Espíritos da Terra, Coração de Fera
2 O Seio Envenenado
Notas iniciais
Saudações, irmãos. Gostaria de pedir desculpas caso haja algum erro. Escrevi pelo celular hoje, então o capítulo pode ter sido levemente influenciado pelo corretor. De qualquer forma, boa leitura.
O boto parou de empurrar o cesto quando avistou a foz do calmo rio. A sua cor rosada sumiu nas profundezas das águas calmas e turvas. A sombra de uma ave protegeu a criança do sol do meio-dia. Um jaburu vinha pela última vez alimentar o filhote de homem com seu bico. O curumim abriu a boca com naturalidade, para que o grande pássaro regurgitasse alimento em sua boca.
Assim que o fez, a grande fêmea foi embora, enquanto as pacatas águas do rio expeliam o menino do continente para a grande água. Mas ele não saía de Pindorama sozinho: após alguns metros oceano a dentro, um grupo de jubartes seguiam sua rota de migração. E com um cuidado que ninguém pode explicar, uma fêmea dos colossais mamíferos criou ondas durante o percurso inteiro, que carregaram o filhote de homem até o outro lado do oceano. Esta viagem durou três sóis. Apenas a água que caía do céu fora o suficiente para manter o curumim vivo. Quando a baleia sentiu que a pequena vida ficaria em paz, deixou-o para trás e seguiu viagem. Mas as a folha da palmeira que o cacique usou para tecer o cesto já estava cedendo por conta da maresia. O menino também mudou nesse tempo. Sua pele estava escura e dura. Um tanto quanto escamosa. Quando o cesto cedeu e a criança começou a afundar. Quando já faltava ar nos pulmões, o corpo do filhote lentamente alongou-se. Seus braços e pernas uniram-se ao corpo e seu pescoço deixou de existir. Em pouco tempo, no lugar onde afundara a cria de gente, surgia o corpo esguio de uma jovem sucuri, que nadou até o litoral. Quando o réptil encostou o corpo na areia escaldante, tratou logo de rastejar para algum lugar com sombra. Mas o ambiente desértico não oferecia lugares para descanso. Fraca e sem alimento, a criatura tornou a encolher, retornando à pequena forma humana. Um homem assistiu a cena, e espantou-se com tal cena. Qualquer criatura que fosse capaz de mudar de forma não poderia ser nada além de uma divindade. A areia escaldante machucou a pele da criança, que começou a chorar. O homem imediatamente correu e tomou a divindade no colo. Ele não podia deixar que ela ficasse furiosa. Usou seu corpo, negro como argila, para proteger a criança do calor do sol. Os dois caminharam por várias horas até chegar a uma pequena tribo. Ao chegar, ele soltou um grito. Um grito cansado, porém vitorioso: -Jangwa nyoka! -E ergueu sua nova divindade, finalmente expondo-a. Então, das pequenas cabanas de palha, surgiram algumas mulheres e crianças, de pele escura como o que carregou o curumim, que ao verem o pequeno de pele avermelhada, começaram a cantar e dançar, alegres. Uma fêmea humana, ao perceber que o curumim estava magro, tomou-o no colo e amamentou-o com seus fartos seios. Por nunca ter experimentado leite, a criança agarrou-se à mulher e ficou mamando por longas. A mulher foi dormir sem que a criança soltasse seu peito. Quando o peito secou, a criança indignou-se. Seu corpo alongou-se novamente, retomando a forma de uma cobra. O réptil tentou sugar o peito da humana novamente. Sem obter resultados, a serpente colocou seus dentes para fora e penetrou a pele da mulher, que morreu envenenada segundos depois. Então, a cobra passou, de peito em peito, não importando se era homem ou mulher, adulto ou criança. Se tivesse leite, ele sugava até secar. Se não encontrasse nada, apenas inoculação o veneno e calava aquela vida eternamente. Após secar toda a tribo, a serpente parecia mais calma. Rastejou até o centro da tribo, enrolou-se e dormiu, enquanto voltava para a forma humana. Na manhã seguinte, o cheiro da carne se decompondo atraiu uma matilha de hienas, que banqueteou-se com as carcaças frescas e em perfeito estado. No centro da festa de carnes, dormia o filhote de humano. A matriarca da alcateia, notando a criança, tomou-a carinhosamente com a boca, ainda pingando sangue fresco, e o carregou daquele cemitério de ossos. Enquanto o bando se afastava, fez-se ouvir o desesperado do último membro da tribo, que acabara de chegar de uma caçada. Na boca da matriarca, o curumim transformava-se num pequeno cachorro do mato.
Notas finais
Agradeço novamente por terem lido. Gostaria que comentassem para dizer o que acharam, se têm alguma sugestão ou dúvida. E isso é tudo. Fiquem em paz, irmãos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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