Notas iniciais
Saudações, irmãos. Trouxe essa história para mostrar o quão mesquinho e cruel o ser humano pode ser, mesmo sem as influências da sociedade. Espero que reflitam sobre isso.

—E então, pajé?
-O curumim é forte, bonito. Vai sobreviver – Disse o velho Xamã a Raoni, com um sorriso no rosto – Só preciso que os espíritos me contem como será seu futuro.
O velho pajé caminhou até um canto de sua oca. Pegou uma das penas de siriema que guardava. Tratou de queimá-la. Pegou as cinzas da pena e jogou em uma cumbuca, onde havia um pouco de urucum verde. Macetou os dois com um pilão e passou o dedo no conteúdo, ungindo o rosto do filho de Raoni, que tinha acabado de nascer. O restante da pasta, misturou com um pouco da água que guardava em uma moringa e bebeu. Pajé Xamã informou Raoni:
-Essa noite, eu sonharei com o futuro do curumim. Algo me diz que ele tem alma forte.
O pai, orgulhoso, embalou a criança no colo e o levou para sua oca. Kauane, a mãe, tinha adormecido após o parto, e descansava em sua rede. Jaci começava a despontar no céu, radiante e formosa, agora que estava redonda. Raoni embalou a criança no colo e dormiu, esperançoso.

O pajé acordou assustado. O dia começava a raiar, mas sua mente estava escura, com o futuro que sonhara. O curumim tinha espírito forte, mas era diferente. Isso ele sabia desde que Kauane o concebeu. Mas não era um espírito que o menino tinha. Eram vários: Espíritos indomáveis que sobrepunham a alma humana. Tupã o abençoara com aqueles espíritos, mas amaldiçoara a tribo: O curumim mataria diversos guerreiros da tribo.
O pajé levantou antes de todos da tribo, e foi até a oca do cacique, Acir. Contou-o sobre o futuro do curumim. Que o cacique seria morto pela pequena vida. Acir encheu-se de medo, então decidiu com o pajé que iria matar o filho de Raoni e Kauane.
Esgueirou-se para dentro da oca onde o recém-nascido dormia. Tomou-o do braço do pai sem que nenhum acordasse e carregou a criança até o rio, perto da tribo. Mas quando foi lançar a criança nas águas, exitou. Por mais que futuramente ele fosse ser o seu assassino, o cacique não podia tomar uma vida que por hora era inocente.
Então, subiu em uma palmeira ali perto e pegou uma de suas folhas. Com ela, teceu um cesto, onde colocou o pequeno adormecido.
-Que Mãe-Água te abençoe, curumim. Mas não nessa terra. – Disse o cacique pesaroso, ao soltar o cesto no rio.
Antes de virar-se, o cacique viu o menino abrir os pequenos olhos amarelos, com as pupilas estreitas como as de onça. O curumim abriu a boca, de onde pequenas presas semelhantes às de um queixada brotavam. Ao invés de um choro, a criança reproduziu o som estridente e raivoso de uma harpia caçando.
Então, um boto surgiu do fundo do rio e empurrou o cesto da criança, que seguiu o curso da água enquanto os animais juntavam-se à margem para a despedia daquele estranho semelhante a eles.

Notas finais
Espero que acompanhem essa história, pois pretendo esnchê-la de reviravoltas, e explorar um pouco mais a nossa espécie, vista com outros olhos. Obrigado por ler. Fique em paz.