Espaço Além

2 Capítulo 1 - Celebrações


18 de Janeiro de 2367, datação terrestre.

Charles acorda com as mesmas notícias de dias: uma nave científica carita foi abatida perto do seu próprio sistema. Não se sabe quem. Não se sabe por quê. Só há um sobrevivente. Como ainda não está bem acordado e esse assunto para ele já lhe parece saturado, apenas continua seu café da manhã. São 6:02 da manhã em Capital Central, antiga Brasília, agora a capital das Repúblicas Latino Americanas. Ele estaria pensando em como comemorar seu aniversário agora. Estaria. Se tivesse vontade de fazê-lo. Acontece que no mesmo dia de seu aniversário de 18 anos, cumprem-se também 10 anos da morte de seus pais. É uma lembrança dolorosa para Charles, se ele pudesse, não teria saído da cama. Mas, hoje é dia de se apresentar cedo na academia da frota estelar terrestre. Por isso prefere esquecer seus pais por ora, depois da cerimônia poderá dar-lhe a devida atenção à memória deles.

Está atrasado. No elevador é a única coisa que consegue pensar. O elevador possui painéis luminosos no lugar de paredes, a imagem do lado de fora é transmitida em escala real. Leva seus olhos aos números acima da porta: 74, 73, 72. Está ansioso. Hoje será feita a atribuição de cargos em naves estelares aos calouros, é a chance que ele tem de estar na Maya, a nave mais rápida e moderna da frota terrestre. Já são 6:27 h, precisa chegar logo ao maglev e estar 7 h na academia.

As portas se abrem. Charles corre o olho para o painel de andares novamente, lê o número quarenta e um. Entra uma garota de sua idade, uniforme de gala da academia, como o seu – sobretudo azul marinho de caimento suave e quase perfeitamente alinhado ao corpo, linhas de ouro finamente costuradas pelo gerador de matéria cobrem o obro e descem até a lateral dos braços; no peito esquerdo está a insígnia da frota terrestre em dourado: uma estrela sobreposta a Terra. A calça preta possui finas linhas douradas ao lado de cada coxa. O colarinho preto vazio. A garota é Adriana Belmonte, amiga da academia e de infância.

— Bom dia, Charle. — Charle, é como Adriana costuma chamá-lo — Você está ansioso para a cerimônia de atribuição? — ela se projeta para sua direção e abre os braços, Charles retribui — Feliz aniversário. Sei que você não gosta muito dessa data, mas não pude esquecê-la.

Para ele, Adriana tem sido uma ótima amiga. Seus pais viviam ao lado da casa de sua avó materna quando ele era pequeno, numa cidade interiorana mais ao sul. Eles costumavam se ver a cada ano, no período de férias, período em que seus pais podiam deixar a Estação Científica de Alpha Centauri e visitar a Terra. No entanto, quando seus pais morreram, a avó materna teve de criá-lo e assim Adriana e ele desenvolveram um laço mais profundo que perdurou até os tempos de academia.

— Obrigado, Dri. — agradece enquanto se solta do abraço — Estou muito ansioso, sim. De alguma forma, acho que se eu for para a Maya, poderei honrar o passado científico de meus pais.

— Você estará nessa nave. — diz ela, erguendo suavemente os cantos da boca para formar um sorriso — Ah! Antes que eu me esqueça... — vira-se à bolsa de lado vermelho-escuro e pega alguma coisa — ...Aqui está. É seu presente. — entrega-lhe uma pequena caixa embrulhada em papel vermelho e laço dourado.

— Muito obrigado, Dri. Mas você sabe que não preci... — interrompeu-se, pensando que poderia dar ar de ingratidão — Obrigado. Você é a melhor.

O elevador para, estão no décimo segundo andar. Entram duas pessoas. Cumprimentam-nos e se posicionam no fundo do elevador, conversando entre si. Charles leva seu sua mão prestes a puxar o laço dourado que cerra a caixa, mas a mão de Adriana chega a sua frente, impedindo-o.

— Não! — diz indignada, de boca aberta, em tom de deboche — Não abra agora, só depois da cerimônia, tudo bem?

Charles assente com a cabeça. E guarda o presente na mochila que leva ao seu lado. Os dois ali permanecem falando sobre como seria a cerimônia e sobre como estaria a cara do instrutor Gusinova, rolavam boatos de que ele nunca sorria, como um verdadeiro sacadiano, biologicamente incapaz de sorrir.

Andaram três quarteirões até a estação do maglev. O trem andava suave e rapidamente, emitindo quase nenhum som. Sentados esperavam sua estação.

— Você viu os noticiários hoje de manhã? Sobre a nave carita. — Adriana quebra o silêncio.

— Vi e não vi... — Charles vê um ponto de interrogação se formar na face da garota. — ...É que eu não prestei atenção. Não estava com cabeça.

— Bem, deveria. O único sobrevivente recobrou a memória. E a aliança passou a missão de cinco anos para nós.

— Como assim nós?

— Para a frota terrestre. Nós vamos para o espaço profundo fazer sei lá o quê. É secreto... — Adriana enfatiza suas últimas palavras em tom de brincadeira.

— Não acredito em teorias da conspiração. — deu de ombros — Os caritas iam para o espaço profundo, longe do território da Aliança, para identificar novos povos e novos meios de viajar. É uma missão simples.

— Fala sério, Charle. Não é necessário viajar cinco anos para conhecer novos povos. — ela arruma a postura no banco — a Aliança conhece mais de 30 povos vivendo a um mês das fronteiras. Poucos possuem tecnologia superior a dos dez povos aliados. Uma parte está na era feudal... Não acredito que eles queiram ir para ver alguém descobrindo a roda.

— Ainda prefiro acreditar nas informações oficiais.

— Verdade ou não. Você estará na Maya, e ela quem vai para espaço profundo.

— Quando voltar, te digo o que achamos. — riem.

Os jovens descem na estação de frente para a academia. Não são os únicos, uma dúzia de pessoas também desembarca. Alguns com uniformes de gala para a formatura e atribuição, outros com uniformes comuns ou roupas normais. O monitor do trem informava 6:48 h.

— Eu odeio este uniforme. — Solta Adriana, na entrada da academia — Sinto-me presa, sem movimento.

— É um traje de gala, não se espera que você pratique algum esporte com ele. — Charle brinca com a amiga.

— Em festas, geralmente se dança. Claramente eles não querem que demonstremos talentos artísticos aqui na academia. — os dois riem.

Os dois se dirigem pelos amplos corredores da academia, rumo ao salão externo. Lá vários bancos estão dispostos, em linha reta, de frente para um pequeno palco. Não há nada muito especial, só jardim que sempre está lá. Deveria haver algo mais. Geralmente essa cerimônia é bem planejada, há muitas famílias e comida para uma posterior confraternização. Dessa vez não.

— Este ano eles estavam desanimados para arrumar? — Indaga Charles.

— Na verdade, parece que foi tudo em caráter emergencial. De última hora.

— Vamos tomar nossos lugares. — Diz, enquanto procura uma cadeira.

Os outros formandos já estão em seus lugares ou chegando e pegando lugares. Algumas famílias chegam, ficam ao fundo. Não há sequer lugar para elas dessa vez. Estranho. Charles acha estranho. Adriana também. Na verdade, todos acham, mas preferem não comentar muito. A cerimônia tem início.

Muito longe dali, na outra ponta do território da Aliança, o planeta de águas esverdeadas estava de luto. O mistério pairando no ar porque o jovem Kataris não conseguia falar sobre o que aconteceu. Estava atordoado, relembrando o que tinha visto e sendo vigiado por uma equipe de psiquiatras de seu planeta. A certo ponto duvidaram se ele mesmo não tinha desaparecido com toda a tripulação. Mas sabiam que isso não era possível.

Ele olhava pela janela, exatamente como fazia do observatório da Sokuno minutos antes de serem atacados, no entanto, agora estava olhando para o oceano de seu planeta do décimo oitavo andar do hospital psiquiátrico da capital Akasha. As águas verdes iam e vinham em ondas que se quebravam próximo da praia. Não havia ninguém na praia, os caritas não levavam consigo o costume de banhar-se no mar como os humanos faziam há séculos. Para eles, o mar simbolizava a morte e a vida, a guerra e a paz. Fora ali que sua espécie se matou por séculos, e ali que eles encontraram a paz. Kataris observava, pensativo. Esse ataque simbolizaria uma nova guerra? Tão sangrenta quanto as guerras que seu povo travou entre si no passado?

Um par de pessoas tão pequenas quanto ele entraram. A pele levemente azulada e de uniforme médico. Os dois se aproximaram da figura assustada que era Kataris. Perguntando gentilmente como ele estava naquela manhã. Sem nenhuma resposta, como em dias, a equipe de especialistas começou a cogitar se deveriam fazer o procedimento de extração de memória no jovem. Procedimento perigoso, mas necessário. Kataris, por sua vez, sabia o que pensavam em fazer. Ele se esforçava. Tentava falar, mas não conseguia. Era como se a presença daquela entidade o tivesse calado para sempre. Selado sua boca. Queria que ele fosse um mensageiro, mas que também não contasse tudo.

Mais um dia em silêncio havia se passado. Seu irmão o visitara aquela tarde, mas nada de palavras. Passou uma noite em claro. Tentando gesticular com a boca. Soltava o ar de seus fracos pulmões na tentativa de formar palavras. Estava lutando, quando lhe ocorreu que não precisaria de uma frase completa. Só precisava de uma única palavra que descrevesse muito em pouco. Na manhã seguinte, os dois psiquiatras voltaram acompanhados de mais quatro pessoas. Eles iam extrair a memória do jovem. Kataris não poderia se opor, já que não falava.

Levaram-no gentilmente para uma sala completamente espelhada. Puseram-lhe algo que se parecia com um capacete, conectado a fios que iam para uma parede a sua direita. A equipe de psiquiatria estava prestes a deixá-lo, quando ao passar do último doutor pela porta de saída, ele se esforçou para dizer:

Dekios.

O pequeno ser de pele azul-escura voltou seu olhar de volta para a sala, para ouvir mais uma vez aquilo que nas línguas humanas traduz-se como desconhecido

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.