma essa espada e volte a dormir.
–O que? Só isso?
–O que mais você quer? Eu disse que isso era ridículo, você não precisa disso para ser um cavaleiro, mas você insistiu.
–Que decepção.
–Pare de reclamar.
–Mas...
–Adeus Lechana! — vendo que eu permaneci parada ele falou: — se você não sair daqui agora, vou tomar essa espada de volta.
Eu me virei e fui em direção ao meu quarto, mas ao chegar na porta olhei para trás e ele estava rindo. Ele estava orgulhoso de mim e isso me deixou muito feliz, um sentimento que eu não sinto há muitos anos.
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