Espírito de Revolução
23 Resgate em Boston
Notas iniciais
— Está feito — contei a Achilles assim que retornei à Fazenda Davenport. Ele se encontrava no morro atrás da mansão, sentado em uma rocha e contemplando a vista da baía, agora parcialmente congelada. No píer onde a Aquila estava atracada, marujos varriam a neve do convés superior.
— Seu Alvo está morto, então? — perguntou, sem virar-se para me ver.
— Ouviu falar sobre a Destruição do Chá em Boston?
— Ah, Faulkner me contou. Um belo alvoroço Adams causou por lá. — Ele virou-se e me fitou. — Já vi o povo de Boston protestar, mas esse novo protesto tomou um nível bem maior. Mas afinal, devo supor que você aproveitou a comoção para assassinar seu Alvo?
— Não exatamente, meu velho — respondi, confiante. Achilles provavelmente não iria gostar da minha resposta, mas eu queria mostrá-lo que eu não precisava dele (ou ao menos pensava não precisar). — Ajudei Adams e o Boston Caucus ao longo de toda a campanha que eles fizeram contra a Companhia das Índias. Johnson está arruinado.
Achilles me fulminou com os olhos.
— Como? Você realmente não o matou? O que deu em você, Connor?
— Não havia necessidade. Todo o chá da Companhia das Índias Orientais foi destruído, e com ele a fonte de renda dos Templários. Eles não têm mais o dinheiro necessário para a compra da minha aldeia. O Grande Templo está seguro.
A explicação pareceu não surtir efeito no velho.
— Não havia necessidade? — Achilles apoiou-se na bengala para lentamente se erguer e caminhar até mim. — Connor, se William Johnson fugiu, pode ter certeza que foi para nada além de tramar um novo estratagema junto a Benjamin Church. Eles têm contatos, eles têm posses, e o que não lhes falta é a capacidade de juntar mais dinheiro. Você deveria tê-lo matado, pois eles voltarão, e garanto que a cada nova trama eles estarão mais espertos do que antes.
— Eu imagino, meu velho. Mas não tive a oportunidade. Johnson era associado à Companhia das Índias Orientais, se eu o matasse, a culpa recairia sobre o grupo de Sam Adams, e o governador poderia ordenar a prisão dele e seus colegas.
— E o que eu, ou melhor, nós temos a ver com isso? Você é um Whig ou um Assassino? Adams é um aliado, mas o seu partido – a sua prioridade – sempre será a Irmandade. Não se esqueça disso.
— Mas de que vale lutar pela Irmandade se eu não acreditar nas palavras do Credo? Nós lutamos por liberdade para todos, assim como Adams.
— Adams luta por mais dinheiro para seu bolso. Ele com certeza é uma alternativa melhor do que Thomas Hutchinson, mas isso não o torna um de nós. E não se esqueça de que ele está na mesma área de trabalho de Benjamin Church. Os ideais dele não estão tão próximos assim dos nossos, então não se espante se algum dia ele se voltar contra nós. Então, não desperdice tempo lutando a luta de outra pessoa.
Mantive-me firme em minha opinião.
— Confie em mim. Pelo povo ou pela Irmandade, nós fizemos a coisa certa no ancoradouro de Griffin.
O velho Mentor suspirou.
— Talvez. Diabos, não adianta mais discutir — praguejou, voltando-se à rocha onde estava — A essa altura Johnson já deve estar entocado em seu esconderijo, longe de nosso alcance. Podemos estar seguros por ora, mas apenas o tempo dirá se você está certo. E o nosso trabalho ainda está longe de acabar.
— O que você quer que eu faça?
— Eu normalmente não lhe daria uma missão nova até que você finalizasse a atual, mas que se dane. Preciso que você crie uma rede.
— Uma rede?
— Sim. Você tem contatos entre o seu povo, e agora que está "filiado" aos Whigs, deve ter alguns em Boston também. Precisamos consolidar a nossa presença nas colônias, para que nada aconteça sem o nosso conhecimento, e para que estejamos sempre de olho nos Templários. Quero que você mantenha algumas pessoas de confiança em Boston e Albany. Mas escolha alguém além de Adams, pois precisamos de alguém mais neutro do que ele. E, quanto a Albany, veja se aquele amigo de que você fala estaria interessado. Ele já parece não confiar em Johnson mesmo.
— Atón'wah?
— Sim, este. E, assim que conquistar a lealdade deles, você precisará encontrar algum cuidador de pombos.
— Pombos? Por quê?
— Cavalos são rápidos e obedientes, mas nenhum animal carrega mensagens com mais destreza que um pombo. Se tivermos uma sucursal e um ninho de aves em cada grande cidade da América, poderemos reduzir muito o tempo de comunicação entre as províncias, de dias para horas.
— Certo. Posso viajar para Boston amanhã mesmo.
— Claro. Precisamos garantir os pombos antes que possamos levá-los para Albany. Ah, e mais uma coisa...
— Diga.
— Não precisa segurar sua língua ao falar com seus contatos de confiança. Deixe que eles se mostrem úteis e, com o tempo, o recrutaremos à Irmandade.
Sorri para o velho Mentor. Ele finalmente estava disposto a expandir os Assassinos. E eu já tinha ideia de quem poderia mostrar interesse.
•
As semanas que se seguiram foram marcadas pela estrondosa repercussão da Destruição do Chá. Aquele evento poderia mudar drasticamente a relação entre Massachusetts e a Coroa britânica. No entanto, a notícia ainda não havia chegado à Grã-Bretanha. Estávamos na calmaria antes da tempestade.
Cheguei à Taverna Molineux de manhã, esperando que ainda estivesse vazia. Quando entrei no estabelecimento, apenas um casal comia algo num canto do salão. Stephane Chapheau, que limpava o balcão com um pano, me saudou:
— Ah, Connor! É bom te ver novamente. Quer alguma bebida?
— Eu esperava falar com você, na verdade — respondi.
— Claro, fique à vontade. Venha, sente-se.
Eu olhei para os poucos clientes da taverna. Eu não queria que algum deles espionasse ou ouvisse nossa conversa.
— Eu preferia falar em particular.
Stephane se surpreendeu. Ele se virou para a cozinha e gritou para seu assistente:
— Pritch, cubra para mim. Volto logo. Vamos ao andar de cima, Connor.
Após subir as escadas, o canadense e eu nos sentamos numa pequena mesa circular no corredor à frente dos quartos.
— O que posso fazer por você?
Eu me ajustei na cadeira e comecei a falar.
— Stephane, eu aprecio a empolgação que você demonstrou nas últimas semanas, ajudando o grupo de Samuel Adams sempre que possível. No Dia do Papa e na Destruição do Chá você mostrou uma imensa dedicação em lutar pela liberdade e justiça do povo de Boston. Eu tinha os meus próprios motivos para ajudar a campanha, mas o principal é a minha afiliação a uma sociedade, chamada de Irmandade dos Assassinos.
Fiz uma breve pausa.
— Assassino? Você luta muito bem com os punhos, mas não parece um matador para mim.
— É porque não sou — respondi — Ser um Assassino é mais do que ter a morte como profissão. Ser um Assassino é acreditar em um Credo, e fazer o que for possível para garantir a liberdade do povo comum. A Irmandade foi praticamente destruída durante a Guerra, mas nós buscamos reerguê-la. Para isso, precisamos crescer, e ganhar aliados em cada grande cidade. Precisamos de um contato que possa ser nossos ouvidos em Boston, e pensei que não havia melhor homem para o serviço do que você.
Stephane coçava o queixo enquanto ponderava.
— Parece interessante. Mas o que eu teria de fazer por você?
— Bem, você continuaria próximo de Samuel Adams e William Molineux. Homens relevantes como eles devem saber de muito do que acontece na cidade. Mas fique sempre atento a fofocas, e extraia informação de onde puder. Um dos nossos inimigos, Benjamin Church, um homem poderoso conectado a gangues e Whigs, vive em Boston. Precisamos reunir o máximo de informação possível sobre os planos dele, e localizar os seus outros colegas Templários. Precisaremos estabelecer uma base de operações na cidade, e você a comandará, cuidando de nos enviar pombos-correio. E, com o tempo, lhe levarei para conhecer o Mentor e se tornar um de nós.
Ele riu.
— Ah, fofocas não deverão ser um problema para mim. Mas devo dizer, Connor, que não entendo nada de pombos.
— Não precisa. Eu cuidarei disso, meu Mentor já me disse onde posso comprar alguns.
— Isso é ótimo. Posso tentar convencer Molineux a deixar-nos fazer um ninho de pombos nos fundos do prédio.
— Excelente. — Sorri.
— Agora, me conte mais sobre esse.... Templário, você disse? Aproveite que a clientela da taverna não chegou ainda.
Não omiti nada de Stephane. Falei sobre a Irmandade, sobre os Templários, sobre nossos ideais, sobre como eu impedira Johnson de comprar a minha aldeia, sobre tudo. E, quanto mais eu falava, mais empolgado ele ficava. Ele realmente estava ansioso para fazer parte de algo maior, e prontamente se identificou com o Credo dos Assassinos. Quando chegou a hora do almoço, no entanto, ele teve de voltar para a cozinha. Paguei por um pernil de presunto e, após me alimentar, eu deixei o recinto, rumo ao endereço do pombal que Achilles me indicara.
O estabelecimento ficava no oeste da cidade, em uma pequena casa na travessa Green, à beira da mal-cheirosa lagoa Mill, para onde a água do mar levava todo o lixo da cidade. Eu esperava que a loja ainda funcionasse após todos esses anos. Ao bater na porta, fui atendido por uma mulher jovem de cabelos ruivos presos em um rabo-de-cavalo, que vestia calça e camisa.
— Boa tarde, senhor. O que deseja?
— Eu buscava uma loja de pombos-correio.
— Ah, veio ao lugar certo. Por favor, entre.
Adentrei o estreito recinto. A garota levantou uma tábua para passar para trás do balcão, e ficou de pé me fitando. Atrás dela estavam várias gaiolas, onde algumas dezenas de pombos de cores diversas arrulhavam inquietamente. Atrás das gaiolas estava uma escada, perpendicular a uma porta que levava ao lado de fora.
— Você não me é familiar. Nunca trabalhou com pombos, estou certa?
— De fato, nunca.
— Agora, para onde você quer enviar sua mensagem? Nós temos uma rede bem vasta, eu lhe garanto.
— Na verdade, eu não preciso mandar mensagem alguma por enquanto. Eu esperava que você pudesse me vender alguns dos pombos. — Eu expliquei, apontando para as aves.
— Ah, entendi. Você quer viajar a algum lugar e então enviar uma mensagem para Boston?
— Pode-se dizer que sim.
— Então estes pombos não são o que procura. Todos eles já têm destinos próprios, para Nova York, Charleston, Filadélfia, entre várias outras. Venha ao quintal para eu lhe mostrar os nossos.
Fiquei curioso. Confesso que eu estava intrigado em saber como os pombos eram treinados. Acompanhei a jovem até o lado de fora, para um pequeno viveiro de grades vazadas e um telhado de madeira que protegia as aves da chuva e neve. Abaixo do telhado e acima das grades estava uma fenda larga, por onde os pássaros podiam entrar e sair livremente. Cerca de uma dúzia de pombos se encontrava lá dentro.
— Ao alugar um pombo, eu te darei também uma gaiola e um pouco de comida. Você poderá levá-lo aonde quiser, e deverá alimentá-lo enquanto estiver com ele. Quando quiser enviar sua mensagem, escreva-a num papel leve como este e enrole na pata. Não importando onde estiver, o pombo voará de volta para cá, e seu destinatário pode vir buscar a mensagem conosco sem custo adicional.
Rejeitei a ideia. Eu pretendia usar os pombos para informações importantes e sigilosas da Irmandade. Não me agradava ter minha mensagem ao alcance de qualquer pessoa.
— Na verdade... — disse — Eu esperava criar o meu próprio pombal. Gostaria que apenas eu e meus amigos tivéssemos acesso às mensagens.
— Oh. — Ela deu de ombros. — Neste caso, sairá um pouco mais caro. Quero dizer, sairia, se eu tivesse como te ajudar.
— Como assim?
Ela começou a explicar.
— Veja bem, os pombos não são treinados para enviar mensagens. Eles nem sequer sabem que carregam mensagens nas pernas. Eles apenas são ótimos localizadores tentando voltar para seus ninhos, e quando o pombo faz seu ninho ele nunca mais o deixa. Para fazer o seu próprio pombal, teríamos que criar uma ninhada completamente nova e acostumá-la ao local, mas infelizmente uma das minhas fêmeas morreu de doença há algumas semanas, e todas as minhas outras estão em viagem, e apenas retornarão quando alguém tiver uma mensagem para elas. Sendo assim, você teria que esperar algumas semanas para que eu te ajudasse a criar seu pombal. E depois disso, mais algum tempo para que os novos pombos cresçam e se acostumem com o local.
— Semanas? Infelizmente eu gostaria de resolver isso o mais rápido possível.
A mulher cruzou os braços e deu de ombros.
— Bem, então eu não posso te ajudar. O único outro pombal de Boston fica em Copp’s Hill, mas é um pombal particular. Você poderia tentar falar com o dono.
— Onde fica esse pombal?
— Na rua Charles. Pertence a um ferreiro ou algo do gênero.
— Obrigado.
— De nada. Mas, se não der certo e você quiser retornar, ficarei feliz em atendê-lo, senhor...?
— Connor.
— Yolanda. — Ela disse, apertando minha mão. — Um prazer conhecê-lo, Connor. Se você voltar e eu não estiver, diga ao vendedor que o atender que você me conhece.
Assenti com um sorriso e voltei para a rua.
•
Visitei o endereço que Yolanda indicara, no norte da cidade. O pombal pertencia de fato a um ferreiro, chamado David Walston, que trabalhava com peças de aço quando eu o encontrei. Pedi por informações sobre o pombal mas ele, nervoso, não quis conversa. Disse que aquele pombal já tinha dono e isso não estava aberto a discussão. Quando retornei à Taverna Molineux para jantar, relatei tudo a Stephane.
— Tenho uma ideia — disse o canadense — Ouvi falar de um homem que ajuda as pessoas em North End. Alguém que podem procurar aqueles que não têm dinheiro para um advogado. Se o encontrarmos, talvez ele convença esse ferreiro a dividir o pombal conosco.
— Pode funcionar. — Eu comentei, comendo um pedaço de minha torta. — Você sabe onde encontrá-lo?
— O nome dele é Little. Dizem que ele está sempre em uma taverna de North End. Até chamam a cadeira dele de “Tribunal do Little”. Podemos procurar ele por lá mais tarde, tenho quem me substituir por aqui.
Assim que terminei o jantar, esperamos uma meia hora para o fluxo de clientes da taverna diminuir. Após fazê-lo, caminhamos até a taverna King's Horse, no norte da cidade, que ficava em frente ao ancoradouro de Hancock. Perguntamos ao atendente por Little, que nos apontou para o homem de barba e cabelo curtos que sentava sozinho bebendo um caneco de cerveja, com uma cadeira vaga logo à sua frente. Me aproximei.
— Você é o homem que chamam de Little?
O homem abaixou sua bebida e, analisando a mim e Stephane, respondeu com um acentuado sotaque irlandês.
— Depende. Quem quer saber?
— Meu nome é Connor, e este é Stephane Chapheau.
— Connor. — Ele riu. — Este seria um ótimo nome para um rapaz de Gales. Qual é o seu verdadeiro nome?
— Ratonhnhaké:ton.
Ele levantou as sobrancelhas, impressionado.
— É um nome forte. Deveria usá-lo! O meu é Duncan, mais simples impossível. Agora, sentem-se. O que requisitam de mim?
— Nós estávamos atrás de um pombal particular. — Stephane explicou, se acomodando. — Mas o único homem que tem um desses na cidade não quer vendê-lo a nós.
— E vocês querem que eu o convença com a minha fala mansa?
— Se possível — adicionei.
— Se eu puder perguntar, por que diabos vocês querem um ninho de pombos?
— Para trocar mensagens, oras — gracejou Stephane.
— Assim como você, nós buscamos ajudar a população — dissertei — Porém, queremos alcançar mais do que apenas Boston. Pombos-correio irão facilitar muito a nossa comunicação entre as colônias.
Duncan, bebendo um trago, assentiu com um gemido impressionado.
— Soa interessante. Acho que posso arranjar um tempo para ajudar vocês com isso.
— Maravilha. Se eu puder perguntar, isso custará muito aos nossos bolsos?
— Ah, não se preocupe com isso por enquanto, francês. Acertamos o preço depois que vocês fecharem o trato com o homem. Se não conseguirmos o trato, não cobrarei nada. Mas confesso... que eu gostaria de saber um pouco mais sobre o que vocês fazem.
Sorri para ele.
— Quando terminar, talvez possamos compartilhar um pouco.
— Entendido. Agora, onde vive esse homem?
•
Nós dois estávamos em frente ao ferreiro de Copp's HIll, esperando que Duncan Little terminasse de falar com ele. Aguardamos por cerca de dez minutos, mas enfim Little saiu de dentro da casa com um sorriso no rosto.
— Então? Conseguiu algo? — perguntou Stephane, apressado.
— Vocês não me disseram que o sujeito era um ferreiro. Isso é muito estranho. A primeira coisa que eu perguntei a ele foi: o que diabos um ferreiro faz com pombos-correio? Ele tentou me passar uma conversa de que tinha clientes em Portsmouth, mas identifiquei o papo-furado logo de cara. Pressionei ele para me contar o que realmente estava acontecendo.
O homem fez uma pausa, como se quisesse nos preparar para alguma revelação.
— E ele de fato contou. Os pombos não são para ele. São para a gangue de North End. O gângster Samuel Swift chantageou o pobre Dave, e agora ele é forçado a criar armas para os criminosos dele. A gangue se comunica com seus contatos fora da cidade por meio de pombos, então, como um bônus, forçaram o ferreiro a guardar o pombal deles. Assim, se autoridades descobrirem as atividades da gangue, ele serve como bode expiatório. Não há nada que ele possa fazer para vender o pombal a vocês. Mas...
— Mas o quê? — indagou Stephane.
— Temos que anular a chanhagem — determinei — Libertar David desses criminosos.
— Bingo! — exclamou Little — Esses bandidos governam o distrito com mão-de-ferro, manipulando, chantageando e subornando ao seu bel-prazer. Dave está em uma situação delicada. Swift tem Emily, a filha dele como refém.
— Mérde.
— Perguntei a ele: se por um acaso alguém resgatasse a garota, ele poderia então se desfazer do pombal? E ele respondeu que sim.
— Ótimo — comentei — Agora precisamos saber onde a garota está sendo mantida.
— Falar é fácil — retrucou o canadense — Ela pode estar em qualquer lugar do distrito. Quem sabe, da cidade.
— Poderia mesmo. — Duncan explicou. — Mas eu vivo nesse bairro há dez anos. Tenho que lidar com esses malditos há um bom tempo, e para a sorte de vocês eu creio saber onde fica o esconderijo deles.
Cruzei os braços, perguntando-me porque ele se demorava tanto para chegar ao assunto.
— Esses malandros têm um navio próprio, atracado em North Battery. Nenhum soldado ousa tirar eles do local. Se a garota estiver em algum lugar, será lá. Só precisamos nos infiltrar, talvez disfarçados como membros da gangue, e tirá-la.
— Bah, e como faremos isso? — Stephane questionava. — Um francês e um nativo não poderiam se passar por alguns deles.
Raciocinei por um tempo. Aquilo não daria certo. Os garotos de North End eram a mesma gangue que os Templários haviam convocado para me interrogar e matar. Decerto alguém me reconheceria se eu desse as caras por lá.
— Stephane está certo — confirmei — A gangue de North End me conhece. Eles não cairiam nessa.
Duncan se inclinou, surpreso.
— De onde conhece eles, Radunga?
Ignorando a falha tentativa de pronunciar meu nome iroquês, respondi-lhe:
— Algumas semanas atrás, eu estava na trilha de um homem poderoso, que, como descobri, empregava a gangue para fazer seu trabalho sujo. Eles foram contratados para me matar, mas escapei deles. Com certeza iriam reconhecer-me.
Uma ideia se formou no semblante animado de Duncan.
— Isso é ótimo. Essa será a nossa passagem para o lado de dentro!
— Explique-se — exigi, cético.
— Vocês estarão ocupados hoje? Se não, venham comigo. Explicarei o plano no caminho à minha casa.
•
Já passava da meia-noite quando chegamos ao porto fortificado de North Battery. Eu caminhava com nenhuma arma aparente, tendo apenas minhas lâminas escondidas por debaixo das mangas de minha camisa. Contudo, as lâminas eram poucos úteis no momento, já que minhas mãos estavam atadas com uma corda, sendo seguradas por Stephane, que guardava minhas algibeiras para o caso de uma emergência. Duncan e ele estavam disfarçados de homens da gangue, fingindo me carregar como refém. Eles vestiam uniformes da gangue, que Duncan conseguira furtar tempos antes. Para reforçar os disfarces, botaram tricornes para ocultar-lhes o rosto e se equiparam com mosquetes.
Em nosso caminho pelo porto, passamos por um grupo de casacos-vermelhos, que logo nos ignorou. Pareciam ser soldados comprados pela gangue, ou ao menos amedrontados pelo poder dela. Passamos por uma fenda nas muralhas, descendo por uma escada que levava a um cais. Andamos por ele até chegar no grande navio ancorado na extremidade do porto, onde dois criminosos montavam guarda.
— Alto lá! O que os traz aqui? — exigiu um deles.
— Trazemos um refém — anunciou Duncan Little, disfarçando seu sotaque o máximo que pôde — O selvagem que Mestre Church nos mandou matar, que escapou de nós depois da assembleia do Adams.
— O filho da mãe que espancou os nossos homens? — perguntou o outro.
— Encontramos ele vadiando em uma taverna e conseguimos derrotá-lo. Um cara tão grande não é tão ameaçador quando bêbado.
— E iremos matá-lo dessa vez?
— Bem, vamos ver o que Mestre Church diz. Por enquanto será um prisioneiro.
— Muito bem, levem ele pra dentro — disse o primeiro homem, logo antes de soltar um forte assobio na direção do navio.
Ao ouvir o assobio, homens no convés da embarcação logo baixaram uma prancha de madeira ao cais. Ainda mantendo o disfarce, fui escoltado por Chapheau e Little ao convés superior, andando lentamente. Duncan não perdeu tempo para se apresentar, apenas dizendo aos homens que tinha um prisioneiro e devia ir em frente. Um deles logo disse para ir ao primeiro convés inferior. Quanto menos conversássemos com a gangue, mais seguro estaria o disfarce.
Descemos uma escada para o interior do navio, e caminhamos pelo corredor escuro. Caminhamos em direção a um par de velas que avistávamos no fundo do recinto. Ao chegar lá, dois homens que conversavam pararam para ouvir Duncan.
— Ei, rapazes. Abram as celas.
— E quem seria nosso novo prisioneiro? — perguntou um deles.
— Um nativo.
— Oras... Otto, é desse cara que você falou?
O ruivo ao seu lado analisou meu rosto, e eu analisei o dele. Era um dos mesmos bandidos que eu derrotara antes. Sua perna estava enfaixada em volta do ferimento que eu o havia causado.
— Cruzes! — Ele exclamou, arrancando risadas dos outros três homens. — Segurem ele bem, hein?
— O chefe estava pensando em colocar ele na mesma cela da filha do ferreiro. Sabem como são esses nativos, será divertido ver os dois juntos.
— Há, verdade — disse o outro bandido — Não que alguns de nós já não tenhamos dado um trato nela. Venham, por aqui.
Seguimos a dupla, que segurava um castiçal para iluminação, por um corredor de celas escuras. Em poucos segundos vimos o local, onde uma garota de cerca de quinze anos chorava baixinho atrás das grades.
— Bom dia, princesinha — disse o homem, destrancando a porta da cela — Você tem companhia. — Ao abrir a porta, ele olhou para Duncan e completou: — Pronto, deixem ele aí.
Ele nem havia percebido que Duncan empunhava em suas mãos a coronha de seu mosquete.
— Muito obrigado. — Ele disse logo antes de bater a arma contra o seu rosto.
— Puta merda! — Otto praguejou, ao mesmo tempo em que Stephane largava meus braços e se virava para nocauteá-lo com uma joelhada na face.
Acionando minhas lâminas ocultas, cortei a corda que prendia minhas mãos, e caminhei até a garota em posição fetal.
— Quanto menos tempo demorarmos aqui melhor, Connor — comentou Chapheau, enquanto Duncan retirava as roupas de um dos corpos.
— Emily? Emily Walston? — chamei, encostando em seu ombro. Ela pareceu ter medo, mas logo viu os guardas nocauteados — Somos amigos. Viemos te devolver ao seu pai.
Ela balbuciou, não parecendo certa do que falar.
— O... Obrigada.
Enquanto eu sorria para ela, Duncan interrompeu
— Tome. Vista isso.
Ele jogou algumas roupas na direção dela. Ela segurou o casaco e a calça, confusa, até desviar o olhar quando percebeu que o corpo do homem desacordado aos pés de Duncan estava quase totalmente nu.
— O outro é pra você, Connor — falou Stephane, despindo também Otto — Não podemos sair com o mesmo prisioneiro que trouxemos.
— Vocês... vão me tirar daqui? — perguntou Emily, ainda gaguejando e com medo — Tem... outros neste lugar. Devedores e reféns. Não deveríamos deixá-los. E um deles deverá servir nessas roupas melhor do que eu.
Stephane deu de ombros.
— Acha que temos tempo? — perguntou a Duncan, que deu um risinho.
— Improvisamos alguma coisa. Garota, onde estão esses outros?
Ela apontou para o fim do corredor, e Duncan prontamente pegou o molho de chaves e caminhou até as outras celas. Stephane ajudou Emily a se erguer e sair da cela, enquanto eu vestia as roupas do desacordado Otto. Tomei minha algibeira, verificando as bombas de fumaça que eu colocara dentro dela. Arrastei os dois corpos para dentro das grades. Em pouco tempo, Little retornou, com um prisioneiro idoso, e um outro mais jovem, já vestido com o uniforme da gangue.
— Atenção, todos — Duncan anunciava, trancando os criminosos dentro da cela — Sairemos daqui sob disfarce. Nós quatro seremos a escolta de vocês dois. Deixem que eu fale, e ninguém há de sair da formação até sairmos de North Battery.
Ao que todos consentiram, prosseguimos com o plano. Stephane e eu seguramos cada um dos prisioneiros pelo braço: enquanto ele conduzia o homem idoso, eu levava Emily. Duncan e o outro jovem seguiam em nossa frente. Sem correr muito, nós subimos pela escada de volta ao convés.
— Coloque a prancha de volta, por favor? — dizia Duncan para um par de criminosos próximos — Temos que voltar ao cais.
Ao que um deles assentiu e pegou a tábua, o outro permaneceu cético.
— Esses dois aí não são os prisioneiros?
— São sim — Duncan respondeu, evitando contato visual — Vamos transferí-los.
— Transferir para onde?
Ele fingiu não ter ouvido. O outro capanga terminou de colocar a prancha. Começamos a caminhar sobre ela, mas o capanga desconfiado bruscamente puxou Duncan pelo ombro.
— Você não respondeu. Transferir eles para onde e por quê? E quem exatamente é você?
Duncan suava nervoso.
— Connor. — Ele sinalizou para mim. Stephane e os prisioneiros apressaram o passo para desembarcar, e eu peguei uma das minhas bombas de fumaça.
— Nunca te vi por aqui, Connor — perguntava o capanga — O que...
Mas ele não teve tempo de finalizar a frase. Duncan o segurou pelo colarinho, jogando-o na água. Lancei minha bomba ao cais.
— Intrusos! — avisou alguém, ao mesmo tempo em que a cortina de fumaça se levantava.
— Corram! — gritou Stephane, enquanto lançava um dos guardas no cais ao mar e começava a lutar contra o outro.
Sob a fumaça, fugimos em disparada. Novamente os casacos-vermelhos nos ignoraram e em pouco tempo saíamos de North Battery. Stephane nos alcançou logo em seguida.
— Vocês estão livres! — exclamei.
— Mas é bom não ficarmos aqui por muito tempo, eles logo sentirão falta — interferiu Duncan — Vocês têm onde ficar?
— A minha família mora em Charlestown — informou o mais jovem — Posso tomar uma balsa até lá.
— Maravilha. Sr. Woods?
O velho respondeu, arfando:
— Moro perto do forte. Por Deus, tenho que sair de Boston.
— Bem, a gangue de Swift não tem poder fora de North End. Amanhã mesmo eu te visitarei, e no que precisar, eu ajudo. Stephane, acompanhe-o até sua casa. O resto de vocês, vamos! Quanto mais rápido chegarmos a Copp's Hill, maior a demora para eles nos alcançarem!
•
— Emily! Minha filhinha, você está viva!
— Papai! — respondeu a garota, correndo para abraçar o pai, ambos em prantos.
Poucos minutos separavam o porto de North Battery de Copp's Hill, no oeste do distrito. Ao chegarmos lá, dei ao ex-prisioneiro Joseph dinheiro para pagar a travessia de balsa pelo rio Charles, que separava Boston e a cidade mais ao norte, Charlestown. Agora estávamos de volta à casa do ferreiro David Walston, testemunhando o reencontro de pai e filha.
— Sr. Little, sou eternamente grato a você — dizia o ferreiro parrudo de barba castanha espessa, com o rosto da filha enterrado em seu peito. — Você libertou minha filha e a mim das garras daqueles malditos. Nem sequer sei como recompensá-lo.
— Ah, não foi nada. — Ele respondeu com um sorriso. — Mas eu não teria conseguido sem o Connor aqui. Aliás, me pergunto se você ainda precisa daqueles pombos.
Aquela menção me fez lembrar do motivo inicial que me levava a Boston. Eu até havia me esquecido do pombal. Nas horas anteriores, tudo o que passava em minha mente é o quanto o povo de North End merecia ser livre do domínio daquela gangue cruel.
— Deus te abençoe, Sr. Connor. — David me disse. — Fique com todos os pombos, é o mínimo que posso fazer. Na verdade, fique com a loja toda! Eu nunca mais porei os pés em Boston!
— Papai... — comentava Emily — Nossa vida inteira está aqui na cidade.
— Nós faremos uma vida nova, meu amor. — Lágrimas tornaram a jorrar de seus olhos. — Daremos algum jeito. Já perdi a sua mãe, e... não posso te perder de novo.
Novamente eles se abraçaram. Eu interferi:
— Tenho uma propriedade ao norte, logo no Cabo Ann. A comunidade está crescendo, e certamente poderíamos fazer bom uso de um ferreiro habilidoso. Se quiser vir comigo, garantirei que você seja bem-vindo, Sr. Walston.
Um sorriso se abriu de uma orelha a outra do ferreiro.
— Eu me mudarei para lá com o maior prazer. Seria um bom começo para te agradecer pelo que fez. Mas sem "Sr. Walston", por favor. Meus amigos me chamam de Big Dave.
Duncan riu alto.
— Ora ora, você é o Big D. e eu sou o D. Little. Deveríamos formar uma dupla!
Ao que o ferreiro ignorou-o, pus a mão no ombro do irlandês, sinalizando para deixá-lo a sós com a filha. Disse a Dave para levar apenas o que fosse mais essencial em nossa viagem, e após dizer isso levei Duncan para fora da loja.
— Ah, conseguimos, Connor. Agora você tem o seu pombal, e ainda fizemos uma ótima ação no caminho.
— De fato. Agora, Duncan, que tipo de pagamento você prefere?
— Esqueça isso, amigo. Ajudar o povo de Boston é o meu prazer. — Após uma breve pausa, ele adicionou: — Porém, creio eu que você me devia explicações sobre os seus negócios com o pombal.
Sorri. Eu havia conhecido um novo aliado para a Irmandade.
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