Espírito e Bravura
1 Capítulo Único - Espírito e Bravura
Notas iniciais
Neville Longbottom não sabia se era certo estar ali. Com as aulas em Hogwarts suspensas por conta da guerra, seus N.I.E.Ms cancelados, a Armada de Dumbledore afastada para cuidarem de seus próprios assuntos e o mês que parecia não passar para seu treinamento de Auror começar estavam o deixando sem opção e completamente á mercê da dúvida.
Afinal, qual seria a grande diferença? Será que mudaria alguma coisa? Como eles poderiam, de fato, ajudar Neville a esclarecer algum ponto importante de sua existência ainda tão miserável? Ele se lembrava, com a clareza assustadora que somente as piores lembranças conseguem adquirir, como se sentiu sozinho durante aqueles dias, como desejou tão desesperadamente de alguém para guiá-lo, para tirá-lo dali e dizer com todas as palavras que Neville estava a salvo.
Talvez ele não quisesse, de verdade, estar ali. Talvez fosse tudo culpa de sua avó Augusta, que sempre criou falsas ilusões e expectativas para fazer Neville acreditar que aquelas duas pessoas que viviam há mais de uma década sem poder desfrutar de sua sanidade e lucidez realmente sentiam alguma coisa por ele, o amavam afinal, como sua avó insistiu em afirmar durante toda sua infância. Mas na verdade eram duas pessoas que Neville percebera bem tardiamente em sua adolescência não serem capazes de saber quem eles próprios eram e muito menos, afinal de contas, capazes de reconhecer o próprio filho.
Neville não devia nada a eles. Não devia nada a ninguém. Ele só precisava se convencer disso para poder seguir em frente com o futuro brilhante e promissor que o esperava. Uma carreira como Auror garantida pelo Ministro da Magia como recompensa por seus esforços por liderar a Armada de Dumbledore, ser considerado pelo Profeta Diário como um dos bruxos mais jovens e influentes do mundo mágico e também receber todo o prestígio de herói por ter colaborado para o que levaria á morte do Lord das Trevas.
Neville podia não esperar nada de seus pais, mas precisava desesperadamente deles. Tudo isso, por mais que muito atraente, não parecia o tipo de coisa que ele conseguiria lidar sozinho. Não parecia o tipo de mudança que ele conseguisse se adaptar tão facilmente. Talvez para qualquer outro bruxo, toda a glória e os prestígios recebidos fossem uma honra, mas para ele, por enquanto, era tão sufocante quanto a ausência de oxigênio propriamente dita. Não parecia nenhum pouco com sua vida e muita menos com a vida que imaginou para si mesmo, mas talvez pudesse ser, ele só precisava se acostumar com a ideia de que ele realmente importava para pelo menos grande parte do mundo bruxo. Neville Longbottom era um herói e as mudanças em sua vida estavam ali por seu próprio mérito e conquista, agora cabia a ele e somente a ele abraçar as mudanças e ajustar-se com sua nova imagem.
Na verdade, Neville queria estar ali no mesmo momento em que soube que uma Batalha tomaria inicio. Quando encontrou Harry, Rony e Hermione no Cabeça de Javali e os levou para dentro do castelo ele sentiu, tão forte e vividamente, que aquela poderia ser a sua última noite na terra e como todo garoto normal de dezessete anos que descobrisse estar perto da morte, ele queria poder dizer adeus para os seus pais.
Embora eles fossem incapazes de distinguir o que significava uma despedida.
Mas ele não havia morrido naquela Batalha. Ele havia sobrevivido, mas forte do que nunca, capaz de cuspir fogo e de fazer tudo de novo, se fosse preciso. Ele foi um herói quando pensou de tudo estava perdido, quando Harry apareceu morto e de repende nada mais fazia sentido, ele se levantou e continuou a lutar pelo o que era certo. No fim, ele havia se fortalecido, as pessoas tinham orgulho dele, recebera medalhas, prêmios, uma Ordem de Merlin que cintilava em sua cômoda e toda a vez que saia de casa – mesmo que para comprar ingredientes para poções que sua avó pedia com bastante frequência – as pessoas davam um jeito de pará-lo para parabenizá-lo, perguntar sobre a Guerra, sobre Harry Potter e uma coisa que Neville tinha certeza que fora desenterrada por Rita Skeeter em uma de suas matérias sobre os heróis da Guerra: sobre Frank e Alice Longbottom.
Ele queria ter vindo visitar os pais – senão para se despedir — desde que percebeu que tinha sobrevivido ao acordar dias depois sem o grande peso sobre seus ombros, sem o medo, sem a sombra sinistra e ameaçadora de uma Guerra perseguindo cada um de seus sonhos. Mas os acontecimentos não estavam exatamente á seu favor. Todos os dias nessas últimas duas semanas desde o dia 2 de maio, ele não tivera exatamente uma folga. Ficou em Hogwarts quando todos foram embora para ajudar Minerva a enviar cartas e convocar os pais dos alunos falecidos na Guerra. Ajudou a recolher todos os corpos caídos pelos terrenos – de aliados e inimigos. Ajudou a reconhecer vários deles, prestou testemunho quando Kingsley voltou a Hogwarts na manhã seguinte e respondeu a todas as perguntas que o então Ministro Interino realizou para entender o que havia acontecido. Ele e Dino Thomas – o segundo por não ter opção para onde ir – foram os únicos que dividiram o vazio dormitório da Grifinória até a manhã do dia 6 de maio, quando os corpos estavam todos retirados, quando os bruxos convocados pelo Ministério chegaram para começar a retirar os escombros e a pensar em reconstruir tudo, do zero.
Minerva pediu gentilmente para que os alunos restantes — Dino e Neville, também com duas meninas da Lufa-Lufa onde uma era Hannah Abbot, um garoto do sexto ano da Corvinal e dois garotos da Lufa-Lufa que ficaram no castelo mesmo tendo quinze anos – fossem para a casa, agradecendo imensamente pelo apoio que eles prestaram a Hogwarts.
Um a um, os alunos persistentes foram indo embora. No fim, ficaram apenas Neville e Hannah Abbot. A garota estava meio perdida durante esses dias porque seu pai estava ocupadíssimo negociando com metade do mundo bruxo pela compra do famoso pub, O Caldeirão Furado. Era verdade que o antigo dono, Tom, estava desaparecido e muitos diziam que ele estava fugindo, outros diziam que havia morrido. O fato era que o pub bruxo estava agora à venda e a família Abbot, principalmente por parte do pai de Hannah, mostrou grande interesse pela compra do mesmo.
Neville nunca soube se Hannah chegou a ir embora de Hogwarts naquele dia – sua avó Augusta apareceu não muito depois para levá-lo finalmente para a casa. Tio Algie estava eufórico quando viu o sobrinho-neto, dizendo que já tinha conseguido até mesmo um estágio para Neville no Ministério da Magia e agora, o que sobrara da família Longbottom, passara dias comemorando em almoços e festas junto ao resto da comunidade bruxa o fim de mais uma Guerra.
E nesses dias Neville conheceu a verdadeira felicidade.
Recebeu cartas de Simas que estava na Irlanda com sua mãe por conta do fim da Guerra. Susan Bones, as gêmeas Patil e outros membros da Armada insistiram em escrever pelo menos uma vez perguntando o que aconteceria agora. Em todas, respondeu que não sabia. Enviou uma carta á Gina Weasley perguntando se Harry estava bem, recebendo a resposta algumas horas depois, com a letra pequena e linear de sempre, dizendo que Harry estava bem, longe de qualquer pressão e que haviam até mesmo jogado Quadribol ontem.
A melhor parte foram as cartas que mandava para Luna. Trocavam de duas a três cartas por dia. Ele não sabia se aquilo poderia ser considerado um relacionamento – se tratando de Luna Lovegood, ele poderia nunca saber – mas se sentia ótimo sempre que escrevia para ela e os dois trocavam longas conversas sobre coisas sem sentido, improváveis e na maioria das vezes irrelevantes como o formato das nuvens, cores de asas de borboletas, formas estranhas de cactos, etc. Não mencionaram a Guerra nenhuma vez, embora mencionassem as festas que frequentaram com a família nos últimos dias e a preocupação frequente com Harry.
E é claro, ele não poderia se esquecer de quando acordou poucos dias atrás na casa de sua avó. Era o dia que sucedeu o grandioso Memorial ás Vitimas da 1ª e 2ª Guerra bruxa, onde Neville reencontrou os amigos e recebeu todos os prêmios e honrarias que nunca chegou a imaginar possíveis. Foi nesse dia, também, que Neville recebera a notícia e o convite do próprio Ministro da Magia para ingressar no treinamento para o Departamento de Aurores, que se iniciaria no próximo mês. Avó Augusta não poderia ter ficado mais feliz e orgulhosa. “É claro que ele conseguiu entrar para o Departamento de Aurores, ele é filho dos seus pais!”, era o que vovó sempre dizia quando encontrava qualquer bruxo em seu caminho que porventura não sabia da novidade. Neville se lembrava, inclusive, da conversa de sua avó com Kingsley em uma visita ao Ministério dias atrás.
— Ah, ele é igualzinho ao Frank, não é mesmo? – Antes de dar qualquer oportunidade para Neville responder, sua avó o interrompeu, com o peito igualmente estufado pela bravura do neto — Quim, você se lembra do Frank, não é? Você o conheceu, suponho... – Falar do filho causava uma reação engraçada na senhora, como um misto de orgulho e dor na voz e os olhos, pela primeira vez, hesitaram antes de encarar o Ministro — Ou ouviu falar dele, no mínimo! Ele era um auror, um dos bons assim como o Neville aqui vai ser... – Bateu nos ombros do neto com entusiasmo enquanto o mesmo se esforçava para não sair correndo dali, o rosto vermelho e quente — Ele estava com a Ordem, um dos membros originais! Um revolucionário, é claro! Enfrentou Voldemort três vezes, o meu menino...
— Senhora Longbottom... – Kingsley tentou interrompê-la educadamente, imaginando que aquele seria o começo de um grande repertório de lembranças e falatório sobre o único filho. Mas é claro que a senhora não se deixou intimidar, mas entendeu que deveria ir direto ao assunto.
— E então – Augusta o cortou – Neville está seguindo os mesmos passos dele! Você sabe, ele estava dando muito trabalho em Hogwarts para os Carrow, estava sim. Ele era um líder para os outros alunos, os treinando para o combate iminente! Exatamente o que o Frank faria!
“Exatamente o que o Frank faria”. Essas palavras não sairiam da cabeça de Neville por muito tempo depois disso. Na manhã após o Memorial ás Vítimas, Neville percebeu que o dia amanhecera apenas quando o sol já estava alto na janela de seu quarto. Ele não sabia desde que hora estava dormindo, só se lembrava de ter chegado a casa com frio da madrugada. Havia seguido depois do evento para uma comemoração no Caldeirão Furado com Simas, Dino, Luna e as gêmeas Patil, onde com sorte poderiam trocar novidades sobre o que havia acontecido de interessante nos últimos dias.
Mesmo com a luz do sol incomodando-lhe o sono, Neville recusou-se a acordar de fato. Remexeu-se na cama com exaustão até encontrar um canto onde o sol não alcançava seu rosto e permitiu-se dormir por mais alguns minutos.
Minutos estes que passaram muito rápido, pois seu sono foi rapidamente interrompido pelo farfalhar de asas que podia ser ouvido ao longe e logo havia um animal voador repousado sobre o parapeito da janela bicando o vidro com insistência.
Neville abriu os olhos e a coruja marrom-acinzentada carregando um exemplar do Profeta Diário o encarava com olhos acusadores.
— Está bem – rendeu-se Neville. Ele alcançou a varinha repousada na escrivaninha ao lado e a agitou em direção á janela. Esta foi aberta e a coruja invadiu o quarto. Ela jogou o jornal em cima do criado mudo de Neville e depois pousou na cabeceira da cama a espera do pagamento.
Com os olhos piscando de sono, Neville contou as moedinhas de prata e bronze (sicles e nuques se assim preferir) e as depositou na bolsinha de couro presa a uma garra da coruja. Emitindo um último som, o animal voou pela janela novamente e Neville a perdeu de vista.
Sentando-se na cama, ele puxou o jornal para perto e o desamarrou. Logo na primeira página havia a foto luminosa da lápide de mármore branco onde as inscrições foram gravadas por magia.
— “Vocês morreram para tornar a sociedade mágica um lugar melhor. Seremos eternamente gratos a vocês.” – Neville leu novamente em voz alta, recitando as palavras da mesma maneira que havia feito na noite anterior. Por algum motivo, aquelas palavras o afetavam tanto que ele não podia simplesmente esquecer-se destas.
Lembrar-se da guerra ainda era doloroso, era uma dor que Neville sabia que nunca poderia esquecer-se, mas também fazia cada dia se tornar especial. Especial porque ele estava vivo, porque seus amigos estavam vivos e porque, como dizia a avó Augusta, coisas assim acontecem para fortalecer as pessoas e não deixá-las fracas. Se você lutasse em uma guerra como Neville havia lutado, você se tornaria uma pessoa forte simplesmente por ter estado lá, por ter visto todas aquelas coisas e ter sentido aquela sensação de que tudo estaria terminado ao amanhecer.
E foi com isso que Neville permitiu-se lembrar de uma coisa que Avó Augusta havia dito, anos atrás quando invadiu o Ministério da Magia com a Armada de Dumbledore: são nossas experiências que nos deixam mais fortes, pois quando sofremos também sobrevivemos. É como uma lâmina feita por duendes temperada em fogo, que absorve tudo o que a fortalece. São as coisas que mais nos abalam e nos machucam que nos deixam fortes, afinal de contas.
Neville esfoliou o jornal então, na segunda página havia um foto do Juiz Finley e Harry Potter trocando um aperto de mão no começo do evento com uma reportagem enorme da influência de Harry Potter no meio político atual. Na outra página havia a data de reabertura das lojas do Beco Diagonal e fotos da reconstrução do mesmo. Havia mais fotos da Hogwarts após a Batalha em uma matéria chamada ‘As cinzas de uma Guerra’.
Na penúltima página havia uma foto da Ordem da Fênix, novamente. Eles estavam apostando muito na Ordem ultimamente, o Profeta parecia obsecado por saber mais sobre a organização secreta, mas como sempre, não estavam tendo muito sucesso nisso.
A última página antes do início da coluna de esportes trazia uma série de fotos de Comensais da Morte desaparecidos e um ‘altamente perigosos’ escrito logo abaixo de cada foto. Neville observou cada rosto com um olhar, antes que seu corpo se enchesse de calafrios e ele fosse forçado a jogar o Profeta Diário até o outro lado do quarto.
O jornal chocou-se contra a outra janela do quarto de Neville, a janela onde ele tinha vasos de cactos enfileirados no parapeito. Os cactos se mexiam e brigavam uns com os outros, fazendo muita sujeira por conta dos espinhos que caiam no chão e faziam a avó Augusta surtar sempre que entrava no quarto do neto.
O quarto de Neville Longbottom era cheio de plantas. Ou pelo menos, o mais cheio que a avó Augusta permitia ser. Havia vasos de flores e canteiros com fileiras de fungos mágicos, fora os cactos da janela. Ele havia transfigurado metade do teto do quarto para transformá-lo em vidro, permitindo a entrada de luz necessária para suas plantas. Avó Augusta ainda não havia visitado o quarto para saber dessa última novidade.
Respirando fundo o aroma das flores com tentáculos que ficavam perto da sua cama, Neville colocou-se de pé finalmente e sem perder tempo, o rapaz desceu as escadas com um novo e perigoso pensamento em mente, uma oportunidade há muito esperada quando Neville aparatou para o St.Mungus.
Se Neville dissesse que não pisou no St.Mungus nenhuma vez desde a guerra, estaria mentindo. Ele esteve ali pelo menos três vezes para cuidar de seus ferimentos mesmo que alguns insistissem em deixar marcas feias em seu rosto. Em nenhuma das três vezes considerou visitar os pais.
Ele não tinha medo exatamente, embora talvez tivesse alguma hesitação. Era uma sensação estranha de insegurança. Não poderia dizer que estava preocupado com a reação dos pais quando contasse sobre a batalha, sobre Kingsley o convidando para ingressar no Departamento de Aurores no próximo mês – Departamento este que já fez parte da rotina de ambos seus pais — o que realmente o assustava era que Neville sabia que eles não teriam nenhuma reação e isso é o que causava o medo e a insegurança.
Nem ele mesmo sabia se era certo ingressar no Ministério como Auror! Ele esperava que alguém pudesse dizer o que fazer agora, se era certo fazer isso... Ele queria poder dizer se queria mesmo aquilo. Os pais foram grandes Aurores, as histórias que ouvia desde pequeno sempre afirmaram isso. Mas será que ele deveria ser igual a eles? Ele queria deixá-los orgulhosos, é só isso.
Mas ele sabia que com o orgulho dos pais ele poderia apenas sonhar. Ele sabia que poderia apenas supor que eles, bem lá no fundo, soubessem quem ele é. Era um dano irreparável, como os curandeiros cansaram de explicar para o garotinho de cinco anos que visitava os pais com a avó sem entender o que estava acontecendo ali.
Ele aceitou participar do treinamento porque achou que assim poderia estar mais perto do que o que os pais foram algum dia. Viver da mesma maneira que eles viveram. Avó Augusta sempre disse que Neville era muito parecido com Frank, que Frank com certeza faria exatamente aquilo que Neville escolhera – liderar a Armada de Dumbledore, ficar do lado de Harry Potter mesmo que Harry Potter estivesse morto, lutar pelo que acredita ser certo mesmo que não haja certo ou errado. Se tornar um Auror era a simplificação e a conclusão de tudo o que ele esteve construindo por todos esses anos.
E quando ouviu as palavras de Kingsley pela primeira vez, quando recebeu a noticia... Não soube dizer se seu mundo estava desmoronando ou se reconstruindo. Todos o congratularam, avó Augusta ficou eufórica por dias... O próprio Neville estava nervoso com o treinamento evidente – será que o que aprendera com a Armada seria o bastante? Como seria esse treinamento? E se não conseguisse passar? Não era Harry Potter afinal, mas estava lidando com a notícia ao seu modo, devagar, como se absorvesse a cada dia um pouco do que se tornar um Auror significaria.
Mas não parecia certo esconder deles. Se o filho estivesse perto da realização completa ou da destruição eminente, Frank e Alice Longbottom teriam que saber.
Os passos de Neville se cessaram contra o chão de porcelana do Hospital. Ele chegou até o quarto andar (danos causados por magia) de forma quase automática depois de deixar seu nome na recepção. A ala de danos irreparáveis era a mais vazia até agora. No começo, ele avistou Gilderoy Lockhart assinando alguns papéis em branco e sorrindo sem parar. Havia um bruxo baixinho sentado na sua cama ao lado de onde Neville estava e que não parecia reconhecer nada ao seu redor – fora que usava uma camisa de força branca.
Agora as duas últimas camas da ala de danos irreparáveis estavam o casal de bruxos que Neville conhecia muito bem.
Frank Longbottom estava sentado em uma cadeira de plástico arrumando as cartas de um baralho velho que com certeza não ficariam na ordem certa. Tinha cabelos levemente grisalhos e era meio careca. As mesmas bochechas de Neville, o mesmo nariz, até mesmo a mesma altura se ficasse de pé para provar. Alice estava sentada na própria cama, mexendo com o cabelo. Curto e ralo, o cabelo estava a cada dia mais bagunçado. Ela tinha os mesmos olhos de Neville e a mesma expressão distraída.
Quando Neville se aproximou, eles de fato reconheceram o filho. Não como Neville esperava, mas como era todas as vezes: eles se levantavam para trocar um aperto de mão. Na verdade, Neville tinha certeza que fariam isso com qualquer pessoa que viesse visitá-los.
Ele respondeu ao aperto de mão dos dois educadamente. O casal não tinha nenhuma expressão no rosto embora parecessem bem serenos. Caminharam juntos até o pequeno sofá ao lado das camas e se sentaram lado a lado, com Frank distraindo-se com os nós dos dedos e Alice ainda bagunçando o próprio cabelo.
— Oi.– Neville disse sem jeito, puxando uma cadeira de plástico para sentar-se de frente para eles. Nem Frank ou Alice olhavam para ele. – Estou aqui porque tenho que contar uma coisa para vocês. Desculpem pela vovó não ter vindo dessa vez... — Ele cruzou os nós dos dedos uns nos outros e limpou a garganta. Estava ciente de que nenhum dos dois estava realmente entendo o que ele dizia, mas não se importava. Precisava se livrar desse peso.
E quando as palavras finalmente vieram, algumas lágrimas escaparam-lhe dos olhos tristes.
“Eu tenho uma boa notícia. Vocês se lembram da Guerra, não é? De quando Voldemort estava no poder pela primeira vez... Que vocês se juntaram á Ordem da Fênix e enfrentaram-no três vezes... Bom, as coisas não acabaram quando ele desapareceu na noite em que os pais do Harry foram mortos. Ele voltou mais forte do que antes e dezesseis anos depois que todos pensavam que estavam livres, ele conseguiu o poder de novo.
“E dessa vez ele tinha o Ministério ao seu comando. Ele tinha um exército. Ele conseguiu que Dumbledore fosse assassinado e tomou conta de Hogwarts. Os dias ficaram escuros, as pessoas tinham medo de sair de casa e os alunos foram forçados a aprender magia das trevas... Mas eu resisti.
“Mesmo sem o Harry, o Rony ou a Hermione presentes, eu consegui convencer todos a continuarem lutando. Eu dei a eles um motivo para nos encontrarmos na sala precisa e ajudarmos Harry Potter, mesmo que ele estivesse morto. Quero dizer, nós não tínhamos notícia nenhuma dele por quase um ano, ninguém sabia onde ele estava ou o que estava fazendo. Quando a maioria dizia que Harry Potter tinha fugido para bem longe e nos abandonado, eu, Gina e Luna dizíamos que não, que onde quer que Harry estivesse, ele estaria lutando. E nós acreditamos nisso.”
Ele limpou algumas lágrimas do rosto e tomou fôlego. O olhar desfocado de Alice estava sobre ele, olhando-o com curiosidade embora não olhasse para ele de fato.
“E todos nós corríamos riscos e enfrentávamos os Carrow todos os dias. Levamos muitas detenções, fomos até mesmo torturados e nos prenderam pelos pulsos nos calabouços, mas isso não nos impediu de continuar o que Harry começou. O que era certo.
“E então nós vimos a notícia da invasão ao Ministério da Magia, do ataque ao Gringotes, saiu no jornal a fuga formidável de Harry Potter e os cartazes de indesejável número 1 continuavam sendo distribuídos para nós na escola. E tivemos a confirmação de que Harry Potter estava mesmo lutando, estava vivo e lutando, assim como nós.
“E quando ele voltou... Tudo se acendeu. Todas as nossas esperanças foram renovadas quando Harry voltou para Hogwarts. A melhor parte era que todos sabiam o que viria a seguir... E todos estavam prontos! Eu estava pronto... E nós lutamos. A escola se encheu de comensais da morte, gigantes e dementadores para todos os lados. Chamamos por reforços de pessoas que não víamos há anos e todos que um dia foram leais á Dumbledore atenderam ao chamado. E nós lutamos.
“E de repente as pessoas estavam morrendo. Amigos estavam morrendo de verdade. E mesmo vendo todas as mortes, nós tínhamos que continuar lutando. Até mesmo quando mostraram o corpo de Harry, até então morto, nós não desistimos. Nós nos fortalecemos e... eu não sei o que me deu... Eu só me lembro de tirar a espada do Chapéu Seletor quando Vodemort o colocou na minha cabeça. E ai eu empunhei a espada em direção á Nagini.”
Ele fez uma pausa e ergueu os olhos para os pais. Agora Frank também olhava para ele, o rosto na mesma falta de expressão de sempre, os olhos desfocados como os de Alice, mas havia algo... diferente. Eles estavam prestando atenção.
“E de repente Harry estava vivo novamente. Ele sobreviveu... duas vezes! E todos gritaram e os comensais atacaram. O salão principal se encheu novamente, havia alunos e professores para todos os lados duelando bravamente para defender Hogwarts. Maldições voavam, pessoas caiam, alguns para não se levantarem nunca mais. E de repente o Salão todo parou... quando o duelo de Harry contra Voldemort começou.
“E ele venceu! E foi uma loucura. Comensais que assistiam gritaram alto, alguns fugiram e outros lutaram mais um pouco até serem capturados. Na verdade, a maioria fugiu, mas tenho certeza... – Ele ergueu os olhos novamente e fitou os pais, um de cada vez antes de continuar a frase, a voz transbordando alivio – Que Bellatrix Lestrange está morta.
“E então eu ajudei a recolher os corpos... As pessoas estavam aparatando para suas casas e para o Ministério. Kingsley se tornou Ministro da Magia. Todos festejaram, houve o Memorial, a entrega das honrarias... Eu recebi muitas medalhas, sabe. Estão no armário de vidro da sala. Vovó tem muito orgulho delas e espero que vocês também”.
Ele limpou os olhos úmidos uma última vez antes de se levantar. Evitou olhar diretamente para os pais quando pronunciou as últimas palavras – E agora eu estou me preparando... Vocês sabem. Eu vou me tornar um Auror.
Ele já estava pronto para ir embora não suportando a ideia de se estender por muito mais tempo ali. Já tinha feito o que muito estava em sua mente, havia contado tudo o que eles mereciam saber. Mas Neville não conseguiria mentir para si mesmo, ele não resistiria. Olhou para trás buscando qualquer retribuição, mesmo sabendo que seria em vão. Olhou para trás para se despedir.
Seu coração acelerou no peito e ameaçou escapar-lhe pela boca. Outras lágrimas, estas que Neville juraria já ter se livrado á esta altura voltaram a cintilar em seus olhos.
Frank Longbottom tinha os olhos em Neville, em pé indo embora. Não era o mesmo olhar desfocado e nem distraído de sempre: Frank estava realmente olhando para Neville com curiosidade, com os olhos focados. Neville sentiu suas pernas bambearem quando retribuiu o olhar do pai e por um instante, tudo valeu a pena.
Mas o que surpreendeu Neville foi Alice. Ela não olhava diretamente para ele como Frank, nem parecia reconhecê-lo de fato. Observava um ponto ao longe, por cima dos ombros de Neville, mas seu rosto... Sorria. Um sorriso largo de orelha á orelha que Neville teve certeza que ela sorria para ele.
Resistiu ao impulso de abraçar os pais. Apenas piscou e afastou as lágrimas, tentando parecer crédulo o suficiente. Falhou miseravelmente e as lágrimas insistiam em voltar.
Infelizmente, no instante seguinte quando Neville conseguiu recompor sua postura, Frank já voltara a brincar com os nós dos dedos e Alice estava tirando uma caixa de goma de mascar do bolso para presentear Neville. Ele aceitou o presente com delicadeza e o deslizou para dentro dos próprios bolsos antes de partir, com um novo pensamento pareando sobre sua cabeça.
Tudo estava destinado a mudar a partir de agora e Neville seria capaz de lidar com qualquer coisa que surgisse em seu caminho.
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