Espírito Natalino
1 Capítulo Único - Espírito Natalino
1# — Áries Natalina
Logo que acordou, Arashi tateou o lado dela da cama. Kin já não estava mais ali. Pela primeira vez.
Curioso, se sentou. Normalmente era ele quem saía da cama primeiro, gostava de olhar o sol nascer. Hoje, por alguma razão, despertou várias horas mais tarde do que comumente. Que dia esquisito, pensou, pondo os pés fora da cama.
O quarto que dividia com sua futura esposa não era dos maiores, era até muito humilde para um casal que recebia o salário deles. A cama parecia cara, o armário, apesar de grande e bonito, não custou tanto. Pelo menos não para ele.
Depois de colocar a calça de moletom cinza escura que catou do chão, ele saiu pela porta. Andou o corredor todinho, desceu as escadas ao final dele e a avistou do antepenúltimo degrau. Ela estava deitada no sofá, debruçada sobre a janela. A tristeza estava estampada em sua face.
— Acordou cedo. — Vestiu a camisa branca que estava em cima do braço do sofá. — É mais um dos "efeitos colaterais" da gravidez alienígena?
— Hã? — Demorou para notar que não estava mais sozinha. Kin não era desligada assim. — Ah, é, a bebê chutou a noite toda. — Sentou com cuidado. Sua barriga estava enorme.
— Tava chorando? — Percebeu imediatamente. Comovido, fez carinho no rosto dela.
— É coisa da gravidez. — Enxugou os olhos. — Emoções fora de controle.
Ele sabia que ela estava mentindo.
— Qual é. Eu te conheço desde os seis anos de idade. Fala comigo. — Se sentou com ela. — É... a sua mãe, não é?
Parou de segurar as lágrimas. Enquanto tentava ser forte, assentia.
— Eu queria que ela estivesse aqui. A nossa filha nunca vai conhecer a vó mais incrível do mundo.
Ganhou um abraço. Devolveu. Junto dele, deitou o rosto em seu peito.
— Eu sei como você se sente, mas vai por mim, ficar pensando nisso não ajuda em nada. Só piora. — Foi o conselho dele. Arashi perdeu o pai, a mãe e o irmão em uma só noite. Três dias depois, perdeu a irmã. Tinha somente quatro anos de idade. Estava sozinho, não tinha nem onde morar, seu vilarejo e a sua casa foram incendiados. Por dois anos vagou solitário pela Terra.
— Hoje faz mais um ano que ela morreu. Como eu não vou pensar?
O moreno sorriu. Ela se perguntou se ele estava louco.
— Vem comigo.
Ela deu a mão a ele, que a levou correndo aos fundos da casa. Lá, a loira se deparou com muita neve e uma árvore de natal até mais alta do que a casa deles, toda feita de gelo, adornada com flocos de neve e uma estrela brilhante no topo.
Quando criança, Kin adorava montar e enfeitar árvores de natal. Ela dizia pra todo mundo que se não conseguisse se tornar uma retalhadora trabalharia no natal confeccionando as mais belas árvores para vender. Coisa de criança.
— É linda. Perfeita. — Sorriu.
— Não tá no nível das que você fazia, mas eu fiz um esforço. Falta alguns retoques e tal... quer me dar uma mãozinha?
— Você perguntou mesmo isso pra mim? Sabe que é que nem perguntar pra um macaco se ele quer banana. — Riu, depois lhe deu um carinhoso beijo na bochecha, marcando-a com o desenho perfeito dos seus lábios.
Lembrou que Kin não era a única a quem aquela época do ano deprimia e então teve uma ideia.
— Onde é que tá o seu irmão? Ele não voltou pra casa hoje.
— Falei com ele ontem, ele me avisou que ia dormir fora. Deve tá com o Sora. — Revirou os olhos. Ainda não gostava do dito cujo, o conhecia há anos mas a imagem que tinha dele não melhorou nem um tiquinho desde então... pode ser até que tenha se tornado mais negativa. Continuava vendo ele como a pior influência possível para Haru, mas por algum motivo o ruivinho gostava dele, o via como um amigo.
— Vou dar uma ligada pra Yue. Já volto. — Correu para dentro de casa.
— Pra quê? — Perguntou. Não ouvindo resposta, deu de ombros e voltou a admirar a árvore.
Kin só tinha sete anos no último natal que passou com a mãe, tudo de que se lembrava era de vê-la sair apressada para resolver assuntos dos quais não falou. Yume estava grávida de Haru.
Só dez anos depois Kin viria a ficar sabendo toda a verdade sobre aquele dia; Yume optou por dar a luz em Yokkaichi, o único local do universo onde ela e seu bebê estariam seguros, pois nem mesmo a Terra de Áries era capaz de oferecer defesa melhor às investidas de Santsuki.
Yue e Kyoko nunca demoravam para atender uma chamada, mas naquela vez, estavam levando tempo demais. Aquilo preocupou Arashi. Quando estava prestes a desistir, ouviu um:
— Oi. — A voz pertencia à Yue.
— Yue, é o Arashi, o Haru tá aí?
— Hum... — Olhou para o sofá. Ele estava dormindo feito um anjo, de barriga para cima, quieto e perfeitamente relaxado. — Tá, ele tá, sim. Passou a noite aqui, tá dormindo no sofá. Por quê? Ele não avisou que dormiria fora?
— Avisou, mas... preciso que ele venha pra casa, então pode dizer pra ele vir assim que acordar?
— Tá certo, eu digo, sim. Mas o que é? Alguma coisa ruim aconteceu?
— Ah, não, não, é que eu quero fazer uma coisa aqui. — Decidiu chamá-la. Quanto mais gente, melhor. — Vem pra cá junto com ele, traz a Kyoko.
— Hum... tá certo. — Desligou o telefone e ajeitou a tiara cor de rosa que dividia seus cabelos azulados. Em seguida, olhou para o sofá. Ainda dormindo. Depois da noite que teve, ele merecia dormir em paz. Algo havia mudado nele. Yue não sabia dizer o que ele tinha de diferente, mas tinha certeza de que ele não era mais aquele menino que aterrissou em Karkez.
— É falta de educação ficar olhando os outros dormirem. — Kyoko, uma garota negra de beleza exuberante, de olhos castanhos encantadores e sorriso cativante, sussurrou das costas dela, ao pé de seu ouvido.
Quando os arrepios passaram, Yue fechou a cara e retrucou:
— Eu não tava olhando ele dormir, só estava... torcendo pra ele acordar o mais rápido possível.
— É? — Ergueu as sobrancelhas. — Pra quê?
— Temos uma festa pra ir. Eu acho. O Arashi também chamou nós duas.
— Adoro festas. — Kyoko pôs a mão na cintura, seu sorriso mais maldoso no rosto e, com o seguinte grito, fez ele cair do sofá: — ACORDA AÍ!!
— Você é má. — Disse Yue, balançando a cabeça em reprovação.
— É, acho que sou, sim. — Concordou, sorridente.
— Ai... — Levantou massageando a cabeça. — O que foi que aconteceu?
— Um caminhão te atropelou, você está no paraíso.
Pela cara que fez, ele levou a resposta dela a sério.
— Isso é verdade?
— Claro que não! O Arashi ligou, disse que precisa de você lá. De nós. — Completou, olhou para Kyoko e perguntou: — Vamos agora ou vai se arrumar?
Kyoko sorriu, pôs a mão sobre o ombro dela e disse:
— Eu já nasci arrumada. — Em seguida, saiu pela porta.
Mas Haru permaneceu sentado. A cara dele não estava nada boa.
— Não vem?
— Não tô me sentindo muito bem agora, eu vou logo atrás de vocês.
— Tá certo. — Já tinha pego a mania de responder as pessoas assim, não sabia de quem, só sabia que era relativamente nova. Lembrou de quem pegou. Do Keita. Sentia demais a falta dele... — Aproveita e chama a Naomi pra vir também.
— Pode deixar. Onde é que ela tá?
Yue pensou um pouco. Esticou o vestido branco florido que estava usando e lembrou que Naomi não disse aonde iria, era outra que parecia chateada.
— Não sei, mas acho que daqui a pouquinho ela chega aqui.
— Então vou esperar. — Deitou, dobrou as mãos atrás da cabeça e fechou os olhos.
Normalmente Haru era bastante animado. Ele não estava bem.
— Só não deixa de ir. — Pediu, saiu e bateu a porta.
Ela tinha razão, o filho mais novo de Yume não estava no seu melhor dia. Se ele contasse a alguém metade dos pesadelos que teve durante a noite, iria ganhar um abraço.
Tem escutado vozes. Vozes familiares. Elas gritam seu nome, o nome dos seus amigos. O nome de sua irmã. Elas ameaçam sua vida, a vida de todos os que o cercam, diz que se ele não a deixar sair, ninguém sobreviverá. Começou a sentir medo. O que o angustiava era saber que não podia compartilhar isso com quem amava. Esse peso ele carregaria sozinho.
Quem entenderia? Ninguém. Só traria preocupações desnecessárias.
Fechou seus olhos. Caiu no sono. Quando acordou, viu Naomi sentada em um pequeno banco de madeira, pincelando numa tela sua mais nova obra artística. Chegou há vários minutos. Ela até o chamaria, mas estava tudo tão quieto que a inspiração pintou e ela começou a trabalhar. Nada no mundo a entretinha mais que aquilo. Ela viajava dentro de uma sala.
— E aí, ruivo. — O seu charmoso sotaque francês ainda estava bem vivo.
— Naomi... — Esfregou os olhos. Se sentou. — Que horas são?
— Acho que... onze horas.
— Onze horas?! Eu tenho que ir! — Levantou às pressas. — Nós temos!
— Pera aí, ir pra onde?
— Pra casa da minha irmã. — Abriu a porta.
— Pra quê?
— É pra... bom... não sei pra o que é, mas precisamos ir.
Ela voltou a pintar.
— Espera um pouquinho, já tô quase acabando.
— Depois você termina, a gente já tá muito atrasado!
— Tá, tá, tudo bem. — Desceu do banco, cobriu a tela com um pano azul e foi até o banheiro. Voltou vestindo uma camiseta branca, curta, listrada, uma jaqueta jeans azul clarinho e uma saia preta. Prendeu os lisos cabelos escuros com uma prendedora rosa e abriu a porta, olhou para o sofá e o viu dormir. — Ei, hora de ir! — Ignorada, bateu palmas até ele acordar e quando conseguiu, mostrou a saída. — Vamos.
— Tá. — A meio segundo de cruzar aquela porta e sair, lembrou que todo mundo estava se esquecendo de alguém. — Que droga! Esqueci de chamar o Sora...
Naomi ergueu as sobrancelhas.
— Sério? Está mesmo pensando em chamá-lo?
— Tô. Qual é o problema?
— Primeiro, eu duvido que ele venha. Segundo, nem a sua irmã e nem o Arashi vão muito com a cara dele.
Mas Haru não se importava.
— Eu acho que posso convencer ele a ir. A segunda coisa é só questão de tempo, quando eles dois virem como o Sora é maneiro, vão mudar de ideia rapidinho.
A morena se sentou no braço do sofá, deu de ombros e cruzou os braços.
— Tudo bem, vá em frente.
Como não queria dar o braço a torcer, disse:
— Vou falar com ele lá fora. — E saiu.
Para falar com Sora não era necessário telefone, nem qualquer outro tipo de aparelho comunicador. O bilionário era dono de uma habilidade no mínimo incomum, era capaz de ouvir conversas em qualquer canto da Terra e dialogar com quem quisesse, de onde estivesse.
Naomi começou a lixar as unhas. Sabia exatamente o que ia acontecer, e quando ele voltou, só fez uma pergunta:
— Ele disse "não", não disse?
A contragosto, o garoto admitiu:
— Disse. Vamos logo.
A casa enfim ficou vazia.
O quadro que Naomi estava pintando tinha uma história. Ela ainda não se sentia a vontade com ninguém para falar sobre ela, mas tinha relação com um juramento que fez a um querido amigo que morreu há anos... correção, a dois queridos amigos. Prometeu-lhes que nunca deixaria de ser uma artista, e que ao menos uma vez por ano terminaria um quadro.
Durante a tarde eles comeram, brincaram, contaram piadas, riram juntos e se divertiram. Ajudaram Kin a terminar de enfeitar a grande árvore natalina, dançaram e até cantaram. A tristeza ficou totalmente de lado, e aquele acabou sendo um dos dias mais divertidos de suas vidas.
Ao cair da noite, todos estavam com o rosto tingido e um gorro cobrindo os cabelos. Eles puseram cadeiras frente a árvore, se sentaram e esperaram o responsável por tudo aquilo dar uma palavrinha, como disse que faria.
Com a atenção deles, Arashi parou de costas para a árvore e começou:
— Sei que essa não é a melhor época do ano pra ninguém aqui e entendo isso. Espero que todos vocês compreendam que o meu objetivo com essa coisa toda não é fazer vocês se esquecerem daqueles que se foram, pelo contrário. Eu só queria que vocês lembrassem que eles ainda estão aqui, que eles vivem através dessa felicidade que sentimos juntos. A mesma alegria que sentíamos com essas pessoas que se foram ainda está ao nosso alcance, e enquanto nós a buscarmos juntos, como uma família... eles não morrerão.
Ao terminar o seu discurso, pressionou o botão branco no pequeno controlezinho preto que guardou no bolso da sua calça jeans, acendendo as luzes. No instante seguinte elas piscaram ininterruptamente, alternando entre várias cores diferentes. O brilho era ofuscante, sua beleza colocou um sorriso na boca de cada um dos seus contempladores.
A sensação de dever cumprido poliu o espírito do guerreiro de olhos azuis. Ele se sentou na primeira cadeira da esquerda para a direita, segurou com leveza e beijou a delicada mão da mãe de sua filha. Kin o olhou no fundo dos olhos e sorriu, carinhosamente aninhando o rosto em seu robusto ombro.
As vozes imaginárias que falavam aos ouvidos de Haru foram embora. Ele se sentiu livre.
O mundo não é um bom lugar para pessoas boas, e disso Sora sabe bem, muito bem. Apesar de ser bem jovem, ele é mais ciente disso do que a maioria das pessoas. Mas Haru, Yue, Kin, Arashi, Naomi e Kyoko são diferentes de tudo o que ele já viu, especialmente Haru e Yue.
Não era um bom amigo para eles. Kin tinha razão. Não que não gostasse deles, gostava e muito, mas em algum momento eles dois ficariam entre ele e os seus interesses, o que o obrigaria a agir com os dois da mesma forma que agiu com os que um dia já chamou de amigos.
Os olhos verdes do jovem magnata refletiam a imagem de um iate cheio de mulheres bonitas. Todas dançando, esperando por ele, que as admirava de longe, da janela da mansão mais barata que já comprou e que só comprou por causa da vista para o mar.
Somos de mundos diferentes, justificava sua decisão de ficar longe deles. Todo aquele blá, blá, blá de amizade, amor e família não eram para ele. Pelo menos não agora. Quem sabe um dia...
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